Ambrela
Alexander Gromow

Este é fake, mas como seria uma possibilidade real?

Volta e meia alguém publica uma imagem de um Fusca modernizado por computação gráfica e isto reacende a questão de uma eventual reedição do bom e velho Fusca; causando alto grau de “frisson” entre os aficionados, só que não! Disto decorre um tsunami de perguntas via Facebook sobre a veracidade das fotos. Eu coloquei uma das imagens que circulou recentemente como foto de abertura desta matéria.

Mas, veremos adiante, hipoteticamente, como poderia ser um Fusca moderno que mantivesse, em linhas gerais, os aspectos que o consagraram por tantos anos?

Antes a gente costumava dizer que o papel aceitava tudo, agora dizemos que o computador aceita tudo, e um pouco mais, dada a grande palheta de possibilidades e recursos que esta ferramenta oferece. Ficou difícil separar o real do irreal…

Analisando e pesquisando a fundo a foto de abertura desta matéria foi possível determinar que se trata de uma foto composição feita a partir de fotos de um Vocho Ultima Edición, que estão no site Net Car Show. E as fotos alteradas, pelo enxerto de imagens da frente e da traseira de um Fusca recente, aparecem, também, em uma das matérias do site filipino Kotse Dude postadas no dia 9 de maio de 2015 por Chipster Khan. Como se pode ver, a viralização destas imagens têm origens em todas as partes do mundo.

Quem gostar de detalhes, e tiver uma veia de detetive, poderá ver que tanto nas fotos do Vocho como do carro modificado as manchas no chão são as mesmas e a indicação do site de origem das fotos do Vocho aparecem no canto superior esquerdo são as mesmas:

E os mais detalhistas ainda devem ter percebido que na foto modificada vista de trás, as modificações da frente não foram implementadas, ou seja, o para-lamas dianteiro permaneceu o do Fusca original. O mesmo ocorre na vista de frente em relação do para-lamas de trás – dá para ver o a ponta do para-choques do original…  Não houve o cuidado de tratar dos enxertos de frente e de trás como um todo.

Outro detalhe que induz a uma falsa interpretação é o uso de uma placa alemã com as iniciais WOB indicando ser de Wolfsburg – cidade onde está a primeira fábrica da Volkswagen na Alemanha, semelhante às que são usadas nas fotos de catálogo da Volkswagen. Certamente esta placa tinha sido usada no carro do qual foram retiradas imagens da frente e da traseira para enxertar no Vocho.

Mas, pouca gente faz este tipo de investigação e, de mais a mais, muitas vezes este tipo de foto é apresentado como sendo de um novo modelo prestes a ser fabricado e isto potencializa a desinformação e chega a ser criminoso.

Aqui no Brasil temos os famosos desenhos criados pelo Eduardo (Du) Oliveira que se autodenomina “Irmão do Décio” e são o que se chama tecnicamente de uma “renderização” pelo computador. Uma pessoa muito proficiente em computação e muito boa em design de veículos, com um olhar especial para aspectos “retrô” fez um excelente trabalho de releitura idealizando o que poderia ser um Fusca moderno; se bem que ele trabalha com carros de outras marcas também.

Mas estes “projetos” jamais sairão do papel, digo da tela do computador, pois a Volkswagen já fez o New Beetle e suas versões subsequentes. Não acredito que após o encerramento da produção da versão “Beetle Cabriolet” iria fazer um outro carro nesta linha, se bem que, hipoteticamente, vejo espaço para isto, como veremos adiante.

Da última geração do “Beetle” este Beetle Cabriolet é realmente um lindo carro que encerrará a Saga do Fusca, conforme informações veiculadas pela própria Volkswagen (3)


O New Beetle, foi um carro projetado por americanos para o mercado americano que reclamava a volta do Fusca que foi o único veículo VW que realmente fez sucesso na terra do Tio Sam. E este sucesso foi uma coisa relativa, pois o Old Beetle (ou o Fusca a ar) jamais ultrapassou a quota de 5% do mercado americano de carros!

Uma versão “Herbie” do Fusca, num trabalho interessante feito pelo IDD – Irmão do Décio (4)


Existem vários outros projetos de modernização de carros antigos ou releituras que circulam na Internet como é o caso do projeto do “New Brasília” também feito pelo Du Oliveira, outra brincadeira cibernética independente que jamais sairá do disco rígido do computador para a realidade:

Um estudo de atualização do VW Brasília (5)


Como já foi dito, a posição atual da Volkswagen é a de encerrar a linha de carros que foi iniciada com o New Beetle, mas eu acho que muitos ficam conjecturando como poderia ser um Fusca moderno, mas que mantivesse seus valores como preço acessível, tamanho pequeno; motor e tração traseiras e a forma que cativou milhões de fãs… E tudo isto respeitando a modernidade e mantendo o prazer de dirigir um Fusca.

Parece ser uma equação de difícil solução, mas talvez não seja tanto assim. Estes dias eu vi um interessante trabalho do Jason Torchinsky, redator chefe do Site Jalopnik, cujas ideias, coincidentemente, são semelhantes às minhas para este assunto; vamos desenvolver este assunto em conjunto para finalizar a nossa equação.

Inicialmente vamos recapitular as gerações de Fusca que tivemos e nomeá-la de maneira fictícia, somente para ajudar na nomenclatura e referência nesta matéria. Inicialmente o Fusca originário a ar, que é a geração zero (G0). Depois veio a geração do New Beetle que teve algumas variações, vamos chamar de geração um (G1) da “nova era”. Aí veio a geração que, de uma maneira bastante confusa, foi chamada novamente de Fusca (G2), e que já saiu de linha à exceção do modelo cabriolé que ainda está em produção. Portanto o nosso hipotético novo Fusca iniciaria uma terceira geração, que vamos batizar de G3.

Esquematizando as gerações do Fusca conforme nomeamos para esta matéria (6)


Aqui cabe um comentário: quando a Volkswagen estava para lançar o G2 no Brasil eu fui um dos convidados a opinar sobre o nome a ser dado a este carro. Fui frontalmente contrário ao uso puro e simples do nome Fusca, dada a grande confusão que isto acarretaria, como se não bastasse a confusão no lançamento anterior do New Beetle. A minha sugestão de nome, dado que este já é um carro muito potente e moderno, foi de “New Super Beetle” para os EUA e “Novo Bizorrão” no Brasil; pois tanto o Super Beetle como o Bizorrão foram carros diferenciados em seu tempo. Obviamente a minha sugestão foi perdedora, mas certamente ela traria uma confusão bem menor do que aquela que ainda vige.

O New Beetle (G1), que originalmente teria a plataforma do Polo alemão, teve que adotar a plataforma comum do Golf e Audi TT devido às condições impostas pelo crash-test padrão americano. Com isto uma das premissas que seria básica para um então novo Fusca, que seria um preço acessível, não se materializou e o carro passou para um patamar de custo bem mais elevado; situação que foi se exacerbando na geração G2.

Mas o nosso Fusca G3 tem que ter um preço acessível, e para tanto o melhor seria usar o máximo de componentes já existentes nas fábricas da Volkswagen, para reduzir os custos de desenvolvimento. Sendo assim a plataforma do G3 poderia ser compartilhada com a comprovada plataforma do Up! Com isto o tamanho do carro já seria reduzido à uma dimensão mais compatível com o do G0.

Um estudo do Fusca G3 rascunhado sobre um Up! Duas portas versão alemã (6)


Os primeiros estudos do Up! foram feitos com motorização e tração traseiras e o protótipo deste city-car foi apresentado no IAA – Salão Internacional do Automóvel de Frankfurt em setembro de 2007, ainda como projeto de estudo. Mas o desenvolvimento da tração traseira para esta plataforma já estava feito.

Esta foi a versão do Up! apresentada em 2007 em Frankfurt (7)


A estimativa do preço do G3 nos EUA seria de entre dez e doze mil dólares, mas este carro poderia se mais barato em mercados emergentes, como o nosso, a Índia, a China e assim por diante. A ideia básica seria de reeditar a saga do G0, voltando às raízes de um Carro do Povo.

Olhando para o passado da Volkswagen, com vistas a um carro pequeno com bom aproveitamento de espaço, vem logo à mente o estudo EA266, apresentado em 1969 feito para ser o sucessor da versão G0 do Fusca. Um verdadeiro campeão no quesito aproveitamento de espaço; basta ver este desenho esquemático e conferir o espaço para passageiros e o excelente aproveitamento de espaço para a carga:

Corte esquemático do estudo EA266 (6)


O EA266 era para ser um carro com 3,9 m de comprimento, suspensão dianteira MacPherson, duas ou quatro portas e uma grande tampa traseira. Os volumes dos porta-malas tinham: 300 litros o dianteiro e 340 litros o traseiro. Em sua versão mais potente ele teria um motor de 105 hp que faria de 0 a 100 km em 8,5 segundos com uma máxima de 190 km/h. O projeto não foi adiante por decisão de Rudolf Leiding, que encerrou a turbulenta carreira deste projeto na Volkswagen.

Este é o protótipo do EA266 e um dos dois que sobreviveram, e que faz parte do acervo do AutoMuseum Volkswagen de Wolfsburg (8)


A sugestão para o layout do Fusca G3 pode ser vista no esquema abaixo, e engloba os princípios que fizeram o Fusca G0 tão famoso, incluindo inovações como uma tampa removível no teto que quando retirada faria às vezes de um teto solar:

Layout do Fusca G3 (6)


Comparando com o EA266, existem algumas diferenças, mas basicamente é a mesma ideia. O condensador do ar condicionado e o radiador do motor foram colocados na dianteira, o tanque de combustível foi conformado para agir como piso do porta-malas dianteiro, e a tradicional forma arredondada do Fusca G3 oferece espaço para a cabeça dos passageiros do banco traseiro que é um pouco elevado para acolher o motor. Não é conceitualmente tão diferente do novo Renault Twingo, mas o motor seria montado mais para o centro do que para a traseira (está à frente da linha do eixo traseiro), o que deve ajudar a mitigar a tendência de subesterço (oversteer) e melhorar a dirigibilidade.

Como hoje em dia não existe na Volkswagen um motor esfriado a ar plano moderno pronto para uso, resta considerar para o G3 duas alternativas já existentes: o diesel de dois cilindros e 800 cc do Volkswagen XL1 para os mercados fora dos EUA e o de três cilindros de 1L do Up! atual para mercados em geral. O diesel seria aplicado especialmente em países como a Índia, onde carros pequenos a diesel são a regra geral; mas a sua potência de 50 hp certamente seria insuficiente para o mercado americano.

Este é o revolucionário XL1, recordista de economia de diesel, cujo motor poderia equipar a versão diesel do Fusca G3 (6)


O motor de 3 cilindros do Up! tem potência suficiente para torná-lo viável para competir com os carros de entrada do mercado americano. A economia de combustível deve ser fenomenal naquele mercado.

No que diz respeito ao transeixo com a transmissão, talvez seja possível adotar a solução e o desenvolvimento já investido no outro carro de motor central da marca, o BlueSport, ainda estagnado em estágio de protótipo há um bom tempo.

O BlueSport é um carro espetacular só que ainda não foi posto em produção, um desperdício. Ele poderia ser o doador do transeixo para o Fusca G3 (9)


Podemos dizer que a Volkswagen já tem a maioria dos componentes do hipotético Fusca G3 desenvolvidos de uma forma ou de outra, mesmo levando em consideração que certamente há muito trabalho a ser feito para adaptar estes motores e transeixos na plataforma do Up!. Isto não parece ser nem uma missão impossível, tampouco seria um fator impeditivo para o projeto. Há pontos críticos neste processo, como a instalação do motor, o projeto da parede corta fogo e o consequente gerenciamento do controle da temperatura e do ruído na parte interna do carro.Eis o simpático esboço do Fusca G3, que seria mais pé no chão do que as versões G1 e G2, sendo um Fusca de raiz! (6)


Para tornar o projeto viável seria interessante fazê-lo da maneira mais simples possível, espartano mesmo, mas com todos os itens de segurança e conforto mínimos. O Fusca G3 precisa ser tão robusto e livre de preocupações quanto possível.

Por exemplo, os para-choques deveriam ser de borracha e/ou plástico preto e sem pintura, e sem opção de pintura de fábrica. É para ser espartano mesmo, e isento de custos altos para repintar para-choques arranhados e levemente danificados por encostadas.  Seguindo esta linha, o que eram os estribos no G0, passariam a ser fortes borrachões para evitar arranhões e pequenos danos à pintura.

De fábrica deveriam ser fornecidos somente aros de aço. E no interior, ao invés de carpetes, tapetes de borracha fáceis de limpar. Talvez devesse haver um dreno no chão para ajudar na limpeza e em situações adversas. Tudo deve ser suficientemente confortável e bem feito, e projetado com ênfase mais para durabilidade do que para o luxo.

Ai cada um faria a sua festa conforme o seu gosto e posses. Itens como rodas mais sofisticadas, para-choques pintados na cor do carro, ou tampas para a abertura do teto mais sofisticadas (teto solar de lona ou acrílico), e assim por diante. Os fornecedores do mercado de reposição e acessórios poderiam assumir os itens de customização que os compradores deste carro espartano gostariam de instalar.

Mas as versões de fábrica seriam limitadas ao tipo de motorização, o restante seria um pacote único – afinal de contas esta seria a reedição do carro do povo e seu custo deveria ser o menor possível.

Até mesmo o painel e os controles deveriam se adequar à esta filosofia. O painel seria modelado acompanhando o desenho do painel do Fusca G0, e o painel de instrumentos principal seria um painel LCD retro iluminado monocromático, talvez de baixa resolução. Estes LCD’s são baratos e são muito flexíveis de maneira a poder exibir qualquer coisa que você precisasse ver. Todos os controles de infotainment/navegação e outros seriam manipulados através do seu smartphone (no protótipo do Up! de 2007 esta função ficava por conta de um tablet). Haveria uma unidade especial de encaixe deslizante no painel para alojar e conectar o smartphone. Um aplicativo seria ativado quando o smartphone fosse encaixado e forneceria a você todos os controles necessários.

Croqui com sugestão para o painel, com o jeitão do conhecido painel do Fusca G0 (6)


A ideia seria que este novo Fusca G3 continuasse onde o original, G0, parou. Seria projetado com honestidade, com objetivos claros e mínima pretensão. Seria leve e simples e divertido de dirigir. Os carros deveriam ser baratos o suficiente para que as pessoas se sentissem livres para personalizar e experimentar, assim como fizeram com o Fusca G0 original. Seria o primeiro carro ideal, ou, talvez, um segundo ou terceiro carro muito útil para as famílias.

O Fusca G3 Beetle renasceria em com uma reputação e status icônicos, o que o libertaria de ter que tentar encontrar alguma identidade nova. Essa liberdade significa que ele não precisaria se esconder atrás de muitos subterfúgios artificiais. Seria livre para ser uma ferramenta de transporte a ser usada sempre que você necessitar dele, e que teria uma aura de diversão intrínseca.

Para manter a aparência alegre dos bons tempos ele deveria vir em uma grande variedade de vibrantes cores interessantes, ter opções divertidas para a cor e o design de acabamento interno (a ser feito com materiais baratos e robustos) e, acima de tudo, tornar-se um carro que você poderia realmente amar, simplesmente porque é apenas o que é.


Créditos
(1) Site Net Car Show

(2) Site filipino Kotse Dude (desenho revisto do Fusca por Rodrigo Losano)
(3) Site oficial da Volkswagen AG
(4) Site do Irmão do Décio
(5) Acervo do Autor
(6) Site Jalopnik
(7) Site Heise Online
(8) Wikipédia
(9) Site Sport Car Garage

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Alexander Gromow

Ex-Presidente do Fusca Clube do Brasil. Autor do livro EU AMO FUSCA e compilador do livro EU AMO FUSCA II. Autor de artigos sobre o assunto publicados em boletins de clubes e na imprensa nacional e internacional. Participou do lançamento do Dia Nacional do Fusca e apresentou o projeto que motivou a aprovação do Dia Municipal do Fusca em São Paulo. Lançou o Dia Mundial do Fusca em Bad Camberg, na Alemanha. Historiador amador reconhecido a nível mundial e ativista de movimentos que visam à preservação do Fusca e de carros antigos em geral. Participou de vários programas de TV e rádio sobre o assunto. É palestrante sobre o assunto VW com ênfase para os resfriados a ar. Foi eleito “Antigomobilista do Ano de 2012” no concurso realizado pelo VI ABC Old Cars.

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