Cada automóvel tem a sua característica especial
que o torna curioso e de certa forma lhe dá personalidade.
Para saber e conhecer essas peculiaridades só mesmo
estudando sobre os diversos modelos e guardando na memória.
Um grande amigo tem uma Impala Station Wagon 1974. O carro é enorme:
tem três fileiras de bancos que acomodam até oito
pessoas confortavelmente e com cinto de segurança
e muita bagagem. O terceiro banco pode ser escondido e isso
amplia ainda mais a capacidade de carga. Com a segunda fileira
também escamoteada, então fica parecendo uma
picape coberta.
O mais curioso, no entanto nem é saber que é possível
transformar esse quase ônibus numa funerária
somente com pequenos toques nas alavancas dos bancos, a maior
brincadeira dessa perua está na porta traseira. Para
acessar o compartimento de bagagens basta girar a chave que
um motor elétrico sobe o vidro. A tampa é uma
curiosidade à parte, pois ao girar o tambor da chave
ela simplesmente cai para baixo do carro.
Logicamente, como bons humoristas que somos, cada vez que
um novato começa a perguntar do carro damos a desculpa
de que a tampa traseira está solta e pedimos ajuda
para segurá-la enquanto mostramos o carro. Quando
a porta cai e some o novato sempre toma o maior susto, seguido, é claro,
de boas risadas.
Essas brincadeiras fazem os encontros serem mais divertidos
e proporcionam uma memória inesquecível do
carro a ser mostrado. Aquela pessoa pode nunca mais se recordar
de que perua era aquela, mas para sempre se lembrará de
que a tampa caia e sumia para debaixo do carro.
Outro dia levamos um Bel Air 1956 num posto de gasolina
e pedimos para completar com gasolina. Entregamos a chave
e saímos para tomar um café no bar em frente.
Claro que ficamos ali só olhando no que aquilo daria.
O frentista procurou de um lado, procurou do outro, abriu
o capô, o porta-malas, tentou abaixar a placa traseira
e nada de encontrar o bocal do tanque.
Tomamos nosso café em meio às risadas. Não
resistindo ao placar de quinze a zero, em favor do Bel Air,
fui até o carro e perguntei se estava tudo bem, e
o frentista me confessou: “- Portuga, onde está o
tanque?” – então respondi: “- O
tanque está debaixo do carro, mas o bocal está bem
aqui ó!” – abri a trava da lanterna direita,
e a dobrei para baixo. O frentista não sabia se dava
risada ou se completava o tanque, por fim decidiu mostrar
a todos ali no posto onde é que se abastecia aquele
carro estranho!
Mas a minha “vítima” principal sempre
foi um rapaz que trabalha numa loja de peças. Lá tem
um estoque de coisas antigas e por conta disso sempre dou
uma conferida nos preços deles. Quando ele vem me
atender, sempre peço pelo jogo de velas da F1000 Diesel,
ou pela tampa de radiador de Fusca. O menino, sempre muito
prestativo, olha nos catálogos e por motivos óbvios
não encontra, pois essas peças não existem.
Em resposta há tanto tempo perdido sempre ouço
um xingamento em meio às risadas dele e dos mais velhos
da loja.
E sempre pregando peças eu me considerava imbatível,
até que na semana passada o rapaz da autopeças
me disse que eles tinham comprado uma caixa antiga com válvulas
de DKW, eu achei estranho, pensei bem e respondi: “– Está querendo
me pegar, motor dois tempos não tem válvulas” – e
ele respondeu: “– O DKW tem válvulas sim
e ficam todas no rádio!”. Pois é, como
diz o ditado, um dia é da caça o outro é do
caçador!
Portuga Tavares é editor de textos do programa
Auto Esporte da Tv Globo, colaborador de diversas revistas
de veículos entre elas a 4 Rodas e enfrenta
todos os dias o transito caótico da cidade de
São Paulo a bordo de seus carros antigos.