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As trocas dos câmbios
Mudar quando não há mudanças

Tão importante quanto o motor do carro é o câmbio. Ele é o responsável por transmitir o movimento do motor às rodas, direta ou indiretamente, por isso o nome de transmissão. Esse conjunto de peças é o que gera movimento e faz com que veículos evoluam de uma situação estacionada para um benéfico movimento sempre à diante.

A maioria dos câmbios é de acionamento mecânico, também chamado de manual. Nesse tipo de caixa de mudanças o motorista aplica a marcha preferida e assim utiliza o rendimento gerado pelo motor da forma como preferir às rodas. É uma maneira, digamos, de andar como quiser e gostar, de certa forma trás uma liberdade de movimento.

Os mais econômicos trabalham em rotações onde a velocidade nem sempre é importante, os esportivos esticam até onde é possível, mas claro, que isso tem um custo, quase sempre refletido em menos km/l. A vida é feita de escolhas, o trânsito também, ação e reação, basta definir se sua vontade é de chegar cedo ou de guardar uns trocados.

Como todo movimento gera evolução, o câmbio não é do tipo que fica parado. Os mais novos não o imaginam em outro lugar que não seja o assoalho, ou salão, do automóvel. Esse sistema é o preferido pelos fabricantes porque permite um sistema com menos peças no trambulador, a peça tem nome esquisito, mas tem funcionamento simples, leva o movimento da alavanca para a caixa de mudanças que aplica a marcha selecionada.

Mas nem sempre a tal haste que coloca a marcha ficou no chão. Durante os anos 30, 40 e 50 ela reinou em outro ponto estratégico, a coluna de direção. Pode parecer estranho para os novatos de carteira mexer num lugar que lembra o acionamento do limpador de pára-brisas, mas saiba que tem suas vantagens.

Esse sistema economiza espaço, pois permite o uso de banco inteiriço e por conseqüência mais um passageiro no carro. Tudo bem que a maioria dos carros que usavam esse tipo de acionamento tinha câmbio de apenas três marchas, como os Galaxies, Dodges e Impalas, mas havia os carros com quatro velocidades. Aqui no Brasil a Willys usou na Rural, Aero Willys e mais tarde esse mesmo aparato foi para o Maverick 6 cilindros. O FNM JK é o que podemos chamar de uma raridade à frente do seu tempo: é da década de 60, mas tem 5 marchas, algo que só se tornou comum no início dos anos 90.

Se hoje temos no mercado alguns câmbios de seis marchas, houve tempos em que apenas duas bastavam. No Ford T o número de acionamentos era pouco e o tipo de acionamento bem curioso, nos pedais.

Esse sistema serviu para que uma dupla de mecânicos/inventores brasileiros, Fernando Lehly Lemos e José Braz Araripe construísse um motor com transmissão acoplada e transferência aos eixos da roda que em resumo seria um tipo diferente de câmbio automático, até então uma novidade nos anos 30.
A evolução e junção desse e outros sistemas de mudanças automáticas estão hoje disponíveis no mercado com uma gama enorme ao consumidor brasileiro que finalmente rendeu-se à onda de dar um descanso ao pé esquerdo. No Brasil o pioneiro foi o Ford LTD em 1969 trazendo 3 marchas, um funcionamento bem simples e prático. A pressão do óleo faz com que cintas metálicas apliquem discos de aço e de composite que são os substitutos das engrenagens dos câmbios convencionais. Dez anos depois que todos achavam que essa transmissão nunca evoluiria, o Dodge Polara chega com 4 marchas, uma caixa inglesa da Borg Warner que em vez das cintas usa um sistema de planetárias para cada velocidade. Hoje esse sistema se parece muito com os campeões de venda com câmbio automático: Honda Civic e Toyota Corolla.

Para os que ficam em cima do muro sem saber que tipo de câmbio preferem, existem ainda os automatizados e os semi-automáticos. O Fiat Palio Citymatic e o Mercedes Classe A 160 tinham um sistema mecânico sem o acionamento do pedal de embreagem, uma novidade vinda dos carros de corrida, mas que já era realidade no Brasil desde os anos 60 na linha DKW com o câmbio Saxomat, um lançamento do Fissore, em 64 e que se estendeu também para o Belcar e Vemaguet. O funcionamento é bem simples: o vácuo gerado pelo motor faz o sistema de embreagem funcionar automaticamente, mas como muitos mecânicos não se preocuparam em aprender a manutenção desse aparato, muitos desses carros foram “mutilados” recebendo sistema convencional com pedaleira.

Agora a moda do momento são os “automatizados”. Na prática são câmbios mecânicos convencionais, com engrenagens, mas que recebem um sistema eletrônico que faz as trocas sozinho, ou seja, um Saxomat que não precisa levar a mão na alavanca.

Entre tantas opções de mudanças o legal mesmo é não ser muito conservador e conhecer todas as opções que existem. Assim todos podem escolher o que for melhor para provocar mudanças, e claro, construir um movimento que leve cada um de nós à frente.

Está certo que os câmbios também têm a marcha reversa, apelidada de Ré, que levam os veículos para trás, mas é que às vezes, na vida, a gente erra o caminho e a maneira mais rápida e fácil de se consertar é voltando um pouco para escolher o rumo certo que nos levará ao destino desejado.

 

Portuga Tavares é editor de textos do programa Auto Esporte da Tv Globo, colaborador de diversas revistas de veículos entre elas a 4 Rodas e enfrenta todos os dias o transito caótico da cidade de São Paulo a bordo de seus carros antigos.

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