Maxicar.com.br - O seu portal de veículos antigos
RETORNA À PÁGINA PRINCIPAL  
 
Modelo:


Maxicar.com.br -

 

 

• Documento

Ford salva o Willys Capeta,
primeiro esportivo nacional

O Willys Capeta, já devidamente "acomodado" no Museu do Automóvel de Brasilia

Quatro automóveis Willys, marca assumida pela Ford em 1967, acabam de ser resgatados (julho de 2009) ao Museu Paulista de Antiguidades Mecânicas, em Caçapava, SP. O MPAM está fechado há décadas, após o assassinato de seu fundador, o antigomobilista Roberto Lee.

Os veículos haviam sido restaurados antes de ser cedidos em comodato ao Museu paulistano, mas com seu passamento, ficaram abandonados, sem manutenção, e por fim, saqueados em componentes, equipamentos. Para impedir seu desaparecimento, há 12 anos a montadora tentava reavê-los. Finalmente, a herdeira do espólio concordou com a devolução.

O movimento foi articulado pela Fundação Memória dos Transportes e seu Museu do Automóvel, em Brasília, a quem a Ford cedeu os veículos. O Museu irá buscar apoio financeiro e de meios para restaurá-los e mantê-los em exposição.

Os automóveis são um exemplar de 1906, espelhando a tecnologia primária da época, com quatro cilindros fundidos separadamente; um Willys Whippet 1928, Double Phaeton - quatro portas, conversível - com pequeno motor de quatro cilindros; um Willys Knight 1929, elegante e imponente sedã com capota em aço, e motor de seis cilindros com a hoje pouco conhecida tecnologia Knight, de camisas deslizantes, substituindo as válvulas convencionais.

Og Pozolli, pioneiro e decano dos antigomobilistas brasileiros, olha entristecido o que restou de um Maverick que fez o Raid de Integração Nacional. Era quase O km e foi depenado até se transformar em escombro.

E de maior relevo, raro e único Willys Capeta, primeiro automóvel projetado e construído no Brasil. Trata-se de um gran turismo, seguindo os conceitos de estilo e distribuição de volumes dos anos '60 – quem não o conhece imagina ser um projeto italianado, carroceria em fibra de vidro, apresentando desenvolvimentos que viriam a ser empregados nos Aero Willys e Itamaraty, sedãs da marca, como a caixa de transmissão com 4 velocidades, de série em 1965; o cabeçote do motor com novos dutos de alimentação e as rodas cromadas incorporados à produção em 1966, soluções brasileiras sobre o projeto original norte-americano. Nunca explicado, se protótipo ou carro de shows, o Capeta foi apresentado ao público no Salão do Automóvel em 1964, ainda no Parque do Ibirapuera, SP, esteve em uma exposição em Brasília, e foi guardado pela Willys até ser cedido ao MPAM.

Agora, apesar de terem sido furtados bancos, volante, rádio, carburadores, coletor de escapamento, alavanca de marchas, outros itens, e sofrido vandalismo, é um veículo íntegro, com apenas 300 km rodados!

Como Curador do Museu do Automóvel, entendo que o resgate representa o mais iimportante esforço já realizado por este equipamento cultural em recuperar e preservar veículos nacionais. Um caminho de êxito, já trilhado antes com a localização e salvação de outros exemplares historicamente distinguidos, como o IBAP Democrata, de 4 unidades produzidas, e do FNM Onça, de cinco exemplares. O resgate do grupo onde está o Capeta representa mais, não apenas por incluir outros três Willys antigos e com referencias marcantes de tecnologia, pelo fato de ser única unidade, mas como pioneiro projeto nacional – exceto a base do motor, portando desenvolvimentos, as linhas, chassis com motor recuado, transmissão – ocupará lugar de destaque junto a outras raridades. Além das citadas, o Willys Gávea, primeiro monoposto feito no Brasil para competições sul americanas; outro Willys, o Itamarati Executivo, primeira limousine nacional; o Brasinca 4200GT; Lumimari GT Malzoni, e outras raras referências preservadas pelo pioneiro museu brasiliense, focado no registro da história do automóvel brasileiro. O Museu do Automóvel, em Brasília, não é coleção privada, mas aberto ao público.

A se ressaltar, o apoio e o interesse da Ford em salvar e preservar a história, mesmo com veículos que não são de sua produção. Referencia necessária, fundamental ao êxito, é quanto às ações determinadas pelo presidente da empresa, o engenheiro Marcos Oliveira. Foi a sua definição de levar judicialmente a questão, que permitiu o início do final feliz.

Um museu precioso

O museu em seus áureos tempos, em foto da revista 4 Rodas de 1974 e como encontra-se hoje

O Museu Paulista de Antiguidades Mecânicas, dito Museu de Caçapava ou Museu Lee, foi o sexto do mundo no ápice de sua glória, no início dos anos ’70. Automóveis de relevo mundial – Bugatti, Rolls-Royce, Hispano-Suiza, Turcat-Merry, Mercedes-Benz, Packard, Jaguar, MG, Cadillac e outros norte-americanos de estirpe, incluindo unidade das 51 do revolucionário Tucker, formavam o rico e cuidado acervo. Foi o primeiro museu de automóveis no Brasil tratado como tal, e atração maior da cidade e da Via Dutra, a ligação São Paulo – Rio.

Morto Lee, seu pai – hoje muito citado na novela Véu de Noiva, do SBT, com o projeto da Ilha do Arvoredo - ainda tentou viabilizar o funcionamento e, com medo do futuro, e auxílio do Secretário de Cultura Cunha Bueno, conseguiu o tombamento da coleção pelo governo paulista, acreditando que o Estado protegesse o acervo. Mas isto não ocorreu.

A tutora da herdeira, então de menor idade, conseguiu autorização judicial para remoção de veículos para uma fazenda, e na única noite em que vigorou, vendeu 19 veículos dos mais preciosos, sendo a maioria exportada. Depois, abandonado por desinteresse da herdeira, o Museu veio sendo saqueado em veículos inteiros e componentes. Dos quatro galpões com automóveis, motores, carruagens, lanchas, itens de decoração, hoje resta um. Vedado por alvenaria, sem luz, com vazamentos d’água, ambiente insalubre, o que foi luminoso museu se transformou numa cova escura, abandonada, com veículos em pedaços, alguns empilhados. Alguns automóveis podem ser restaurados – desde que haja ação imediata. Ou da herdeira, desinteressada há décadas, ou do Ministério Público Estadual cobrando pela restauração do acervo. A Delegacia de Polícia de Caçapava recebeu denúncia sobre os saques ao Museu, mas não instaurou inquérito. E a Secretaria de Cultura de São Paulo, autora do tombamento, desde janeiro promete auditoria no acervo, mas de concreto, nada fez. A omissão oficial, a falta de investigação e punição, tem sido um incentivo aos furtos crescentes.

OS RESGATADOS

Roberto Lee, à direita e o Overland de 1906. Foto da revista 4 Rodas de 1974

Overland, 1906
Marca logo após incorporada pela Willys. Vendido por importador em São Paulo, rodou nesta cidade até ó início da década de '60, quando foi trocado por um Aero Willys novo. Restaurado nas oficinas da fábrica, foi atração no Salão do Automóvel em 1964.

Legítimo representante da tecnologia do princípio do século passado, tem seus quatro cilindros fundidos separamente e, para funcionar, utilizava de "rubinettes"- torneirinhas sobre os cilindros, por onde se gotejava gasolina antes de acionar o motor pela pesada manivela.

Diz-se, produz 20 hp e atinge 35 km/h.Tem câmbio e diferencial em solução depois utilizada em carros esportivos, num só conjunto. Teve furtados durante sua estada, todo o grupo óptico.

Chama a atenção a sineta entre os faróis. Foto da revista 4 Rodas de 1974

Willys Overland Knight 66 D, 1928
Automóvel de engenharia e construção refinadas. Grande em porte, fino interior com apliques em madeira marchetada, rodas raiadas em cubo rápido, feixes de mola apoiados em batentes de borracha para suavizar as imperfeições do piso. Utilizava um motor de tecnologia Knight, sem válvulas, empregando camisas deslizantes. Era de funcionamento muito suave, sem vibrações ou ruídos.
Pertenceu ao um estancieiro no Rio Grande do Sul que, para não espantar seus rebanhos, aplicou uma sineta elétrica na barra dos elegantes faróis. Foi trocado por uma Rural Willys, então O km, pelo presidente da montadora, William Max Pearce, restaurado na montadora, exposto no Salão.
A permanencia no Museu paulista custou-lhe infestação de cupins que consumiu o madeirame estrutural, além do furto de todo o grupo óptico, tampas de radiador e tanque, espelhos e outros itens.

O Willys Overland Whippet estava abandonado em Caçapava

Willys Overland Whippet Four, 1929
Marca de carros baratos e de entrada no mercado, adquirida pela Willys pouco anos antes. No estilo Double Phaeton, tinha carroceria em aço e capota em lona. Elegante em linhas, empregava pequeno motor de quatro cilindros, válvulas no bloco, produzindo 60 hp a 2.500 rpm. Foi recuperado sem o grupo óptico e detalhes.

Willys Capeta 1964
Construído pelo Departamento de Estilo da Willys, foi atração do Salão do Automóvel. É a primeira tentativa de um automóvel nacional, antecedendo ao projeto Uirapuru. Estilo Gran Turismo com os conceitos de época para distribuição de massas, carroceria em fibra de vidro. Tinha desenvolvimento próprio, com detalhes apenas agora revelados: chassi com longarinas periféricas, suspensão dianteira por triangulos inferiores e feixe transversal de molas semi elipticas, traseira com eixo rígido e molas semi elipticas longitudinais.
O interior utilizava bancos em couro, e apliques de jacarandá nas portas e painel. Nele, seis mostradores com inspiração nos aplicados aos Willys Interlagos.

O Capeta foi depenado no Museu Paulista de Antiguidades Mecânicas

De acordo com o material de divulgação do MPAM produzia 150 hp e atingia velocidade máxima de 180 m/h. Portava desenvolvimentos que seriam agregados posteriormente, como o motor willys de seis cilindros, cabeçote com coletores de admissão destacáveis, dois carburadores horizontais de corpo duplo; a transmissão de quatro marchas criada pelo departamento de competições da Willys; rodas cromadas, posteriormente adotadas pelo Itamaraty, automóvel mais luxuoso da marca.
Após o Salão, participou de uma exposição em Brasília, e foi cedido ao Museu Paulista de Antiguidades Mecânicas desde o fim da década de '60. Dele foram retirados os carburadores, o coletor de escapamento, volante, bancos, alavanca de marchas, espelhos e detalhes menores. Tem apenas 300 km rodados.

A decisão da Willys-Overland do Brasil em resgatar carros do seu passado, levando-os ao Salão, fez nascer uma das falsas verdades tão em voga no mundo dos veículos antigos: que qualquer fábrica oferece um carro o km por qualquer sucata. As trocas realmente ocorreram, mas por veículos em ótimo estado de integridade e conservação, Para a Willys, pioneira, líder do mercado, a iniciativa era apenas maneira simpática de ter atrações interessantes e de baixo custo no salão, sobrando como resíduo para preservação da história foi ação pontual. Mas a história ganhou velocidade, expandiu-se, e foi interpretada como regra de valor!

Texto: Roberto Nasser – Curador do Museu do Automóvel – Brasília, DF