Alexander Gromow Conteúdo Nossos Colunistas

Caravana Fusca

Um projeto cultural no qual Fuscas no Brasil e na Alemanha participaram ativamente de atividades, unindo povos e caldeando culturas. Sim, os Fuscas são mundiais e por onde passam têm o condão de unir as pessoas…

O projeto Caravana Fusca é uma seqüência do projeto arte caravana Nawarak Lelmal, que foi realizado em 2005 por David Reuter, da Universidade de Braunschweig, Alemanha, e que reuniu mais de 25 artistas em uma viagem de três meses de Berlim para a África Ocidental por Marrocos. Seguindo a rota de uma Caravana de Comércio, agiu menos impulsionada por bens materiais do que por valores ideológicos e culturais.

O Projeto Caravana Fusca foi inspirado pela artista Ângela Câmara Correa Gelhaar, brasileira que mora na Alemanha e é professora na Universidade de Braunschweig, que juntamente com David Reuter buscou um novo formato para que a Caravana fosse realizada no Brasil. Ela desenvolveu a idéia com o desejo de iniciar um programa de intercâmbio. A Caravana Fusca formou uma ponte entre estudantes brasileiros e alemães, e permitiu uma intensa troca entre as duas culturas. Graças ao conceito da caravana, foi criado um intenso diálogo bilateral que permitiu que ambas as partes, em um tempo relativamente curto, realizassem um projeto artístico comum. O Fusca é um símbolo de meio de transporte em ambos os países e certamente agiu como elo de união entre Brasil e Alemanha. Depois desta fase brasileira, realizada em setembro de 2009, ocorreu uma etapa alemã em junho de 2010, onde os participantes brasileiros foram para a Alemanha dar continuidade ao projeto.

Vamos acompanhar este projeto que, no Brasil, teve início em Campinas, na UNICAMP em São Paulo, com o apoio da professora Verônica Fabrini e Grácia Navarro, depois seguiu em direção ao Estado de Minas Gerais, numa cooperação com a Universidade Federal de São João Del Rei, cooperação esta dirigida pelo professor Adilson Siqueira. A Caravana passou por várias cidades, como descrito na faixa da foto abaixo:

Sylvia Franzmann se encarregou da Faixa da Caravana Fusca. Com um letrista profissional, ela desenvolveu em São Thomé das Letras uma Faixa que anunciava as apresentações da Caravana

Pelo caminho a caravana foi sendo cumprimentada por Fuscas dos moradores das cidades visitadas. Os carros foram protagonistas de várias atividades desta caravana.

Em vários lugares que a Caravana percorreu, o grupo fez diferentes ações como, por exemplo: “ações de lavar”: eles lavaram um Fusca em movimento, eles lavaram os cabelos de voluntários dentro do Fusca. A composição do grupo não foi estática; todos tiveram a oportunidade de interagir com os demais do grupo.

Uma das “ações de lavar” em pleno curso; neste caso o Fusca é que está ganhando um trato

Outra atividade se dedicou à história dos objetos. O público foi solicitado a procurar em suas bolsas e bolsos por objetos que pudessem ser descartados. As histórias de cada um dos objetos foram anotadas e afixadas a uma manta que envolvia um dos Fuscas e que com isto partiu para a viagem.

Os objetos descartáveis e suas histórias foram afixados a uma manta que cobria um Fusca e registraram a “história dos objetos”

Canções vão viajar… Para o grupo no ponto central de tudo estava o contato e o intercâmbio. Com base na tradição de Cordel – na qual canções, poemas e notícias sob a forma de pequenos livros eram transportados de cidade a cidade – o grupo pediu às pessoas que foram conhecendo na viagem que indicassem as canções de que gostavam, que depois foram levadas para a próxima cidade no roteiro da caravana.

Em Prados um Fusca, no qual haviam sido pendurados bilhetes com as músicas coletadas, foi transformado num lugar de troca direta de canções

A capa do Fusca! No Brasil existe a tradição de cobrir objetos de uso quotidiano, tais como máquinas de lavar, filtros de água, liquidificadores ou fornos microondas com capas, por um lado, para protegê-los, por outro lado, para adorná-los. Inspirados por este procedimento, Sabine Beyer e David Reuter desenvolveram uma cobertura semelhante àquelas, mas agora para Fusca e encomendaram-na a uma costureira local que a confeccionou com um material igual ao das capas de objetos doméstico de modo a se ajustar perfeitamente ao carro. Este tipo de procedimento mostra como os usos e costumes brasileiros iam sendo “descobertos” pelos participantes alemães da caravana. Estas descobertas resultavam em ações ou em instalações como foi o caso desta “cobertura para proteger um utensílio doméstico – um Fusca”. Tudo isto estava em linha com os objetivos de integração e de trocas culturais que definiu a razão de ser deste projeto.

Em diferentes lugares outros Fuscas eram cobertos com esta capa e esta “instalação” se transformou num objeto móvel…

Conexões… Desde 2008, Ângela Correa Câmara Gelhaar, em um grande projeto de participação, assumiu o experimento de unir as pessoas além das fronteiras culturais, físicas e geográficas. A ligação foi realizada de um modo simbólico e ao mesmo tempo através de ações, inspiradas por fitas de veludo vermelho. No Brasil, Ângela uniu com um grande número dessas fitas todos os participantes do projeto “Caravana” numa grande rede.

A rede urdida por Ângela Correa Câmara Gelhaar e nela, os indivíduos, que abriram para si, para outros, com os outros num novo espaço

Ritual em Tiradentes… Com base na experiência adquirida pelo grupo em um típico ritual brasileiro de candomblé, a Elizabeth, o Nei e a Mariana desenvolveram um ritual contemporâneo no qual equipamentos técnicos novos foram adorados e sacrificados. Novamente aqui, nesta atividade, é possível aquilatar o impacto que aspectos culturais brasileiros causaram nos visitantes alemães, a ponto de inspirar uma dramatização baseada no que eles entenderam ser o candomblé, que certamente foi interpretado de seu lado pictórico e figurativo, traduzido para um procedimento que se assemelhou ao visual que eles tiveram a oportunidade de ver ao ter participado de uma sessão de candomblé (que costuma ser um dos pontos de interesse de turistas que visitam o Brasil).

Ao fundo os Fuscas testemunharam o estranho ritual perpetrado pelos participantes da Caravana Fusca

Em 2010 foi realizada a parte alemã do projeto. Participantes brasileiros da Caravana Fusca viajaram do Brasil para a Alemanha e deram continuidade ao intercâmbio iniciado por aqui. As atividades foram realizadas em Braunschweig. O Campus da Universidade de Braunschweig abriu seus portões para os estudantes dos dois países, suas performances e para os Fuscas que foram se perfilando para fazerem parte das atividades.

NOMET2
Os Fuscas se posicionaram em frente a Universidade de artes de Braunschweig (HBK). O presidente do Clube do Fusca de Wolfsburg, Bjorn Schewe, apoiou o projeto, incentivando os integrantes do clube a participarem do evento. Eles ofereceram seus veículos, e participaram ativamente de atividades do Projeto

O calor cultural esteve presente através das cores e dos ritmos emoldurados por movimentos e danças que encantaram a todos. As longas saias rodadas coloridas traziam a lembrança das baianas e suas vestes típicas, um pedaço de Brasil em terras alemãs servindo de suporte para a integração cultural. Pendurada no pórtico a faixa “Caravana Fusca 2009” veio de Minas Gerais para lembrar a todos das cidades que foram percorridas naquele estado, um testemunho das atividades realizadas.

Quem se lembra da “capa do Fusca” que foi descrita acima? Pois é, ela atravessou o oceano e chegou à Braunschweig onde foi cobrir outro Fusca, desta vez um irmãozinho “Made in Germany”. Coube muito bem, pois Fusca é Fusca em qualquer parte do mundo.

NOMET1
A esquerda: o ritmo brasileiro assim como a dança também fizeram parte das apresentações. A direita: Os trabalhos realizados no Brasil foram vistos na Alemanha, através de vídeo -documentações em monitores dentro dos Fuscas, e de instalações que foram reapresentadas em Braunschweig e Berlim sempre tendo o Fusca como base para as performances

Por falar em vídeo vejam este vídeo onde os organizadores principais Ângela Correa Câmara Gelhaar e David Reuter resumem o evento, o vídeo fo legendado em português:

Este artigo certamente é algo diferente dentro do que esta coluna apresentou até agora. É o relato de um projeto onde o Fusca participou como catalisador entre alemães e brasileiros, facilitando os contatos entre os grupos e agilizando o caldeamento de idéias que resultou nas atividades em muitas das quais os Fuscas foram partícipes. Certamente a idéia que a Ângela Correa Câmara Gelhaar criou e desenvolveu, tendo o Fusca como fulcro deste movimento todo, foi brilhante e vitoriosa. Ela merece parabéns por isto. Tive a oportunidade de conhecê-la aqui em São Paulo em uma reunião na qual discutimos o projeto e imediatamente pude aquilatar o seu grande entusiasmo, engajamento e competência.
Aos leitores fica uma mensagem de harmonia e curiosa integração que teve como participantes Fuscas no Brasil e na Alemanha – sim os Fuscas são mundiais e por onde passam têm o condão de unir as pessoas…

 

 

 

Comentários do Facebook

Alexander Gromow

Ex-Presidente do Fusca Clube do Brasil. Autor do livro EU AMO FUSCA e compilador do livro EU AMO FUSCA II. Autor de artigos sobre o assunto publicados em boletins de clubes e na imprensa nacional e internacional. Participou do lançamento do Dia Nacional do Fusca e apresentou o projeto que motivou a aprovação do Dia Municipal do Fusca em São Paulo. Lançou o Dia Mundial do Fusca em Bad Camberg, na Alemanha. Historiador amador reconhecido a nível mundial e ativista de movimentos que visam à preservação do Fusca e de carros antigos em geral. Participou de vários programas de TV e rádio sobre o assunto. É palestrante sobre o assunto VW com ênfase para os resfriados a ar. Foi eleito “Antigomobilista do Ano de 2012” no concurso realizado pelo VI ABC Old Cars.

Adicionar Comentário

Clique aqui para postar um comentário

Novidades dos Classificados