Repórter Maxicar

Bora conhecer o Museu do Automóvel da Estrada Real!

Museu do Automóvel Estrada Real

Em meio a sítios e pastos e com acesso por estradas de chão e pedra, se esconde um belo acervo com mais de 80 carros nacionais e importados, em plena zona rural de Tiradentes – MG

*O marco à beira da estrada de terra batida nos indica que estamos no caminho certo, embora pareça estranho. Esta é sem dúvida a histórica Estrada Real, um trecho do “Caminho Velho”, utilizado desde os tempos imperiais, ligando Vila Rica – hoje Ouro Preto-MG – à Paraty-RJ, passando por inúmeros municípios, sobretudo de Minas Gerais. Estamos bem próximos à cidade turística de Tiradentes, distante apenas uns 4 quilômetros de seu Centro Histórico. Ao final daquele caminho fica Bichinho, distrito de Prados.

Museu do Automóvel Estrada Real

Por essa imagem do Google Mapas é possivel ter uma ideia da localização do Museu do Automóvel Estrada Real


A paisagem é tipicamente rural. Ao longo da estrada, montanhas, pastos, cercas de arame farpado… Olhamos em volta. Nenhuma construção. A decida torna-se mais íngreme. A tarde estava linda, era chegada a Primavera. Ficamos imaginando como seria transitar por ali em dias de chuva.

Mais à frente já há calçamento, feito de pedras irregulares, típicas da região. Embora cruzássemos com pouquíssimos carros, passamos por um restaurante bastante movimentado construído no fundo de um vale, cujo cartaz informa ser recomendado pelo Guia 4 Rodas. Parece mesmo bem chique!


Seguimos em frente. Mais um quilômetro e finalmente estamos chegando ao Sítio Pau D’Angu. A cena e meio surreal. Na placa os dizeres: “MUSEU DO AUTOMÓVEL DA ESTRADA REAL. Estacionamento a 100 metros”. Ao fundo, algumas vacas pastam tranquilamente e param o que estão fazendo para nos observar tirando fotos.

Na beira da estrada um grande galpão onde fica a porta de entrada do Museu do Automóvel da Estrada Real, que os antigomobilistas costumam chamar muitas vezes apenas de “Museu do Bichinho”. Ao fundo, algumas construções, inclusive a residência de seus proprietários. Somos recebidos por Thales Teixeira Moura, administrador da entidade e filho de seu idealizador, o engenheiro Rodrigo Cerqueira Moura.

A entrada do museu


Thales nos conta que seu pai já coleciona carros antigos desde 1976, época em que adquiriu um Jeep Willys 1951. Desde então, foi contaminado pelo vírus da ferrugem e sua coleção de clássicos só fez crescer, culminando com a inauguração do Museu do Automóvel da Estrada Real, em março de 2006.

Atualmente o espaço conta com 86 automóveis fabricados entre os anos de 1920 e 1990, em três recintos distintos, mas interligados, divididos proporcionalmente entre americanos, europeus e nacionais. “É mais difícil restaurar carros de fabricação nacional, devido à falta de peças de reposição. Para carros importados encontramos praticamente tudo de que necessitamos”, nos revelou Thales.
Há ainda nove motocicletas/motonetas e um trator.

Por falar em restauração, tudo é feito ali mesmo: funilaria, pintura, elétrica, tapeçaria e mecânica. Nas oficinas da propriedade sempre há veículos nas mais diversas fases de restauração ou “hibernando” enquanto aguardam sua vez, para voltarem a ter todo o esplendor dos tempos em que saíram das linhas de montagem.

Made in USA

O Ford Modelo T 1926 é o veículo mais antigos do museu


Começamos a visita pelo “setor norte-americano”, onde o mais antigo morador é o Ford Modelo T Tudor Sedan 1926, penúltimo ano de fabricação desse que foi eleito com toda justiça o “Carro do Século XX”, numa eleição da qual participaram 133 jornalistas especializados de todo o mundo, em 1999.

Outros anciãos das primeiras décadas do século passado são o Buick Phaeton 1928, um automóvel com certa sofisticação, ao gosto da classe média alta da época; o Oldsmobile F-28 Sport Phaeton 1928 e o Chevrolet Sedan 1932; três marcas pertencentes à gigante General Motors.

É possível apreciar também um Studebaker Champion 1948, cuja traseira futurista lembra uma nave espacial e outro, ainda em fase de restauração que aparenta ser um modelo de 1951. Da mesma época, um Buick Super 1947 e um Mercury Eight 1948, ambos sem restauração. E ainda um Chevrolet 1946 na rara versão Fleetline Sportmaster 4 Door Sedan.


Ainda falando de Chevrolet, mas passando à década seguinte, como não se admirar com essa clássica woddie Townsman 1954, a versão station wagon do Bel Air, com acabamentos de madeira? Raríssima no Brasil e no mundo!

Outro raro americano do acervo é o Willys Aero-Ace 1952. Trata-se de um sedan de 2 portas, cuja versão 4 portas, chamada Aero-Bermuda nos Estados Unidos, foi fabricada no Brasil com o nome de Aero-Willys até 1962. Ou seja: é o nosso velho conhecido Aero Willys “bolinha”, só que na versão duas portas.


Mas há diversos outros carros na ala norte-americana e poderíamos passar parágrafos e mais parágrafos falando deles: Chrysler e suas divisões Dodge DeSoto e Plymouth; Nash, Ford, Packard, Pontiac… Dá só uma olhada na nossa Galeria de Imagens.

Europa


Na seção Europeia, veículos que por suas particularidades marcaram a indústria automobilística mundial. Logo na entrada do pavilhão dois suecos Volvo dão as boas-vindas ao visitante: um PV 544 1959, modelo que notabilizou pelo sucesso nos ralis, apesar do jeito de carro de “tiozão”; e um 144 sedan duas portas, modelo fabricado entre 1966 e 1974, que tem no quesito segurança seu ponto forte. Aliás, esse assunto é uma obsessão da Volvo.

Formosura! É a palavra que nos vem à cabeça quando encaramos o outro sueco do acervo do Museu do Automóvel da Estrada Real: o Saab 96 1963. Seu motorzinho de 795 cc segue a mesma fórmula de nossos DKW-Vemag, com três cilindros e dois tempos.


Em seguida, cinco carros revolucionários, fabricados pela até hoje surpreendente Citröen. O primeiro um Traction Avant 11 Legére 1954. Depois seu sucessor, o DS-21 Super, com suas linhas aerodinâmicas e suspensão pneumática, que garantiam a ele uma incrível estabilidade. Logo a diante o 2CV em duas versões: um convencional, de passeio, fabricado em 1972, e o outro na versão furgão, fabricado na Argentina. Por fim, um Ami 6 que tem na exótica janela traseira de ângulo invertido sua principal característica.

A picape alemã Tempo Matador foi restaurada nas oficinas do museu


Da Alemanha um Cabriolet muito raro fabricado pela Opel: o Super Six 1937. Da mesma fabricante, um Olympia 1957 e um pequeno Kadett dos anos 1960. Também alemã, a pick-up Tempo Matador, foi restaurada ali mesmo, nas oficinas do Museu. Uma curiosidade: sua mecânica é a boa e velha VW 1200 refrigerada a ar.


Lá no fundo, o esportivo MG Midget 1961 não denuncia aos desavisados qual a sua mecânica por de baixo de suas belas linhas: do exemplar em questão havia apenas a carroceria. Por isso optou-se por salvá-lo utilizando chassi e mecânica Volkswagen 1600. A adaptação ficou de primeira!

Também fazem parte do setor europeu duas raridades: o inglês Humber Hawk MK 5 1953 e o francês Renault Fregate, um carro fabricado apenas entre 1950 e 1960, período em que foram comercializadas cerca de 180 mil unidades. O do museu é um dos únicos exemplares do qual se tem notícias no Brasil.

Brasileirinhos

O FNM 2000 pilotado por Chico Land nas Mil Milhas


Os modelos nacionais não são a maioria, justamente por causa das dificuldades de restauração, pela menor oferta de peças. Mas mesmo assim, neste segmento o Museu do Automóvel da Estrada Real não decepciona. O grande destaque é o histórico FNM JK 2000 1960 de competição, que foi pilotado por Chico Land nas Mil Milhas Brasileiras de 1961, tendo ficado em 2° lugar na prova.


Há também um Ford Galaxie 1967; um Renault Dauphine 1962; um Chevrolet Opala sedan da primeiríssima fase; DKWs Belcar, Vemaguet e Fissore; Ford Belina 1970; diversos Volkswagens, como Fusca, Kombi e Karmann Ghia; entre outros.

Todos funcionam

Os espaços destinados aos automóveis são amplos e ventilados. Repare que ao contrário do que acontece na maioria dos museus, nenhum automóvel do acervo do Museu do Automóvel da Estrada Real encontra-se sobre cavaletes. Thales nos explicou que todos os carros, sem exceção, estão em pleno funcionamento e condições de uso, sendo inclusive alugados regularmente para casamentos e emissoras de TV para a produção de novelas e outras atrações do gênero. Inocentemente perguntamos a ele se o museu dispunha de um caminhão-prancha para fazer o transporte dos automóveis. “Não. Automóvel tem que circular. Todos saem daqui rodando por esses caminhos de terra e de pedra. Afinal, foram projetados numa época em que as estradas eram bem piores que hoje”.

O Museu do Automóvel da Estrada Real é o resultado do bem-sucedido sonho de Rodrigo Cerqueira Moura, um verdadeiro apaixonado por essas belas e representativas máquinas. Quando se pensa em museu do automóvel, vem imediatamente à nossa mente um cenário bastante movimentado. Uma grande cidade, com ruas asfaltadas, trânsito, pessoas… porque o automóvel é um meio de transporte tipicamente urbano. Então, ficamos imaginando, como no início deve ter havido gente torcendo o nariz para seu projeto, que foi posto em prática ali, em plena zona rural. Um empreendimento e tanto, não apenas por sua estrutura, mas também por sua filosofia.

Indo a Tiradentes, não deixe de visitar! O endereço é Sítio Pau D’angu – Estrada Real Tiradentes Bichinho, Km 4,5, s/n Zona Rural, Prados (Tiradentes) – MG

Texto e edição: Fernando Barenco
Fotos: Odair Ferraz

*Reportagem publicada originalmente em 2008 e reeditada em novembro de 2021, com atualização das informações e fotos de Odair Ferraz.



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