Paixão para vencer
quilômetros
Distâncias a percorrer
É incrível como um amontoado de peças
é capaz de levar tantas pessoas a descobrir o novo.
Numa entrevista, um sábio conhecedor do automóvel
disse: “O limite era a fazenda do vizinho!”. O
carro levou o homem a mais lugares.
Essa máquina que habita a garagem e o coração
começou a ser popular e reconhecido como meio de transporte
há apenas cem anos, mas já é impossível
imaginar a civilização sem ele. A pergunta pode
ser “aonde vamos”, mas como se chegará
lá é obvio: de automóvel – seja
ônibus, caminhão ou carro.
Nós, seres humanos, somos eternos insatisfeitos. A
meta era ser transportado com menos esforço e descobrimos
uma vantagem, chegamos antes. A propaganda da Duesenberg dizia:
“Atingimos uma milha por minuto” (o mesmo que
60 milhas por hora ou 96km/h). Os mais céticos se perguntavam:
“Porque ir tão rápido?”, enquanto
que os mais ágeis trabalharam em atingir a barreira
dos 100km/h. Não demorou muito e atingimos os 200km/h.
No Brasil, um país onde tudo se transporta sobre rodas,
a primeira viagem aconteceu em 1908. O ponto de partida foi
à cidade do Rio de Janeiro e achegada Santos, no litoral
paulista. Foram 33 dias de pura aventura que um bravo Brassier
enfrentou com seu destemido motorista, o conde francês
Lesdain.
Concordo que o avião também ajuda a transpor
distâncias e também concordo que vários
brasileiros se aventuraram nas máquinas com asas. Santos
Dumont, o inventor do vôo dirigido e do avião,
e João Ribeiro de Barros, o primeiro homem a atravessar
o atlântico sem escalas, obviamente adoravam voar, mas
também se aventuraram no mundo das quatro rodas.
O pai da aviação comprou um Peugeot em Paris
e trouxe ao irmão enquanto que o Comandante Barros
apaixonou-se tanto pelos motores do seu avião Jahú
que comprou um automóvel da mesma marca, um Isotta
Fraschini 1928. Os dois carros citados vieram para São
Paulo, que no Brasil é a capital do automóvel
e, conseqüentemente, do congestionamento.
Longe do caos intransitável em que se transformou
a terra da garoa, os automóveis continuam seu reinado
alcançando cada vez mais quilometragem em pouco tempo.
Colocar um carro na estrada está entre as melhores
coisas do mundo. De carro antigo melhor ainda.
Conduzir uma máquina cheia de história é
fascinante, ainda mais quando o destino é um encontro.
Alcançar o objetivo é só parte da meta.
Tão importante quanto chegar bem, é curtir a
paisagem.
Um belo jeito de aproveitar o passeio e ir a comboio, fazer
uma carreata, de preferência com os amigos, porque andar
com quem se gosta é sempre melhor. Se no meio do caminho
aparecer uma nova pessoa, deixe-a participar dessa jornada.
Hoje, em pleno século XXI, estamos cada vez mais em
busca de chegar aos lugares mais distantes e no menor espaço
de tempo. Agora mesmo, enquanto escrevo, me imagino na estrada
a caminho de um lugar. O que estará lá não
sei, tudo o que espero é não estar sozinho.
Até porque andar a quilometragem da vida acompanhado
é muito melhor.
Portuga Tavares é editor de textos do programa
Auto Esporte da Tv Globo, colaborador de diversas revistas
de veículos entre elas a 4 Rodas e enfrenta
todos os dias o transito caótico da cidade de
São Paulo a bordo de seus carros antigos.