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Um Fiat 1927 zero km

Um Fiat 1927 zero km

*Cláudio Larangeira

Sempre gostei muito de automóveis e tudo que se relaciona a eles. Comecei meu contato com a fotografia, clicando carros de corrida de amigos da adolescência. É emocionante dirigir um esportivo de última geração ou dar uma volta num autódromo num veículo de corridas, mas fotografar e andar num carro antigo é algo muito especial. Todo carro antigo tem uma história, interessante, romântica, triste, curiosa ou hilária. O que vou contar sobre esse Fiat 1927 é uma dessas histórias que dariam um excelente filme.

Em 1927, um fazendeiro de café da região de Campinas, viu um Fiat de um vizinho comprado recentemente. Escreveu uma carta à Fiat na Itália encomendando um “último modelo” da marca e pagou adiantado. Chegando o carro, descobriu que o “último modelo” da Fiat era um carro pequeno de 1.000 cc, não comportando a sua família de seis pessoas adultas. Tentou devolver, comprar outro, processar a fábrica, mas nada foi resolvido e o carro foi ficando num celeiro até 1956, sem nunca ter andado.

Um colecionador de São Paulo, Carolino da Silva Pinto, ficou sabendo do carro e tentou compra-lo. Na primeira tentativa não deu certo. Na segunda tentativa, Carolino levou também os dois filhos que conheciam bem automóveis. Depois de muita negociação, ficou acertado o preço e a retirada do carro. Quando finalmente foram buscar o Fiat, Carolino descobriu que estava faltando um relógio de horas no painel e disse que sem ele não faria negócio. O fazendeiro explicou que no aniversário da esposa, esculpiu um entalhe em madeira onde incrustou o relógio, portanto não iria tomar o presente dado. Os dois filhos de Carolino, João e Antonio Carlos, o convenceram a fechar negócio, pois o relógio era da marca Veglia que equipava vários carros italianos, uma peça fácil de conseguir.

Chegando o carro, descobriu, que o “último modelo” da Fiat era um carro pequeno de 1.000 cc, não comportando a sua família de seis pessoas adultas. Tentou devolver, comprar outro, processar a fábrica…

Finalmente depois da compra, o carro veio para São Paulo. Mesmo estando parado por quase 30 anos, foi preciso muito pouca coisa para o carro funcionar. De posse da nota fiscal de compra original, o novo proprietário resolveu lacrar o veículo quando descobriu que pela legislação da época seria necessário colocar parachoques e mudar a direção para o lado esquerdo. Carolino resolveu não fazer as adaptações e todo sábado funcionava o Fiat para dar uma volta por alguns quarteirões no bairro de Santana, onde eu morava. Fiquei amigo do João e Antonio Carlos e procurava visitá-los sempre no sábado para presenciar a saída do Fiat.

Por algum tempo o carro ficou guardado num armazém na Barra Funda onde conseguiu pegar um exercito de cupins que atacaram toda sua estrutura de madeira. Retirado do armazém no final dos anos 1980, começou a ser desmontado para reparações, quando o Carolino morreu. Fui procurado pelo Antonio Carlos para ajuda-lo a vender o Fiat, pois na época eu trabalhava na Revista Quatro Rodas. Ofereci a algumas pessoas que conhecia na Fiat, mas por estar desmontado não houve interesse na compra.

Em 2005 o restaurador, Ricardo Oppi foi a Santos ver uma Alfa Romeo de Antonio Carlos quando ficou sabendo do Fiat 1927. Conferiu peças, acertou preço, mas a transação não foi concretizada de imediato, porque o documento estava com o outro irmão, o João, que hesitava em vender. Conseguiram entrar em acordo e finalmente o carro foi remontado.

Hoje é atração em qualquer evento de carros antigos que participa. Correm algumas notícias, não consegui confirmação, que a Fiat italiana, interessada em ter o carro no seu museu, ofereceu 3 milhões de reais, que foram recusados.

 

*Cláudio Larangeira é dos mais renomados fotógrafos automotivos do Brasil. Começou a atuar na imprensa na década de 1970. Trabalhou mais de 20 anos na revista Quatro Rodas, além de outras publicações de prestígio. Seu vasto arquivo inclui desde a cobertura de competições nos anos 1970, 80 e 90 a reportagens fotográficas sobre lançamentos e salões, e inúmeras matérias de turismo e aventura, nacionais e internacionais. Cobriu mais de 40 grandes prêmios de Fórmula 1 e Fórmula Indy, além de 5 Camel Trophy. Atualmente, entre outras atividades, é colaborador do site autoestrada.com.br

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