Colunista Convidado

Sexo, Cadillacs & Rock’n’Roll

Sexo, Cadillacs & Rock’n’Roll

(*)Por Horacio Zabala

Quem não teria gostado de viver nos Estados Unidos nos anos dourados?  Marcados por grandes mudanças culturais, os anos 50 e 60 foram um ponto de partida não apenas para o bom e “novo” Rock and Roll, senão também para a chegada de uma geração de carros mais ousados, elegantes, extravagantes e com potentes motores.

Depois da Segunda Guerra Mundial, o ressurgimento dos Estados Unidos se fez presente em todas as áreas, e principalmente em infraestrutura e construção de estradas, junto com uma considerável malha rodoviária interestadual. Quando a produção de carros particulares foi retomada em 1946, muitos americanos nunca tinham possuído um carro, ou tinham vendido o seu após a grande depressão da década de 1930. Uma população crescente de adolescentes nascidos depois da guerra e numa economia que só prosperava, forjou um intenso relacionamento com os carros e a velocidade, justamente na hora em que chegaram novos ritmos, mais acelerados para canalizar tanta adrenalina.

Até o início dos anos 60, a intersecção da cultura do carro e do Rock and Roll já estava bem estabelecida. O rádio tornou-se um recurso padrão na maioria dos modelos de carros novos e o volume aumentava proporcionalmente à potência dos motores, possibilitando que um número crescente de americanos ouvisse música enquanto percorria as estradas do país, onde o próprio ato de dirigir simbolizava uma recém-descoberta liberdade de movimento, especialmente para os mais jovens.

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Um dos primeiros carros que marcou esta época foi o Olsmobile 88, que a general Motors introduziu ao mercado em 1949. O carro, apelidado de “Futuramic”, foi anunciado como o carro de menor preço com um motor Rocket (ou Foguete). O novo veículo rapidamente se transformou na síntese da paixão americana pela velocidade, pela exploração e pela ficção científica das primeiras viagens espaciais, que já tiravam o sono dos cientistas da Nasa. O apelo do Oldsmobile era tão forte que, em 1951, a música “Rocket 88”, do Ike Turner, gravada pelo seu grupo Kings of Rhythm, e posteriormente interpretada também por Billy Halley – e seu grupo na época The Saddlemen – era uma ode à fantasia de dirigir um carro elegante.  Esse foi talvez uns dos primeiros Rocks reconhecidos pela cultura Rockabilly e um sinalizador do caminho para a próspera parceria entre os clássicos de quatro rodas e o Rock, assim como um tempo propício para a transformação de clássicos mais antigos que viraram limusines para transportar as bandas, ou os V8 envenenados, leves, e transformados definitivamente em potentes Roadsters capazes de encarar as trilhas mais desafiadoras ou as longínquas estradas.  Novos estilos nasciam, e junto com eles, uma legião de seguidores.

Esta combinação de música e carros – ou carros que inspiraram músicas, ou até clássicos que aparecem em clipes de músicas bem conhecidas – trouxeram uma infinidade de composições incentivadas pela paixão por carros de cara ao vento.  É claro que seria impossível citar todas aqui nesta compilação curta, mas vamos tentar repassar o mais destacado.  Vale lembrar que, ao contrario do que opinam muitos preconceituosos, a maioria das letras não se resume apenas a “sexo e drogas” senão que também incluem críticas sociais, apelos políticos e histórias de amor e liberdade, além da paixão pela velocidade.

Elvis Presley e seus Cadillacs

Os carros representavam uma continuidade da personalidade do Elvis Presley. Como foi dito, nos anos 50 poucas coisas representavam melhor o sonho americano do que um luxuoso carro, e o Cadillac era aquele que simbolizava esse sonho.  A paixão do Elvis pelo modelo era marcante, tanto que ele não apenas foi o Rei do Rock, senão que também foi o Rei dos Cadillacs, como muitos biógrafos afirmam.  Só para termos ideia desta admiração, o Elvis chegou a adquirir mais de 100 unidades ao longo da vida, e ele mesmo escolheu o toque de requinte e a customização em muitos deles, desde bancos com suas iniciais estampadas, até folhados a ouro.

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É difícil catalogar aqui cada um desses carros, então preferimos escolher o Cadillac que talvez resuma todos os Cadillacs do Elvis pelo que representou e sua paixão pela marca.  E esse foi o Cadillac Fleetwood Special de 1954, já que o sentimento do Elvis por esse carro está bem documentado.  Na cor rosa com teto branco, apelidado de “Pink Cadillac”, foi adquirido em julho de 1955 como presente para sua mãe Gladys (que jamais teve carteira de motorista e nunca o dirigiu), e nunca foi vendido.  Esse Cadillac Rosa, ícone dos anos dourados, é provavelmente um dos carros reais mais marcantes, definidores de estilo, copiados e comentados na cultura pop norte-americana. O carro foi dirigido por última vez em 1981, e na atualidade se encontra exposto em Graceland, Memphis. A música do Elvis “Baby, Let’s Play House” gravada em Memphis nos primeiros anos, faz alusão a um Cadillac rosa, mas também sendo a composição onde Elvis sela a fusão do Country e dos ritmos de Blues, começando a marcar seu território no Rockabilly.

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Outro lendário, Bruce Springsteen, também tem obsessão por Cadillacs, tanto que aparece em algumas de suas músicas, como é o caso de “Pink Cadillac”, e “Cadillac Ranch”.  Se falarmos em clipes com Cadillacs, devemos considerar aquele de 1998, “My Favorite Game”, por The Cardigans – um dos melhores clipes de rock com carros já feitos, onde a bela vocalista da banda sueca Nina Persson, anda num Cadillac modelo Eldorado 1974, desgovernado, por uma daquelas estradas norte-americanas no meio do deserto.

E se quiser assistir algum clipe com Cadillacs, recomendo “Don’t Stop” (2002), música dos Rollings Stones, onde três jovens a bordo de um Cadillac Eldorado Biarritz 1960 viajam por cenários psicodélicos ao som da canção composta pelo líder da banda Mick Jagger, e pelo guitarrista Keith Richards.  Definitivamente, o Cadillac é o carro que mais aparece entre as bandas de Rock, Blues e Rap.  Por que será?

Enquanto isso, longe do Memphis

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Em algum lugar da Europa, Eric Clapton e George Harrison, se apaixonavam por Ferraris e Nick Mason, baterista de Pink Floyd, pilotava um Jaguar nas horas livres, e até se arriscou numa edição das 24 Horas de Le Mans.  Na América, Janis Joplin eternizava as marcas Porsche e Mercedes-Benz em sua épica “Mercedes Benz”, ao tempo que o polêmico e provocador guitarrista dos Rolling Stones, Keith Richards, nos surpreende ao escolher o conservadorismo e a sofisticação dos britânicos Bentley. E já que tocamos nos britânicos, vamos aproveitar para fazer ao menos uma menção ao CC Cobra, o famoso inglês de dois lugares fabricado entre 1962 e 1966, com potente motor V8, e inspirador de músicas como “Hey Little Cobra” (1964) de The Rip Chords, fortemente associada a pilotos e adrenalina.

Aos fanáticos do Ford Mustang podemos dizer que o carro chegou em 1964 e veio para ficar, da mão de “Sally Mustang” de Wilson Pickett, e que foi mais um ícone da música em quatro rodas. Caso alguém queira conferir um clipe com Mustang, sugerimos “Crazy” (Aerosmith, 1994), para muitos o melhor clipe da banda norte-americana, por um simples motivo: as musas Alicia Silverstone e Liv Tayler, filha do vocalista Steven Tyler, protagonizam o filme na pele de duas estudantes que fogem do colégio a bordo de um Ford Mustang GT 1988.

__conv2Para os amantes de Chevrolet Corvette, contamos que o modelo – clássico sinônimo de rebeldia e de cara ao vento – chegou em 1953, inspirando também várias músicas, sendo uma das mais emblemáticas “Little Red Corvette” de Prince, que foi escrita em 1982 e recentemente, no mês de abril de 2016, a Corvette lançou uma campanha nas redes sociais e nos principais jornais do mundo, com a imagem de um Corvette Vermelho 1963, em tributo a Prince, com a frase “Baby, that was much too fast / 1958-2016” – (“Cara, isto foi muito rápido / 1958-2016”).

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Já o Pontiac GTO, considerado o primeiro Muscle Car fabricado pela Pontiac entre 1964 e 1974, apareceu em diversos filmes e seriados americanos.  A música “GTO” de Ronny & The Daytonas, o colocou na mira dos rockeiros por causa do seu motor V8 e 325 cavalos de potencia.  Ainda hoje continua sendo um dos carros mais cobiçados pelos colecionadores.  No clipe de Red Hot Chili Peppers, “Scar Tissue” (1999), a banda californiana passa a maior parte do clipe a bordo de um Pontiac Catalina 1967 – um conversível todo enferrujado.

Outra referência que arrancou belas melodias foi o Ford Thunderbird.  Produzido a partir de 1955, conseguiu se infiltrar na cultura do Rock, sendo escolhido por bandas que tratavam o folclore nativo de Arizona e Novo México.  “Fun, Fun, Fun” de Beach Boys escrita em 1964 é talvez a canção mais representativa envolvendo um Thunderbird, e serviu como inspiração, ou motivação, para futuros donos do modelo.

Mais recentemente, o clipe da música “Broken Wings”, de Mr Mister, lançada em 1985, começa com o vocalista Richard Page dirigindo um clássico Ford Thunderbird através do deserto, ao mesmo tempo em que é seguido por uma águia – bela imagem e bela metáfora para os amantes da boa música, e claro, do belo Ford.

Falando em Chevrolet modelo 409, foi esse mesmo que, em 1962, deu origem à música “409” dos Beach Boys, baseada neste trovão de motor V8 e respeitáveis 409 polegadas cúbicas.

__conv3The “General Lee”, uma cartada da Dodge

Porém, se falamos em carros ícones e músicas, houve um emblemático carro que, mesmo não oriundo nos anos dourados, rapidamente se transformou em referência para uma geração que buscava definir a sua própria identidade.  O emblemático Dodge Charger, alavancado por um seriado de TV, entrou em todas as casas entre 1979 e 1985. Podemos afirmar que a cada dia alguém encara o árduo trabalho de restauração de um velho Charger em algum lugar do mundo, e que grande parte desse sucesso foi por causa do seriado “Os Dukes de Hazzard”, que conta a história de Bo e Luke Duke, dois primos que lutam contra as injustiças no condado de Hazzard, nos Estados Unidos, e onde teriam sido usados 321 carros entre todos os episódios gravados.

Neles, o prestativo Charger, de portas soldadas, era testado em todo tipo de situações e terrenos. O modelo era um Dodge Charger R/T, modelo 1969 com motor V8 “HEMI” (chamado dessa forma por ter as cabeças dos pistões hemisféricas), na cor laranja e com o numeral 01 pintado nas laterais e a inscrição “General Lee”, em alusão a Robert E. Lee, general dos exércitos confederados durante a guerra civil nos EUA, cuja bandeira estava estampada no teto do carro. No seriado aparecem também um Cadillac DeVille 1970 conversível e um Plymouth Road-Runner, sendo que as viaturas usadas foram Plymouth Fury 1976 e 77, AMC Matador 1974, Dodge Monaco 1975 e 1977, Dodge Polara 1970 e Plymouth Satellite 1974, todos que completam a saga como coadjuvantes.

Entre 1968 e 1969 a Chrysler produziu cerca de 180 mil unidades do Dodge modelo Charger, onde os 321 parcialmente destruídos no seriado, parecem ter sido um investimento pequeno se comparado à fama e à publicidade que o carro conquistou por causa dessa exposição.  Certamente o General Lee foi o melhor que aconteceu na existência do Dodge Charger.  No entanto, quando falamos em General Lee, o legado é bem maior do que apenas algumas músicas como “The General Lee” do mítico Johnny Cash, ou na balada – quase poética – de Cajun Doug Kershaw, a “The Ballad of General Lee”.  O modelo, e o visual, mistificam e marcam gerações, contradições, rebeldias, e todo tipo de sentimentos onde confluem referências visuais e históricas, e cujas repercussões e projeções, vão muito além do Charger R/T ou de outro Dodge qualquer.

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Tenho certeza que alguns, nestas alturas, estão se perguntando  –  e cadê o sexo neste artigo?  Bem, então é só ouvir  “Backseat Of Your Cadillac” (Banco Traseiro do Seu Cadillac), do CC Catch e você vai entender tudo!

Bônus Tracks

E se ainda ficou com vontade de ver e ouvir mais e gostaria de andar de Fórmula 1 com George Harrison; experimentar a velocidade da luz com Deep Purple; se apaixonar dirigindo com Jimi Hendrix ou pular com Bon Scott, então desfrute das músicas a seguir, e viva a liberdade e a velocidade!

 

https://www.youtube.com/watch?v=G8AyZ0Bs35E

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__conv4(*) Horacio Zabala  Nasceu em Buenos Aires.  Administrador e Pós-Graduado em Gestão Empresarial, jornalista e fotografo.  Editor da Revista MotorMachine desde 2012, atualmente se dedica ao Espaço do Colecionador, na cidade de Timbó, SC, onde reside desde 2008.  Na fotografia, incursionou em segmentos diversos, mas encontrou na fotografia de veículos, competições esportivas e competições, um mercado em crescente demanda, aliando a experiência com modernas técnicas de edição de imagem.   Contato: horacio@motormachine.com.br

 

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1 Comentário

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  • Parabéns ao Maxicar, por abrir espaço para colaboradores diferentes, e ao Zabala pela criação da Revista MotorMachine. Opinião não vou registrar, pois ela seria suspeita pelo fato de admirar o trabalho de ambos.

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