• Memória
Adeus, Flecha!
A morte do rei da estrada
*Hamilton
Kenji Kuniochi
Uma notícia
que já era esperada se confirmou. A Viação
Cometa comunicou que deixará de operar com seu tradicional
ônibus Flecha Azul, em razão destes terem ultrapassado
a idade limite de 10 anos de uso, conforme exigência da
ARTESP, agência reguladora de transportes no Estado de São
Paulo. A Cometa colocou à venda os últimos Flechas,
e os que restam em circulação são os modelos
reformados, que também estão com os dias contados,
ao lado dos encarroçados pela Marcopolo. A notícia
causou comoção e revolta entre os busólogos,
entusiastas por ônibus e transporte rodoviário.
Dez entre dez busólogos - inclusive
eu - são fervorosos admiradores da Viação
Cometa. A empresa surgiu pelas mãos do aviador italiano
Comendador Tito Mascioli. Ele, que chegou ao Brasil em 1931 numa
esquadrilha, havia sido sócio da maior empresa de ônibus
da cidade de São Paulo, encampada pela estatal CMTC. E,
em 1947, adquiriu a Auto Viação São Paulo-Santos,
cujos ônibus traziam nas laterais o desenho de um cometa
estilizado. Em 1948, a razão da empresa foi alterada para
Viação Cometa S. A.
A Cometa tornou-se um ícone das
estradas brasileiras, tendo sua linha mais famosa a Rio-São
Paulo, pela Via Dutra. A pontualidade, a rapidez (e a forma como
ultrapassava a todos na estrada) e a manutenção
impecável de seus carros eram os chamarizes para os passageiros.
Além
disso, a Cometa se destacava pelo pioneirismo, estreando o rádio-transmissor
a bordo, o ar condicionado e as carrocerias em alumínio,
importadas dos Estados Unidos. Os modelos americanos e a inspiração
na gigante viação americana Greyhound levaram a
Cometa a desenvolver suas próprias carrocerias de ônibus,
fabricadas primeiro pela Ciferal e, depois, pela CMA, a Companhia
Manufatureira Auxiliar, subsidiária da empresa.
O duralumínio, imune à corrosão
e à ferrugem, apesar da manutenção e custo
maiores, proporcionam inúmeras vantagens: mais leve, o
ônibus desgastava menos o motor e demais componentes. Os
primeiros modelos eram os Dinossauros, no final da década
de 70. Depois, vieram as linhagens de Flecha Azul, a partir de
1983, até 1999, do I ao VIII. O motor, sempre Scania, o
mais potente de todos, que, aos ouvidos dos busólogos,
soa como música.

Além
da carroceria prateada e do motor Scania, os Flechas Azuis carregavam
outras particularidades que os diferenciavam dos demais modelos.
Os assentos revestidos em couro, nunca ficavam atrás de
colunas das janelas, proporcionando boa visão externa para
todos os passageiros. Na traseira, um acrílico com o desenho
dum cometa, era iluminado pelos carros que vinham de trás.
A pintura, em bege e azul, obedecia a um desejo do fundador Tito
Mascioli: eram as cores do jogo de porcelana no qual ele e a esposa
tomavam chá na Itália. Todas as inscrições
na carroceria, tais como "Viação Cometa S.A.",
"Suspensão a Ar" e o prefixo do carro, sempre
foram feitas à mão por um letrista. O cheiro de
tutti-frutti. As rodas raiadas... os rebites na lataria... o motorista
de quepe e gravata, com jeito de piloto de avião, o inspetor
checando os bilhetes de passagem escritos à mão...
Além disso, eram características
a rapidez dos Flechas, que faziam muitas ultrapassagens, deixando
os ônibus das outras empresas e o tráfego para trás.
Na estrada, quando se cruzavam se cumprimentavam fazendo piscar
freneticamente as setas, num código conhecido apenas por
motoristas da empresa e outros aficcionados, acendendo e apagando
todas as luzes do veículo. Procure por "show de setas"
no YouTube e verá!
Esses
ônibus têm uma vida útil bastante longa, porém,
em razão do preciosismo da Cometa, não duravam mais
que cinco anos na frota. Logo eram substituídos por novos
carros, idênticos aos antigos. Em razão disso, os
mal informados achavam que a empresa possuía veículos
velhos e ultrapassados, o que não era verdade. Na verdade,
o grande diferencial e orgulho para a empresa era ter seus ônibus
exclusivos, sempre de aparência impecável e equipados
com motores poderosos.
Em 1999, os Flechas começaram a
ser substituídos por um novo modelo da CMA de aparência
mais moderna, chamado simplesmente de Cometa, mas que, por causa
de sua pintura, passou a ser conhecido como Estrelão. Dois
anos depois, o grupo JCA, controlador de diversas empresas de
transporte, assumiu o controle da Viação Cometa,
realizando mudanças visíveis na companhia, sobretudo
na parte visual, com nova pintura. Isso descaracterizou a tradicional
Cometa, mas o pior golpe foi a aquisição de carrocerias
Marcopolo em chassis Mercedes-Benz e Volvo para renovar a frota.
Apesar de dar valor ao passado da empresa,
o que se demonstra do site da Viação Cometa, a modernidade
não deu espaço para o levíssimo duralumínio
e os turbinados Scania. Para muitos, a nova Cometa não
dá valor ao que foi conquistado pela antiga, razão
pela qual aparenta querer, sempre, desligar-se do passado e formar
uma nova identidade. Essa é a grande polêmica, pois
um dos valores mais fortes da empresa era, até então,
sua tradição.
Para
os fãs da antiga empresa, a Viação Cometa
vai morrendo aos poucos. Sem a renovação da frota
por novos veículos CMA, era certo que um dia o reinado
dos ônibus mais rápidos do Brasil iria acabar. E
o dia chegou, como a morte de um parente querido. Não dá
para culpar apenas a ARTESP, pois, realmente, dez anos de uso
é um bom parâmetro para atestar o estado dos ônibus
- e a Cometa era um exemplo de manutenção e zêlo
por seus carros, uma exceção, talvez... dificilmente
se ouvia falar, na antiga Gestão, de acidentes ou ônibus
quebrados. A atual Gestão, pelo visto, não quer
mais saber de Flechas na frota.
Os Flechas Azuis estão à
venda e, provavelmente, vão ter como destino empresas de
turismo e fretamento. Muitos vão terminar mal seus dias,
pois, em razão de sua velocidade, são bastante empregados
por sacoleiros e contrabandistas para rotas clandestinas rumo
ao Paraguai... não se pode dizer, contudo, que o Flecha
não é aventureiro...
Esta é a minha homenagem pessoal
ao CMA-Scania Flecha Azul, da Viação Cometa S.A.
*Hamilton Kenji Kuniochi,
paulistano, estudante de direito, busólogo,
22 anos, é um dos responsáveis pelo blog Transcendentes