• Gente
Antigomobilismo
de corpo e alma
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| Jorge Levi, orgulhoso ao lado de
sua coleção |
Quando alguém é apaixonado
por automóvel antigo, é comum se dizer: “Fulano
tem ferrugem nas veias”. Já virou até
clichê! Mas essa reportagem é sobre alguém
que tem muito mais do que simplesmente isso. Tem coração,
mente, corpo e alma antigomobilista.
Caminhoneiro aposentado, 58 anos, seu apelido
lhe foi dado pelo amigo Celso em referência ao bairro Borboleta,
onde nasceu e vive até hoje, em Juiz de Fora-MG. Hoje em
dia, poucos conhecem o Jorge Levi Mendes Coelho, mas pergunte
a alguém do meio antigomobilista da região quem
é Jorge Borboleta.
Figura querida e de uma simpatia sem fim,
sempre que falamos dele em rodas de amigos, é quase inevitável
ouvirmos algo do tipo: “Você já foi à
casa dele? Caramba, é um verdadeiro museu do automóvel!”.
Fundador e presidente da AVA-JF (Associação de Veículos
Antigos de Juiz de Fora), Jorge “Borboleta” Levi atualmente
divide seu tempo entre os assuntos do clube — que faz um
belíssimo trabalho social — e cuidar de seus automóveis
antigos. Confira
sua recente entrevista à Fátima Barenco do Portal
Maxicar.
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| Furgão Chevrolet "Boca
de Sapo". Comprado junto com outros 3 de uma panificadora |
Fomos à sua casa numa bela tarde
de domingo em agosto. O convite foi para uma visita social, para
tomar café e comer o gostoso bolo preparado por Maria Helena,
sua esposa. Mas já fomos logo avisando:
— Viemos para te visitar, mas estamos aqui a trabalho
também!, já que não podíamos
perder a oportunidade de registrar tudo o que ele tinha a nos
mostrar.
Entre suas antigas profissões, a
de mecânico lhe deu a bagagem para hoje fazer a própria
restauração de seus automóveis, incluindo
mecânica, elétrica, lanternagem (ou funilaria em
algumas regiões do Brasil) e pintura. Para terceiros fica
apenas o serviço de capoteiro.
Sua casa, no final de uma rua, é
uma espécie de cháraca com grande terreno e diversas
construções, inclusive uma casa que foi de seu falecido
pai e que hoje abriga a sede da AVA. Já na entrada vê-se
um Furgão Chevrolet “Boca de Sapo” do início
dos anos 50. Comprado há cerca de 2 anos de um lote de
4 furgões para restauro de uma antiga panificadora da região,
o velho utilitário espera paciente a sua vez de voltar
à velha forma. Dos outros 3, um foi vendido, o segundo
está sendo restaurado e o terceiro — em péssimo
estado — faz o papel de doador de peças.
Quando o “Boca de Sapo”, estiver
concluído, Jorge terá a difícil missão
de escolher sua próxima tarefa, pois esperam na fila: outro
Furgão Chevrolet; Plymouth Fury SW 1972, resgatado sem
mecânica quando estava prestes a ser “picado”
com machado e vendido a peso; Bel Air Sedan 1956; Caminhão
Ford 1947; três Fords A, sendo um Tudor 1928, um Phaeton
1929 e uma Pick-up também 1929; Chevrolet Special de Luxe
1952; Pick-up Dodge 1953; Chevrolet 1947; Ford LTD 1979, o único
nacional da imensa lista; além de um Impala 1965 4 portas
sem coluna que já pertencia a ele, tendo placas pretas
inclusive, mas que em 2004 foi vítima de uma chuva de granizo,
tendo sua carroceria ficado repleta de mini-mossas.
— Nem você sabia que tinha tantos carros para
fazer!, brincamos em meio a muitas gargalhadas.
— Meu pai vai ter que viver uns 200 anos para terminar
tudo isso!, arrematou seu filho Elerton, mais conhecido como
“Lourinho”, um professor de história que nas
horas vagas ajuda o pai com os automóveis.
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| Impala 1965, vitima de uma chuva
de granizo e Cadillac De Ville 1964, vítima do antigo
proprietário |
Somado a todas essas relíquias,
encontramos uma mais do que especial, coberta com um grosso encerado
de caminhão, bem no meio do quintal. Um imponente Cadillac
Coupê de Ville 1964 que não está propriamente
esperando restauração e que tem uma história
pra lá de curiosa, que vamos contar no box “Os automóveis
do ‘Alemão’”.
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| Peças e acessórios
das mais diversas marcas e anos |
Peças
& Acessórios
Vistos os carros “a fazer”
fomos conhecer o “setor” de peças e acessórios
de Jorge Borboleta. Divididos em três ou quatro construções
é possível encontrar de tudo e mais um pouco para
automóveis antigos: rodas, volantes, calotas, dínamos,
bancos, pneus, frisos, borrachas, acessórios (alguns raríssimos,
disputados a tapa por colecionadores), rádios, bancos,
frisos, motores inteiros, latarias, emblemas, tintas das mais
diversas cores, grades, faróis... enfim, no que você
pensar, o camarada tem ali. Bicicletas antigas há muitas!
Mas não são produtos para a venda e sim coisas que
ele foi acumulando ao longo da vida e que se transformaram numa
bagunça organizada, que ele entende muito bem, quase sempre
encontrando de imediato o que procura. Conforme abria as caixas
e gavetas, Levi ia descrevendo o histórico daquela peça,
guardada exatamente ali por um bom motivo. Certamente um dia terão
uma serventia!
Próxima parada, o setor de literatura.
A sede do clube esconde em armários e gavetas, publicações
dos mais variados tipos, tudo sobre automóvel, é
claro.
— Tem sempre alguém disposto a me dar alguma
coisa. Pessoas que vão jogar livros e revistas fora e acabam
me oferecendo. E eu aceito, é claro!, explica Borboleta.
São manuais do proprietário, de peças e de
manutenção, muitos deles em inglês; revistas
4 Rodas, Auto Esporte, Seleções, Oficina Mecânica
e também importadas; muitos livros. Material de referência
essencial para quem lida com a recuperação de velhas
máquinas.
A coleção
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| Chevrolet 1948: o favorito |
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Para terminar a visita, fomos conhecer
a garagem, onde Jorge Levi guarda com todo carinho seus preciosos
bens: os automóveis, é claro!. O há mais
tempo na casa e preferido de toda a família é o
Chevrolet Fleetmaster bicolor 1948. Há também o
Ford Tudor 1933, o Bel Air 1959 (aquele do “Alemão”
do box abaixo), o Ford Super de Luxe 1941, a pick-up Ford F75
1970, Corcel 1970 e Fusca 1964. Este último ainda não
saiu da garagem desde que foi restaurado. Detalhe: os que precisaram
de restauração, passaram pelas hábeis mãos
do próprio dono.
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Os automóveis
do "Alemão"
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| O Bel Air 1959 quando comprado
e atualmente. A direita o Cadillac 1967 inteiramente
depenado |
Lembra do Cadillac 1964 citado acima?
Pois vamos contar essa obscura e incrível história,
que envolve este e outros carros e que por si só,
já daria uma reportagem especial.
Existia em Juiz de Fora um empresário
de origem alemã — cujo nome achamos melhor
omitir para preservar a privacidade de sua família
— que comprou ao longo do tempo diversos automóveis
de luxo. Morador de uma região nobre da cidade, o
alemão, segundo consta, teve sérias dificuldades
financeiras nos últimos anos antes de morrer. Porém,
recusava-se a se desfazer de qualquer um dos automóveis
para sanar suas dívidas.
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| O Thunderbird 1971 também
ficou perfeito |
Por alguma razão desconhecida,
ele decidiu desmontar os carros dentro de sua própria
garagem, retirando partes das latarias, motores, suspensões,
interiores e acabamentos. Conforme iam sendo retiradas,
as peças eram catalogadas e guardadas em prateleiras,
na tentativa de manter tudo organizado, o que foi em vão.
O motivo real desta atitude permanece (e talvez permaneça
para sempre) um mistério. Dizem que havia a ameaça
de leilão dos automóveis e ele esperava assim
que os carros não fossem levados embora, já
que não podiam rodar.
Com a sua morte, em 2008, os herdeiros
resolveram por tudo a venda, inclusive a casa, que já
não existe mais e que vai dar lugar a um empreendimento
imobiliário. Sabendo da história, Jorge Borboleta
e mais 4 amigos da AVA resolveram se juntar para comprar
6 carros da coleção: Cadillac Eldorado 1967,
Ford Thunderbird 1971, Chevrolet Bel Air 1959, Cadillac
Coupê De Ville 1976, Ford LTD 1979 (o único
brasileiro) e por fim o tal Cadillac Coupê De Ville
1964. Todos, exceto o LTD, estavam semidesmontados e as
peças a essa altura complemente misturadas. Um autêntico
quebra-cabeças de peças grandes e pequenas,
borrachas, fios, tapeçarias e tudo o mais que se
possa imaginar. Só de parafusos, foram encontrados
mais de 200 copos de geléia cheios!
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| Um Cadillac teve
seu interior desmontado, restando só o painel |
Foi aí que entrou a experiência
e conhecimento mecânicos de Borboleta. Durante 4 meses,
ele e seus sócios na compra ficaram trancados na
garagem refazendo a montagem dos carros, para que fosse
possível pelo menos tira-los de lá, já
que a casa teria que ser desocupada em breve. No fim, tudo
deu certo e o resultado foi perfeito, já que nada
faltava de nenhum dos carros. Pelo contrário, havia
muitas peças extras, todas importadas e novas.
Na divisão final, coube
a Jorge o Bel Air 1959 — que tem participado regularmente
dos encontros de automóveis antigos, sempre fazendo
um enorme sucesso — e o Coupê De Ville 1964,
que será concluído em breve, para a felicidade
de quem gosta de ver de perto máquinas maravilhosas
como esta. Os demais automóveis foram divididos entre
os 3 outros companheiros na empreitada.
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Texto e fotos: Equipe Portal Maxicar
