Qual o coração
que te move?
O que te leva adiante?
O
fôlego que nos move é dado por uma peça,
ainda sem reposição, o coração.
Nos carros é o motor, que pode ser trocado, mas sem
ele nada funciona... Quando Carl Benz criou seu triciclo com
um propulsor de combustão interna, pode até
ter imaginado o quanto sua invenção seria útil
para locomover os automóveis. O que, com certeza, ele
não sabia é que esse bloco de aço fundido,
duro como pedra seria capaz de mexer com os que gostam de
carros, até com os homens de coração
mole.
As peças em movimento e queimando a mistura de combustível
e ar é responsável pela mágica do movimento,
junto com a saída da inércia vem também
diversos sub produtos e eles tornam cada carro mágico
para quem cultiva essa paixão.
De longe dá para ouvir o tilintar de válvulas
com a virada brusca da ventoinha que corta o ar e compõe
uma sintonia única que denuncia a refrigeração
a ar. Agora se a vontade é de ouvir um “rock
and roll”, algo mais pesado, nada melhor do que um belo
V8. Se for com escapes abertos então a afinação
é outra.
Seja qual for sua sintonia, só de perceber a canção,
o pé coça para uma dança onde o passo
marca o acelerador, o ponteiro do velocímetro anda
e a rotação sobe – é o coração
batendo forte e cheio de fôlego.
Ir a um autódromo como Interlagos te obriga a sair
de lá empolgado com a velocidade das máquinas
na pista. E aquela adrenalina percorre o corpo, todos os corações
estão batendo numa só balada. Os mecânicos
afinam o motor, o chefe de equipe olha atento aos tempos,
já a torcida vibra a cada ultrapassagem e, claro, o
piloto no meio de tantos giros altos tem de manter sangue
frio e essa deve ser a tarefa mais difícil de todas
as voltas do circuito.
Alcançar grandes velocidades e conduzir fora dos padrões
normais do aceitável pode ser uma demonstração
de loucura aos olhos dos leigos, mas pense bem: na realidade
é a pura forma de dizer que ali estão pessoas
que vivem intensamente, que não se deixam abater por
problemas. Seres que gostam de viver. No mais puro sentido
da palavra.
Nos quatro tempos de um motor tradicional estão as
quatro belas fases da vida, a primeira a admissão,
quando o combustível líquido conhece o ar carregado
do bom e velho oxigênio, eles caminham juntos através
da carburação, do coletor de admissão
chegam às válvulas de entrada e se convidam
para a câmara do cilindro. O lugar pode parecer monótono
e pouco decorado, mas é ai que ocorre outra mágica:
a compressão...
O Aperto da vida faz com que as partículas sejam unidas
e assim tão juntas se transformam, deixam de ser algo
sem consistência para se tornarem fortes e finalmente
quando estão unidos os suficientes vem à faísca
da vida que dá a impulsão...
É nesse momento da combustão, da explosão,
da queima ou do que quiser chamar que o maior passo de todos
acontece. É nesse momento que a máquina impulsiona
e transforma o nada em movimento, o que é estático
em algo produtivo, esse é o momento em que a sucessão
torna um simples amontoado de qualquer coisa num objeto com
um real sentido a saída é uma só.
O quarto grande momento desse ciclo acontece quase que sem
importância, mas como nada acontece por acaso, ele também
é primordial. Sem esse último movimento a máquina
trava e o ciclo não se renovará. Renovar o ciclo
é o importante para que a velocidade aconteça,
sem renovação não há inovação.
Aos olhos de quem não gosta de mecânica tudo
isso é repetitivo, comum e banal. Se a pessoa não
tem paixão por essa transformação dos
elementos em movimento não entenderá que esse
coração bate com um sentido, incompreendido,
mas cheio de sentimentos para um bem maior.
O texto de hoje é curto, assim como uma vida sem maiores
propósitos, o meu é gerar quanto mais movimentos
para o bem eu conseguir um bom caminho, pois assim o destino
será interessante. Se quiser ser passageiro, condutor
ou comboiar por esse caminho, basta ir junto, e se estiver
sem condução é só pedir carona,
porque o coração debaixo desse capô tem
cilindrada e potência suficiente para carregar muita
coisa.
Pode dar bronca a respeito da minha velocidade, mesmo que
eu corte uma faixa ou passe por umas tartarugas, a trepidação
é só um pequeno obstáculo, isso não
é o suficiente para impedir minha jornada.
Portuga Tavares
é editor de textos do programa Auto Esporte da
Tv Globo, colaborador de diversas revistas de veículos
entre elas a 4 Rodas e enfrenta todos os dias o transito
caótico da cidade de São Paulo a bordo
de seus carros antigos.