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Amor à vista, ou a prazo!
O antigomobilismo não se move pela razão!

O amor acontece sem querer e sem procurar, quase sempre nasce com um olhar sem compromisso que evolui para um flerte, transforma-se em interesse, conseqüentemente a vontade de conhecer e por fim o bem querer. Às vezes até pinta um ciúme nesse relacionamento. Esse sentimento puro costuma ser o combustível para a compra de um “novo carro antigo”.

Administrar as vontades é um passo importante. Tem que saber o que buscar e onde buscar. É o que houve com um personagem fictício, mas extremamente real. Seu nome é Cesri Nitassi, filho de um imigrante que precisou batalhar muito para conseguir uma boa vida.

Tudo o que Nitassi sabe sobre carros antigos é que eles são tocados acima de tudo por sentimentos e por isso optou por um esportivo americano, pois quando o viu pela primeira vez aconteceu o flerte e a cena nunca mais saiu de sua cabeça. Seu pai nunca pode ter um carro desse tipo, era dono no máximo de um combalido popular usado... Aliás, bem usado.

Nitassi passou meses, anos, décadas com um pensamento fixo na cabeça: - "Comprarei um Camaro entre 67 e 69". É um belo carro, veio para concorrer com o Ford Mustang na era dos “pony cars” que, para os padrões americanos, tinham carroceria pequena, mas para a realidade brasileira e européia tem um corpo e tanto.

Era aquilo martelando na cabeça: “Comprar o Camaro, compra o Camaro, comprar o Camaro”. O pensamento não saiu da cachola, em todos os lugares para onde os olhos batem lá se vê às belas formas da máquina. Um desenho bem feito, agradável e que qualquer um achará bonito. Beleza digna de se desfilar. Não importa o ângulo para qual se olhe é ali que o encanto mora.

Começa o estudo sobre aquela beleza em formato de veículo, uma verdadeira escultura sobre rodas. Um veículo de impressionar qualquer um. O refinamento do cromo, a exuberância das faixas decorativas, cada detalhezinho é espetacular. Não tem quem não deseje.

É a hora do estudo definitivo, Nitassi descobriu que a grade era assim e passou a ser assada. Que a cobertura dos faróis tem um acionamento a vácuo e não está em todos os modelos. As faixas mudam de modelo para modelo e ao contrário do que muitos pensam ela não vai até a capota, é só na tampa do porta-malas e no capô, o topo é vazio mesmo isso é normal para esse sujeito que um dia ficará na garagem.

Vem com o conhecimento que o capô com o centro alto era do Z28 e esse é o mais potente de todos. Entre as diversas opções de motores, todos V8 o que já é de se apaixonar. Melhor ainda quando se descobre que entre as diversas opções pode vir à direção hidráulica, câmbio automático, vidros elétricos, bancos em couro...

São tantas vantagens que não dá para negar que é perfeito, ou melhor, seria se não fosse as características que tornam qualquer carro à prova de perfeição. Não tem jeito: carro americano é para se andar em linha reta e os freios realmente não são a melhor maravilha do mundo. Nesses quesitos os europeus da mesma época ganham de longe. Tem também o fato das peças precisarem ser importadas e caras, de que exige alguém que conheça demais para mexer e que se não for bem cuidado dará trabalho.

Pensando racionalmente um defeitinho por menor que seja, por menos importante que possa ser fica grande por conta do valor que será gasto. Se for para pensar em ponderar os prós e contras no final do pesar da balança seria mais obvio ir atrás de um carro novo, mas então surge a pergunta: - "E a paixão? Abalada posso até admitir, mas não morreu" – pensa Nitassi.

O negócio é investir nessa empreitada o quanto antes, assim todos os obstáculos já estarão vencidos. Compra jornal, pesquisa na internet e ouve o que amigos tem a dizer. Vai a lojas, conversa com colecionadores e descobre-se que existe um Camaro à espera em determinado lugar. Tudo leva a crer que é ele quem será o rei da garagem.

O velho ditado fala claramente que “Deus escreve certo por linhas tortas”, ou para os menos carolas e mais boleros “O jogo só termina quando acaba”. O que acontece é que no caminho ao endereço anunciado com aquele lindo Camaro à venda o nosso querido personagem passa por um portão velho e torto. Esse é um endereço que nunca mais será esquecido, pois lá dentro, debaixo de muita poeira, tem um Fusca.

Aquele Fusquinha, ou seria “aquilo” está longe, muito longe do carro que nosso amigo quer comprar, mesmo assim ele resolve perder uns segundos, somente uns segundos olhando o combalido besouro de lata, com seus pneus murchos e algumas ferrugens.

Vem à mente uma cena bonita, uma criança em pé no banco do motorista e tentando girar o volante, com a boca faz um barulho que na mente do infante é o do motor do carro. Logo depois solta um estridente “bibiii”, essa é era buzina que o garoto improvisava com a boca, pois a original não funcionava mais.

Diante dessa cena imaginária, vem também à cabeça que o carro está num chão de azulejo quebradinho daqueles de retalho tão comuns nas casas humildes de antigamente. Um homem abre a porta do carro, tira o garoto e dá-lhe um beijo no rosto. Logo depois o senhor assume a direção do veículo e sai rumo a seu trabalho diário.

Tudo isso não aconteceu nesse momento, mas é como se Nitassi visse naquele instante. A única coisa real desse momento é a lagrima que levemente escorre do rosto de nosso personagem. Ele não imaginou nada, apenas lembrou-se da infância, uma única passagem de segundos de sua mais inocente fase da vida.

O futuro dono do Camaro aproveita para procurar a campainha, não há. Arregaça as mangas e bate palmas. Um senhor vem atendê-lo e iniciam um bate papo. Horas, muitas horas depois um guincho estaciona em frente à casa de Nitassi e da boléia desce o mais novo antigomobilista da cidade - com um grande sorriso infantil no rosto. Encima da carroceria da plataforma não tem nenhum Camaro e sim o Fusquinha.

A nova aquisição não é veloz, não tem bancos de couro, câmbio automático ou direção hidráulica. Mas esse automóvel fez o que nenhum outro conseguiu: tocou o coração. Isso é o que tem valor! Carro antigo não é para mostrar aos outros e sim para conversar antes de tudo com o seu íntimo.

Nitassi aprendeu que melhor e mais gratificante do que desfilar por ai com o objeto de desejo de muitos, é satisfazer a si mesmo. Esses veteranos de lata antes de ocupar uma vaga na garagem, ficam estacionados no lugar mais privilegiado de todos: o coração.

 

Portuga Tavares é editor de textos do programa Auto Esporte da Tv Globo, colaborador de diversas revistas de veículos entre elas a 4 Rodas e enfrenta todos os dias o transito caótico da cidade de São Paulo a bordo de seus carros antigos.

Conte-nos qual o carro que ficaria na garagem
dos seus sonhos:
portugatavares@gmail.com

Reprodução autorizada, desde que citada a fonte: www.maxicar.com.br

 

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