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A ESPERA
Um “causo” de amor

(Um conto de "Marcalex", adaptado por Zamma Reis)

Na esquina por onde passam motos, caminhões e carros, uma mulher espera. Altiva e tranquila acompanha com os olhos o desfile de homens e veículos como mesmo sentido de exclusividade e propriedade com que os generais assistem a desfiles militares: aos seus pés, rendidos.

Sempre mantendo a sua altivez, mas menos tranquila à medida que os minutos passavam, virou as costa a pessoas e coisas para ver uma vitrina a sua figura jovem e elegante e dar um toque de magia ao seu penteado, para tornar mais picante e tentador. E no vidro, enquanto retocava a sua elegância, descobriu com aparente distração, o automóvel, o único automóvel que esperava e desejava ver, que parou instantaneamente entre ranger de freios e transeuntes espantados. Com lentidão estudada subiu no carro, como se fosse a escadaria de uma catedral, interrompendo o tráfego.

Finalmente juntos e finalmente sós. Ele disse: “Querida, as chamadas telefônicas de última hora me impedem de ser pontual e nada me enerva como saber que você me espera na rua”.
— Se você não atendesse as chamadas me evitaria a espera e a solidão.
— Lógica feminina. Você pensa que posso abandonar meus clientes, deixar minhas obrigações às seis horas em ponto e correr ao seu encontro?
— Os chamados que chegam depois das 6 da tarde não são de clientes mas de admiradoras que desejam convidá-lo, reclamar a sua presença, avisá-lo que esqueceram um lenço no seu carro, para que possa escondê-lo em tempo.

O diálogo continua com a invariabilidade de uma ladainha; às vezes muda o tom e ritmo mas no fundo é música de amor. O automóvel é na realidade uma maravilhosa casa que roda: quatro paredes decoradas com grandes vidraças, chão atapetado, calefação que aumenta o calor ou o ar condicionado que o elimina; rádio que traz notícias do mundo exterior, o porta-luvas, uma caixa com segredos e surpresas; os assentos, um sofá para sonhar! E tudo sobre quatro rodas que vão a procura de novas paisagens. Um homem e um mulher que se encontram sozinhos, nesta casa sobre rodas, se abandonam espontaneamente às suas ternuras e confidências.

As rodas continuam rodando. Eles continuam tentando encontrar a justificação que provocou a espera e a injustificação de ter que esperar.
— Compreendo perfeitamente que cada mulher tenha o seu próprio automóvel, diz ela, para usá-lo com liberdade sem ter que escravizar-se e passar parte de sua vida na rua, simplesmente a mercê de sua majestade o homem, que deve lembrar-se de recolhê-la.
— Acredita então que seria o caso fabricar tubos de conexão para unir o automóvel do homem ao da mulher, sem violar a individualíssima independência?
— Que ridículo. A solução é ser pontual e mais nada.

O mútuo acordo foi encontrado. A mão do homem encontrou a dela. E o cumprimento veio finalmente. O carro se deteve: um beijo, depois outro mais intenso.

A chuva começara impiedosa. Quando ele quis novamente ligar o motor, todos os esforços foram inúteis. O máximo que conseguiu foi encostar o carro na calçada, graças a um ligeiro declive. Ali o automóvel estacou, imóvel, sem respirar.
— Que capricho é este?
— O motor está molhado, disse ela simplesmente, sempre entendendo tudo à sua maneira.
— É melhor não discutir com você nem com as velas; olharemos a chuva cair através do pára-brisa e lhe darei outro beijo porque a adoro.

— Você me disse isso ontem à noite...

E na rua escura, solitários, isolados pela água que formava uma cortina, se resignaram tranquilamente a esperar as soluções que chegam sozinhas e das quais se pode dispor sempre que há muito tempo. Iniciaram as conversas que se tecem quando sobram as horas e que têm a ternura da desocupação. Ele liga o rádio.
— Quer ouvir? Estão tocando uma linda música.
— Lindo, deixe-a, por favor. André querido, abrace-me, estou com frio.

A música que escutavam os transportava para um mundo de azuis e dourados e cúpulas com castelos, meninos, duendes.
— Você é bom André?
— Sou bom para aqueles com quem vivo de perfeito acordo.
— Não é verdade, nós temos idéias diferentes, mas assim mesmo eu penso e imagino que você seja bom.
— Acredita-se porque se imagina, Mariana, porém não é certo que se imagina sempre a verdade.
— Interessa-lhe a verdade?

— Olhe, — interrompe André soltando o abraço bruscamente — está vindo um homem em direção ao carro.

Naquele momento um guarda bateu na porta do carro e quando André abriu o vidro pediu os documentos com prepotência.
— Por acaso o senhor viu a minha foto nos jornais, pedindo a minha prisão? —Perguntou com ironia.
— Não estou brincando. – respondeu severamente o guarda, transbordante de poder e autoridade.
— Vocês virão comigo para a Delegacia porque estão dando escândalo na via pública.
— Antes de mais nada seria interessante abaixar o tom da voz. O nosso carro está com algum defeito, chove como o senhor está vendo e nós estamos – minha esposa e eu – escutando um pouco de música esperando que passe o temporal; não escandalizamos ninguém nem provocamos ninguém.
— Mostre os documentos.
André calmamente mostrou os seus documentos; Mariana não, pois não os levava consigo.
— As mulheres também devem andar com os documentos – disse o guarda e acrescentou – Venham comigo até a Delegacia.
— A senhora é a minha esposa e se o senhor insiste, mais tarde lhe mostrarei os documentos de nossos estado civil e ficará arrependido de sua imprudente severidade”.

André disse as últimas palavras com veemência e o guarda ficou meio envergonhado. Se realmente fossem marido e mulher o caso não seria tão grave.
— Estão realmente casados — perguntou o guarda com tom conciliatório.
— Claro – disse prontamente Mariana, com o ar mais doce possível — E o senhor nos deveria ajudar a sair deste lugar onde, aliás, o estacionamento não é permitido.
O guarda não sabia mais o que dizer.
— Terão uma multa por isso...
— Isso sim! Mas poderia perdoar-nos porque realmente o carro não pega e não conseguimos tirá-lo daqui.
— Procure dar a partida. —André não obteve sucesso.
O guarda olhava para o painel e observou:
— Mas não tem gasolina!

Começaram a trocar opiniões para encontrar a maneira mais rápida para obter gasolina e foi o próprio policial quem indicou o posto mais próximo e que num impulso de cooperação se ofereceu para ajudá-los.
— Não se molhem. Eu já estou encharcado e tenho que ficar na rua até meia-noite. Irei até o posto e mandarei cinco litros de gasolina. Peço-lhes apenas para irem embora logo, pois realmente aqui o estacionamento é proibido.
— Muito obrigado, senhor guarda, o senhor foi muito amável e nós somos-lhe muito gratos.

O homem mau, transformado em bom, foi embora com passo rápido e com a segurança da solução encontrada no momento oportuno. André e Mariana, sentados o mais longe possível no confortável assento, se olharam confusos.
— Dos três, o único realmente bom é o guarda, porque apesar de ser um homem que deve bancar o mau, por obrigação, foi generoso e nos presta um auxilio. – disse Mariana com um pouco de melancolia.
— Você está triste?
— Sim, porque você mentiu, e eu aceitei a sua mentira. Juntos o enganamos.
— Não é verdade, Mariana. Disse que você é a minha mulher porque realmente você é a mulher dos meus sonhos.
— Por quartos de dias e décimos de noites. No mais o que sou realmente para você?
— Mariana, esse guarda acreditou na nossa mentira. Mas é uma mentira que já se desfez porque chegou o momento de dizer-lhe: Mariana, você quer ser minha esposa? Sempre tive receio de que, ao chegar esse momento, eu me enfurnaria numa situação banal. Afinal, agradeço a esse guarda, que me ofereceu a oportunidade de ser realmente sincero, de ser eu mesmo. A minha proposta é apaixonada e não é nada banal – e é a surpresa que a noite preparou para nós.



Zamma Reis - Soteropolitano, 55 anos, Professor de História pela UFRJ, pós-graduado pela UNIABEU, Comendador da Cidade do Rio de Janeiro e Medalha Pedro Ernesto da Câmara Municipal do rio de Janeiro - 1996, apaixonado pelo antigomobilismo e "PAI" de um CHRYSLER PLYMOUTH 1948.

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