Modelo 1963 exclusivo do Brasil, ele tem hoje apenas 14 mil km rodados. A Willys mandou dois exemplares para a Matriz, para avaliação. O segundo pertenceu ao próprio projetista Brooks Stevens
Um recente anúncio em um site de carros clássicos dos EUA não chamou muito a atenção dos antigomobilistas norte-americanos. Mas certamente irá despertar grande interesse no Brasil, pois refere-se a um Aero Willys 2600, a versão brasileira, nunca fabricada por lá.

Esse Aero Willys 2600 está nos Estados Unidos desde zero km
Mas o que esse carro tem de tão especial? Além do fato de ser um exemplar imaculado com cerca de 14 mil quilômetros rodados, ele é um dos dois exemplares enviados para avaliação à Kaiser Corporation — a então detentora da marca Willys nos EUA — no final de 1962, quando essa versão exclusiva de nosso país estava prestes a ser lançada.
64 anos depois, ele agora foi anunciado pelo sistema de leilão do Hemmings.com pelo valor de reserva de US$ 20 mil. No entanto, não apareceram compradores dispostos a bater o martelo virtual. Parece que não entenderam a importância histórica desse carro.
A história desse precioso exemplar
De acordo com a descrição do anúncio, quando ainda novo, esse Aero Willys 2600 foi vendido a um executivo da própria Kaiser. Ele foi adquirido pelo atual proprietário em 2020 dos herdeiros de um colecionador da Califórnia, que o manteve guardado e sem uso por décadas. Nunca tentaram fazê-lo funcionar novamente.
A carroceria parece em perfeitas condições, exceto por alguns pontos de ferrugem na base da porta dianteira esquerda. A pintura vermelha permanece brilhante, bem como os cromados e demais detalhes de acabamento.
Jamais restaurado
O interior bege apresenta desgaste nas forrações de portas e no tabelier do painel. O volante de baquelite está bem danificado e precisa ser restaurado ou simplesmente substituído. No entanto, os bancos inteiriços, a forração do teto e os tapetes continuam perfeitos. Os pedais parecem novos, sinal de baixíssima quilometragem, como indicam os 13.791 km do odômetro.

O odômetro marca 13.719 km. O carro não roda há décadas
O segundo Aero

O segundo carro, comprado pelo próprio projetista Brooks Stevens, em foto de reportagem de 1990
Mas o que aconteceu com o outro exemplar enviado novo aos EUA? Foi comprado pelo próprio projetista Brooks Stevens. Com pintura cinza escura e interior vermelho, ele foi tema de uma reportagem assinada pelo brasileiro Paulo César Sandler, na revista Collectible Automobile de fevereiro de 1990. Na época ele pertencia ao acervo do Brooks Stevens Automotive Museum, que encerrou suas atividades em 1999. Não conseguimos descobrir o paradeiro desse carro atualmente.
Quem foi Brooks Stevens

Stevens ao lado do Aero de nossa reportagem. Embora a foto seja em preto e branco é possivel perceber que ele tem interior claro. O que foi comprado por ele tem interior vermelho, que ficaria escuro na foto
O designer norte-americano Brooks Stevens teve passagens pela Alfa-Romeo, Packard, AMC, Studebaker, Harley-Davidson, além da Kaiser/Willys. É o autor dos projetos da Willys Station Wagon (que deu origem à nossa Rural) e a toda a Linha Aero norte-americana lançada em 1952 (Ace, Eagle, Falcon, Lark) que teve vida curta, sendo produzida por lá só até 1955 e lançada no Brasil em 1960 com um único modelo: o Aero Willys Sedan de 4 portas (apelidado de “Bolinha”), que foi fabricado até 1962.
E qual o interesse de Brooks Stevens em comprar o Aero Willys 2600 brasileiro?

Esse protótipo tem algumas diferenças em relação ao carro que foi lançado: grade, calotas, para-choque, friso lateral e uma “mira” sobre o capô, que acabou sendo abolida
Quando a Willys Overland do Brasil resolveu modernizar as linhas do Aero, tornando-as mais contemporâneas, contratou o escritório de design de Stevens, embora a coordenação do projeto permanecesse a cargo do arquiteto mineiro Roberto Araújo.
O resultado foi essa versão com visual totalmente novo, de linhas retas e angulares, exclusiva do Brasil, batizada de Aero Willys 2600, uma referência à mecânica. A foto acima, de 1960, mostra um modelo em miniatura, criado pelo escritório de Stevens.
Autógrafo ilustre

Dentro do porta-luvas, a assinatura de seu criador
Detalhe interessante: embora esse Aero Willys vermelho de nossa reportagem não tenha pertencido a Brooks Stevens, ele foi autografado na parte de dentro da tampa do porta-luvas e na forração da porta dianteira direita (hoje quase apagada).
Algum colecionador brasileiro ou museu poderia tomar a iniciativa de repatriar esse carro que faz parte dos primeiros episódios da história de nossa indústria automotiva.
Redação: Fernando Barenco
Fotos: Hemmings.com
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