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Será este o elo perdido? – Parte 2

Sabe o leitor aquela velha questão de história mal contada? Pois bem, por mais que eu me interesse pela história da Volkswagen, especialmente no Brasil, estudei e pesquisei muito, sempre achei que faltava um elo na sequência de fatos que levaram os planos para a consolidação da marca no nosso país a uma súbita mudança de rumo em relação a Brasmotor, deixando a Volkswagen de aqui ser representada para se tornar atuante como filial. Nunca entendi muito bem por que e como que isso veio a acontecer — até que uma oportunidade de descobrir novas informações surgiu.

Com a primeira parte deste artigo  foram transmitidas as informações referentes à Brasmotor e a sua participação na vinda do Fusca para o Brasil e os primeiros e importantes passos que foram dados na implantação da marca em nosso país. Com isto fica claro o quão importante a Brasmotor foi para que o Fusca fosse bem-sucedido no Brasil.
A segunda parte da matéria começou de uma maneira indireta e se transformou em um trabalho de pesquisa histórica investigativa.

Na análise da foto que aparece na matéria “18 de novembro de 2009: Cinquentenário da inauguração da Fábrica Anchieta da Volkswagen”  a busca da identificação da pessoa que está ao lado do Lucio Meira na foto da visita do Getúlio ao galpão da Volkswagen no Ipiranga, eu cheguei à conclusão que poderia ser o Olavo Egydio de Souza Aranha Junior (a confirmar). Isto acabou deflagrando a pesquisa cujas ramificações acabaram por revelar fatos que apresento nesta parte desta matéria.
Segue a foto que apareceu na matéria sobre a Inauguração da Fábrica Anchieta da Volkswagen – revisada mostrando o ambiente da área de montagem do Galpão da Rua do Manifesto, no Ipiranga em São Paulo/SP, com detalhes das Kombis que estavam ao lado dos Fuscas.

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Getúlio Vargas olha para o interior do carro – parado ao lado da porta do Fusca, atrás dele, Friedrich Wilhelm Schultz-Wenk, presidente da Volkswagen do Brasil, ao seu lado Lúcio Meira e ao lado deste está quem parece ser o investidor Olavo Egydio de Souza Aranha Júnior, do Grupo Monteiro Aranha, escolhido em detrimento do Grupo Brasmotor

Passando ao contexto desta matéria, veja a foto do grupo de amigos da Brasmotor e da Chrysler americana reunidos no dia 17 de junho de 1949 para a inauguração da fábrica da empresa, em São Bernardo do Campo, localizada na via Anchieta, no outro lado em relação de onde seria construída a primeira fábrica da Volkswagen no Brasil.

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Da esquerda para a direita: Cecil B. Thomas, da Chrysler dos EUA, e da Brasmotor Miguel Etchenique, Innocêncio M.G. Calmon e José Bastos Thomson – grande fã do Fusca

E os excelentes serviços prestados pela Brasmotor à introdução do Fusca no Brasil, tanto pela importação de carros prontos, como pela montagem de fuscas a partir de CKD’s, bem como pelo estabelecimento e nomeação formal da rede de representantes (que depois foram chamados de concessionários), não valiam mais nada? Será que estes esforços todos não deveriam ter sido levados em consideração pela Volkswagen e devidamente valorizados e valorados na hora da escolha?

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Nos tempos da “Lua de Mel” entre a Volkswagen e a Brasmotor: no aeroporto de Congonhas, da esquerda para a direita Schultz-Wenk, Nordhoff e Etchenique; visita de 1949

Será que a versão oficial (recursos maiores postos à disposição pelos Monteiro Aranha) é a versão real, ou melhor a completa?

Sim são muitas perguntas a serem respondidas e uma pesquisa que faço há muitos anos.

Uma pista que pode levar a informações complementares surgiu num livro que teoricamente não teria muito a ver com o assunto, mas acabou apresentando informações importantes. Trata-se do livro: “Cartas do Exílio: a troca de correspondência entre Júlio de Mesquita Filho e sua esposa Mariana”. Bem como cartas com outros contendores globais daqueles tempos, juntamente com artigos escritos por Júlio de Mesquita Filho e publicados em diversos países. Organizado por Ruy Mesquita Filho (neto de Júlio de Mesquita Filho). Este livro foi publicado pelas Editoras Albatroz, Loqüi e Terceiro Nome.

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Júlio de Mesquita Filho e sua esposa Marina

Daqui em diante vamos entrar num ambiente de pesquisa histórica que vai desaguar em uma carta enviada de Buenos Aires, em 12 de novembro de 1940, por Júlio de Mesquita Filho para o senhor Don Lawrence Duggan, de Washington, então recém empossado no cargo de Perito em Assuntos Sul-Americanos como colaborador direto do Secretário de Estado, senhor Cordell Hull. Acredito que para dar o contexto histórico que vai permitir entender a motivação que levou o Júlio de Mesquita Filho a escrever esta carta e a citar detalhes sobre o Olavo Egydio de Souza Aranha Junior é necessário dar um resumo sobre como foi este segundo exílio do então revolucionário Júlio de Mesquita Filho, franco e mui ativo opositor de Getúlio Vargas tanto que chegou a empunhar armas; durante a Revolução de 1932, ele serviu no Estado-Maior revolucionário de Cruzeiro, no vale do Paraíba, norte do Estado de São Paulo.

Segue o resumo histórico para contextualizar a carta em questão. Este material foi extraído do livro citado acima:

“O segundo exílio
novembro de 1938 a abril de 1943

A política de abertura iniciada em 1933, que permitiu a volta de Júlio de Mesquita Filho e sua família ao Brasil, teve curta duração. A Constituinte de 1934, os levantes comunistas, a campanha de Armando de Salles Oliveira à Presidência da República e o golpe de 10 de novembro de 1937, com que Getúlio instaurou o Estado Novo, são alguns dos acontecimentos que marcaram o cenário político do país.
No mesmo dia do golpe, Júlio de Mesquita Filho foi preso e logo libertado – mas essa foi a primeira de dezessete prisões sucessivas até seu embarque para o novo exílio, em 10 de novembro do ano seguinte, no navio francês “Lipari”.
Júlio foi exilado com vários correligionários, entre eles seu cunhado, Armando de Salles Oliveira, com quem permaneceu na França até abril de 1939, onde manteve encontros com vários políticos, entre os quais o general Pétain, herói da Primeira Guerra, que lhe disse que, apesar de a Alemanha ter o melhor exército da época, ainda preferia a cavalaria montada à mecanizada.
Às vésperas da eclosão da Segunda Guerra, Júlio seguiu para os Estados Unidos, onde foi recebido por várias autoridades e tentou obter o apoio dos norte-americanos na luta contra a ditadura Vargas. Dos Estados Unidos, seguiu de navio pelo Pacífico até o Chile e de lá por terra a Buenos Aires, onde viveu até a sua volta ao Brasil, em 1943.
Foi na capital argentina que começou outro martírio, a expropriação do jornal O Estado de São Paulo pela ditadura. A carta de 10 de novembro de 1937 estabelecia a censura prévia e Getúlio, por meio de seu interventor em São Paulo, Adhemar de Barros, decidiu silenciar o jornal O Estado de São Paulo; em 25 de março de 1940, o jornal foi ocupado pela polícia.
Em 1943, sem condições financeiras de manter-se no exílio, Júlio decide voltar para o Brasil, onde é preso ao chegar e libertado dois meses depois. Em seguida, em 9 de novembro, estudantes de Direito promovem uma passeata contra Getúlio Vargas e Júlio é novamente preso, embora não tivesse participado da manifestação. Getúlio quer exilá-lo mais uma vez. Ele declara que permanecerá no Brasil, ainda que na prisão. A ditadura, então, decide confiná-lo na Fazenda Louveira, de propriedade da família, onde permanece até a queda do Estado novo e a deposição de Getúlio em 29 de outubro de 1945. Pouco depois, em dezembro, o Estado voltaria às mãos de seus legítimos donos.
Durante este exílio, os filhos de Júlio ficaram no Brasil e o visitaram nas férias, enquanto Marina ia e vinha. As cartas e artigos desse período incluem várias informações relevantes para entender o Brasil da época.”

 

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Foto da família Júlio, Marina e os três filhos – Júlio, Ruy e Carlão, da esquerda para a direita – no porto de Buenos Aires, durante o segundo exílio

Isto posto e, agora, conhecendo o contexto histórico vamos à parte desta carta que está na página 211 deste livro e que trouxe à tona a revelação que pode ajudar a dar informações para resolver a minha dúvida de tantos anos:

“Se por acaso a política brasileira tivesse sido, nesta época, a mesma que sempre fora, isto é, de franco e decidido apoio à política da Casa Branca, por que enviar o senhor Freitas do Valle a Berlim, quando o governo norte-americano, em um gesto de solidariedade pública para com as democracias, havia justamente retirado seu embaixador na Alemanha? Engane-se quem quiser, senhor Embaixador, concluía eu: nós brasileiros, com o conhecimento que temos dos homens que hoje governam o Brasil, não podemos nos enganar.
Porém, não são essas as únicas razões que nos assistem para suspeitar da duplicidade da atual chancelaria brasileira. Para reforçar essa minha profunda convicção, devo referir-me, senhor embaixador, ao fato de estar o senhor Osvaldo Aranha vinculado não somente por laços de parentesco, mas também pela grande amizade com o senhor Olavo Egydio de Souza Aranha (Junior), personalidade singular, amigo íntimo do marechal Göring e um dos mais típicos brasseurs d’affaires que se conhecem dentro das fronteiras brasileiras (grifo nosso).Desde que Hitler assumiu o poder, nenhum negócio é realizado no Brasil, em nome do Terceiro Reich, que não passe por suas mãos. Não se vende um fardo de algodão, uma saca de café ou uma tonelada de manganês, por conta de uma entidade alemã qualquer, que não contenha o visto de aprovação, pelo menos, deste parente próximo de Osvaldo Aranha. Homem de temperamento frio e calculista, o senhor Olavo Egydio de Souza Aranha exerce influência decisiva sobre o espírito de seu primo e atual ministro das Relações Exteriores do Brasil. No início das atuais hostilidades o senhor Olavo Egydio de Souza Aranha, que possui valiosos bens na França, sofreu graves contratempos por parte das autoridades francesas, devido às suas notórias relações com o chefe da economia do III Reich, marechal Hermann Göring.”

Tomando por base que este livro seja fidedigno, este parágrafo mostra que desde antes da deflagração da II Guerra Mundial o senhor Olavo Egydio de Souza Aranha Junior tinha fortes laços com a Alemanha, então em pleno Terceiro Reich. É público e notório que, mesmo depois do fim da Guerra, as influências do período nacional-socialista continuaram a vigir por muito tempo, como não poderia deixar de ser. Assim sendo, este poderia ser um dos fatores que, além do dinheiro, levaram a Volkswagen a se decidir pelo Grupo Monteiro Aranha formado por dois grandes e ricos amigos, o próprio Olavo Egydio de Souza Aranha Júnior (1/2/1887 – 22/07/1972) e o Alberto Monteiro de Carvalho e Silva (30/5/1887 – 18/05/1969). Para mim isto faz muito sentido, conhecendo o modo de agir dos alemães, seguramente a escolha recai sobre parceiros com os quais se tenha mais afinidade.

Ainda estou trabalhando no esclarecimento definitivo das razões da transferência de parceria entre a Brasmotor e o Grupo Monteiro Aranha – quando do estabelecimento de Volkswagen no Brasil – mas estou bem mais perto de uma conclusão definitiva. Acredito que parte já foi esclarecida com a descoberta descrita acima e outra informação importante me foi passada pelo amigo de longa data Roberto Nasser que comentou, em contato recente, que o Grupo Monteiro Aranha “correu por fora” e fez todo o procedimento burocrático para a abertura da Volkswagen no Brasil, inclusive assumindo a responsabilidade por alguns passos legais em próprio nome, na ausência das procurações requeridas. Aí foi fácil “desbancar” a Brasmotor… O Grupo Monteiro Aranha apresentou na hora “H” a documentação de abertura da Volkswagen do Brasil Ltda, para o pessoal da Volkswagen alemã como um “prato feito”. Considerando os conhecimentos recentes que o Olavo Egydio de Souza Aranha Junior (sócio no grupo Monteiro Aranha) era ligado aos alemães antes mesmo da eclosão da Segunda Guerra Mundial (amigo íntimo do Marechal Göring e coordenador de assuntos referentes ao comércio para a Alemanha do Terceiro Reich). Tudo parece ter sido um “golpe de mestre” muito bem urdido e adrede combinado alhures entre as partes de maneira sub-reptícia…

Este é um exemplo dos caminhos que se percorrem em pesquisas históricas, nas quais as informações, em regra, não estão declaradas de modo explícito, sendo necessário garimpar dados para poder compor uma informação dentro do contexto pesquisado.

 

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Alexander Gromow

Ex-Presidente do Fusca Clube do Brasil. Autor do livro EU AMO FUSCA e compilador do livro EU AMO FUSCA II. Autor de artigos sobre o assunto publicados em boletins de clubes e na imprensa nacional e internacional. Participou do lançamento do Dia Nacional do Fusca e apresentou o projeto que motivou a aprovação do Dia Municipal do Fusca em São Paulo. Lançou o Dia Mundial do Fusca em Bad Camberg, na Alemanha. Historiador amador reconhecido a nível mundial e ativista de movimentos que visam à preservação do Fusca e de carros antigos em geral. Participou de vários programas de TV e rádio sobre o assunto. É palestrante sobre o assunto VW com ênfase para os resfriados a ar. Foi eleito “Antigomobilista do Ano de 2012” no concurso realizado pelo VI ABC Old Cars.

2 Comentários

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  • Nossa GromoW! Quanta articulação neste meio! Até então, pensava que á Volkswagen se estabeleceu no Brasil, em um fluxo normal de expansão dos negócios! Mas agora isto explica na montagem de Primeira VW fora do território Alemão!

    Parabéns pela pesquisa investigativa, até então perdida no passado, mas que você trouxe á tona!

    • Salve caro Rogério Oliveira,
      Muitas vezes a resposta a uma investigação vem de lugares inusitados, como foi este achado em um livro que foi compilado por motivos totalmente alheios à investigação em si.
      O importante é manter os sentidos alerta para detectar estes achados…
      Grato por seu comentário
      Um grande abraço

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