Colunista Convidado Conteúdo Nossos Colunistas

Pai rico, pai pobre & carro antigo

Pai rico, pai pobre & carro antigo

Nos Estados Unidos e na Europa o carro antigo deixou de ser simplesmente uma paixão, há vários anos, para ser uma opção de investimento. No Brasil já existem colecionadores de olho nos futuros modelos clássicos.

*Jean Tosetto

Sou um leitor assíduo de livros de bolso escritos por autores consagrados e filósofos. A lista vai de Max Weber, passa por Voltaire, Descartes e Maquiavel, e desagua em Cícero e Ovídio. São publicações baratas que oferecem um conteúdo riquíssimo, a ponto de me lamentar por não ter tanto tempo para me dedicar à leitura.

Por isso sou seletivo na escolha de livros e evito até mesmo alguns “best-sellers”. Por exemplo? Nunca li um volume de Harry Potter e tenho um pé atrás com títulos de autoajuda. Antes de ser um preconceito, trata-se de uma escolha consciente.

Foi com um pé atrás que prometi a um amigo que leria o renomado livro “Pai Rico, Pai Pobre” de Robert T. Kiyosaki e Sharon L. Lechter. Este amigo me presenteou com a obra acreditando que seria útil para mim e confesso: o livro é muito bom. Ele sintetiza, numa linguagem acessível, o que seria óbvio para a maioria das pessoas, mas não é: todos nós deveríamos investir nosso dinheiro primordialmente em ativos, não em passivos.

__________

Ao final do financiamento ele pagará duas vezes pelo veículo que, ao ser revendido, valerá menos da metade do valor na retirada da concessionária. Talvez fosse melhor este senhor comprar um carro popular seminovo 1.0 à vista, que cumpriria a mesma função,…”

As pessoas que passam por dificuldades financeiras geralmente são aquelas que não conseguem poupar parte da renda advinda de seu trabalho, por adotarem um padrão de vida inadequado com sua real condição. Por outro lado, existem aqueles que vislumbram que o dinheiro poupado num primeiro momento pode render dividendos, se for bem aplicado.

Não farei a reprodução do livro aqui. Leia ele com atenção, pois será um tempo bem aproveitado. A síntese do mesmo é separar claramente os ativos dos passivos. Ativos são bens que geram renda ou valorizam com o tempo, e passivos são bens que apenas geram despesas. Uma casa grande, financiada por trinta anos, é um passivo; ao passo que uma casa pequena e quitada, com uma edícula alugada nos fundos, é um ativo, numa simplificação extrema.

Ao ler “Pai Rico, Pai Pobre” me ocorreu de aplicar sua lógica aos carros. Um chefe de família, movido pela vaidade, que financia a compra de um SUV apenas para chegar bem na fita ao local de trabalho, está adquirindo um grande passivo. Ao final do financiamento ele pagará duas vezes pelo veículo que, ao ser revendido, valerá menos da metade do valor na retirada da concessionária. Talvez fosse melhor este senhor comprar um carro popular seminovo 1.0 à vista, que cumpriria a mesma função, de forma mais econômica. Ainda seria um passivo, porém menos danoso. O problema seria vencer a vaidade.

__________

Você pode não ter dinheiro para comprar um Bugatti da década de 1920, mas certamente pode angariar recursos para investir num Alfa Romeo 156, apostando que em poucos anos ele será um modelo cultuado.”

Então me perguntei: em quais condições um carro torna-se um ativo? Se um taxi gera mais renda do que despesas, ele é um ativo. Um carro de uso pessoal dificilmente será um ativo, a não ser que ele valorize com o tempo. Que tipo de carro valoriza com o tempo? Um modelo raro, antigo, com potencial para se tornar um clássico.

Você pode não ter dinheiro para comprar um Bugatti da década de 1920 – cuja valorização já está próxima do topo e seria uma ótima opção para proteger seu patrimônio contra a inflação – mas certamente pode angariar recursos para investir num Alfa Romeo 156, apostando que em poucos anos ele será um modelo cultuado.

Quem comprou um Dodge Dart na década de 1990, pelo valor equivalente a um laptop, sabe do que estou tratando. Quanto vale um Dodge Dart hoje? Nenhuma poupança, aplicação em bolsa ou aquisição de títulos da dívida pública valorizou tanto neste período.

__________

Prazer que impulsiona a paixão. Esse é o grande “porém” em tratar um carro antigo como investimento. A pessoa adquire um carro velho, o recupera, começa a dirigi-lo e se afeiçoa ao modelo a ponto de recusar sua venda.

O carro antigo é uma opção de investimento sim, e como qualquer investimento, exige conhecimento por parte do investidor, para evitar um negócio de alto risco. Saber a história do modelo e as características originais do mesmo é fundamental. Cercar-se de bons profissionais para cuidar da manutenção, também. Pesquisar fornecedores de peças idôneos, integrar um clube de aficionados e participar de eventos no ramo são consequências naturais, acompanhadas de um prazer ímpar.

Prazer que impulsiona a paixão. Esse é o grande “porém” em tratar um carro antigo como investimento. A pessoa adquire um carro velho, o recupera, começa a dirigi-lo e se afeiçoa ao modelo a ponto de recusar sua venda. É quando um carro antigo deixa de ser um ativo e volta a ser um passivo. Mais do que um passivo: um artigo de luxo.

Como artigo de luxo, um carro antigo só deve ser mantido na garagem se as demais pendências da pessoa, de sua família – ou quem sabe da sua empresa – estiverem supridas. Caso contrário, a ruína financeira irá se aproximar.

A manutenção de um ou mais carros antigos pode funcionar como incentivo para que o dono busque melhor desempenho em seu trabalho, para alimentar sua paixão. Neste caso, a sociedade só tem a ganhar com isso, com melhores profissionais liberais, empresários, funcionários públicos e da iniciativa privada.

maxicar10alfa156

A essa altura do texto você, que me acompanhou até aqui, deve estar questionando se não estou colocando muita razão num assunto que é mais uma válvula de escape para o estresse do cotidiano do que qualquer outra coisa. Realmente, as pessoas que levam seus carros antigos a um encontro, não gostam de falar de trabalho e política com os colegas – as conversas giram em torno dos carros mesmo.

Vou concordar com você, mas com a ressalva: não custa buscarmos o equilíbrio entre paixão e razão de vez em quando. Não custa ler um bom livro sobre finanças, mesmo quando você prefere saber sobre o sentido da vida. A vida só pode ser desfrutada em sua plenitude – a bordo de um conversível, por exemplo – quando o que é básico está resolvido.

Aqui no Portal Maxicar você tem a junção das duas coisas: a paixão por carros antigos com ótimas oportunidades de investimento. Tudo levado a sério – ou não seria uma iniciativa que já completa dez anos de bons serviços prestados aos antigomobilistas.

 

maxicar10jeantosetto*Jean Tosetto é arquiteto e urbanista formado pela FAU PUC de Campinas em 1999. Desde 2001 é editor do site mplafer.net, motivado por um exemplar da marca adquirido em 1997. Em 2006 atuou como professor convidado da efêmera Faculdade de Administração Pública de Paulínia, onde ministrou os cursos de Mobilidade Urbana e Transportes, e Habitação Social. Em 2012 escreveu o livro “MP Lafer: a recriação de um ícone” e fundou a Editora Vivalendo, no ano seguinte, para viabilizar a publicação do mesmo. Atualmente colabora com a Revista MotorMachine.

 

Comentários do Facebook

Novidades dos Classificados