Alexander Gromow

Você deu a seta?

Ainda hoje esta pergunta é feita em relação ao fato de ter ligado o pisca-pisca, mas qual é a origem disto? Muitos de vocês devem ter se espantado com a foto de Evandro dos Santos Fullin de entrada desta matéria, mas ela tem tudo a ver com o que vamos falar; em especial o caminhão antigo que nela aparece. Logo saberemos reconhecer a razão disto.

No início da era dos automóveis as coisas eram muito tranquilas, poucos veículos, muitos parecendo carroças sem cavalos, dividiam o espaço com carroças e charretes. Mas com o tempo o uso das ruas e estradas começou a demandar mais organização.

Ilustração: Uma rua de bairro de Nova Yorque em 1925, mistura entre carroças e carros (Foto: Site Bovery & Boogie)


Um dos aspectos que complicavam o trânsito era como indicar aos outros o que o motorista pretendia fazer, e aí surgiram os sinais com o braço para fora do carro. Também para acionar a buzina ou manobrar alavancas externas o pobre cinesiforo (nome antigo de motorista que já caiu em desuso) tinha que colocar o braço para fora do carro, e isto com chuva ou no inverno era muito chato de se fazer.

Ilustração: Estes são os “gestos do condutor” como ensinado hoje em dia nas Autoescolas


Ainda em priscas eras começaram a surgir dispositivos, inicialmente com acionamento manual para indicar aos demais para qual direção o motorista pretendia ir. Abaixo um exemplo típico de uma seta direcional de acionamento manual tipo universal – adaptável a vários tipos de veículo, no caso por uma correntinha, para caminhões fabricado pela empresa americana The Wiggler Company, de Buffalo, estado de Nova Yorque. Na embalagem aparece um desenho indicando como a seta direcional deve ser instalada. Também é possível ver a seta direcional manual e a sua correntinha de acionamento; como item adicional de segurança este modelo tinha um olho de gato refletivo em ambos os lados.

Ilustração: Tanto a embalagem como a seta direcional manual vistas de frente. Detalhe para a corrente de acionamento manual (Fonte: ebay)


Ilustração: Foto do verso da embalagem e da seta direcional. Na embalagem um exemplo de uma seta direcional manual instalada ao lado do motorista (Fonte: ebay)


Ilustração: Detalhe do desenho mostrando a instalação e a operação desta seta direcional manual (Foto: ebay)


Este tipo de seta direcional manual podia ser usado tanto em ônibus como em caminhões, aí vão mais dois exemplos:

Ilustração: Este também é um modelo universal, tanto para caminhão como ônibus (Fonte: ebay)


Ilustração: Já esta seta direcional é específica para o caminhão Chevrolet 1939, Nr. 123 da Detroit Signal; a posição normal dela é com a seta na vertical (Fonte: ebay)


Agora já é possível matar a charada da foto de abertura desta matéria, pois o caminhão da foto está equipado com setas direcionais presas ao teto da cabine.

Ilustração: As setas vermelhas indicam as setas direcionais manuais que equipam este antigo caminhão Chevrolet, com isto o mistério foi desfeito (Fonte: Evandro dos Santos Fullin)


Agora vamos mudar o foco para a Europa, e lá em especial para a Alemanha. Num raro livro publicado em 1936 (O Fusca estava sendo desenvolvido), publicado pela Robert Bosch AG de Stuttgart, com o título: Fünfzig Jahre Bosch (Cinquenta anos de Bosch), em sua página 136 consta o seguinte parágrafo:

BOSH-WINKER (seta direcional Bosch)

À medida que mais carros fechados foram sendo introduzidos e à medida em que o tráfego nas cidades grandes foi se adensando, a necessidade de indicar uma mudança de direção pretendida para os outros usuários das estradas se tornou mais urgente.

A ideia de um indicador de direção elétrico não era mais nova, pois já havia dispositivos em que uma seta alojada em uma caixa tipo cápsula girava, mas o perfil da carroceria do carro não era alterado ao sinalizar.

Em 1928, quando iniciamos a produção de setas direcionais, partimos do princípio de que o perfil da carroçaria do carro, ao ser acionado o sinalizador, devia mudar para que isto fosse bastante perceptível. Esta visão foi seguida pela legislação vigente.

Ilustração: Detalhe da seta direcional e dos limpadores de para-brisas Bosch (Foto: Bosch)


A seta direcional da Bosch consiste em um eletroímã montado no menor espaço possível. Ao ser acionada a chave seletora de direção, é acionado o braço da seta direcional que faz a seta sair de seu receptáculo de modo a ficar na horizontal. Ao mesmo tempo, é ligada uma lâmpada incandescente alojada dentro da seta direcional, de modo que a haste de plástico da seta fique iluminada e fique visível especialmente no escuro.

A seta direcional Bosch é fornecida de acordo com o sistema elétrico no veículo que pode ser para 6, 12 e 24 volts.

Ilustração: Diferentes tamanhos e tipos de setas direcionais Bosch, externas e embutidas. As maiores eram para caminhões (Foto: Bosch)


Ilustração: Um exemplo de seta direcional Bosch de luxo, cromada e instalada em um carro épico, um Mercedes Benz 500 K (Foto: Focus online)


A fim de não afetar a aparência da carroceria do carro, fizemos as assim chamadas setas direcionais de embutir, que ficam embutidas na parede da carroceria.

Ilustração: A seta direcional do Fusca era embutida na coluna da porta (Foto: Site My Heimat)


A chave seletora de direção deve ser retornada para a sua posição inicial logo após o veículo ter tomado sua nova direção. No entanto, uma vez que de vez em quando este procedimento é esquecido, e para poupar o motorista de ter que fazer este procedimento, também introduzimos um assim chamado interruptor de tempo, que desliga automaticamente a seta direcional após cerca de oito segundos.

Em países estrangeiros, as pessoas inicialmente ridicularizavam as setas direcionais como sendo um exemplo do típico espírito de organização alemão, mas hoje a seta direcional Bosch também ganhou muitos amigos lá.

Mas, por aqui, quando se fala de “setas direcionais de acionamento elétrico” ninguém entende, mas quando de diz “bananinha” a coisa muda de figura, pois este é o apelido deste equipamento.

Acima vimos um exemplo de seta direcional externa aplicada em um carro de luxo e um exemplo de seta direcional embutida na coluna de um Fusca Split Window antigo, mas vamos ver um exemplo daquelas maiores para caminhões. E o caminhão que escolhi não é qualquer um, trata- se de um Mercedes-Benz Lo 2750, ano 1934, com um motor de 65 hp, que era especialmente adaptado para transportar os famosos carros de corrida W25 da Mercedes-Benz, conhecidos como Flecha de Prata:

Ilustração: Eis o Lo 2750 com suas grandes setas direcionais ressaltadas por flechas amarelas. Na lateral da carroceria está escrito Mercedes-Benz Rennabteilung – Setor de competições da Mercedes Benz (Foto: Site Carscoops)


Ilustração: Foto de uma miniatura hiper-detalhada com ambos o Lo 2750 e o W25, mostrando as instalações para o transporte dos carros Flecha de Prata (Foto: TC Models)


Entrando mais a fundo no “off-topic”:

Os Flecha de Prata eram venerados na Alemanha, foram objetos de propaganda do Nacional Socialismo e eram frequentemente apresentados ao público em carreatas dos Lo 2750 carregando os W25, muitas vezes ostentando as grandes guirlandas de louros que os vencedores recebiam e enfiavam no pescoço. E o ato de carregar e descarregar os W25 era tudo menos glamuroso, como veremos abaixo:

Ilustração: Não era nada fácil colocar os W25 nos Lo 2750, todo mundo tinha que dar uma forcinha (Foto: Site Carcoops)


Ilustração: O carro vencedor ostentando a guirlanda de louros. Detalhe para as setas direcionais dos caminhões (Foto: Site Carcoops)


Ilustração: O cortejo parava em praças para que o público pudesse admirar os W25, e para aproveitar a deixa o cortejo era acompanhado por lindos carros esporte de luxo – merchandising da década de trinta do século passado (Foto: Site Carcoops)

A maioria dos carros europeus usou setas direcionais até o início da década de 60, nos EUA elas foram proibidas em meados dos anos 50 por questões de segurança. Mesmo alguns dos pisca-pisca que foram sendo introduzidos ainda se referiam a setas, como o exemplo abaixo:

Ilustração: Jogo de lanternas traseiras de caminhão, já no sistema de luz piscante, mas com o recorte de setas físicas (Foto: Site Catruckman)


Conclusão: Acho que fica bem explicado o motivo de ainda hoje se falar: “você deu a seta?”; depois de tantos anos usando veículos com setas direcionais, esta denominação ficou impregnada na mente das pessoas e isto foi passando de geração a geração, até os dias de hoje.

Alexander Gromow

Ex-Presidente do Fusca Clube do Brasil. Autor do livro EU AMO FUSCA e compilador do livro EU AMO FUSCA II. Autor de artigos sobre o assunto publicados em boletins de clubes e na imprensa nacional e internacional. Participou do lançamento do Dia Nacional do Fusca e apresentou o projeto que motivou a aprovação do Dia Municipal do Fusca em São Paulo. Lançou o Dia Mundial do Fusca em Bad Camberg, na Alemanha. Historiador amador reconhecido a nível mundial e ativista de movimentos que visam à preservação do Fusca e de carros antigos em geral. Participou de vários programas de TV e rádio sobre o assunto. É palestrante sobre o assunto VW com ênfase para os resfriados a ar. Foi eleito “Antigomobilista do Ano de 2012” no concurso realizado pelo VI ABC Old Cars.

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