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Números cavalares
e atitudes simples
Mais um para a família
Há
quem prefira esportes como montaria para passar os finais
de semana em contato com o campo, ir até um haras
ou fazenda apreciar as criações de cavalos
nos verdes pastos demarcados por cercas. Eu sou do tipo
que gosta dos eqüinos que se encontram dentro do motor.
Com essa tropa sempre bem guardada coloco a carruagem para
seguir onde quiser. Enquanto um sangue puro é apenas
um cavalo, o motor tem 30, 40, 100, 200 vezes a força
de um bom marchador. Convenhamos que se tudo estiver bem
afinado e com boa regulagem o trotar fica suave, digno de
desfile.
Quem gosta de carro antigo tem o hábito de ocupar
as manhãs de sábado a caça de “tranqueiras
velhas”, adoro, tanto que acaba muitas vezes ocupando
o dia inteiro. Enquanto as mulheres tratam de cuidar da
beleza e bater perna no shopping, nós – os
graxeiros – tratamos de sujar as unhas com ferrugem,
óleo e conseguir um novo corte na mão. Trocar
um pneu, me parece mais simples que substituir uma ferradura.
Num domingo (10-05-09) comprei um jornal que tem anúncios
populares, enquanto procurava os carros antigos, entre um
e outro com nome de cavalo encontrei diversas Pampas, um
Mustang e dois Corcel, mas um, ano 76, me fez marcar o anuncio.
O motivo foi o preço: R$ 2.300,00 – ok, o preço
já seria um indicativo do estado em que se encontrava
o carro, mesmo assim me interessei.
Há tempos procuro um descendente francês de
fabricação brasileira na marca americana.
É que o Corcel é um descendente direto do
Dauphine. O pequeno francês da Renault foi importado
e fabricado no Brasil pela Willys Overland, mudou de nome
(Gordini), mas manteve os princípios, sendo um popular
para enfrentar qualquer parada. A Willys foi vendida à
Ford que se aproveitou de um novo projeto ainda inédito
e o batizou com nome de cavalo Corcel, que chegou ao mercado
no final de 68. Quase dez anos depois, ele foi reestilizado
e ganhou o nome de Corcel II, uma prática comum da
época, reaproveitar o nome de sucesso agregando um
numeral para dizer que “é mais avançado”.
De volta ao anúncio nos classificados de jornal...
Deixei o cavalo pastar bem, na verdade eu estava empacado
como um moar e não pude ligar antes da quarta-feira
(13-05-09), disse que queria ver o carro no próximo
sábado, e por incrível que pareça ele
ainda estava a venda. Assim que encontrei frente-a-frente
notei o porque. Tratava-se de um Corcel que de tão
judiado parecia um pangaré cheio de carrapatos, nesse
caso ferrugem, muita ferrugem.
Nesse caso não dá nem para dizer que dá
para substituir só a carroceria, pois o automóvel
é do tipo monobloco, ou seja, a carroceria é
a estrutura que segura a suspensão traseira e a ponta
dianteira (sub chassi ou agregado), que segura o conjunto
mecânico, todo localizado na dianteira do carro. Um
monobloco ruim, com as colunas podres, compara-se a uma
montaria com problemas na espinha dorsal, não agüenta
a montaria, tão pouco consegue andar em linha reta.
O que me deixou um pouco chateado nem foi tanto o estado
de conservação do veículo, mas sim
o fato de ter conseguido enfim arrastar meu pai e ele ter
visto um automóvel tão ruim. Por sorte tínhamos
a companhia de um profundo conhecedor da linha Ford, Lucas
Vane, diretor técnico do Galaxie Clube do Brasil.
Éramos os três mosqueteiros, sem Dartagnã
e também sem cavalos para montar. Por sorte estava
junto um grande amigo e no caminho de volta, todos, por
um grande acaso, olhamos um outro Corcel. Dessa vez um da
segunda geração de carroceria – Corcel
II – lançado em 1978 e que deu vida a Belina
II, Del Rey (na versão luxuosa) e Pampa (caminhonete).
Pulamos, os três, em direção a esse
eqüino. Pelo menos presença ele tem, olhamos
bem. A dupla dinâmica que me acompanhava gostou, meu
pai não parou de falar do carro. O preço era
de um puro-sangue e eu sou um mero escudeiro, nem para ser
cavaleiro tenho porte, afinal de contas não sou de
família nobre. Mas a gente sabe que uma boa conversa
sempre pode resolver a questão.
O que me deixou empolgado foi o pedigree do puro sangue
que nasceu como pangaré. Calma! Vou explicar. Existiam
os seguintes modelos de Corcel II: GT como esportivo; Hobby,
um esportivo mais despojado para o público jovem;
LDO, que se traduz em Luxuosas Decorações
Opcionais; e L, que se traduz como Luxo, só que de
apelo comum e familiar. Mas ainda havia uma versão,
a mais básica de todas, sem nenhuma letra após
o algarismo romano, somente “Corcel II”.
Nesse “cavalinho sem raça” tudo era
opcional, as rodas fechadas e sem a moedinha central, nada
de carpete de tecido, somente um de borracha rústica,
o painel somente a lata e fechada, nenhum rasgo onde seriam
as saídas de ar central e a “botonera”
do lado esquerdo que nos demais modelos teria o desembaçador
traseiro, faróis de milha e o injetor de gasolina.
Na época ter um desses era o típico atestado
de “tô na lama”, então os proprietários
desses populares corriam o mais rápido possível
para equipar seus bravos Corcéis. O primeiro passo
era substituir os pára-choques pretos por cromados,
depois instalar rádio, vidros verdes e quem sabe
até encapar os bancos de plástico com algum
tecido mais nobre, de preferência couro. Esse por
sorte foi praticamente mantido do jeito que saiu de fábrica,
por isso hoje o cavalo magricelo tem porte de alazão.
O resultado final é que no final tudo deu certo,
a garagem de casa virou a nova cocheira do cavalinho, simples
de natureza, mas bravio de espírito. Até agora
ele tem se mostrado um grande marchador. O mais incrível
foi descobrir a data de fabricação, 21-05-82,
a mesma da compra, uma feliz quinta-feira. Agora é
esperar que o Corcel, ainda sem muita procura por ai, ande
em paz entre outros puro-sangue.

| Portuga Tavares
é editor de textos do programa Auto Esporte
da Tv Globo, colaborador de diversas revistas de veículos
entre elas a 4 Rodas e enfrenta todos os dias o transito
caótico da cidade de São Paulo a bordo
de seus carros antigos. |
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