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E tudo começou com a roda!

Nesta coluna de estreia, vamos abordar a História
daquela que movimentará a “alma” do Antigomobilismo
ao longo de sua existência — A RODA.
Quando a roda foi inventada não existia o Prêmio
Nobel. E por isso, o homem ou os homens que a inventaram
não tomaram o rumo de Estocolmo para ir receber das
mãos do rei da Suécia um amável cheque
de milhares de dólares. Na realidade, naquela época,
conhecida também como “a noite dos tempos”,
não existiam nem a Suécia nem os dólares.
Mas será que o Prêmio Nobel seria suficiente
para o inventor ou os inventores da roda?
Verdade é que a roda marcou um acontecimento básico
na história do mundo, elemento indispensável
e substancial do progresso humano.
De acordo com teorias modernas, a origem da roda é
constituída por uma máquina transcendental,
formada por troncos de árvores polidos, sobre a qual
os antigos transportavam – talvez a palavra certa
seja arrastavam — blocos de pedra para as suas construções.
Épocas toscas e indefinidas pairavam sobre o globo.
A certa altura alguém chegou a intuir que o atrito
que uma fatia de um tronco de árvore deve vencer
para manter-se em movimento é muito inferior ao que
encontra todo o tronco deslizando sobre o terreno. Intuição
inevitável, inspirada pela mecânica cósmica
na qual o movimento de rotação arca como papel
principal. Aliás, na iconografia dos povos primitivos,
a roda domina e assume aspectos místicos e míticos.
A roda é comumente símbolo do Sol. Nos movimentos
rúnicos a roda representava a noite sagrada, ancestral,
que precede o nascimento do sol.
Mito e realidade andam de braços dados, na noite
dos tempos. E a roda se torna fator de vida e de desenvolvimento.
As suas aplicações práticas são
inúmeras.
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| A roda de Ur |
A nós, naturalmente, interessa a roda como elemento
de locomoção e de transporte. A sua evolução,
e em consequência também a do carro que é
a sua primeira e mais lógica aplicação,
procede lado a lado com a intensificação de
determinadas atividades humanas, tais como a indústria
e o comércio. E a guerra também. Como bem
sabemos, são raras as invenções e as
descobertas que, nas mãos dos homens, deixam de tomar
feições perigosas e ameaçadoras.
Em todo o caso, a roda – e portanto o carro –
são índices de civilização.
A primeira roda da qual temos notícia é a
roda de Ur, que remonta ao quarto milênio antes de
Cristo: roda cheia, construída totalmente de madeira,
formando um todo único com o eixo central, ao qual
está fixada por pequenas traves encaixadas.
A evolução da roda foi vagarosa. A roda de
Ur resistiu como protótipo por milhares de anos,
até mais ou menos o século VIII a.C., quando
a introdução do raio revolucionou a sua história
e a sua confecção.
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| As primeiras rodas de raios
usavam o formato de cruz |
Possivelmente a descoberta e o emprego dos metais foi um
dos motivos que possibilitaram a substituição
da roda cheia pela roda de raios. A distribuição
dos raios variava muito. Geralmente estavam dispostos radialmente.
No entanto, havia exceções. Os bascos os distribuíram
em forma de cruz. A técnica moderna volta amiúde
ao emprego da roda de raios cruzados; assim como nas estradas
de ferro se usam rodas fixadas no eixo, como as primitivas.
A primeira roda de raios foi assíria — século
VIII a. C — construída em madeira e ferro.
Os raios — em número de oito — estavam
distribuídos radialmente e se encaixavam num grande
e pesado aro de madeira, revestidos exatamente, ao longo
do que hoje chamaríamos de banda de rodagem, por
brochas de ferro.
Uma nova etapa é apresentada pela roda egípcia,
— século VII a.C. — construída
completamente em madeira, com quatro raios perpendiculares
que, saindo do eixo, encaixavam-se num aro leve, revestido
por uma tira de couro.
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| A partir do século
V a.C, os romanos passaram a usar as rodas de raios |
No período romano encontramos diferentes tipos de
rodas. No início a roda romana é cheia, construída
em madeira e reforçada por barras de ferro encurvadas.
Encaixa-se no eixo cilíndrico, ao qual fica presa
por meio de uma cunha metálica. Depois do século
V a. C., aparece em Roma a roda de raios – de quatro
a oito. Essas rodas são as primeiras nas quais o
revestimento da banda de rodagem é representado por
um aro de ferro. As características gerais da roda
permanecem inalteradas por um longo período. Até
a Renascença, quando os homens finalmente despertam
da Idade Média.
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| Leonardo Da Vinci criou a
roda com caios perpendiculares |
No século XV o gênio universal de Leonardo
da Vinci, concebe um roda na qual os raios não são
perpendiculares ao eixo central, mas inclinados em relação
a este, em razão de um ângulo determinado,
o que assegura à roda resistência e estabilidade
maiores. Esse tipo de roda ainda hoje é usado especialmente
nos carros agrícolas. Mas Francisco I da França
e Ludovico Moro, senhor de Milão, entregaram ao artista
e cientista toscano muito mais do que os dólares
do Prêmio Nobel – não se deteve por aí
e criou as rodas de raios trançados, a qual antecede
as rodas usadas pelos modernos carros.
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| Rolls Royce Siver Ghost 1910:
pneus e rodas com raios trançados |
Mais uma longa pausa da história da roda, até
chegarmos ao início do século XX, quando,
sobre uma roda tradicional foi aplicado um revestimento
de borracha tubular. Em 1908 encontra a sua consagração
a roda de raios trançados, isto é, dispostos
de acordo com o sistema empregado por Leonardo. No mesmo
ano passam a ser usados pneumáticos com câmara
de ar. A roda se torna mais leve e mais prática,
permitindo o aumento da velocidade, maior conforto, maior
estabilidade. Em 1910 aparecem os primeiros pneumáticos
com desenhos nas bandas de rodagem.
A técnica mais moderna deu passos gigantescos no
aperfeiçoamento da roda e dos pneumáticos.
Os milênios galoparam e as rodas inteiriças,
os revestimentos de couro, parecem pertencer mais à
lenda do que à realidade.
Desde os tempos remotos de Ur até hoje, a roda percorreu
um longo caminho. E não há dúvidas
de que continuará a progredir, mesmo se hoje nos
parece perfeita.
| Zamma Reis - Soteropolitano,
55 anos, Professor de História pela UFRJ, pós-graduado
pela UNIABEU, Comendador da Cidade do Rio de Janeiro
e Medalha Pedro Ernesto da Câmara Municipal
do rio de Janeiro - 1996, apaixonado pelo antigomobilismo
e "PAI" de um CHRYSLER PLYMOUTH 1948.
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