51 anos depois da publicação, o automóvel foi recentemente exibido na 8ª Expo Campo de Marte e permanece em perfeitas condições
Um Stutz Bearcat 1914 chamou a atenção dos antigomobilistas durante a 8ª Expo Campo de Marte, que aconteceu em São Paulo nos dias 6 e 7 de dezembro. A “baratinha” foi fotografada por nosso amigo e colaborador Odair Ferraz, que alguns dias depois nos mandou a reprodução de uma antiga reportagem. Duas páginas, onde constam no cantos inferiores a identificação “família VW”.

A Revista Família VW foi publicada dos anos 1960 aos 80
Ele havia recebido a misteriosa matéria de um grupo de Whatsapp. “É sobre o Stutz que estava no Campo de Marte”, nos informou.
Antes de mais nada, fomos atrás de investigar que publicação era aquela. Depois de alguma pesquisa, constatamos tratar-se da Revista Família VW, uma publicação oficial da Volkswagen do Brasil, que era distribuída na própria fábrica e que, segundo apuramos, circulou do final dos anos 1960 até a primeira metade dos anos 1980.
A história contada em 1974, quando a réplica ficou pronta

Foto principal da reportagem da Revista Família VW. O carro havia acabado de ficar pronto
Essa reportagem é de um número de 1974 e conta a história da criação de uma réplica do Stutz Bearcat 1914, pelos irmãos Rodolfo Antonio Bentim Filho e João Antônio Bentim. O mesmo carro, que 51 anos depois foi atração na 8ª Expo Campo de Marte.
Você deve estar se perguntando: “Mas porque a Volkswagen publicou em sua revista oficial uma reportagem sobre a réplica de um automóvel de uma extinta marca norte-americana?” É que os irmãos Bentim eram na época ambos funcionários da empresa e um dos objetivos do periódico era valorizar as iniciativas extra fábrica de seus colaboradores, como hobbies, por exemplo.
Transcrevemos a seguir na íntegra a antiga reportagem e as fotos que foram usadas. Naturalmente, a resolução das imagens está péssima, mas vale como um registro histórico.
A reportagem da Revista Família VW, de 1974
Outras fotos da reportagem da Revista Família VW
HOBBY
O primeiro aparecimento público de um Stutz aconteceu na corrida de 500 Milhas de Indianápolis em 1911, quando chegou em 11º lugar. Depois Harry C. Stutz formou A Stutz Motor Company em 1913 e seus carros ganharam as corridas de estradas dos Estados Unidos e colocaram-se em 3º lugar em Indianápolis. Em 1914 “o mais famoso automóvel de todos os tempos” foi lançado: o Stutz Bearcat. Era fornecido com motor de 4 ou 6 cilindros e ele influiu pesadamente na queda das vendas do Mercer Raceabout.
Passados 60 anos e diante de admiradores empolgados, um Stutz de 1914 roda quase todos os fins de semana ainda hoje, não em Indianápolis, mas no bairro de Indianópolis, em São Paulo. É uma réplica perfeita, construída pelos irmãos Bentim, aqui da fábrica. Sem dúvida este se constitui, até agora, no mais caro e difícil hobby já apresentado em nossa revista “Família”.
Rodolfo Antonio Bentim Filho, 24 anos, Técnico de Garantia, trabalha na Ala 0 da Fábrica I. Seu irmão, João Antônio Bentim, 22 anos, é praticante técnico industrial na Seção de Projetos e Acabamentos da Carroçaria, na Fábrica II.
Os dois são os construtores do novo Stutz, num trabalho iniciado há mais de 4 anos, em janeiro de 1970.
Condução para a escola
Em 1970 os irmãos Betim estavam cursando a Escola Técnica Industrial Lauro Gomes aqui em São Bernardo, e não possuíam um automóvel. Para virem de sua casa, em São Paulo (Alameda dos Alcais, 365 – Indianópolis) até a escola, tinham muitas dificuldades de condução.
Por isso resolveram eles próprios construírem um automóvel que facilitasse a locomoção. Depois de muito discutirem e de planos sem conta, chegaram à conclusão de que a construção de uma réplica do Stutz 1914 era um trabalho fascinante.
O primeiro passo foi a compra de um modelo em miniatura do carro. Após os desenhos do projeto, planejaram os custos orçando tudo em Cr$ 2 mil. Em janeiro de 1970 os irmãos Bentim iniciaram a tarefa.
As dificuldades foram surgindo e eles não esmoreceram. Para a réplica a mais autêntica possível, gastaram Cr$ 25 mil, 12 vezes mais do que o previsto. Agora o carro está na fase final de acabamento, restando apenas pequenos detalhes.
“Os gastos poderiam ter sido bem maiores, se não fizéssemos quase tudo, desde a confecção de pequenas peças, até a montagem do carro”, confessa Rodolfo.
A grade do radiador é formada por 3000 tubos sextavados colados uns aos outros com Araldite, o que exigiu muita paciência. Mão de obra e o trabalho de um mês inteiro. As lanternas, todas elas funcionando normalmente, foram fabricadas de cobre envernizado, custando Cr$ 2,5 mil.
Todos os instrumentos do painel — réplicas exatas do original — funcionam perfeitamente. Velocímetro, tacômetro, mostradores de pressão do óleo e da gasolina, amperímetro, etc… está tudo montado de acordo com a disposição estilística do Stutz 1914. O estofamento na cor bordô é de couro e foi feito sob encomenda especial.
Curiosidades
Alguns dos acessórios do Stutz têm histórias diferentes. O acendedor de cigarros, por exemplo, foi comprado no Uruguai e é peça original. Está fixado no painel e, quando retirado através de um comprido fio, aciona o dispositivo automático, que acende o cigarro em poucos segundos.
Um capítulo à parte é o da carroçaria. Totalmente em fibra de vidro (fiberglass) foi modelada inteiramente pelos irmãos Bentim, que usaram moldes de fórmica e Duratex. Eles gastaram quatro fins-de-semana para a conclusão da carroçaria, enquanto a pintura — totalmente branca com frisos bordô — foi confiada a um pintor, por falta de aparelhagem adequada.
As rodas são originais da época, de madeira (cedro irlandês) e o pneu tem aro 21. O sistema de freios é hidráulico, a tambor nas quatro rodas. O tanque de gasolina, localizado logo atrás dos dois bancos, tem capacidade para 100 litros.
Junto ao tanque está o porta-malas, semelhante a um baú que servia como um “guarda roupa”. O marcador de temperatura do motor do Stutz é externo, bem visível ao motorista sobre o capô.
O chassi foi o que deu maior “dor de cabeça”. Demoraram pelo menos um ano para sua montagem total.
O motor
O que causa maior admiração e curiosidade é o torque do motor. De um velho Hillmann 1950, retificado com 1.200 cilindradas, o motor é tão econômico quanto dos nossos “Fuscas”. Já enfrentou diversas corridas do Veteran Car Club do Brasil em Londrina, em Curitiba e outras cidades, saindo-se galhardamente, fato que causaria “inveja” aos grandes “carrões” atuais.
Por isso tudo, o carro foi contracapa do Suplemento de Turismo do jornal “O Estado de São Paulo”.
Após o licenciamento e emplacamento, os irmãos Bentim estão dispostos a virem trabalhar com o Stutz, isso de vez em quando. E com o tempo firme, inclusive “dar umas bandas” por Santos e orla marítima…
De antemão, é bom saber que se o Stutz colar na traseira do seu carro e pedir passagem, não se vergonhe não, pois ele impõe respeito e atinge facilmente 100 km/h.
Como dois dos 120 sócios do Veteran Car Club do Brasil, os irmãos Bentim agora pretendem partir para outras empreitadas mais audaciosas. Já estão preparando os desenhos de um Mercedes SSK 1928, que também promete causar sensação.
Eles gastaram cerca de 25 mil cruzeiros na construção do Stutz e já rejeitaram a proposta de venda por 100 mil. Estimulados com a perspectiva de bons negócios, os irmãos Bentim estão pensando em transformar a garagem numa rendosa “fábrica” de carros antigos.
A matéria original, que transcrevemos acima
Algumas curiosidades
- Junto às imagens da reportagem, recebemos também um vídeo — do que parecem ser cenas da série da Rede Globo “Anarquistas, Graças a Deus”, de 1984. Achamos por bem não reproduzir aqui, por questões de direitos autorais. No entanto, encontramos essa foto da mesma produção, com o falecido ator Ney Latorraca ao volante da réplica.

Cena da série “Anarquistas, Graças a Deus” que foi ao ar em 1984 pela Rede Globo
- Além de “Anarquistas…”, o carro participou da novela “Cabocla” e de videoclipes do Fantástico.
- Embora fosse um automóvel norte-americano, até o início dos anos 1920, os Stutz eram equipados com volante do lado direito. No entanto, a réplica dos irmãos Bentim, tem volante à esquerda.
- De acordo com a Revista Família VW, quando fabricada, essa réplica recebeu motor de um automóvel inglês: um Hillman de 1.200 cc. Mas apuramos que atualmente a mecânica é nacional: um 4 cilindros do Chevrolet Opala.
- Note que em uma das fotos da reportagem, a réplica possui para-choque dianteiro tipo Ford Modelo A. Mas atualmente ele foi suprimido, provavelmente porque o carro original não tinha para-choque.
Sobre o Stutz Bearcat

Esse Stutz Bearcat foi vendido por quase US$ 3 milhões. Note como a réplica é bem similar…
O Stutz Bearcat era um speedster que fez grande sucesso nas pistas. Já no ano de seu lançamento, 1912, o modelo venceu nada menos que 25 das 30 corridas das quais participou, motivo de sua fama ao longo de décadas.
Em 1914, a Linha Stutz era composta de cinco modelos. Além do Bearcat, em versões de quatro e seis cilindros, havia o Roadster, o Bulldog, o New HCS e o Sedan (o único Hardtop).
Fundada em 1911 e com sede em Indianápolis, a Stutz Motor Car Company era especializada em carros luxuosos e esportivos. Por seu perfil mercadológico, a marca não resistiu às dificuldades econômicas dos EUA a partir da Grande Depressão de 1929, encerrando suas atividades em 1938.
Durante 29 anos, produziu menos de 40 mil automóveis, que atualmente são extremamente valiosos. Esse exemplar amarelo original, foi vendido em um leilão da Gooding Christie’s em 2021 por US$ 2.920.000.
Propagandas da época
A titulo de curiosidade, transcrevemos aqui em Português os textos dessas duas propagandas da Stutz publicadas em 1914, que mostra o perfil de sua abastada clientela. CLIQUE NAS ABAS ABAIXO DAS FOTOS PARA LER!

►LER A PROPAGANDA
Nos Salões de Nova York e Chicago
A linha completa de carros STUTZ estará em exposição nos Salões de Nova York e Chicago.
Visite-nos de 2 a 9 de janeiro no Grand Central Palace, 2º andar, Espaço B 10, ou de 23 a 30 de janeiro no Chicago Coliseum Annex, Espaço P 1.
A linha STUTZ compreende dez modelos diferentes em três chassis diferentes. Dois novos carros serão apresentados: o H C S Four por US$ 1.475 e o novo STUTZ Bulldog Four por US$ 2.250. Perder esses dois carros significa perder uma das atrações mais interessantes do Salão.
Nenhuma mudança radical foi feita. Alguns refinamentos foram adicionados, mas a robusta construção do chassi STUTZ — tão satisfatória no passado — não pode ser aprimorada.
Os preços da STUTZ permanecem os mesmos. Não é possível reduzi-los sem comprometer a qualidade. Estamos investindo cada centavo em valor em nossos carros. A política da STUTZ sempre foi construir para a aprovação daqueles que buscam um carro melhor, em vez de um preço mais baixo. Em termos de custo-benefício, o STUTZ oferece mais valor real do que qualquer outro carro americano fabricado.

►LER A PROPAGANDA
Quando você comprou o carro que dirige hoje — antes mesmo de considerar seriamente gastar um centavo do seu dinheiro — você primeiro se certificou da responsabilidade financeira do fabricante.
Você determinou quanto do valor real do carro estava representado no preço pedido. Você perguntou a outros proprietários qual tinha sido a experiência deles com o carro que você estava avaliando. É tudo o que pedimos que você faça ao considerar o Stutz como seu próximo carro.
Você descobrirá que somos financeiramente responsáveis — que oferecemos descontos em todas as nossas contas regularmente — e que nossos custos operacionais mais baixos nos permitem oferecer a você mais valor real pelo preço.
De cada vitória da Stutz nas corridas, vem mais conhecimento especializado sobre os fundamentos da construção de carros: correr com um carro significa concentrar o desgaste que ele normalmente sofre no uso diário. Você desfruta da comprovada perfeição mecânica do Stutz.
Solicite o folheto hoje mesmo. Vale a pena pesquisar antes de comprar. Visite a concessionária Stutz mais próxima para conhecer os novos modelos da Série F. Solicite hoje mesmo nosso interessante livreto “A História por Trás do Robusto Stutz” — também disponível no Catálogo B-5, Série E.
Redação: Fernando Barenco
Fotos: Odair Ferraz, Revista Família VW e publicidade da época
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