Repórter Maxicar

Os carros antigos… Antigamente

Os Carros antigos, antigamente

No início dos anos 1950 o antigomobilismo ganha força nos Estados Unidos. Este artigo original da época detalha o esforço dos colecionadores americanos para preservar os primeiros clássicos

Você já imaginou como era ser antigomobilista no passado? Afinal, se a década de 1950 produziu os carros que hoje fazem parte da base do antigomobilismo mundial, em sua época eram carros zero km, e outra gama de modelos e marcas povoavam os sonhos e projetos dos colecionadores, em um movimento que já era bem desenvolvido.

mecanica popular agosto 1952

Este artigo foi publicado originalmente em espanhol, na revista Mecanica Popular, de agosto de 1952


Esse texto publicado originalmente em espanhol, na revista “Mecânica Popular” edição de agosto de 1952, fala sobre o trabalho dos pioneiros na restauração e preservação de carros antigos nos Estados Unidos; além de citar os principais modelos que ocupavam as garagens dos entusiastas, nos anos dourados.

Revela também a preocupação de sempre com a originalidade e dá notícias de uma época primordial, em que a dificuldade de encontrar peças obrigava cada colecionador a ser um misto de mecânico, funileiro, tapeceiro e artista; ao mesmo tempo em que, com poucos dólares, se compravam modelos raríssimos, que hoje valem centenas de milhares e até milhões de dólares. 



Autos clássicos restaurados

Por Ewart Thomas

Carros clássicos alinhados para uma corrida. Muitos deles são mais rápidos do que os carros de hoje


Toda vez que Bob Gotllieb sai para passear em seu automóvel, pessoas desconhecidas se aproximam para fazer a mesma pergunta: “Que carro é esse, é um dos novos modelos europeus?”

Gotllieb encosta-se à lateral de seu carro, de linhas longas e esportivas, e sorri: “Não”, responde, “é um Chrysler de 20 anos atrás”.  E é isso mesmo, apesar da extravagante carroceria marrom, feita por encomenda, que não parece ter mais de um mês de uso e do motor, tão silencioso que mal se escuta.

O carro era um monte de sucata enferrujada quando Gottlieb o comprou: o radiador estava completamente oxidado, o virabrequim estava quebrado, bem como três das molas. Os freios, inutilizados, o estado das juntas universais era deplorável e faltava no carro uma infinidade de itens.

Esse Chrysler de vinte anos atrás, parece com alguns carros europeus modernos. O auto rodou 36000 km no ano passado


O novo dono investiu seis meses, de suas horas de lazer, para restaurar o carro em sua condição original. Atualmente, o utiliza para ir diariamente ao trabalho e o número de quilômetros rodados, no ano passado, chegou a 36 mil. O carro inteiro é original, com exceção do carburador, modelo 1950, instalado para maior economia de gasolina.

Gotllieb poderia comprar um carro novo se quisesse, mas provavelmente não existe no mercado um automóvel modelo 1952 que ele aceite em troca do seu. Isso, porque se trata de um dos fanáticos pelos chamados “Carros Clássicos”, um desses entusiastas cujo número cresce constantemente, e que se deleitam reconstruindo e dirigindo os grandes carros que se fabricaram no passado.

Uma genuína antiguidade, esse Brush de 1905, tem eixos de madeira. Às vezes, os donos vestem roupas de época


Os modelos clássicos incluem os mais luxuosos automóveis de produção limitada, fabricados para — além de terem boa aparência — funcionarem bem e serem duráveis. E muitos deles custaram uma fortuna quando novos. Um Rolls Royce de 1928, com carroceria especial, vendido originalmente por U$$ 25.000 dólares é um exemplo de carro clássico, apesar de atualmente ser possível adquirir um, sem restaurar, por cerca de U$$ 500 dólares.

Sua beleza de linhas, bom funcionamento e raridade, formam o conjunto que está na definição de “Carro Clássico”. Também são chamados de “Carros Românticos” ou “Carros de Interesse Especial”. A idade não significa nada. Os Mercer série 5 de 1920, e o Lincoln Continental 1941 são modelos clássicos.

Um Mercer com parabrisas monóculo e faróis de acetileno, à frente de um Pierce Arrow 1902, durante um evento


Entre os carros clássicos estão o Marmon, Cadillac V-16, Packard de 12 cilindros, Pierce Arrow, Auburn e Lincoln. Os Cords Supercharger, da década de 1930, também são clássicos, assim como os Stutz Bearcats e Super Bearcats, que alcançavam velocidades de 160 km/h. Muitos dos melhores carros estrangeiros estão nessa categoria, não obstante sua idade. A beleza singular das suas carrocerias, feitas por encomenda, contribuem para lhes dar esse valor. Os primeiros modelos da Star, Overland, Chevrolet e Durant não são carros clássicos, mas podem ser valiosos por outros motivos.

Diferente dos colecionadores de carros antigos que hesitam em colocar seus carros na autoestrada, exceto em ocasiões especiais, o entusiasta que restaurou um velho Stutz ou Chrysler, feito por encomenda, é muito dado a usá-lo diariamente. As molas não são tão suaves como nos carros modernos — sobre isso não há dúvidas — e a aceleração dos motores, de bielas muito grandes, é mais lenta. Mas, certamente, ele vai alcançar velocidades superiores às alcançadas pela grande maioria dos carros modernos e, além disso, possuem uma superioridade manifesta, nas subidas com curvas. Virtualmente, os carros antigos fazem curvas com a agilidade de um coelho, numa velocidade que os carros modernos, com molas suaves e grande peso na frente, não podem fazer, sem reduzir a marcha.

O furor por restaurar carros antigos começou há muitos anos e chegou ao auge rapidamente.  Os carros luxuosos, pelos quais não havia quem desse cinquenta dólares, hoje alcançam preços de centenas de dólares. Nem todos são pechinchas e não vale a pena restaurar um carro que esteja muito acabado. O melhor é não comprar um modelo nessas condições ou que tenha sofrido uma batida violenta.

O Mercer, com direção à direita e alavancas de câmbio incômodas, é um carro de “ar livre”. Enquanto que o volante de um Kissel pode ser empurrado para cima, para o motorista entrar com mais comodidade


A organização The Horseless Carriage Club  (literalmente: Clube das Carruagens sem Cavalos) e outras associações de entusiastas de carros antigos, abriram suas portas aos donos de carros clássicos. Só na organização mencionada, ingressaram cerca de 200 novos sócios todos os meses, durante o semestre passado. Os concursos de pistas que essas organizações celebram anualmente, estão tomando um aspecto semi moderno. Espalhados entre os primeiros carros a vapor e elétricos, se observam agora vários carros clássicos, que dão um toque dos anos 1930.

Em um concurso, os passageiros desses carros antigos tentam acertar o anel, com varas.


Ambos, carros clássicos e antigos, competem em eventos de pistas, nesses concursos. As competições são exclusivamente de curtas distâncias e um potente carro clássico, nem sempre vence um carro mais antigo, com poucos cavalos de força. Nesse tipo de evento os carros correm velozmente por várias centenas de metros e depois disso se detêm subitamente e ficam imóveis, enquanto os condutores se levantam dos assentos e dão a volta em torno do carro, correndo, para retomar a vertiginosa correria até a meta final.

Elliot Wiener, verdadeiro fanático na restauração de carros clássicos, logo descobriu que precisava de uma oficina mecânica para reconstruir as peças. Este é o resultado: tem até um fosso de lubrificação


Quase todos os proprietários de carros clássicos se contentam em possuir apenas um antigo modelo, mas alguns aficionados apreciam tanto seus carros, que podem chegar a ter meia dúzia deles.

Um desses entusiastas é Eliott Wiener, de Pacific Pallisades – Califórnia, que no ano de 1945 comprou um Buick 1909 e passou todo ano seguinte o restaurando. Tal Buick era uma verdadeira antiguidade.

Logo Wiener comprou um clássico, pagando U$$ 350 dólares por um Stutz de quatro passageiros, modelo 1927, que estava em excelentes condições. Para restaurar o carro por completo, o dono trabalhou um ano inteiro em suas horas de lazer. Hoje em dia, o Stutz pode sem dúvida nenhuma cronometrar 160 km/h, velocidade que se garantia que ele alcançava, quando novo. Seu valor atual é de U$$ 3.000 dólares.

Sua restauração seguinte foi um pesado Pierce Arrow de 1915, que dirige de vez em quando, nas competições. O auto está equipado com um motor de seis cilindros, com cabeçote em T. Atualmente, Wiener está restaurando dois clássicos: um Rolls Royce Phanton I que era uma ruína mecânica quando começou a trabalhar nele, e um Mercer de 1920, que foi usado durante algum tempo como carro de corrida.

Wiener examina as rodas do seu Rolls Royce 1929, já quase restaurado


Faz algum tempo, Wiener ampliou sua garagem particular para alojar seus velhos modelos. Logo, ao continuar aumentando sua coleção, acrescentou uma nova garagem com oficina e fosso de lubrificação. Aguardando o momento que possa trabalhar neles, estão um H.C.S de 1920 com carroceria Touring e motor de quatro cilindros, com válvulas no cabeçote, e um Overland Coupê de 1909 que tem a aparência de um dos primeiros carros elétricos da era automotriz.

Motor de um Duesemberg de oito cilindros, que produz 265hp


O rei de todos os carros clássicos é o Duesemberg Modelo J, que se converteu numa lenda dos meios automobilísticos. O Duesemberg foi o carro de passeio mais potente já fabricado nos Estados Unidos e seu motor de oito cilindros e 32 válvulas, com duplo comando no cabeçote, desenvolvia 265 HP.

Essa marca de automóvel tinha a fama de ter uma velocidade máxima de 195 km/h, de alcançar 165 km/h em segunda e de chegar aos 160 km/h em 20 segundos, arrancando desde a imobilidade. Foram fabricados uns 470 desses carros de 1929 até 1937.

O Duesemberg tinha uma distância entre-eixos de 3,88m, pesava 3.084 kg e custava U$$16.500 dólares, com sua carroceria fabricada por encomenda. De acordo com os padrões atuais, este velho modelo se comporta como um caminhão de bombeiros, sem contar que é demasiadamente comprido e largo para ser dirigido comodamente pelo trânsito. Apesar desses inconvenientes, alguns dos Duesemberg que existem, percorreram mais de um milhão de quilômetros e parecem em condições de percorrer alguns centos de mil a mais.

Entre os Duesembergs que já foram completamente restaurados, há um Berline conversível 1930 de propriedade de James Talmadge, também de Pacific Palisades. Seu antigo dono usava o carro como galinheiro, quando Talmadge o comprou, por U$$ 400 dólares, em 1949. Recentemente, esse indivíduo recusou uma oferta de US$ 2.400 dólares pelo veículo.

Os Duesemberg tinham freios nas quatro rodas, bem como um sistema especial que automaticamente lubrificava todas as molas e partes da direção, a cada 140 quilômetros. Além dos instrumentos comuns, o carro era equipado com medidor de admissão e vácuo, tacômetro, cronógrafo, medidor de pressão nos freios e altímetro.

Um colecionador repara a roda de um Stearns de 1911


A meta do restaurador é restituir ao carro clássico sua condição e aparência primitivas, de fábrica. Seria um erro imperdoável instalar uma transmissão automática em um antigo Hupmobile. Não obstante, no caso do seu Duesemberg, Talmadge, fez algumas mudanças em favor da eficiência e da segurança. O carro original estava equipado com pneus de 6:50×19 pol, que não se conseguem na atualidade, por isso, Talmadge usa pneus de caminhão de oito lonas,  em rodas de 20 polegadas. O carburador e o sistema de ignição original eram muito ineficientes se comparados com os modernos, de forma que essas peças foram substituídas por outras de melhor qualidade. Para silenciar um pouco o rugido do escapamento, instalou-se parte do sistema de exaustão de um caminhão diesel, junto com uma ponteira especial. Fora essas mudanças, todas as demais peças do carro são as mesmas que vieram de fábrica.

Nesta exposição, os velhos Packard, Piece Arrow e Rolls Royce, são clássicos restaurados e usados diariamente por seus donos

Se você sonha em dirigir, digamos, um Rolls Royce ou um Cadillac 1916, aqui está uma seleção de diferentes conselhos, oferecidos por vários proprietários que restauraram alguns dos velhos modelos clássicos.

É inútil tentar dizer-lhe onde se pode encontrar um desses antigos carros. De vez em quando se vê um ou outro, armazenado no fundo de uma loja de carros usados. Outras vezes, se pode encontrar um deles numa garagem particular onde ficou guardado  — quase esquecido — por anos e anos.

Duas coisas se devem ter em mente, antes de comprar o carro. Primeiro, certifique-se de que ele pode ser restaurado e que o preço é justo. Segundo, se a carroceria bateu, ou o motor está inutilizado, não o compre por preço algum. As peças de reposição para esses carros são impossíveis de encontrar. Na verdade, é muito provável que você tenha que mandar fazer, em uma oficina mecânica e seguindo as especificações de fábrica, algumas peças do motor.

Se você é um entusiasta genuíno dos carros clássicos, não se aventure dirigindo o carro, por menor que seja a distância, até terminar a restauração e fazer uma reparação total do motor. Geralmente, é preciso trocar toda a tapeçaria. É preciso, também, retirar toda pintura da carroceria, reparar cada amassado e fazer uma pintura nova. Para obter maior economia, você pode substituir o carburador original por um de desenho moderno, e para maior segurança, instalar freios nas quatro rodas.

A restauração de um antigo modelo para sua condição original pode levar de seis meses até um ano de trabalho, nas horas de lazer. Porém, ao chegar o dia glorioso, quando finalmente você dirigir seu carro pelas ruas, terá a satisfação de saber que seu veículo tem novamente o estilo de fábrica e que, carro por carro, ele é tão bom quanto o mais moderno dos automóveis que hoje chamam tanto a atenção.

Tradução: Geraldo Costa
Edição: Geraldo Costa e Fernando Barenco


Imagens atuais de alguns carros citados nesta matéria

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Geraldo Costa

Tenho 25 anos, moro em Nova Friburgo - RJ e sou licenciado em Letras Literaturas, com pós-graduação em Docência e Gestão do Ensino Superior. Interesso-me desde criança por carros antigos, motivado pelas histórias dos carros americanos do meu avô e por várias revistas antigas de meu pai, que havia em casa. Meus modelos favoritos são os "novos antigos", automóveis nacionais pré-1990.

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