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Claudio Larangeira: alvo de tiros e o registro em carteira

Claudio Larangeira

Esta é apenas uma das passagens da brilhante carreira de Claudio Larangeira, um dos mais destacados e premiados repórteres fotográficos que cobrem a indústria automobilística brasileira

Essa e outras histórias me fazem refletir que até parece que existe uma lei que determina que, para fotografar carros, o acesso é livre somente a profissionais dotados de elevado nível de criatividade, bom gosto, oportunismo, argúcia, coragem, muita exigência com a qualidade e até sacrifício para conseguir imagens que transmitam emoção e sejam a alma da informação transmitida. Ou seja, um homem de tempera, fortaleza física e mental.

O episódio dos tiros aconteceu em 1973, quando, ao realizar com o repórter Nehemias Vassão uma viagem de pesquisa ao litoral santista à procura do automóvel Volkswagen Brasília, que estava para ser lançado no mercado brasileiro, encontrou o veículo recheado de diretores da Volkswagen que decidiram realizar uma avaliação do novo produto antes do lançamento, ocorrido em junho daquele ano.

Foi a oportunidade para fotografar o carro com uma lotação enriquecida pelo presidente da empresa, Rudolf Leiding, que figurava na lista das personalidades a serem sequestradas por uma organização terrorista. Para quem não era ainda nascido, entre os anos de 1970 e 1980, o sequestro era um crime que assombrava alguns dos principais executivos e empresários no País, ainda mais representantes de multinacionais estrangeiras.

“Claudio Larangeira foi o fotógrafo brasileiro que mais vezes participou da cobertura do Camel Trophy”

Mas como a segurança da Volkswagen estava preparada para qualquer ação de proteção aos participantes, perseguiram o carro dos repórteres e ao alcançá-lo dispararam tiros, perfurando a carroceria do veículo, o que motivou a ida de todos à delegacia de São Bernardo do Campo para o registro da ocorrência.

Depois de alguns dias, ao chegar à revista Quatro Rodas e entrar no elevador, Claudio Larangeira surpreende-se com a presença de Victor Civita, principal proprietário do império Abril, segurando a guia do cão que sempre o acompanhava e ainda mais ao ser perguntado se era o fotógrafo vítima dos tiros dos seguranças da Volkswagen.

Ao saber que não era funcionário registrado, mas simplesmente free-lancer, recebeu o conselho que deveria pedir a seu chefe que providenciasse o seu registro. Larangeira, no seu respeito ao todo-poderoso da Editora Abril, aproveitou para pedir a ele que fizesse a sugestão, que foi obedecida imediatamente.

Fórmula 1

O mais surpreendente é que, naquela época, como free-lancer Claudio Larangeira não tinha vida fácil. Lembro que logo antes desse fato, ele acertou fotografar a corrida do Campeonato Mundial da Fórmula 1, realizada no final de janeiro, na Argentina, para a revista Quatro Rodas. Foi sua primeira viagem internacional de trabalho.

“Utilizando uma folha de cartolina, Larangeira fez um orifício e com a ajuda de uma luz produziram uma foto empolgante, melhor que as originais e tiveram a ideia de transformá-la em cartão de Natal”

Com a preocupação natural de quem viaja sozinho a um país que visita pela primeira vez e sem saber se o dinheiro disponível cobriria toda a conta, além de uma viagem solitária, ao desembarcar no aeroporto de Ezeiza e sem ter planejado como iria até o centro de Buenos Aires, viu Oswaldinho Palermo, fotógrafo do jornal O Estado, que havia ido ao aeroporto para despachar filmes que havia operado nos treinos dos pilotos.

Foi um grande alívio: correu atrás do colega de trabalho e soube qual o hotel em que deveria se hospedar. Para sua surpresa, era no Sheraton, o mais moderno da cidade, recém-inaugurado e que um amigo argentino conseguiu diárias com preço de cortesia. “uma sorte incrível”, comentou Larangeira.

Claudio Larangeira e o Camel Trophy

Claudio Larangeira

Claudio Larangeira foi o fotógrafo brasileiro que mais vezes participou da cobertura do Camel Trophy, realizado na Amazônia, em 1984; Bornéu, na Indonésia, em 1985; Austrália, em 1986; Madagascar, em 1988 e, novamente na Amazônia, em 1989. Nas duas vezes que acompanhou o Camel Trophy na Amazônia, Larangeira comprovou as virtudes que possui para desafios extremos, transformando-se em um dos homens dos infernos verdes.

O Camel Trophy foi uma caravana desafiadora, própria para homens de coragem e que amam o sacrifício, organizado pela marca de jipes britânica Land Rover que, atravessou a Floresta Amazônica, num evento off-road (fora de estrada) dos mais lendários. Essa caravana, criada para homens de verdade, era uma corajosa promoção da marca de cigarros Camel e apoio da Land Rover que aproveitou para demonstrar o nível de resistência de veículos e de pessoas e testar os limites dos jipes e, principalmente, dos participantes.

Diferente das viagens cheias de regalias e mordomias realizadas pelas fabricantes de veículos, por exemplo, com agradáveis e confortáveis entretenimentos promocionais, a participação do Camel Trophy era um sacrificante desafio por exigir trabalho intenso, sem conforto e que obrigava os participantes a cuidarem da própria alimentação, bebidas e até montagem das barracas para repousarem por algumas horas antes de partirem para mais um dia de sofrimento.

Cometa Halley

Mas a história de Claudio Larangeira tem algo a mais que o ajudou a vencer os obstáculos próprios de uma profissão tão exigente: o amor que o uniu a sua mulher Cleide, que entendeu a exigente atividade do marido, de enfrentar perigos naturais, seguidas viagens pelo mundo, enfrentando frio congelante, sol escaldante, alimentar-se quando possível e dormir, em qualquer espaço onde pudesse acomodar seu corpo, muitas vezes exausto.

Nas retribuições que dedicava a Cleide, como recompensa aos seus momentos de ausência, Larangeira a levava em algumas viagens de trabalho ou de entretenimento. E, entre os anos de 1985 e 1986, surgiu a notícia de que o cometa Halley brilharia no céu brasileiro o que incentivou o casal (naturalmente acompanhado pelos dois filhos) a fotografá-lo para sempre lembrarem da ocorrência do fenômeno.

Fizeram uma pesquisa para identificar um local bem escuro, que pudesse realçar a luz do cometa e optaram pela região de Peruíbe por ser considerado o município mais indicado por ter um histórico de várias ocorrências de aparecimento de ovnis (objetos voadores não identificados), o que levou a Prefeitura local a adotar um programa de turismo ufológico.

Apesar da imensa expectativa criada pela presença histórica do Halley o cometa foi uma decepção, assim como as fotografias produzidas por uma infinidade de profissionais e artistas. Mas Larangeira e Cleide tiveram a ideia de registrar o fenômeno. Utilizando uma folha de cartolina, Larangeira fez um orifício e com a ajuda de uma luz produziram uma foto empolgante, melhor que as originais e tiveram a ideia de transformá-la em cartão de Natal, muito apreciada por quem teve a sorte de o receber.

O sucesso do cartão do Halley, motivou Larangeira e Cleide a presentearem os amigos com a transformação da fotografia em cartões de Natal e eu tive a sorte de ser um dos amigos premiados. Que saudade sinto das fotos de Larangeira, principalmente da do cometa Halley que, de tão bela e sugestiva, alguém deve tê-la furtado. Me falta a foto do cometa, mas ainda guardo outras que me transmitem muita emoção.

Cláudio sempre foi e ainda é apaixonado por fotografia e pelas publicações às quais serviu com sua arte. Suas imagens, história e carreira estão registradas nas revistas Quatro Rodas, AutoEsporte, Motor Show e Revista Carro, entre outras.

Luiz Carlos Secco
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Luiz Carlos Secco

Trabalhou de 1961 até 1974 nos jornais O Estado de São Paulo e Jornal da Tarde, além da revista Auto Esporte. Posteriormente, transferiu-se para a Ford, onde foi responsável pela comunicação da empresa. Com a criação da Autolatina, passou a gerir o novo departamento de Comunicação da Ford e da Volkswagen. Em 1993, assumiu a direção da Secco Consultoria de Comunicação.

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