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Os carros de minha vida

Os carros de minha vida

*Francis Castaings

Quando e como fui me apaixonar por carros? Acho que dentro do útero de minha mãe quando estava com meu pai à bordo de um Dodge Utility 1953.

Meu pai era francês, engenheiro e chegou ao Brasil para trabalhar em 1953. Estava no Rio de Janeiro de passagem e vindo para Belo Horizonte, queria comprar um Citroën Traction tendo sido desaconselhado. Diziam que por aqui havia poucos mecânicos especialistas na marca francesa e que seria melhor comprar um carro americano que estava muito mais presente nas ruas que os do velho continente. Mal sabiam que em BH já morava Philippe Garcia, também francês, dono de oficina e fera na marca do “Chevrons”.

Nessa época lembro-me perfeitamente de um Saab 95 Combi de um pai de um colega meu e do Chevrolet Impala 1963 de meu padrinho. Já sabia em que países eram feitos, olhava o mapa mundi e a curiosidade aumentava.

Optou pelo Dodge, todo verde, com vidros da mesma cor, duas portas, motor com seis cilindros em linha, pára-brisas em peça única, pneus com largas faixas brancas, Station Wagon baseada no Dodge Coronet Sedã. Era muito confortável para a futura família de cinco membros, dois adultos e nós três meninos, sendo que meu irmão mais velho,Yvon Jacques, em 1960, tinha no máximo um metro de altura quando pulava.

Em 1963 papai trocou o Dodge e voltou às origens adquirindo um Simca Chambord, azul e branco com interior também em duas cores. Que carro belo, mas com pouca performance como a história demonstrou. Nessa época lembro-me perfeitamente de um Saab 95 Combi de um pai de um colega meu e do Chevrolet Impala 1963 de meu padrinho. Já sabia em que países eram feitos, olhava o mapa mundi e a curiosidade aumentava.

Nesta época a General Motors do Brasil trazia os primeiros Opel Rekord para ambientação e Tio Arnaldo comprou um azul com estofados de igual cor. Que carro bonito!

Nosso vizinho, Dr. Tarcísio, tinha um Aero-Willys verde claro da primeira geração. A garagem do Condomínio Solar podia abrigar muitos carros pois as vagas eram amplas. O prefeito da capital mineira, cujo carro oficial era um Chevrolet Bel Air 1957 preto, morava lá, mas para seu uso particular o político, que gostava da marca da gravata, símbolo maior da Chevrolet, usava um Impala 1963.

Por volta de 1967 meu Tio Álvaro andava de Oldsmobile F-85 e meu tio Arnaldo, recém-formado em direito, andava de Fusquinha verde com estofados marrons, tendo andado uns tempos num belo Mercury Comet 1956. Nesta época a General Motors do Brasil trazia os primeiros Opel Rekord para ambientação e Tio Arnaldo comprou um azul com estofados de igual cor. Que carro bonito! Meu Tio Sinésio rodava de Gordini, Tio Ângelo de Saab 95 vermelho e Tio Humberto que morava no interior, em Lagoa da Prata, ia de Rural.

Não causando estranheza na família e nem aos amigos, papai, muito patriota, trocava o Chambord por um Tufão Cinza 1966 bem mais potente e robusto que o anterior. E na garagem do prédio chegava um novíssimo Simca GTX de um vizinho italiano.

Minha paixão só aumentava e o prazer de estar e andar neles era ainda maior. Chegava a nova década e uma prima de minha mãe mudava-se para o prédio ao lado na Rua Guajajaras. O marido dela tinha uma Willys Rural e um Ford Galaxie. A família era muito grande.

Com relação ao automobilismo, as corridas no Mineirão faziam sucesso com disputas entre nacionais, importados e protótipos. Por aqui passaram Emerson e Wilson Fittipaldi em Fusca e Corcel, Nelson Piquet também de Fusca, Alex Dias Ribeiro com o protótipo Patinho Feio e Paulo Gomes à bordo de uma BMW 2002 da concessionária Cebem, num duelo incrível contra o Alfa GTA de Martius Jarjour. O piloto mineiro Toninho da Matta brilhava com seu Opala 21 vencendo carros bem mais fortes em todas as categorias.

Não causando estranheza na família e nem aos amigos, papai, muito patriota, trocava o Chambord por um Tufão Cinza 1966 bem mais potente e robusto que o anterior. E na garagem do prédio chegava um novíssimo Simca GTX de um vizinho italiano.

Em março de 1971 mudamos para uma casa no bairro Santo Agostinho. Casa nova, carro novo! Papai comprara um Opala 1971, preto, quatro portas, 3800 que se tornaria uma das paixões da minha vida, permanecendo na família por cerca de 16 anos. Em 1972 um vizinho, pai de amigos, comprava um SS 4100 quatro portas e um colega, engenheiro, amigo de meu pai, um senhor francês de pé pesado, um Opala Grã-luxo 4100 verde com teto preto. Meu Tio Arnaldo já havia passado por um Opala 3800 dourado e estava de Dodge Dart cupê. Tio Álvaro agora rodava de Mercedes-Benz 220 S.

Neste ano recebíamos hóspedes em casa. Um senhor francês que morava com a família no Rio de Janeiro veio conhecer Minas à bordo de um Citroën DS branco. Fiquei de queixo caído. Já o conhecia bem através de revistas, cinema e TV, mas nunca havia entrado nem andado nele. O carro era demais, muito superior em acabamento e tecnologia.

Em 1974, depois de muita pesquisa, lendo várias revistas na época, meu pai presenteou minha mãe com o Dodge 1800. O doginho era bonitinho, mas fraquinho em alguns aspectos. A caixa até que suportou, mas a transmissão quebrou. Era um problema de fábrica e o ano anterior havia sido muito competitivo com os lançamentos do Chevette, Brasília e Maverick. Meu irmão mais velho dirigia muito, tanto o pequeno Dodge quanto o Opala. Ele conhecia Márcio, colega de engenharia, excelente desenhista que tinha um Corcel cupê branco com acessórios Bino, escapamento e carburação especial, pneus Maggion e rodas de magnésio. Era um carro interessantíssimo.
Quase todos os meus tios migraram para a Volkswagen comprando o Passat, mas Tio Arnaldo adquiriu um Alfa Romeo 2300. Tive oportunidade de dirigí-lo e achei ótimo.

Com essa perua fizemos muita farra e éramos muito atrevidos. Outro que é meu amigo até hoje é o Bruno que tinha um Chevette preto muito interessante.

Em 1976 meu pai comprava para minha mãe um Peugeot 204 bege. Era um pequeno sedã com três volumes, quatro portas, ano 1968. Ele e meu irmão do meio foram buscar o carro na capital federal e tiveram o pára-brisas quebrado por uma pedra no caminho de volta à Belo Horizonte. Duas semanas depois foi novamente atingido por outra pedra. Outro telefonema para a concessionária do Rio de Janeiro e a mesma afirmação: Estão com sorte, é o último!

Este carro tinha tração dianteira, motor com quatro cilindros em linha, fundido em liga de alumínio, montado em posição transversal, válvulas no cabeçote, radiador com circuito selado, suspensão independente e rodas de aço com pneus radiais na medida 135 SR 14. Era muito estável e firme nas curvas. O motor valente não se intimidava com o relevo acidentado da capital mineira. “Quem a conhece não esquece jamais”.

Também neste ano chegava na família outro Opala. Este bege, quatro portas, vidros verdes, quatro cilindros. Para minha alegria conheci João Veloso que sempre chegava em casa com sua Caravan 4100 marrom. Com essa perua fizemos muita farra e éramos muito atrevidos. Outro que é meu amigo até hoje é o Bruno que tinha um Chevette preto muito interessante. Tinha rodas especiais, vidros verdes e “volantinho”. Não demorou muito e Bruno, um aficcionado também por antigos, passou do Chevette para um Opala 250-S, vinho, 1978. Este desenvolvia muito bem também.

Por volta de 1980 meu irmão do meio, Jean Louis, há muito integrado com o Doginho, trocou o mesmo, na lata, por um fusquinha 1965 muito original. Por coincidência a placa era AC-6565 sendo que eu dizia que as letras eram as iniciais de Antes de Cristo! Este pequeno era todo original, mas logo perdeu estas características. Recebeu rodas especiais de aro 13 polegadas e volante esportivo. Detestava subidas!

Todos estes e outros deixaram muitas boas lembranças e sempre que vou à encontros e exposições fico com muita saudade quando vejo um exemplar parecido e em bom estado. Bons tempos, boas farras! Infelizmente o tempo não volta, mas a saudade fica. E é grande!

 

francis*Sou Analista de Sistemas por profissão e ganha pão e antigomobilista por muita paixão. Frequento museus, lojas, salões, exposições, corridas e encontros de carros antigos ou não desde 1970. Gosto mesmo dos antigos e o apreço também veio por causa de minha coleção de miniaturas de carros em escalas que variam de 1/76 a 1/18 e conto até o momento com 1455 modelos. Nasci em 5 de junho de 1959, já fiz rali, fui Técnico Superior de Fundição trabalhando numa fundição de peças para automóveis. Escrevi por 12 anos sobre carros antigos e desde julho de 2011 tenho meu site Retroauto.

Acesse: www.retroauto.com.br 

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