Fernando Barenco

Fusca, o encantador de crianças

Fusca encantador de crianças

Como explicar o fascínio da garotada por um carro que já saiu de linha há 25 anos?

Não é nenhum exagero dizer que o Fusca é um fenômeno sobre rodas. Projeto da década de 1930, continua arrebanhando entusiastas mundo afora. No Brasil sua popularidade também só cresce, mesmo 25 anos depois de ter saído definitivamente de linha por aqui. Basta ver o número de clubes exclusivamente dedicados a ele que nascem a cada dia. E a quantidade de grupos no Whatsapp? São infinitos! No Facebook a quantidade talvez seja ainda maior, alguns grupos com milhares e milhares de participantes. É impressionante!

Mas de onde vem essa relação de afeto e fascínio do povo pelo “Carro do Povo”? A explicação parece ser a seguinte. O Fusca chegou no Brasil em 1950 e logo assumiu o trono de modelo mais popular. Vendeu igual pão quente. Por décadas foi o mais vendido, com percentuais altíssimos do mercado de automóveis. Basta ver fotos antigas do trânsito nas cidades brasileiras. O número de Fuscas é simplesmente inacreditável.

Sobre isso, tenho até uma historinha interessante. Quando eu era criança, lá no final dos anos 1960, morava em um apartamento tipo sobrado que ficava de frente para uma rua relativamente movimentada. Gostávamos de ficar na janela fazendo uma brincadeira que era assim: cada criança escolhia um modelo de carro. Ganhava quem tivesse a maior quantidade do carro escolhido passando pela rua num determinado espaço de tempo. Combinávamos tipo 15 minutos, e íamos contando… Mas o Fusca era proibido de participar da brincadeira. É que a quantidade que passava era tão grande, que seria até covardia com os outros adversários!

Era o carro mais barato. Tinha mecânica confiável e de fácil manutenção. As peças eram (e ainda são) fáceis de ser encontradas. Enfrentava nossas ruas esburacadas numa boa e terrenos íngremes e sem calçamento, recomendados apenas para veículos off-road. E fazia bonito! Já dizia meu tio Arnoldo: “Fusca é Fusca! Sobe até em coqueiro!” .

Era durável, basta ver a quantidade de Fuscas sobreviventes até hoje. Tinha ótimo valor de revenda, qualidade explorada à exaustão nas ótimas propagandas da Volkswagen. Era também econômico para os padrões da época, quando alguns concorrentes como o Simca Chambord, o Aero Willys, o Dodge Dart e o Chevrolet Opala eram bem beberrões.

Assim, por tudo isso e muito mais, o Fusca faz parte do inconsciente coletivo do Brasileiro. Quem hoje está pelo menos 30 anos, tem alguma relação de afeto e nostalgia com ele. O pai, o avô ou o tio tinham um Fusca. O Fusca nas viagens de férias, na ida para a escola, no trabalho, em alguma situação inesquecível e até nos micos… os exemplos são inúmeros.

“…sempre vai haver crianças apontando com o dedinho e gritando ‘olha o Fusca!’”

Mas esse artigo é sobre uma galerinha que nada tem a ver com tudo isso que escrevi até agora: as crianças de hoje!

Há 17 anos sou o feliz proprietário de um Fusca 1300 1970, Branco Lotus, da primeira série. Como editor desse site há mais de uma década e meia, tenho juntado a fome com a vontade de comer e nas coberturas de eventos via de regra é nele que viajo. Assim vou a trabalho, mas também como participante do evento. Ele já me levou em viagens bem longas, de mais de 600 quilômetros.

Além de exposições e encontros, já participamos também de vários passeios, raides e carreatas. Não importa a quantidade nem a qualidade dos outros carros participantes. Podem ser modelos nacionais ou importados raros e caríssimos. Não importa! Se houver público assistindo à passagem do comboio, sempre vai haver crianças apontando com o dedinho e gritando “olha o Fusca!”. Não falha. Muitas vezes elas são bem pequenas, com três, quatro, cinco anos. E o modesto e carismático carrinho vai passando e roubando a cena. Confesso que a sensação é ótima!

“Mesmo com outros veículos atrapalhando a sua visão, o garotinho conseguiu achar o Fusca. Fez sinal para o pai e gritou algo que não consegui escutar”

E isso não acontece apenas em eventos não. Quem me conhece sabe: uso meu Fusca no dia a dia também. Vou ao mercado, à feira, passear nos fins de semana. Vira e mexe tem uma criança na calçada virando o pescoço para ver o Fusca passar.

Nos últimos dias aconteceu duas vezes. Na primeira uma menininha de uns 4 anos estava sentada nos degraus da varanda de sua casa com uma senhora que parecia ser a sua avó. A casa fica no final de uma rua. Conforme fui me aproximando, notei que a menina imediatamente se levantou para ver a passagem do Fusca.

O outro fato aconteceu há uns quatro dias no centro da minha cidade, Petrópolis-RJ. Foi o que me inspirou a escrever esse artigo. O menininho vinha pela calçada, sendo carregado nos ombros de seu pai. O trânsito estava bem engarrafado, na base do anda-e-para. Na rua de duas pistas eu ia pela da esquerda, pela beira do rio, enquanto a calçada ficava ao lado da pista da direita. Mesmo com outros veículos atrapalhando a sua visão, o garotinho conseguiu achar o Fusca. Fez sinal para o pai e gritou algo que não consegui escutar. Enquanto eu continuava parado no engarrafamento, ele seguiu em frente, olhando para trás. Minutos depois, passei novamente por ele que já ia lá na frente. Dei aquela típica buzinadinha de Fusca: “bi-bi”. Ele e o pai sorriram e deram um caloroso tchau.

Qual a explicação do encantamento dessa garotada pelo Fusca? Sempre penso sobre isso, mas ainda não consegui chegar a nenhuma conclusão racional. É algo mágico!

Você tem alguma sugestão?

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Fernando Barenco

É editor do Portal Maxicar. Emails para essa coluna: fernando@maxicar.com.br

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