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Automóveis e auto-imóveis

Há algum tempo eu conversava pela internet com Portuga Tavares, quando surgiu como assunto aqueles carros que nunca rodam. Chegamos à conclusão que esse tema seria ótimo para um artigo. Fiquei esperando para ver se ele escreveria alguma coisa nos meses seguintes, mas como isso não aconteceu, estou me atrevendo a eu mesmo dar minha opinião sobre isso.

Vamos começar falando da palavra “automóvel”, cujo real significado muitas vezes não nos damos conta. Todo mundo sabe que antes do automóvel, o mundo era movido por veículos de tração animal. Ou seja, veículos que precisavam de um “parceiro” para se movimentar, geralmente o cavalo. Com o advento dos motores, primeiro a vapor, depois a combustão interna, esses veículos passaram a se mover sozinhos, sem a ajuda do tal “parceiro”. Daí o nome “veículo auto móvel”, ou seja, que se auto-movimenta, que se move sozinho.

Qual é a graça de ter um, dois, três, uma coleção inteira de clássicos na garagem, sem ter o prazer de sentir a satisfação, o extase de estar por trás do volante, sentindo aquele gostinho de nostalgia, de volta ao passado?

Então, penso que está na essência, na “alma” do automóvel, se movimentar. É um sacrilégio priva-lo de fazer o que foi fabricado para fazer e que imagino que para ele deva ser um enorme prazer: simplesmente rodar!

Há pouco tempo, presenciei num encontro de automóveis antigos no interior de Minas Gerais a seguinte cena: um magnífico “musculoso” americano dos anos 60 — carro impecável, recém restaurado — que havia vindo do Rio de Janeiro trazido por um caminhão-prancha, ficou sem bateria por falta de uso, privando seus admiradores de ouvir o belo ronco de seu V8. Isso aconteceu porque ele saiu de sua garagem direto para a prancha. Soube depois que jamais rodava, nem mesmo em passeios curtos nos domingos de sol. Um verdadeiro “auto-imóvel”.

Fico pensando em seu proprietário. Qual é a graça de ter um, dois, três, uma coleção inteira de clássicos na garagem, sem ter o prazer de sentir a satisfação, o extase de estar por trás do volante, sentindo aquele gostinho de nostalgia, de volta ao passado, num carro que já percorreu muito asfalto e que com certeza passa essas sensações para quem tem o prazer de dirigi-lo? Definitivamente não é esse o espírito do verdadeiro antigomobilismo!

Fico aqui me lembrando daqueles três amigos do Piauí que este ano se aventuraram a ir de Teresina a Águas de Lindóia, cada qual com seu respectivo “velhinho” (Jeepster 1949, Chevrolet Brasil 1963 e Ford Fairlane 1963), apenas pela satisfação de participar do maior encontro do Brasil. Rodaram, ida e volta, mais de 4.200 quilômetros! Chamaram de “Viagem dos Sonhos”. Lembro também do José de Mattos que conheci no último final de semana. Foi de Brasília a Caxambu-MG com sua Vemaguet 1967 para o encontro dos DKWs. Antigomobilistas!

Defeitos e imprevistos, sempre hão de acontecer. Afinal são carros antigos e até os modernos quebram. Mas aí é que está a graça da coisa. Senão, o que recordar? O que contar depois aos amigos?

É claro que existem inúmeros casos em que a prancha é indispensável. Não faz sentido, por exemplo, fazer uma viagem de 300, 400 quilômetros a bordo de um quase centenário Ford A. Seria cansativo para seus ocupantes e desgastante demais para a velha máquina. Há também o colecionador que resolve levar diversos carros a um determinado encontro. O caminhão é a melhor saída, sem dúvida.

Mas não são desses casos que estou falando. E sim daqueles em que o automóvel, mesmo tendo todas as condições para belos passeios, são tristes prisioneiros em suas garagens.

 

 

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Fernando Barenco

É editor do Portal Maxicar. Emails para essa coluna: fernando@maxicar.com.br

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