Repórter Maxicar

Computador de Bordo Fiat Weber: a interface para o futuro em 1985

Computador de bordo

Desenvolvido no Brasil para substituir um projeto italiano, o Computador de Bordo Fiat Weber colocou o painel do Uno e do Prêmio um passo à frente do seu tempo

Lançado em novembro de 1985 o Computador de Bordo Fiat Weber é um raro opcional da linha Fiat Uno SX, Prêmio CS/L e Elba CS. Unindo tecnologia digital e sensores analógicos, inaugurou a era da informática nos carros nacionais.

Desenvolvido por uma empresa quase desconhecida de São Paulo, o aparelho podia calcular médias de consumo/velocidade em tempo real e prever a distância que o carro percorreria com o combustível existente no tanque, sendo o primeiro computador de bordo fabricado em série, no Brasil.

- 25 E 26 DE MARÇO -
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Computadores de bordo: da Terra à Lua

Pioneiro dos computadores de bordo, utilizado na missão Apollo 11 (EDU-Craft Diversions)


O conceito de um computador, instalado a bordo do veículo e capaz de coletar, processar e armazenar dados do funcionamento, ganhou força nos anos 1950/60, com o desenvolvimento da eletrônica e da informática. Um marco foi o Apollo Guidance Computer (AGC). Criado pela NASA, orientou os astronautas na missão Apollo 11, a primeira viagem à Lua, em 20 de julho de 1969.

Nos anos seguintes, os computadores de bordo se desenvolveram rápido, passando para os aviões, navios, trens e automóveis de luxo. Impulsionados pela miniaturização eletrônica dos anos 1970/80, logo alcançaram os carros intermediários.

VW Saveiro Summer 1996
R$ 80.000,00

DKW Belcar Rio 1965
R$ 80.000,00

R$ 32.000,00

Ford LTD 1978
R$ 85.000,00

Ford Escort XR3 1992
R$ 29.900,00

FNM 2000 JK 1963
R$ 190.000,00

Mercedes-Benz 280S 1971
R$ 150.000,00

Alfa Romeo 2300 Ti4 1985
R$ 100.000,00

R$ 45.000,00

VW Fusca 1300L 1977
R$ 35.000,00

Chevrolet Tigre 1946
R$ 170.000,00

FNM Jk 2150
R$ 150.000,00

O “Trip Master”, da Itália

Fiat Uno SL italiano, e seu painel com o Trip Master no centro (Pinterest Iván Adotti)


Em 1985, a Fiat italiana oferecia o “Trip Master”, um avançado microcomputador de bordo, como opcional em alguns carros. Entre eles, o Uno SL, o sedã Regata e o futurista Lancia Y10.

Projetado pela Veglia Borletti, o “Trip Master” podia calcular cerca de sete informações, como as médias de velocidade/consumo do carro e projeções de autonomia. Os valores eram exibidos em três telas LCD (Liquid Crystal Display) embutidas no painel de instrumentos. É uma peça rara, estima-se menos de 300 unidades do Uno SL equipadas, entre 1985 e 1986.

A Fiat do Brasil também se interessou em oferecer o acessório nos Unos fabricados em Betim. A intenção era agregar mais tecnologia ao modelo, que se destacava pela modernidade, desde o lançamento aqui, em agosto de 1984.

Mercado fechado e o som da economia

Equipamentos de som WB Eletrônica e o Econômetro precursor (Antigorama e Motor3 nº20)


Porém, nessa época, a entrada de equipamentos eletrônicos no Brasil era regulada pela Política Nacional de Informática (PNI) e pela Secretaria Especial de Informática (SEI). Esse órgão federal controlava a importação de aparelhos informáticos estrangeiros, como o “Trip Master”, e reservava mercado para produtos fabricados aqui.

Nossa melhor referência em computadores de bordo era o Econômetro, patenteado pela Migros Ltda., divisão da WB Eletrônica, dos sócios William J. Bitar e Dieter Grohman.  Especializada em equipamentos de som profissionais, a WB Eletrônica utilizou sua experiência para desenvolver um computador automotivo universal, usando o microprocessador MOS-LSI Motorola 68xx, uma tela digital e dois sensores de velocidade e consumo.

Poderia ser instalado em qualquer veículo (álcool/gasolina) e calculava doze informações como: velocidade e consumo médios, consumo instantâneo em km/l e até o custo da viagem em Cruzeiros.  Recebeu o nome “Econômetro” porque ensinava o motorista a dirigir de modo econômico, reduzindo até 30% do consumo – segundo a Migros WB. 

Apesar do potencial, nenhuma montadora se interessou em adotar o projeto. Foram comercializadas cerca de 2000 unidades avulsas, entre 1983 e 1984, nas autopeças.

O primeiro computador de bordo brasileiro

Protótipo do painel com o Computador de Bordo Fiat Weber 1985 (Manchete nº1755) e Dieter Grohman apresentando o novo projeto à imprensa (Dados e Idéias nº95)


Protótipo do painel com o Computador de Bordo Fiat Weber 1985 (Manchete nº1755) e Dieter Grohman apresentando o novo projeto à imprensa (Dados e Idéias nº95)

Nessa época, a Weber Carburadores (que pertencia ao grupo Fiat) sugeriu o Econômetro à montadora, como opção nacional ao “Trip Master”. A ideia foi bem recebida e a Fiat encomendou uma versão melhorada.

Ao longo de um ano e meio, a Migros WB redesenhou o Econômetro, simplificando a operação, adicionando uma conexão com o indicador de combustível, relógio digital e um novo design. Para reforçar sua credibilidade, a Fiat e a Weber assumiram o nome do aparelho, como acessório original garantido.

O resultado foi o Computador de Bordo Fiat/Weber. Uma peça que misturava recursos analógicos, digitais e uma boa dose de criatividade, para conseguir os mesmos dados do avançado “Trip Master” italiano.

Como era o Computador de Bordo Fiat/Weber

Computador de Bordo Fiat/Weber (Facebook João Carlos)


O novo Computador de Bordo Fiat/Weber era um quadro – interface com 10 funções, assinaladas por 10 LEDs vermelhos, em quatro seções: ”consumo”, “distância percorrida”, “autonomia” e “tempo”. Embaixo havia o “Panel Control”, um minidisplay digital, que exibia os valores calculados, junto dos logotipos da Fiat/Weber.

Aliás, esse mostrador, de micro-LED, é um capítulo à parte. Foi desenvolvido pela filial da Rohm Eletronics Japan, na Zona Franca Manaus, só para o projeto. Apesar da desconfiança na matriz oriental, a maioria deles ainda funciona perfeitamente.

Não foi possível importar a tela de LCD do “Trip Master”, pois ela também estava na lista de produtos controlados pela SEI.

Como funcionava

Esquema dos componentes do CB. E uma vista em perspectiva da peça (Gold Star Autopeças)


O aparelho trazia embutido um software de cálculo, capaz de cruzar dados fornecidos pelo relógio digital e os três sensores analógicos: a boia de combustível no tanque, um sensor de consumo do combustível (solenoide no carburador) e um sensor de velocidade, na engrenagem do velocímetro.

Os valores calculados ficavam armazenados numa unidade de memória, para serem exibidos quando selecionados.

Com isso, o computador de bordo fornecia ao motorista 10 informações, atualizadas a cada 2 segundos:

  1. Km/l (consumo instantâneo. Com o carro parado o cálculo é em litros/hora).
  2. Km/l média (consumo médio de combustível, desde o início da medição).
  3. Litros de combustível (consumidos desde o início da medição).
  4. Km percorridos (odômetro parcial).
  5. Km de autonomia (Projeção feita cruzando a quantidade de combustível restante no tanque e o consumo médio registrado).
  6. Km/l variável (média dos últimos 1,5L consumidos, usada na previsão da autonomia).
  7. Km/h (velocidade média, desde o início da medição).
  8. Hora.
  9. Cronômetro.
  10. Data.

Dupla de botões que operavam o computador (Blog do Fiat Prêmio)


Cada informação era selecionada por duas teclas, com desenho de seta, à direita do motorista. Quando acionadas juntas, zeravam os valores, reiniciando a contagem.

Por fim, uma campainha eletrônica marcava o bip das teclas e disparava, quando a autonomia ficava inferior aos 90 km. Em geral, os resultados eram bastante precisos na estrada, mas variavam no trânsito picotado da cidade, que interferia nas médias de distância e consumo.

Disponível para toda família Fiat

Modelos Fiat que tiveram o opcional


O Computador de Bordo Fiat/Weber foi apresentado pela Fiat no dia 17 de novembro de 1985, como opcional do Uno SX e do Prêmio CS. Depois, foi opcional também da Elba CS lançada em 1986 e do Prêmio CSL, 4 portas, de 1987. A fabricação ocorria no bairro de Interlagos, São Paulo, onde oito funcionários da Migros WB produziam os aparelhos e seus periféricos.

Já a instalação era feita pela Fiat, na linha de montagem em Betim, a pedido das concessionárias, que repassavam a demanda dos clientes. Várias unidades também foram instaladas por iniciativa da própria montadora, para divulgar o produto.   

Computando o sucesso

Uma das várias notícias na época e o jornalista Walter Boor, ao lado do seu Prêmio CS 0 km (Jornal O Pioneiro 17-12-1985)


A imprensa recebeu com entusiasmo a novidade, reforçada pela publicidade da Fiat, que patrocinou artigos em jornais e revistas pelo Brasil. Os textos explicavam como o acessório funcionava e o motorista poderia economizar combustível analisando os dados computados.

Além disso, a fábrica organizou o “Rali de Economia Fiat” entre jornalistas, com etapas pelos estados brasileiros. O campeão, em 14-12-1985, foi o jornalista gaúcho Walter Boor, do ”Esporte Motor”, que faturou um Prêmio CS, 0 km.

Walter dirigiu seu Prêmio 1.5 na média de 17,86 km por litro de álcool, num percurso de 57 km, durante a prova final, em Belo Horizonte. Todos os dados calculados no computador e conferidos pela comissão julgadora.

Publicidade Fiat para o acessório


O dispositivo sofreu pequena alteração em meados de 1986, quando desapareceu o logotipo Weber e os LEDs passaram a ter o corpo vermelho. Ficou no catálogo da Fiat até 1989, quando saiu de linha, substituído por uma versão modernizada, em LCD, exclusiva do Prêmio e Elba, “argentinos”.

Novo Computador de Bordo Fiat 1989 e o acessório fabricado pela GM, num Kadett GSI 1990 (4 rodas nº 342 e divulgação GM)


Na linha 1989/90, também apareceu o primeiro concorrente: a GM lançou seu computador de bordo, opcional da linha Kadett. Uma unidade compacta, com minitela de LCD, junto ao painel. Os tempos eram outros e a SEI tinha afrouxado certas regras para importação de eletrônicos, com a iminência do fim da Política Nacional de Informática, em 1992.

Os Fiats mais raros

O acessório instalado num Uno SX 1986 (Facebook)


No Uno, estrela da Fiat nos anos 1980, o Computador de Bordo Fiat/Weber teve alcance limitado; disponível apenas na versão SX e no ano de 1986. Uma quantidade ínfima deles saiu com o opcional, parte pelo alto preço (CR$ 4.421 aprox. R$ 4.390 hoje) parte por eliminar o conta-giros num carro esportivo.

A título de curiosidade, o Uno SX 1986, a álcool, com CB, foi o único Uno já fabricado com todas seis teclas do painel funcionais, sem nenhuma tampa cega. Já a repercussão na dupla Prêmio/Elba foi bem maior, com o público dos sedãs e peruas disposto a pagar por tecnologia de ponta. 

A Migros WB fabricou um lote inicial de 1500 computadores em 1985, com previsão (que não deve ter se realizado) de mais 500 por mês, nos anos seguintes. Assim, o total de carros equipados, durante os 4 anos de produção, é baixo. O que torna o aparelho um dos acessórios mais raros da linha Fiat, nos anos 1980.

Legado histórico

O pioneiro Computador de Bordo Fiat Weber numa Elba CS 1986 e o equivalente atual, num Argos 2022 (ClassicParts/youtube)


Não foi possível descobrir o destino da WB Eletrônica ou da Migros Ltda, após o fim da produção dos Computadores de Bordo Fiat/Weber. Certamente já encerraram as atividades, em meio às idas e vindas do mercado.

Todavia, o mais importante foi o seu legado, que, somado à visão do grupo Weber, marcou a história do automóvel brasileiro e da Fiat em particular, colocando a informática a bordo de um carro nacional, pela primeira vez.

A mesma informática que hoje é indispensável para o funcionamento e manutenção dos novos modelos e que promete assumir a direção, em algumas décadas.

Redação: Geraldo Costa

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