Ambrela
Mosca Branca

Série ‘Os Campeões’: o Corcel II veste Lótus

Foto: Brunelli V.A

Com criatividade, a Ford transformou o básico Corcel II L ‘83, numa bela homenagem ao Team Lotus da F1

Uma das equipes de corrida, na Fórmula 1, mais famosas entre os anos 1970 e 80, o Team Lotus tinha como marca registrada de seus carros a inconfundível combinação de cores preto e dourado, copiada do principal patrocinador, a marca de cigarros inglesa John Player Special (JPS), que usava essas cores nas embalagens.

Na época em que a publicidade de cigarros era liberada, a JPS foi um grande patrocinador do esporte a motor, em especial do Team Lotus de F1. Folder de 1981


O Team Lotus possuía fortes laços com a Ford, por usar em seus projetos os famosos motores Ford-Cosworth DFV V-8 DWE de 3000cc e colossais 480cv. Apesar da parceria Ford-Cosworth ser comercial (a Ford financiava o desenvolvimento dos motores ingleses em troca do nome associado), o marketing da montadora americana explorava ao máximo essa relação. Assim, ao longo dos anos, foram produzidas no Brasil e no mundo, várias séries especiais de carros Ford, que faziam referência a F1 e a Lotus/JPS.

O melhor exemplo, em nosso país, foi o Corcel II, com duas dessas séries, uma, o raro “Corcel II JPS” 1979 (50 unidades, sob encomenda) e outra o belo Corcel II “Os Campeões”, 1983, assunto desta “Mosca Branca”.

Em 1983, a temporada de F1 começou, coincidentemente, pelo Brasil e a Ford viu uma boa oportunidade para lançar um carro diferenciado, que mais uma vez chamasse a atenção para seus modelos e laços com a F1. O resultado foi o Corcel II “Os Campeões”.

O Corcel II L, base da série “Os Campeões”. (Foto: Acervo Ford)


A ideia que a série buscava não era um carro esportivo, mecanicamente superior, mas sim um Corcel II comum, que incorporasse, de forma criativa, a icônica estética “JPS”. Por isso, a base do projeto foi o Corcel II L, modelo de entrada, na linha Ford.

Faixa, inscrição e rodas diferenciadas. (Foto: Brunelli V.A.)


Exteriormente, a rica combinação de preto e dourado era o maior destaque. O veículo vinha todo pintado de Preto Dakar e uma faixa estreita, dupla, cor ouro percorria o carro na linha média, contornando a carroceria; apenas interrompida pela inscrição “CAMPEÕES” na altura dos para-lamas traseiros.  Um filete dourado também emoldurava a frente, passando pelas setas, faróis e grade.

A princípio haveria os característicos logotipos “JPS” adesivados, como no modelo de 1979, mas o contrato com o fabricante de cigarros não foi concluído a tempo, e eles não foram aplicados.

Outra exclusividade era o retrovisor esquerdo, de série. Assim como o direito, tinham desenhos esportivos, eram pretos e contavam com controle interno.

Os para-choques eram pintados de preto-fosco e os dianteiros tinham faróis de longo alcance, aparafusados por baixo.  Que, somados com a total ausência de adornos, cromados e peças em inox, reforçava o ar esportivo do modelo.

As rodas em aço estampado eram aproveitadas de outra série especial, lançada no ano anterior: o Corcel II 5 Estrelas 1982. Elas seguiam a clássica furação de três parafusos do Corcel I, mas, tinham um desenho tripartido, e eram pintadas na mesma combinação de preto e dourado da carroceria.

Interior, todo preto. (Foto: Brunelli V.A.)


O interior, baseado no Corcel II L, também era dominado pelo preto. Os bancos com encosto reclinável e apoio de cabeça, vinham forrados em tecido veludo negro e tinham as laterais e costas em courvin no mesmo tom. Os cintos eram de três pontos, retráteis de série.

Laterais, as mesmas do modelo “Luxuosa Decoração Opcional”. (Foto: Século XX V.C.)


As longas portas, características do Corcel II, tinham as laterais da versão LDO, a mais luxuosa, em courvin preto e com desenhos trapezoidais estilizados, em volta do puxador.  Além do cinzeiro embutido para os bancos traseiros, havia uma lanterna de lente bipartida, em vermelho e branco que, ao mesmo tempo, sinalizava a porta aberta e iluminava o chão.

Painel, com conta-giros. (Foto: Século XX V.C.)

O painel dianteiro era de plástico e nele se destacava um módulo retangular, onde ficavam os instrumentos: à esquerda, o velocímetro (160 km/h), com odômetro total/parcial; ao centro, um conta-giros pequeno, e à direita, um agregado dos marcadores de temperatura, nível de gasolina e luzes-testemunha. O volante plástico de quatro raios, também era do Corcel II LDO, que, por sua vez, tinha o mesmo desenho do usado na linha Galaxie, extinta naquele ano.

Console, rádio e relógio. (Foto: Século XX V.C.)


Entre os bancos dianteiros ficava um grande console, que englobava a alavanca do câmbio, com pequeno porta-objeto ao lado, e subindo, terminava rente ao painel. Ele abrigava o rádio Philco Ford 49m/OC/FM Stereo e logo abaixo, o relógio digital, um capítulo à parte: além de marcar horas, era cronômetro e calendário (dia/mês). Apesar do tamanho, era a última palavra da tecnologia, na época.

Como opcionais no interior da série “Os Campeões”, havia o teto solar, equipamento de ar condicionado, e um rádio toca fitas.

Motor, padrão da linha. (Foto: Brunelli V.A.)

Mecanicamente, não havia modificações sensíveis para os outros Corcéis – fora o freio com auxílio a vácuo de série. Itens como: suspensão, direção, sistema de freios, etc. eram mantidos. O motor, também era o mesmo da linha Corcel II. Um 1600cc, com ignição eletrônica, a álcool, de 69cv e 12,4 kgfm (2800 RPM), pintado de azul, com um carburador de corpo simples, que, acoplado a uma caixa de 5m (opcional nos outros), levava os 944 kg do “Campeões” a 146 km/h máximos, com um 0-100 km/h em 19.5 segundos, mesmo desempenho do Corcel II L/LDO. Números não muito brilhantes, ainda mais considerando os valores dos concorrentes diretos: Passat 1.6: 154 km/h, Monza Hatch: 157 km/h. Mas, isso pode ser justificado, teoricamente, pela ênfase da Ford no conforto e na economia, em detrimento do desempenho final do modelo.

Um Corcel II toma posição, logo antes da largada do GP Brasil de F1 1983. (Youtube)


O Corcel II “Os Campeões” foi lançado no dia 13 de março de 1983, um domingo, logo antes do GP Brasil de F1 (vencido pelo piloto brasileiro Nelson Piquet, que, por sinal, seria campeão mundial naquele ano) ocorrido no extinto autódromo de Jacarepaguá, no Rio de Janeiro.

Segundo relatos de época, a Ford promoveu um evento pré-corrida, no qual participaram pilotos e atores da TV Globo, em uma espécie de prova-gincana, com “Os Campeões”. Incluindo a improvisação de uma pista de terra entre as retas do autódromo, onde os pilotos fizeram um Rali com o carro. O ponto alto foi quando Nigel Mansel, da própria Lotus, levou o Corcel preto, ao limite, “voando” alto, escapando por pouco de capotar e esbanjando habilidade no volante. (Não existem imagens na internet, mas, certamente, os momentos foram registrados em arquivos valiosos, tomara que sejam liberados, pelos autores).

Posteriormente, a Ford fez uma doação dos modelos usados no evento para jornalistas e pilotos entre os quais o famoso professor de pilotagem Expedito Marazzi, (do Curso Marazzi de Pilotagem) que o usou, durante muito tempo, em suas aulas, no autódromo de Interlagos.

Folder de lançamento ressalta o fato de o carro ter sido testado pelos pilotos da F1. (Foto: Acervo Ford)


Ao todo, foram fabricados 320 “Campeões”. Como costuma acontecer com as séries especiais, passada a euforia do lançamento e da temporada ‘83 F1, o carro logo caiu no esquecimento. Durante décadas permaneceu ignorado e muitos se perderam ou foram descaracterizados, de forma que se estima apenas 20 unidades sobreviventes.

Atualmente, com o reconhecido valor histórico da linha Corcel I e II há um movimento de resgate do modelo em geral, que inclui a redescoberta da perdida “Os Campeões”. Fazendo com que as unidades sobreviventes se valorizem rapidamente, identificadas como uma das mais belas e raras séries especiais, da Ford brasileira.

A seção “Mosca Branca” fala sobre automóveis nacionais  realmente raros. Quer fazer uma sugestão de modelo para as próximas edições? Então use o espaço de comentários ai em baixo!

Espalhe por aí!
  • 36
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
    36
    Shares

Geraldo Costa

Tenho 25 anos, moro em Nova Friburgo - RJ e sou licenciado em Letras Literaturas, com pós-graduação em Docência e Gestão do Ensino Superior. Interesso-me desde criança por carros antigos, motivado pelas histórias dos carros americanos do meu avô e por várias revistas antigas de meu pai, que havia em casa. Meus modelos favoritos são os "novos antigos", automóveis nacionais pré-1990.

6 Comentários

Clique aqui para postar um comentário

  • Parabéns pela matéria. Continue divulgando o passado automobilístico para os que não tiveram o seu privilégio de os conhecer na infância, mas que agora também podem admirá-los.

  • Excelente matéria! Parabéns! Duas informações adicionais: a suspensão era igual a do Corcel GT, mais esportiva. Em relação ao motor, havia também diferenças em relação aos outros corcéis. O Campeões tinha um comando mais bravo e também tinha uma giglagem diferente, o que fazia com que ele tivesse um desempenho levemente superior, ainda mais sendo a álcool.

    • Olá, Pedro! É que as séries especiais são mais valorizadas no momento do lançamento e quando o carro é antigo. Nesse meio tempo, seguem o padrão comum: novo> semi-novo> usado <antigo.
      Naturalmente, isso pode variar com o modelo, a celebração, marca, etc. Com certeza, o Renegade Willys é um belo candidato a "mosca branca"; cuide bem do seu!

Novidades dos Classificados

Informativos pelo WhatsApp