Coberturas

Amelia Island 2018 – Flórida, EUA

Emerson e seus carros históricos

Um placa preta no gramado

O piloto brasileiro Emerson Fittipaldi foi o grande homenageado desta edição

Amelia Island é parada obrigatória para o verdadeiro entusiasta de automóveis antigos, automobilismo histórico ou a pura paixão pelas 4 rodas. Integra o circuito mundial dos Concours d’Élégance, ao lado de Villa D’Este na Itália, Autoclasica na Argentina e Pebble Beach, também nos EUA. Esses grandes encontros de colecionadores reúnem o créme de la créme das coleções mundo afora. Infelizmente, no Brasil as grandes coleções só são mostradas em Araxá, MG, bienalmente. História da nossa vida.

Um infortúnio. Devido ao péssimo tempo previsto pela meteorologia para o domingo, o que para variar não aconteceu, pois o 11 de março foi lindo, na quinta-feira anterior a organização decidiu antecipar para sábado o Amelia Island Concours d’Elégance, o ponto alto do final de semana. Muitos aficionados das cercanias foram pegos de surpresa e, ou não compareceram, ou perderam uma grande parte do evento pela antecipação, impedindo e cancelando o empolgante encontro dos clubes de marcas realizado tradicionalmente nos sábados. Agora só em 2019.

McLaren F1 e Penske de Fórmula indy

Amelia não premia apenas automóveis de uso normal, mas incentiva a preservação dos participantes em corridas, e neste segmento, como tradição, em 2018 homenageou um reconhecido piloto de corridas, desta vez o primeiro piloto brasileiro da nossa era de ouro. Um grande campeão em várias categorias, Emerson Fittipaldi teve brilhante carreira no Brasil, foi o 1o brasileiro a se consagrar campeão na Fórmula 1 em 1972, repetindo-o 2 anos após. Ele abriu caminho à inclusão do Grande Prêmio Brasil no circo da Formula 1, sendo decisivo na introdução de sequencia de Brasileiros na categoria, como Piquet e Senna.

Sempre foi um apostador all-inner. Com a carreira no ápice em 1975 embarca com seu irmão Wilsinho no sonho de construir um carro e ser dono de equipe de Fórmula 1. Uma coisa absolutamente improvável. Em 1976 lança à mesa todas as suas fichas e torna-se piloto da própria equipe. Acredite, ao contrário do que reza o imaginário popular, conseguiu excelentes resultados, mas a política matou o sonho. Assunto para outra rodada. Após a arremetida dos patrocinadores a equipe acaba em 1982. Ele perdeu a aposta.

Arruinado, foi redescoberto como piloto no campeonato da CART de Fórmula Indy, onde em 1989 tornou-se o primeiro piloto a vencer o campeonato, incluindo em seu cartel o 1o lugar na mítica prova Indy 500 daquele ano. No lugar mais alto do pódio da Indy 500 em 1993 protagonizou a antológica cena ao substituir protocolar garrafa de leite por outra de suco de laranja vindo de suas plantações. Nos EUA Emerson ficou conhecido como Emmo, e por esse apelido foi chamado por seus incontáveis fãs estadunidenses em Amelia Island.

Um homem que fincou tantos fatos inéditos no consagrado automobilismo brasileiro e mundial, que já foi reverenciado e homenageado com nome de automóvel, relógio, pela Maclaren Team, Kawasaki e tantos outros, contrasta com a falta de reconhecimento em sua terra natal. Esse reconhecimento agora lá que não tem cá o levou às lagrimas em público. Emmo-cionante.

Emerson, ou Rato para os íntimos, foi figura presente e simpática nos dias viáveis nos belíssimos gramados do Campo de Golf do Ritz Carlton, onde ocorre a exposição. Em meio às diversas ilhas temáticas de esportivos, carros pré-guerra das décadas de 1920 e 30, elétricos, Cadillacs, Ferraris, Porsches, entre outros e expositores comerciais como Alfa Romeo, MacLaren e Jaguar, reluzia a ilha dedicada ao homenageado que distribuía sorrisos e autógrafos. Perguntado e instigado por um fã, contou duas de suas aventuras: um leve acidente nos  Mil Quilômetros de Brasília de 1966, pilotando uma Giulia SZ, e um acidente gravíssimo em Buenos Aires com Alfa Romeo P33, do qual escapou por um fio.

Os absolutamente impecáveis carros expostos na ilha privada, a maioria vencedores, foram:

1 –  Lotus  72/5 de 1970, com a qual conquistou sua primeira vitória em um grande prêmio em Watkins Glen, impedindo que Jacky Ickx superasse os pontos já conquistados por seu companheiro de equipe, Jochen Rindt, tornando este o único campeão póstumo da F1.

2 – McLaren M23/009 de 1975. Neste ano Emerson subiu no pódio seis vezes, sendo duas em primeiro lugar e 4 em segundo lugar, ficando em segundo lugar na temporada.

3 – Porsche 911 RSR IROC de 1974. Com este automóvel participou da 2ª. edição da International Race of Champions. O IROC foi criado por Les Ritcher, Roger Penske e Mike Phelps para ser equivalente ao American All-Star, reunião dos notáveis de cada esporte em cada ano há décadas. Emerson disse, após ter usado o automóvel no IROC, o traficante Pablo Escobar arrematou-o para sua coleção privada na Colombia. Anos depois, e após sua morte, o carro voltou aos EUA.

4 – IROC Chevrolet Camaro Z28 de 1977, assim como o Porsche de 1974 foi usado no International Race of Champions em sua sexta edição. Ele foi também dirigido por Al Unser Sr., Bobby Allison, Johnny Rutherford, entre outros notáveis.

5 – McLaren MP23/5 de 1974. Neste ano e com este carro Emerson se sagrou campeão de uma das temporadas mais marcantes da Formula 1. A McLaren de numero 5 decidindo o campeonato na última corrida do ano sobre a Ferrari de Clay Regazzoni.

6 – March 86C de 1986. Com ele conquistou sua segunda vitória na Fórmula Indy, em 28 de julho nas 500 Milhas de Michigan.

7 – Penske PC-18 de 1989. Nesse homenageado conquistou as 500 milhas de Indianapolis, e se tornou campeão da Indy 500.

 8 – Penske-Mercedes PC-23 de 1994. Com este carro Emerson venceu apenas uma vez, em Phoenix, mas fez duas poles e 4 melhores voltas, tomando o segundo lugar geral no campeonato, atrás de seu companheiro de equipe Al Unser Jr., em uma temporada impecável.

9 – Renault R8 Gordini de 1965. Pilotado por Emerson, seu motor é 4 cilindros Renault de 103 HP e 1100 cm3, imortalizado nas cores da Equipe Willys.

A curiosa Placa Preta

Os irmãos Marx, Fittipaldi e Paulo ‘Louco’ Figueiredo

Qual foi a surpresa do pequeníssimo grupo de brasileiros presente quando ao longe se vislumbrou o R8 Gordini Amarelo? Esse automóvel é raro no Brasil, importado para sondagem de mercado. As cores da Equipe Willys e estar próximo ao sitio do Emerson entregaram o amarelo ouro. É brazuca! Ao me aproximar do carrinho observo que figura como veículo antigo aos olhos do Código Brasileiro de Trânsito, com sua placa com os cinzentos “EJC-6045” e “SP-São Paulo” inscritos na profunda cor do breu. Como isso chegou aqui? Todos se perguntavam.

Eis que ao longe se aproximam Maurício Marx e Paulo “Louco” Figueiredo, envergando suas camisas do Universo Marx em um áureo tom mais claro. O Universo Marx, para quem não sabe, é local de preservação da história do automobilismo e antigomobilismo nacional. Ufa, ainda é acervo nacional!

Tal fato, sendo este o primeiro carro Brasileiro a figurar em um Concours d’Élégance, deveria orgulhar Dr. José Roberto Nasser. Sua iniciativa pessoal, nos idos de 1985, para criar legislação reconhecendo essa categoria não só incentivou como determinou a preservação dos automóveis de interesse histórico. Agora esses salvados do tempo são conhecidos e principalmente reconhecidos internacionalmente, deitados eternamente no local mais aconchegante do berço esplendido, Brasil.

Maurício, figura de rara simpatia, sugeriu que deveríamos, como país, ter mais incentivo para esse tipo de participação cultural, e que, como tudo por aqui, a exportação temporária do bólido cinquentenário foi um parto complicado. Dezenas de documentos para cá e formulários para lá, e muita gente dando tapinhas nas costas, apoio moral e nenhuma ação em vetor aditivo. Ao fim e ao cabo, o empenho pessoal e irrestrito, somado a ousadia do pessoal do Universo Marx empurrou o carro por mais de 5.000 km e abriu um caminho a ser seguido. Como o Emerson fez lá naquele dia quente de julho de 1970 em Brands Hatch. Se mais brasileiros acreditarem e ousarem, a história se repete e em alguns anos teremos tempos incríveis nos Concours do mundo, como aconteceu na F1.

A brasilidade esteve em alta, mas teve espaço para todo mundo. Folga ao entusiasmo nacional.

O show de Bill Warner, idealizador de tudo e chairman da Amelia Foundation que ancora o movimento, foi espetacular mais uma vez. Alguns pontos altos, em meio a toda beleza incondicional presente, merecem menções.

Uma sequencia de carros fez homenagem em segundo plano para Ed “Big Daddy” Roth. O desenhista, designer e construtor de hot rods, que parecem emergir de um cartoon, foi uma lenda nos anos 1950 e 60. Criou icônicos carros que povoaram o imaginário da juventude Beatnik. Tudo inspirado na diversão perigosa e caricata de seu principal personagem: o grotesco Rat Fink.

Beatnik Bandit I

Muitos cromados, fibra demasiadamente curva e fluida, grandes rodas e cúpulas de acrílico. Amplos motores com alavancas de marchas excessivamente altas. Tudo faz referência ao Outlaw, sem ser, é pura plástica. Essa magia estava no primeiro lote de Hot Wheels da história, lançado em 1968 pela Mattel. Ali tinha justamente o dedo de Big Daddy. Ao que parece o midas do impossível deixou sua marca para sempre nesse ícone do colecionismo da Cultura Pop. O carro em questão, que inspirou o die-cast, estava em carne e osso no evento.

Um set de carros da Martini Racing foi disposto lado a lado, mostrando um bom bocado da história dessa tantas vezes campeã equipe de competição. Direto do Museu da Porsche foi o Porsche 917K short-tail de 1971 que ganhou Le Mans naquele ano, nas mãos do Dr. Helmut Marko e de Gijs van Lennep. Na categoria Rally Grupo B, subcategoria mais importante deste seguimento, estava o mais temido carro de todos os tempos: O Lancia 037. Qualquer pessoa que conheça um mínimo de rally dos anos 1980 conhece essa máquina de motor central e carroceria do inovador compósito com base no ainda pouco conhecido Kevlar. Vários outros exemplares do time formavam uma alameda com 8 carros e uma van de apoio, nas cores e listras da Martini.

Martini Racing

O evento demonstrou um claro movimento no crescimento dos classic centers de marca. O já bastante conhecido da Mercedes mandou uma bela Pagoda 280 SL e expos juntamente com sua tríade de flagships, AMG GT – Maybach – G Class, mostrando o valor que a marca dá para seus clássicos. O estande da BMW mostrava dois carros do Museu BMW e incitava os colecionadores da marca a trazerem seus carros para serem cadastrados. No Dealer “Classic Partner” que montou o estande para a Porsche eram distribuídos folders onde a marca reconhecia carros a partir de 10 anos já como clássicos. Claramente as grandes marcas identificaram a esteira da Mercedes como um bom nicho de mercado, repleto de pessoas dispostas a gastar com seus sonhos.

Os eventos paralelos, quase sempre leilões de clássicos, continuaram lá. Os resultados não foram muito satisfatórios segundo os organizadores. Certamente isso se deve à mudança da data do Concours d’Élégance, sufocou o dia tradicionalmente dedicado ao garimpo de pérolas a poucos quilômetros do Ritz.

Um dos autênticos Mustangs de ‘Bullitt’

Duas raríssimas pedras preciosas foram reservadas para a apresentação no mais importante evento da Costa Leste. O primeiro foi o Mustang imortalizado no filme “Bullitt” de 1968, descoberto com uma mesma família há dezenas de anos, sem que soubessem de sua especial característica de protagonista da tela grande. O outro foi apresentado pela primeira vez ao público nesses históricos gramados: o Shelby Lonestar. Ele foi um estudo sobre o chassi de um GT 40 desenvolvido em segredo para ser o substituto do sucesso Shelby Cobra 427, e chegou a ser internamente chamado de Cobra III. Um elegante esportivo, com carroceria targa e traseira no estilo Kamm-Back. Sua apresentação arrancou suspiros da plateia.

O Best of Show em Amelia premiou duas categorias: Concours de Sport, premiada separadamente desde 2005, e o próprio Concours d’Élégance.

A dupla “The Best’ de 2018

Na primeira categoria Best o grande vencedor foi a Ferrari 250/275P 1963 pertencente a The JSL Motorsports Collection, de Redwood City – CA. Essa Ferrari foi construída em 1963 sob o nome “250P” para ser competitiva no então recém-criado Campeonato Mundial de Protótipos. Neste ano ela faturou o primeiro lugar nos 1000 km de Nürburgring e nas 24 Horas de Le Mans. Nada mal. No ano seguinte, com a alteração do regulamento, seu motor original V12 de 3 litros foi substituído por um 12 cilindros de 3.3 litros e seu nome foi alterado para 275P. Por isso seu nome é híbrido.

Curiosamente o vencedor do Concours d’Elegance foi um também modificado Duesenberg J/SJ conversível produzido em 1929, do colecionador Harry Yeaggy de Cincinnati, Ohio. Note a designação hibrida. Originalmente foi produzido como um Modelo J, que levava o motor aspirado, de 420 polegadas cúbicas e duplo comando de válvulas sobre o cabeçote. Em algum ponto de sua existência, seu motor foi superalimentado, e designado SJ, com incremento considerável de desempenho. Além disso a carroceria originalmente feita pela Walter M. Murphy Co., celebrada empresa coachbuilder de Passadena dos anos 1920, mas foi levemente alterada pela empresa Bohman & Schwartz, composta por ex-funcionários da Murphy, usando a mesma estrutura fabril e se tornando “herdeira” dos clientes. Provavelmente no mesmo período da alteração no seu coração motriz. Por terem sido feitas na própria época do carro, provavelmente no início da década de 1930, e para seu proprietário original, o Sr. Edward Beale McLean, dono e editor do The Washington Post, esta alteração não comprometeu a relevância da unidade e garantiu-lhe o merecido prêmio.

Gostou? Pensa em ir para Amelia Island em 2019? Saiba que os brasileiros não descobriram Amelia ainda, mas o resto do mundo sim. Então pode começar a se programar. A reserva no Ritz-Carlton já está em fila de espera e quem participa e se hospeda em um ano tem prioridade para o próximo. Podemos fornecer o formulário para essa lista se desejar, solicite. Os sortudos que serão agraciados com o privilégio de poder ocupar uma de suas suítes, saberão em novembro de 2018.

Opções não faltam. A pitoresca e pequena ilha sofre de síndrome parecida com Águas de Lindóia ou Araxá. Seus pequenos e simples hotéis lotam com muita antecedência, costumam abrir reserva 6 meses antes, e cobram caro para quem não se adianta. Diária de um simplório Inn pode sair US$ 300 ou mais para os lanterninhas, dependendo da data da reserva. Recomendo três: dois Hampton Inns e o Confort Suites. Ficam em Fernandina Beach, distante poucas milhas do evento. O resto, sofrível, ficará para os retardatários. A cidade é agradável, tem muitas opções melhores, bons restaurantes e é mais em conta. Você se hospeda no Hayatt pelo preço de Inn, e são apenas 50 minutos de carro. Não é o mesmo que o Ritz mas é bem viável. Com todas as opções de voos para Orlando, distante 173 milhas num tapete de asfalto, e todas essas dicas só não vai quem é ruim da cabeça ou doente do pé.


ÁLBUM OFICIAL DE IMAGENS


Texto: Carlos E. Garcia, o Casé
Fotos: Carlos E. Garcia e Deremer Studios
Edição: Fernando Barenco
Agradecimentos a José Roberto Nasser

 

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