Viagens espetaculares à bordo
de Fords são sempre bem vindas e eis aqui um caso desses
que posso dizer que é, no mínimo, curioso. Uma
F1000 foi o primeiro veículo automotor com quatro rodas
de linha tradicional a andar em solo Antártico.
Esse relato começa em 17 de novembro
de 1987 quando uma F1000 na cor vermelho-maçã
é embarcada no navio de pesquisa oceanográficas
Barão de Tefée com destino à base brasileira
na Antártida, mais especificamente para a Ilha do Rei
George, com o objetivo de realizar o transporte de pessoal,
equipamentos de pesquisa e suprimentos entre a Estação
Comandante Ferraz e o refúgio Padre Balduino Rumbo.
Claro que a FORD (Autolatina para ser
mais exato ao momento histórico), realizou algumas modificações
para que a mesma pudesse enfrentar temperaturas na faixa do
-20oC e terreno nada propício para um veículo
convencional.
Conhecida internamente como “Projeto
Antártida”, a F1000 foi carinhosamente apelidada
de “Punta Arenas” pelo oficiais da Marinha e, o
modelo enviado foi desenvolvido pela equipe de engenheiros da
FORD – divisão Caminhões em acordo com a
Comissão Interministerial para os Recursos do Mar, e
era equipado com um motor diesel de 4 cilindros e 83cv de potência,
tração nas rodas traseiras com sistema antiderrapante
“Twin-Drive”, além de parte elétrica
super-dimensionada. Para dar suporte às alterações
necessárias, a equipe da FORD contava com membros experientes,
como os que estiveram na Finlândia, Suécia e Dinamarca
durante os testes de desenvolvimento da linha do Escort exportada
para esse países. Além disso, o Campo de Provas
da montadora em Tatuí (SP) também foi utilizado,
principalmente o equipamento de câmara fria que consegue
atingir a temperatura de até -40oC.
As principais modificações
foram:
• Sistema de partida do motor
– similar ao utilizados em motores à álcool,
o reservatório recebeu uma mistura de óleo diesel
e querosene além de uma resistência elétrica
(vela) montada na parte interna do coletor de admissão
que, acionada manualmente pelo motorista por meio de um botão
dentro do veículo, ficava incandescente e com isso, ao
entrar em contato com a mistura, conseguia fazer o motor funcionar
de imediato, mesmo na temperatura mais baixa.
• Parte elétrica –
recebeu um alternador de maior capacidade assim como a bateria
também foi substituída por uma mais forte.
• Óleos, fluidos e líquidos
em geral - receberam uma mistura de etileno-glicol, que é
capaz de retardar o congelamento.
No mais, era um veículo comum
de linha de produção.
O solo da região é chamado
de Perma-Frost e composto por cascalho e pedras com muita água
correndo por cima e por baixo, o que provoca constantes movimentações
no piso. Até a chegada da F1000, a única opção
de locomoção na região era por força
de trator ou ski-doo, uma espécie de motocicleta própria
para neve. Imagine tentar caminhar em um piso com pedra soltas,
molhadas e que se movimentam ao menor peso aplicado.....é
isso que a F1000 enfrentou. Em reportagens da época,
é comum encontrar relatos assemelhando o piso da região
às cascas de ovos que deveriam ser pisadas sem serem
quebradas. Nesse ambiente é que a F1000 encontrou seu
desafio.
Não
se pode dizer que foi um sucesso a permanência dela por
lá, afinal, segundo relatos, assim que desembarcou a
F1000 conseguiu andar alguns poucos metros na “prainha”
e atolou, só saindo dali puxada pelo trator.
Uma vez posicionada em parte mais alta
e terreno mais firme, a F1000 era só notícia boa:
andava bem, econômica e dava conta do recado ao qual foi
planejada.
Um fuzileiro naval e mecânico
treinado, foi o “tutor” da F1000 na base gelada
e relatou em, matéria de época o seguinte:
“...teste de motor, tração, suspensão
e velocidade ela preenche todos os requisitos.....é super-econômica...mas
ficou devendo uma tração nas quatro-rodas, seria
perfeita.”
Para resolver a situação
de tração em piso irregular e encharcado, foram
colocados dois conjuntos de correntes especiais Herlau nos pneus
traseiros da F1000, o que consumiu uma manhã inteira
de trabalho dos mecânicos. Mas, assim que se iniciou o
teste, as correntes estouraram por não aguentarem o atrito
com as pedras soltas. Bem, se as correntes não suportaram,
a F1000 de forma exemplar cumpriu sua tarefa de desenvolvimento
de componentes e apoio às operações na
base, fazendo valer a criação do slogan “Pense
Forte, Pense Ford”.
De volta aos trópicos, consta
que a F1000 foi cedida em regime de comodato ao Autódromo
José Carlos Pace (Interlagos/SP) onde serviu como veículo
de suporte por alguns anos e, na seqüência, foi doada
a uma ordem religiosa e depois.........bem, se você souber
dela, por favor, nos avise, afinal, foi o primeiro veículo
nacional de linha a andar por lá!
O
pai da F1000 Antártida
Quem liderou a equipe de desenvolvimento
da F1000 foi o engenheiro mecânico - especializado
em engenharia automobilística – pela FEI,
Ricardo Muneratto, que atua na FORD desde 1975 e atualmente
é Gerente de Engenharia Avançada para a
América do Sul, ficando baseado na moderna fábrica
de Camaçari/BA, embora em sua carreira tenha tido
a oportunidade atuar na sede em Dearborn/EUA e na filial
da Europa. Lendo assim, parece até alguém
que fica pendurado em planilhas, plantas técnicas
e outras burocracias, mas Muneratto vai além e
se diverte junto o filho Thiago, com Mercury e Mustang
antigos. Literalmente FORD o tempo inteiro!
Pessoalmente, conheci o Muneratto
por mero acaso na época do lançamento da
F-250. Em uma viagem ao interior de SP, parei em um posto
para dar vazão às necessidades fisiológicas
e após solucionado esse fato, quando me dirigia
ao estacionamento, passou em sentido contrário
um homem (entre tantas outras pessoas que ali estavam)
que ostentava um crachá branco com um logo azul
no canto. Aquilo me chamou a atenção pois
parecia o famoso oval azul. Ao chegar ao meu carro, estava
estacionado exatamente ao lado, nada menos que uma F-250
zerinha com placas de São Bernardo do Campo/SP.
Espiei para dentro e vi um envelope com o logo da FORD
e não tive mais dúvidas. (Detalhe: a F-250
naquele momento era um lançamento a ser realizado
oficialmente e não estava disponível para
venda ainda, embora já fosse de conhecimento público
e a ser lançada em questão de dias.) Como
estava com o tempo muito curto, deixei meu cartão
na maçaneta e segui viagem. Uns 10 minutos depois
toca o celular e era o próprio. Fizemos amizade
e quem conhece as figuras – pai e filho –
sabe do quê estou falando e, para quem não
os conhece, tá na hora de conhecer – gente
muito boa demais!
Colaboração fundamental
de Ricardo Muneratto.
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COMENTÁRIOS PARA ESTA
MATÉRIA
Data: 11/8/2010 Nome: Renato Alves Ribeiro Email: Mensagem: A historia da industria brasileira de automoveis tem facetas e episódios que nós, simples mortais, deconhecem. Orgulho para nós. Mais uma que fiquei sabendo. Belo artigo!!!
Data: 11/8/2010 Nome: Paulo C.Carvalho Email: pcpcpcpcpc@oi.com.br Mensagem: É lamentável a Ford fazer um projeto desse, e não incluir tração nas quatro rodas. Parabéns pelo artigo. Abçs
Data: 11/8/2010 Nome: DINO DRAGONE Email: Mensagem: Muito legal!! Mais um fato interessante q fiquei sabendo por intermédio deste meu querido amigo. Forte abx
Data: 12/8/2010 Nome: Paul Email: Mensagem: Obrigado meus amigos, espero poder continuar com a sorte de encontrar pessoas e matérias interessantes...abs, Paul
Data: 18/8/2010 Nome: Rubens Perlingeiro Email: fastfoot@terra.com.br Mensagem: Caro Paul, Parabéns pelo seu texto sobre a atuação da F-1000 na Antártica. Vou encaminhá-lo ao oficial que foi o primeiro comandante da Estação Comandante Ferraz. Certamente, seu texto lhe proporcionará boas lembranças. Abraços, Rubens Perlingeiro
Data: 18/8/2010 Nome: Paul Email: Mensagem: Obrigado Rubens, espero que as lembranças sejam calorosas sobre a passagem da F1000 por lá. abraço, Paul
Data: 16/10/2010 Nome: joelson kuerten Email: kirtanjoy2gmail.com Mensagem: Oi paul, sim muito interecante esta materia de uma brava f 100, mas que tal a minha que comessou a 7 meses, atravwssando a fronteira dos estados unidos m direcao ao brasil a bordo de um maverick 1973, 3 meses no mexico 3 semanas em belice e 3 meses na guatemala, em uma rotina de cigano com uma companheira alema que toca um violao canta suas proprias musicas em uma vos divina, instrutiora de yoga...normalmente dormimos em beiras de rios, lagoas, mar, montanhas etc, tem sido uma esperiencia por mais de gratificante , visitando centros mayas, buscando natureza se fortalecendo espiriyualmente enfim mais que uma grande aventura tem sido uma jornada de cura....em los angeles onde estava vivendo pelos ultimos 7 anos ficou meu filho que hoje com 22 anos esta se tornando um reconhecido dj na house music, tambem envolvido em producao, ele me ajudou a manter esse carro e me ajuda no que pode para mim completar esta jornada, sou de origem brasileira nascido no estado de santa catarina...estou buscando uma revista que estege enteressada no assunto....por favor faser contato....obrigado...
Data: 28/10/2010 Nome: MARIO CESAR BUZIAN Email: buzian@gmail.com Mensagem: Paul, veja só como são as coisas...Eu acabei te conhecendo pessoalmente justamente por conta dos Muneratto, pai e filho, rsrsrs !! Foi em Dezembro de 2004 quando fomos todos a um passeio até a casa de campo da família em Tatuí, SP, e vc. estava "estreando" o famoso GT8 1979, lembra ?? Muito legal essa estória da F1000, eu lembro de ter lido algo a respeito na época no Jornal do Carro do JT, mas não sabia que foi Seu Ricardo o responsável pela façanha... Vivendo e aprendendo !! Ford abraço em ti e também aos queridos Muneratto !!!
Data: 10/11/2010 Nome: Alexander Gromow Email: a.gromow@hotmail.com Mensagem: Caro Paul, Muito bom este artigo. Eu me considero "ligado" em assuntos automotivos, mas não me lembro ter visto alguma divulgação deste périplo congelante de uma pick-up Ford pelas bandas da Antártida. Em todo o caso teria sido um belo assunto para uma propaganda muito interessante, visto que um veículo "Made in Brazil" não necessariamente deve ser apto a suportar estas condições tão críticas. Aliás a VW da África do Sul enviou um Fusca na década de 50 para a Antárdida onde ficou por um bom tempo. Depois o Fusca voltou e participou de várias competições esportivas com muito sucesso e isto foi amplamente explorado pel VW local... Um abraço Alexander
Data: 15/1/2012 Nome: Joao Thiago Email: Mensagem: Excelente material,a FORD F-1000 foi e sempre vai ser uma pickup perfeita,fez a fama da ford na categoria,desbancou a concorrência e merece respeito,nem a substituta com tanta tecnologia e modernidade como os donos gostam de "falar...falar" conseguiu fazer venda e sucesso no cenario atual! Viva a F-1000,em especial a vermelinha que conquistou territorio único.