Colunista Convidado

GP Estrada da Produção, 1963

GP Estrada da Produção 1963
Carretera de Vitório Andreatta, a grande vencedora (Diário de Notícias, 29/01/1963)

Um relato histórico produzido a partir de reportagens publicadas nos principais jornais do RS e do Brasil, sobre a corrida que inaugurou o trecho Carazinho – Porto Alegre da Estrada da Produção, a BR-386

Na década de 1960 o governo do Rio Grande do Sul, através do Departamento Autônomo de Estradas e Rodagem (DAER), promoveu grande esforço para a construção da denominada “Estrada da Produção”, com o seu ‘tronco norte’ idealizado pelo então governador Leonel Moura Brizola, que serviria para escoar a produção de uma das mais ricas regiões do estado, partindo de Horizontina e Santa Rosa, passando por Três de Maio, Carazinho, Soledade, Lajeado, Estrela até chegar à capital Porto Alegre.

Através da Lei Federal nº 11.620, em 19/12/2007 esta rodovia denominada como BR-386, até então chamada de “Rodovia da Produção”, “Tabaí-Canoas” ou ainda “Rodovia Presidente Kennedy”, passou a ser “Rodovia Governador Leonel Moura Brizola”.  Atualmente a BR-386 liga o Município de Iraí (km 0), extremo noroeste do RS, na divisa de Santa Catarina, com a cidade de Canoas, na região metropolitana de Porto Alegre, marco final o KM 445, na chegada à BR-116.

No início do ano de 1963, em fase final de construção do trecho Carazinho – Porto Alegre, o “Jornal do Dia”, edição de 06/01, assim noticiou:

“… patrocinada pelo Govêrno do Estado, SETUR e o Automóvel Club do Rio Grande do Sul, realizar-se-á a 20 de Janeiro, uma grande prova automobilística, da qual participarão ases do volante nacional, em competição que se desdobrará na Estrada da Produção, no trecho Carazinho – Porto Alegre, que será inaugurado naquela data.”

Inicialmente previsto para o dia 19/01/1963, em virtude das fortes chuvas ocorridas durante a semana, que impediram a conclusão das obras de alguns trechos da nova rodovia, o GP Estrada da Produção foi adiado para o dia 27. O jornal Diário de Notícias, na sua edição de 16/01/1963, publicou:

“GP ESTRADA DA PRODUÇÃO PODERÁ SER ADIADO PARA 27 DE JANEIRO. As chuvas que têm caído, quase que diariamente, poderão causar o adiamento do Grande Prêmio Estrada da Produção, competição milionária do automobilismo gaúcho, cuja realização estava marcada, inicialmente, para o próximo domingo, inaugurando a nova rodovia entre Carazinho e Pôrto Alegre, num total de 323 quilômetros. Caso o tempo não venha a firmar-se, até sexta-feira, a competição será mesmo adiada, uma vez que não será possível a conclusão dos trechos ainda em obras, o que obrigaria ao corredor a usar vários desvios, fato este que, além de dificultar a competição, tirará grande parte do brilho da mesma, uma vez que a média horária deverá cair bastante. A prova, caso seja realizada domingo, terá seu início as 8 horas, prevendo-se que o ganhador complete o percurso em tempo ao redor de três horas.”

Até aquele momento (19/01/1963), atraídos pelo prêmio em dinheiro que variava entre 5 a 7 milhões de cruzeiros, além de um automóvel JK zero km para o vencedor geral, o número de inscritos já atingia 21 participantes, como destacou o Diário de Notícias (RS), edição de 16/01/1963:

“GRANDE NUMERO DE INSCRIÇÕES. Tendo em vista os prêmios verdadeiramente fabulosos que alcançam a casa dos 7 milhões e meio, inclusive um flamante automóvel FNM-JK, zero quilômetro ao ganhador absoluto, espera-se número verdadeiramente grande de competidores. Até ontem estavam inscritos vinte e um volantes, destacando-se na força livre a escuderia dos Galgos Brancos com os carros 2, 4 e 6 que serão dirigidos por Catarino, Vitório e Júlio Andreatta, respectivamente, além de João Galvani, José Asmuz, Nativo Camozzato, Claúdio Luz e Renato Petrillo. Também deverão concorrer volantes paranaenses Mário Cocchieri, Altair Barranco e Osmar Miranda Coutinho. Entre os carros nacionais, já se encontram devidamente inscritos os corredores Ismael Chaves Barcelos, João Carlos Bastian, Antônio Planella, Júlio Schimke, Valter Almeida, Diogo Eilwanger, Alfredo Oliveira, Aldo Costa, Lauro Maurmann Júnior e João Carlos Macedo.”

A previsão do Diário de Notícias acabou se confirmado e o GP Estrada da Produção foi transferido para o dia 27/01/1963.

Propaganda GP Estrada da Produção RS 1963

Publicado no Jornal do Dia, ed. 27/01/1963)


O adiamento da prova propiciou o aumento do número de inscrito e o interesse de pilotos de ponta do centro do país, dentre os quais o volante Camilo Christófaro e Antônio Versa, conforme matéria publicada pelo Diário de Notícias, ed. 20/01/1963:

“Grande notícia recebeu ontem o Automóvel Clube do Rio G. do Sul com a confirmação da presença dos volantes paulistas Camilo Cristopharo e Antônio Versa, no Grande Prêmio Estrada da Produção, a competição milionária do automobilismo gaúcho. Camilo competirá com a Corvette de Roberto Galucci, recentemente adquirida, um carro de preparação idêntica aquele ora em poder de Catarino Andreatta, considerada como a mais veloz carreteira ora competindo em Interlagos.  Antônio Versa, outro grande volante da categoria Força Livre, com grandes atuações nas clássicas Mil Milhas, é aquele volante que esteve aqui, nos 500 Quilômetros, deixando seu carro para Adalberto Morais, carro com o qual o veterano piloto gaúcho acidentou-se na semana última, na Vila Nova. Antônio Versa virá com um DKW-Vemag, correndo desta forma na categoria até 1.300 cc. Grupo 2 do anexo J.”

Na semana da corrida foram intensificados os trabalhos de preparação dos 323 km que uniam Carazinho a Porto Alegre pela nova Estrada da Produção, em especial numa ponte próxima à cidade de Lajeado e em alguns desvios a serem utilizados, pois havia o risco da mesma ter o seu trajeto diminuído, face às dificuldade em finalizar o trecho Carazinho – Lajeado, fato divulgado pelo Diário de Notícias, ed. 22/01/1963:

“Tendo em vista a dificuldade de aprontar em condições o trecho Carazinho-Lajeado, é pensamento dos dirigentes da entidade diminuir a distância da prova fazendo com que a bandeira inicial seja dada em Lajeado, correndo-se desta forma apenas no asfalto, o que transformaria a prova num autêntico festival de recordes.”

Mesmo com as dificuldades para conclusão das obras da estrada, foi confirmada a realização do GP Estrada da Produção, conforme divulgado na época pelo Jornal do Dia (RS), ed. 22/01/1963:

“…O Automóvel Clube do RS inaugura a temporada de 1963 em ‘grande gala’. Anotando 50 nomes de competidores que representarão o automobilismo gaúcho, paranaense, paulista, uruguaio e argentino, o Grande Prêmio Estrada da Produção oferece um recorde novo para o Rio Grande do Sul automobilístico, em matéria de inscrições. O Grande Prêmio será corrido domingo próximo, inaugurando o calendário gaúcho de automobilismo, referente a temporada de 1963.

Até agora, a competição que maior número de participantes reuniu foram as 12 Horas de Pôrto Alegre, chegando a apresentar, antes das desistências de alguns pilotos, cerca de 42 candidatos. Aumenta ainda a significação do número de concorrentes tendo em vista as características da disputa: uma prova de estrada, em terreno que não é de excelentes condições e praticamente desconhecido da grande maioria que alinhará para a largada. Em suma: teremos 50 volantes em busca de cinco milhões de cruzeiros e um carro – JK, oferecido pela Fábrica Nacional de Motores.”

Com grande entusiasmo, o Diário de Notícias, ed. 22/01/1963, noticiou a provável participação de Chico Landi:

“Francisco Landi, o veterano piloto paulista e integrante da equipe oficial FNM vem solicitar ao Automóvel Clube do Rio Grande do Sul maiores detalhes sobre a prova de domingo, o acontecimento (ilegível) do automobilismo sulino, o Grande Prêmio Estrada da Produção. Chico Landi estaria interessado em competir com um JK super envenenado na Força Livre, candidatando-se desta maneira ao prêmio duplo de 1 milhão de cruzeiros e um carro FNM-2000 o conhecido JK que será entregue zero km ao ganhador absoluto da competição, prêmio este que está avaliado em 3 milhões e 500 mil cruzeiros pela cotação atual.”.

Alguns dias antes da corrida havia muito trabalho a ser concluído na Estrada da Produção. Na manhã do dia 24 partiu da capital Porto Alegre um veículo especial do Departamento Nacional de Estradas e Rodagem (DNER) transportando os representantes daquele Órgão juntamente com Pedro Pereira, presidente e José Nestor Brunelli, da Comissão Esportiva, os quais estavam encarregados de dar os últimos retoques na questão da sinalização e dispositivos de segurança da pista com os prefeitos de Carazinho, Soledade, Lajeado, Montenegro, Caí e São Leopoldo (Diário de Notícias, ed. 24/01/1963).

No dia anterior foram confirmadas as presenças dos pilotos Luciano Bonini e Décio D’agostini, conforme divulgado pelo Diário de Notícias, edição de 24/01/1963:

“Ontem foram confirmadas as presenças dos paulistas Luciano Bonini e Décio D’agostini. Bonini que é veterano em Interlagos, virá com Chevrolet Corvette e D’agostini, integrante da nova geração, estará competindo com um Ford Edelbrock”.

Houve algumas desistências, como o caso do piloto uruguaio Rômulo Buonavoglia, velho conhecido dos automobilistas gaúchos, o qual “respondeu ao convite do Automóvel Clube, lamentando não poder participar da prova em virtude de estar com seu carro em reforma geral”.

As inscrições para o GP Estrada da Produção foram encerradas as 18 horas do dia 24, com nada menos de 63 veículos, nas quatro categorias, um novo recorde de inscritos numa prova no Rio Grande do Sul, até aquele momento. Devido ao grande número de inscritos, foi confirmada uma prova eliminatória na tarde da sexta-feira, 25, apenas para os carros das categorias Força Livre e do Grupo 2 do anexo J. O local ainda era indefinido, sendo especulada a pista em frente ao Aeroporto Federal (Salgado Filho) ou na pista da Base Aérea de Gravataí. Está prova serviria para a formação do grid de largada das duas principais categorias. Para os carros “pequenos”, de baixa cilindrada, regidos pelo Grupo 1 do anexo J, seria feito um sorteio na noite de sexta-feira na sede do Automóvel Clube do RS (Diário de Notícias, ed. 24/01/1963).

Na sexta-feira, 25, foi divulgado que o campeão mundial de Formula 1, Fangio e o piloto argentino Marcos Ciani não viriam mais a Porto Alegre, fato noticiado desta forma pelo Diário de Notícias, ed. 25/01/1963:

“Lamentavelmente não teremos a presença de Marcos Ciani, piloto argentino, no Grande Prêmio Estrada da Produção, bem como o campeoníssimo mundial, Juan Manuel Fangio não estará em Pôrto Alegre, domingo, para embandeirar os vencedores, conforme estava programado. Ontem chegou telegrama da Argentina onde os dois esportistas lamentavam a impossibilidade de confirmar a presença nesta Capital, por motivos particulares.”

No mesmo dia foi confirmada a participação dos pilotos Chico Landi e Camilo Christófaro, como contou o Diário de Notícias, ed. 25/01/1963:

“… pilotando um JK especialmente preparado pela Veloz, o que equivale a dizer que é integrante da equipe oficial da Fábrica Nacional de Motores, está sendo esperado hoje o astro brasileiro Francisco Landi que será, juntamente com seu sobrinho Camilo Christófaro, os dois nomes de maior cartaz na equipe que representará São Paulo na prova milionária do automobilismo gaúcho.”

Com mais de sessenta pilotos inscritos nas três categorias, a premiação já estava estabelecida: o vencedor geral da prova receberia um carro Alfa Romeo 2000, modelo JK no valor de 3 milhões de cruzeiros, além do prêmio em dinheiro correspondente à sua categoria. Na Força Livre, o prêmio do vencedor seria de 1 milhão de cruzeiros e em cada uma das três categorias de carros nacionais, 500 mil cruzeiros para cada vencedor (Diário de Notícias, ed. 25/01/1963).

O local da prova eliminatória era uma incógnita, mas o seu formato estava definido. Seria uma prova de Quilômetro Lançado, que serviria para formar o grid de largada das categorias Força Livre e Grupo 2 anexo J. Sobre a prova eliminatória, assim noticiou o Diário de Notícias (RS), ed. 25/01/1963:

“Tendo em vista que os carros largarão de dois em dois minutos e que espera-se a presença de pelo menos sessenta carros, aqueles que se postarem ao longo da estrada terão oportunidade de apreciar nada menos de duas horas de espetáculo automobilístico, acontecimento verdadeiramente inédito em provas de estrada.”

No fim, a prova foi realizada na pista da Base Aérea de Canoas (Diário de Noticiais, ed. 27/01/1963). Ficando o grid de largada, publicado no Jornal do Dia (RS), ed. 27/01/19, composto da seguinte forma:

GRID DE LARGADA - ELIMINATÓRIA

FORÇA LIVRE

34 – Luciano Bonini – Chevrolet – São Paulo
4 – Vitório Andreatta – Ford – P. Alegre
100 – Mario Cochhiere – Ford – Paraná
32 – José Asmuz – Ford – P. Alegre
16 – João Galvani – Chevrolet – P. Alegre
2 – C. Andreatta – Chevrolet – P. Alegre
6 – Júlio Andreatta – Ford – P. Alegre
40 – Altair Barranco – Ford – Paraná
1 – Orlando Menegaz – Chevrolet – P. Fundo
12 – Nactivo Camozzato – Ford – P. Alegre
11 – Ângelo Cunha – Ford – Paraná
44 – José J. Gallina – Ford – P. Alegre
26 – Paulo Feijó – Volks-Porsche – P. Alegre
20 – Cláudio C. Duarte – Ford – A. Grande
8 – T. Forenti – Ford – P. Alegre
18 – F. M. Gonçalves – Simca – Caxias
14 – Inácio D’Agostino – Ford – São Paulo
78 – C.A. Bortholacci – Ford – P. Alegre
52 – Célio T. de Toledo – Cadillac – Caxias
118 – Camilo Christofaro – Chevrolet – São Paulo
60 – Derinho – Ford – São Paulo
70 – Cláudio H da Luz – Studebaker – P. Alegre
82 – Francisco Landi – J.K – São Paulo
50 – Papaléo – Ford – São Paulo
10 – Indemburgb Cabral – Ford – Vacaria
62 – Roberto Gallucci – Chevrolet – São Paulo
58 – Antônio C. Avalone – Chevrolet – São Paulo

CARROS NACIONAIS

Categoria C – 1.001 a 3.000 c.c.

25 – Lauro M. Junior – JK – P. Alegre
5 – João C. Macedo – JK – P. Alegre
3 – Aldo Costa – JK – Porto Alegre
93 – Ítalo Bertão – JK – P. Fundo
85 – Raul Fernandes – Simca – P. Alegre
35 – Breno Fornari – Simca – P. Alegre
75 – N. G. Barbosa – Simca – P. Alegre
17 – Antônio Pegoraro – Simca – P. Alegre
89 – Afonso Hoch – Simca – P. Alegre
87 – José Madrid – Simca – Pelotas
81 – Dante F. Carlan – Simca – P. Alegre
28 – M. Ventimiglia – Simca – Livramento
45 – Ênio M. da Silveira – Simca – P. Alegre
69 – José P. de Moraes – Simca – P. Alegre
31 – Alfredo R. Daudt – JK – P. Alegre
19 – Manoel Mello – Simca – P. Alegre

Categoria B – 851 a 1000 c.c

55 – Diogo Ellwanger – DKW – P. Alegre
48 – Antonio Vesra – DKW – São Paulo
83 – Júlio Schimke – DKW – P. Alegre
11 – Walter Almeida – DKW – São Leopoldo
21 – Auri Salatino – DKW – Caxias do Sul
91 – O. C. de Oliveira – DKW – Encantado
51 – Antônio Planella – DKW – Livramento
49 – Karl Iwers – DKW – P. Alegre
99 – Jorge Albuquerque – DKW – P. Alegre
73 – Waly Schmiedel – DKW – Carazinho
9 – Henrique Iwers – DKW – P. Alegre
27 – Alfredo Oliveira – DKW – P. Alegre
68 – Nilo Vinhais – DKW – São Paulo

Categoria A – 700 a 850 c.c

38 – Rui C. Bastian – Gordini – P. Alegre
71 – Clodoveu Araldi – Gordini – Vacaria
17 – Pedro C. Pereira– Gordini – P. Alegre
43 – Raffaele Rosito – Gordini – P. Alegre
65 – Milton Heinez – Gordini – Montenegro
15 – Lute F. Corta – Gordini – Porto Alegre
1 – João C. Bastian – Gordini – P. Alegre
7 – Ismael C. Barcellos – Gordini – P. Alegre

Obs.: pode haver algum erro quanto a numeração e nome de pilotos, pois o material de época apresentava partes ilegíveis.

A imprensa local dava grande destaque à participação de Chico Landi, em especial o jornal Diário de Notícias (RS), que na sua edição de 26/01, publicou foto do veterano piloto junto ao seu veículo de competição com o seguinte texto:

“Francisco Landi, o consagrado volante brasileiro, com este carro Alfa Romeo, modelo JK-2000, especialmente preparado por ele, com quatro carburadores especiais, competirá na categoria “Força Livre”. Teria grandes possibilidades, se a estrada fosse asfaltada, porém, no estado em que se encontra, dificilmente chegará entre os cinco primeiros.

Na foto o velho “Chico” em palestra com dirigentes da Fleck Motoviaturas, representante local da FNM, que estará presente com dois outros JK, na categoria nacional Grãn-Turismo. Francisco Landi, que é indubitavelmente o maior nome do automobilismo nacional, veio com um carro JK, preparado para correr em pista ou estrada asfaltada e ficou surpreso ao saber que a prova vai ser uma autentica gincana por desvios e estradas de terra.

Ontem, disse Chico Landi à reportagem: ‘Aqui estou mais para confraternizar com meus amigos gaúchos numa espécie de férias carregando pedra, pois o automobilismo é a minha maior paixão esportiva. A prova disto é que venho de JK para correr na Fôrça Livre, onde sei que não posso ganhar, enfrentado carros “carreteira” como os de Andreatta, Menegaz, Asmuz e meu sobrinho Camilo que dispõem de carros para este tipo de competição, embora o carro de Camilo não esteja o ideal para este tipo de pista. Eu pensei que a prova, como se tratava de inauguração de estrada, fosse toda ela em asfalto e, por isso, vim com o carro todo baixo e, agora ao saber de toda a verdade estou fazendo o possível  para levantá-lo o mais possível a fim de pelo menos, chegar entre os cinco primeiros, com o que ficarei satisfeito”.

Na guerra das fabricas nacionais, se a FNM trazia Landi, o seu melhor piloto, a SIMCA também vinha para brigar pela vitória, especialmente na Classe C, sendo representada pelos pilotos Breno Fornari, Afonso Hoch, José Madrid, Dante F. Galan e Fernando Gonçalves, este na categoria Força Livre. O jornal “O Pioneiro”, de Caxias do Sul, na sua edição de 19/01, assim publicou:

“O Simca Chambord 77 que vem participando com tanto destaque das competições realizadas em nosso Estado, estará na pista, dia 27, na categoria carreteiras, representando Caxias do Sul. Desta vez, o Simca Chambord 77, cujo renome foi firmado pelos volantes Walter Dal Zottto e Hermes Martini, será pilotado por Fernando Gonçalves, com a assistência técnica do mecânico Aquilino Nodari. Fernando Gonçalves é também volante de reconhecida capacidade, revelada em provas de que participou há alguns anos passados.”

Nesta corrida o Simca #77 correu com o número 18.

GP Estrada da produção 1963 - Equipe Simca

Jornal “O Pioneiro”, Caxias do Sul/RS, ed. 19/01/1963


Na manhã do dia 27, em Carazinho, às 8h00 foi dada a largada do GP Estrada da Produção, pista desconhecida da maioria dos pilotos, enfrentando condições adversas, com trechos da estrada ainda em construção e sem asfalto, o percurso de 323 km foi completado por 39 dos mais de 60 pilotos inscritos, os quais conseguiram vencer todos os obstáculos do difícil trajeto. A organização da prova foi eficiente e permitiu um desenrolar normal, apenas a lamentar um acidente fatal ocorrido há três quilômetros da linha de chegada, quando o passo-fundense Ítalo Bertão, pilotando um JK #93, atropelou um espectador, Sérgio Roberto da Costa, de 15 anos, falecendo no próprio local, em virtude da violência do impacto.

“A vítima, juntamente com elevado número de assistentes, naquele local, observava o carro dirigido pelo volante paulista Roberto Galucci, que por ali passara, indo para dentro da faixa, destacando-se dos demais. Não viu que o carro 93 vinha logo atrás… “ (Diário de Notícias, ed. 29/01/1963).

Acidentes como esse não causavam espanto nas corridas da época, ocorrendo pela falta de segurança e imprudência dos espectadores, que ficavam na beira da estrada ou a invadindo para melhor assistir as provas.

O vencedor da corrida, na geral e na categoria força livre, foi o então jovem Vitório Andreatta, com a carretera Ford #4, com o tempo de 2h,51m,6s e média horária de 113,26 km/h; ainda na categoria força livre, em 2º para surpresa de todos, o paranaense Altair Barranco, Ford #40, completando o árduo trajeto totalmente desconhecido para ele, no tempo de 3h02m47s; em 3º o seu conterrâneo Ângelo Cunha, Ford #11 com o tempo de 3h3m13s; em 4º o paulista Roberto Gallucci, Chevrolet #62; em 5º o gaúcho José Galina, Ford #44, foram os primeiros colocados.

Na categoria Gran Turismo, para veículos com motores entre 1001 a 3000 cm3, as cinco primeiras colocações foram:
1º – Breno Fornari, Simca #35, com o tempo de 2h52m18s e média horária de 112,131 km/h;
2º  – João Carlos Macedo, JK #5, 2h57m41s;
3º – Afonso Hoch, Simca #89, 2h58m40s;
4º – José Madrid, Simca #87, 3h01m58s;
5º – Dante Falcão Carlan, Simca #81, 3h0618s.

A classificação final para a Classe B, veículos com motores entre 851cm3 a 1000 cm3, formada por veículos DKW, o vencedor foi Diogo Luiz Ellwanger, #55, com o tempo de 3h2m19s e média de 106,29 km/h; 2º – Antônio Planella, #51, 3h8m1s e em 3º – Karl Iwers, #49, 3h11m.

Na Classe A, para veículos com motores entre 700 e 850 cm3, para veículos Gordini, o vencedor foi Rafaele Rosito, #43, com o tempo de 3h08m03s e média horária de 103,03 km/h; em 2º – Rui Caldeira Bastian, #33, 3h9m e em 3º – João Carlos Bastian, #38, 3h16m45s.

Logo após a chegada, o vencedor Vitório Andreatta, deu o seguinte depoimento ao repórter do jornal Diário de Noticiais (ed. 29/01/1963):

“Esse expressivo resultado veio encher-me de justíssima satisfação. Mesmo com um contra-tempo, pneu furado, soubemos eu e o meu eficiente companheiro Antônio Tergolina superar os problemas e chegar ao ponto final da corrida na posição de honra. Aliás, graças à operosidade do Tergolina, um mecânico de mão cheia, consegui êsse extraordinário triunfo, que pertence 80% a êle. Quero, outrossim, lamentar profundamente as avarias sofridas pelo carro do meu genitor (o Chevrolet #2 de Catharino chegou sem o capô), pois acredito que não fora isso, a “dobradinha” de nossa escuderia dificilmente seria desfeita”.

O Jornal do Dia, ed. 29/01/1963, no dia seguinte a corrida, publicou a seguinte matéria:

“Vitorio Andreatta Foi o Herói do G.P. Estrada da Produção — O jovem Vitório Andreatta, um dos componentes da famosa Escuderia dos Galgos Brancos, filho do veterano às Catarino Andreatta, foi o grande herói da sensacional corrida automobilística Carazinho-Pôrto Alegre e que serviu para inaugurar o tronco norte da Estrada da Produção. Vitório sagrou-se campeão absoluto e, vencendo lama, chuva e outras inúmeras dificuldades, inclusive alguns trechos quase intransitáveis de percurso, projetou-se como grande volante, fazendo jus aos valiosos prêmios da maior competição jamais realizada pelo ACRGS. Qual um mestre de emil campanhas, Vitório mostrou ser digno da estirpe dos Andreattas e merecedor dos maiores aplausos, pois dirigiu com perícia, arrojo e indiscutível classe o seu Ford preparado, completando o percurso no tempo de 2h51s e 3/5, estabelecendo portanto a média de 113 km e 260 m, média essa que deve ser considerada das mais altas, em virtude das dificuldades como o estado da estrada em inúmeros trechos e, ainda, a paralisação obrigatória por ter que mudar um pneu em plena corrida. O notável preparo da máquina e a perícia indiscutível do jovem Vitório a tudo superaram e mais um dos Andreattas escreveu seu nome em ouro nas páginas do automobilismo gaúcho.
Todos os volantes merecem destaque pela performance exibida, mas Vitório Andreatta, Breno Fornari, Rafaele Rosito e Diogo Ellwanger foram os que mais se destacaram, pois sagraram-se campeões das suas respectivas categorias e, apesar das condições adversas, todas as médias foram altas.

Entrega de Prêmios — Ontem, à noite, no Umbu Hotel, houve a entrega solene dos prêmios aos vencedores e melhores classificados nas diversas classes do Grande Prêmio Automobilístico “Estrada da Produção”, numa solenidade festiva em que o grande vencedor da competição foi Vitório Andreatta e que recebeu a chave do JK “zero quiômetro” e ainda o cheque de um milhão de cruzeiros.”

Na briga particular entre a FNM e a Simca, esta levou a melhor. Na Classe Gran Turismo, além de obter o primeiro lugar entre os cinco primeiros colocados, quatro competidores pilotavam veículos Simca: 1º – Breno Fornari, Simca #35; 3º – Afonso Hoch, Simca #89; 4º – José Madrid, Simca #87 e 5º – Dante Falcão Carlan, Simca #81. O resultado obtido pela Simca foi amplamente utilizado pelo departamento de publicidade da montadora, a qual publicou o seguinte anúncio nos principais jornais do centro do país:

Propaganda Simca - GP Estrada da produção 1963

Na Força Livre a Simca também superou a FNM, eis que o piloto Fernando Gonçalves, de Caxias do Sul/RS, chegou em 6º lugar, na frente do representante da FNM, que com Chico Landi, chegou em 7º lugar. O resultado comemorado pela Simca do Brasil, que enviou os srs. Moacyr Figueiredo e Saturnino Alvares da Silva, respectivamente Inspetor Comercial e Inspetor Técnico, para Caxias do Sul especialmente para transmitir a homenagem ao competidor Fernando Gonçalves, conforme relatado pelo jornal O Pioneiro, ed. 02/03/1963:

“… Competindo nas categorias de ‘carreteras’, o carro pilotado por Fernando Gonçalves e que foi preparado pela equipe da IMPORTADORA AUTO NORDESTE LTDA, vencendo as enormes dificuldades do percurso, assim mesmo chegou em 6º lugar, superando nomes famosos como Catarino Andreatta, José Asmuz, Francisco Landi e Camilo Cristófaro. Durante o seu discurso, o sr. Saturnino Alvares da Silva procedeu a entrega, a Fernando Gonçalves, de uma carta da direção da SIMCA, cumprimentando-o pela performance cumprida na prova “Estrada da Produção”, bem como de três mimos – um jogo de abotoaduras, um chaveiro e um artístico cinzeiro em bronze da SIMCA.”

Publicado no jornal O Pioneiro, ed. 02/03/1963


A empresa de componentes mecânicos Albarus-Spicer, patrocinadora dos pilotos Vitório Andreatta e de Breno Fornari, publicou anúncio destacando a resistência e qualidade dos seus produtos.

O dia 31/01 ainda repercutia na imprensa gaúcha a corrida Estrada da Produção, em visita a redação do Diário de Notícias, o piloto pelotense José Madrid, quarto colocado com o Simca #87 na categoria Gran Turismo, elogiou o ACRGS pela forma como organizou a prova, assim como o trabalho da Comissão Esportiva. Após elogiar as condições da estrada, apesar das chuvas caídas na semana da corrida, dando margem a que grande número pilotos não completassem a prova, José Marid completou:

“Desejo que o Diário de Notícias publique meu agradecimento aos Revendedores Simca, de Carázinho, pela maneira atenciosa como me atenderam: ao amigo Di Nardo, em cuja oficina meu carro foi arrumado e ao meu ajudante, Gilberto, mais conhecido por “Polaco”, pela dedicação revelada e a eficiência com que preparou minha máquina.” (Diário de Notícias, 31/01/1963).

A prova foi marcante para os espectadores, muitos ainda hoje lembram com entusiasmo desse acontecimento, no grupo do Facebook “Memórias Soledadenses”, encontramos o seguinte depoimento do sr. Flávio Humberto Ruas, na época com 13 anos de idade, sobre a passagens dos competidores, pela cidade de Soledade/RS:

“Eu assisti da esquina do Edifício Iray. A corrida era de Carazinho a Porto Alegre. A estrada estava longe de ser concluída. Ainda não tinha asfalto, nem tinha os contornos nas cidades. Em Soledade os carros entravam pelo atual trevo, passavam pela Av. Mal. Floriano Peixoto, dobravam à esquerda na praça e iam pela Av. Júlio de Castilhos. Passavam pela ponte velha, pela Vila Garibaldi, pelo Cerro Pelado e reencontravam a estrada no entroncamento que atualmente sai para Arvorezinha. Quase todos os carros eram tipo carreteira. A ‘inauguração’ da estrada foi um golpe publicitário do Governador Leonel Brizola. O prêmio ao vencedor foi um luxuoso JK entregue por Brizola a Vitório Andreatta, filho do lendário Catharino Andreatta.”

Av. Mal. Floriano Peixoto (direita) esquina com av. Júlio de Castilhos, ao fundo o Prédio Iray. Foto Atual obtida no Google Maps


Para encerrar, abaixo a classificação final dos 39 pilotos que cumpriram todo o percurso do G.P Estrada da Produção, bem como os tempos registrados, publicada no jornal Diário de Notícias, ed. 29/01/1963. Pode haver algum erro quanto à numeração, nome de pilotos, classificação e tempo, pois o material de época apresentava partes ilegíveis:

CLASSIFICAÇÃO FINAL

Categoria Força Livre

1º – nº 4 – Vitório Andreatta – Ford – 2h51m6s
2º – nº 40 – Altair Barranco – Ford – 3h2m47s
3º – nº 11 – Cunha – Ford – 3h3m13s
4º – nº 62 – Roberto Galucci – Chevrolet – 3h4m49s
5º – nº 44 – José João Gallina – Ford – 3h6m19s
6º – nº 18 – Fernando M. Gonçalves – Simca – 3h7m
7º – nº 82 – Francisco Landi – JK – 3h7m
8º – nº 2 – Catarino Andreatta – Chevrolet – 3h9m12s
9º – nº 32 – José Asmuz – Ford – 3h9m
10º – nº 118 – Camilo Christófaro – Chevrolet – 3h9m
11º – nº 26 – Paulo Feijó – Volks-Porsche – 3h22m2s
12º – nº 10 – Indemburg B. Cabral – Ford – 3h25m18s
13º – Não consta (a publicação pula do 12º para o 14º, erro de omissão da publicação)
14º – nº 78 – Carlos Alberto Brotholacci – Ford – 3h51m28s
15º – nº 8 – Theo Forenti – Ford – 4h6min

Média horária do vencedor: 113,260km/h

Classe Grã-Turismo

1º – nº 35 – Breno Fornari – Simca – 2h52m18s
2º – nº 5 – João Carlos Macedo – JK – 2h57m41s
3º – nº 89 – Afonso Hoch – Simca – 2h58m40s
4º – nº 87 – José Madrid – Simca – 3h1m58s
5º – nº 81 – Dante Falcão Carlan – Simca – 3h6m18s
6º – nº 3 – Aldo Costa – JK – 3h9m53s
7º – nº 17 – Antônio Rosa Pegoraro – Simca – 3h11m21s
8º – nº 31 – Alfredo Ribeiro Daudt – JK – 3h15m10s
9º – nº 85 – Raul Fernandes – Simca – 3h19m32s
10º – nº 19 – Manoel Mello – Simca – 3h23m34s
11º – nº 25 – Lauro Mallmann Junior – JK – 3h49m25s
12º – nº 69 – José Penna de Moraes – Simca – 4h51m

Média horária do vencedor: 112,181 km/h

Classe A

1º – nº 43 – Rafaele Rosito – Gordini – 3h8m03s
2º – nº 33 – Rui Caldeira Bastian – Gordini – 3h9m
3º – nº X – João Carlos Bastian – Gordini – 3h16m45s
4º – nº 7 – Ismael C. Barcellos – Gordini – 3h18m53s
5º – nº 17 – Pedro C. Pereira – Gordini – 3h22m38s
Média horária do vencedor 103,035km/h

Classe B

1º – nº 55 – Diogo Luiz Ellwanger – DKW – 3h2m19s
2º – nº 51 – Antônio Planella – DKW – 3h8m1s
3º – nº 49 – Karl Iwers – DKW – 3h11m
4º – Não consta (publicação pulou do 3º para o 5º, erro de omissão da publicação)
5º – nº 83 – Júlio Schimcke – DKW – 3h26m29s
6º – nº 68 – Nilo Pinhais – DKW – 3h10m36s
7º – nº 73 – Waly Schmiedel – DKW – 3h21min

Média Horária do vencedor 106,291 km/h 


 

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