Repórter Maxicar

Fordlândia: o sonho (e o fracasso) de Henry Ford na Amazônia

Fordlândia
Espalhe por aí!

Nos anos 1920 Henry Ford queria produzir no Brasil boa parte da borracha então consumida no mundo. Assim nascia a sua cidade industrial, encravada na Floresta Amazônica

 O ano é 1926 e a Ford Motors Company ainda desfruta do sucesso do mítico Modelo T, que lançado em 1908, representou uma verdadeira revolução na arte de produzir e vender automóveis, transformando-o num produto mais acessível à população em geral. Mesmo com suas vendas em queda — já que havia opções mais modernas à disposição — o T estava prestes a alcançar a incrível marca de 15 milhões de unidades fabricadas. Mas já havia passado a hora de a Ford apresentar algo mais atual, o que aconteceria no ano seguinte com o Modelo A, que acabaria fazendo também muito sucesso, apesar de ter tido uma curta vida de apenas cinco anos.

Ford: 50% da frota mundial

Fordlandia

Linha de montagem do Ford Modelo T em 1923


Nessa época, nada menos que metade dos automóveis em circulação em todo o mundo tinham a marca Ford. Uma grande produção de automóveis demandava uma grande produção de pneus e outras peças cuja matéria prima era a borracha. O produto era produzido em larga escala no Sudeste Asiático e supria a maior parte do mercado mundial, inclusive o de Detroit, incluindo entre os clientes a Ford. O monopólio era inglês, com imensos seringais plantados sobretudo em Singapura, Malásia e Indonésia — ironicamente, com sementes importadas da Amazônia.

Com seu costumeiro espírito empreendedor, Henry Ford decidiu que era hora de se livrar da dependência britânica e produzir ele mesmo seus próprios pneus. E os planos eram ambiciosos: atingir a médio prazo a marca de 50 milhões de pneus por ano, suprindo não apenas a sua própria demanda, mas também a de outras fabricantes de automóveis.

Nasce a Fordlândia

Fordlândia, em imagem aérea de 1934


Após um estudo prévio de viabilidade econômica de se produzir látex em larga escala no Brasil, a Ford compra no Pará uma área de terra com 1 milhão de hectares às margens do Rio Tapajós, que pertenciam a Jorge Dumont Villares. E o fazendeiro não abriu do “jeitinho brasileiro”. Aquelas terras que ele havia recebido de graça do Governo Brasileiro tinham o solo pobre e pedregoso, o que as tornava inapropriadas para o cultivo de seringueiras. Mas — sem nenhuma experiência no assunto — os executivos da montadora norte-americana desconheciam esses detalhes. A floresta foi derrubada, casas de operários e dirigentes foram construídas. Foi criado em plena Floresta Amazônica um típico subúrbio americano. Nascia assim a Fordlândia.

A cidade contava com todos os confortos que eram inimagináveis naquela região, como um moderníssimo hospital, piscina e até campo de golfe. Rapidamente, grande parte da área foi tomada pelos seringais, com árvores plantadas lado a lado, bem próximas umas das outras. Naturalmente, o progresso e a promessa de uma vida melhor atraíram pessoas de todas as partes, principalmente os nativos da região. Em pouco tempo Fordlândia já possuía 5 mil habitantes. Todos queriam trabalhar para a Ford!

No entanto, tentou-se implantar ali o famoso ‘american way of life’, ou seja, o modo de vida americano. Muitas regras, horários, relógios de ponto… Nos refeitórios hamburgeres, hot dogs, espinafre e purê de batatas eram a base dos cardápios. Bebidas alcoólicas e jogos de azar eram terminantemente proibidos. Nos bailes de fins de semana, a música e a dança eram exclusivamente norte-americanas. Naturalmente os caboclos não se acostumavam a esses costumes importados. Queriam mais liberdade e manter seus próprios hábitos. Queriam feijão, peixe e farinha no prato. A insatisfação acabou gerando uma rebelião em 1930. Mas esse seria apenas um dos problemas de Fordlândia…


A praga e a baixa produção

Apesar dos milhões de árvores plantadas e de todos os recursos empregados, a produção do látex nem de perto conseguia alcançar os números inicialmente esperados. As seringueiras eram constantemente atacadas por um fungo chamado de “mal das folhas”, que dizimavam grandes áreas da plantação.

O segredo do sucesso das plantações asiáticas estava justamente na ausência desse predador, o que permitia que as árvores pudessem ser plantadas bem próximas umas das outras. Na Amazônia, as seringueiras são naturalmente protegidas das pragas pela própria floresta e pela distância entre árvores, o que não permite que elas de disseminem. Mas os técnicos da Ford também desconheciam isso. O solo pouco fértil contribuiu para piorar ainda mais a situação. Faltava em Fordlândia um especialista em biologia.

Fordlândia: a mudança e o fracasso

Em 1932 foi contratado o botânico James R. Weir. Depois de quatro anos tentando aumentar a produtividade do projeto, Weir sugeriu que ele fosse transferido para outro local. Foi escolhida a região de Belterra, há cerca de 50 quilômetros de Santarém. Lá as condições climáticas e do solo eram mais favoráveis para o cultivo da seringueira, já que era menos suscetível a pragas. Foram importadas do Ceilão (hoje Sri Lanka) mudas mais resistentes. Uma nova cidade, menor que a Fordlândia original, foi erguida.

Durante os seis anos seguintes o empreendimento conseguiu se manter, mas longe de alcançar o êxito esperado inicialmente. Depois da II Guerra Mundial, surgiram novas tecnologias que permitiram a fabricação de pneus a partir de derivados de petróleo, o que significou a derrocada dessa iniciativa de Henry Ford. O prejuízo chegou a US$ 20 milhões, uma quantia astronômica na época.

O Governo Brasileiro comprou da Ford por US$ 250 mil as instalações das duas cidades (a Fordlândia original e Belterra). Entre outras coisas, entrou no negócio dois hospitais, seis escolas básicas, estações de tratamento de água, portos pluviais, uma estação de rádio, estradas, duas mil casas, entre outras benfeitorias, além de dois seringais. Em compensação, a União teve que assumir todas as indenizações e encargos trabalhistas devidos.

Fordlândia hoje


Atualmente, boa parte das instalações originais da cidade não existe mais ou está em mal estado de conservação. No entanto, Fordlândia resiste! De acordo com o último senso do IBGE, vivem na região 1.200 pessoas.

Fordlandia é um importante pedaço da história da indústria automobilística mundial, que aguarda um possível tombamento pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Vamos torcer!

Pesquisa, texto e edição: Fernando Barenco


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