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Um grande carro para o
público errado

No início dos anos 70, enquanto a Volkswagen seguia
tranqüila na primeira posição entre os
fabricantes nacionais, a Ford era a montadora que oferecia
a linha mais diversificada, indo do rústico Jeep ao
luxuoso Galaxie LTD Landau. Graças ao dinamismo de
Max Pearce, o ex-presidente da Willys – da qual a Ford
herdou vários projetos após tê-la encampado
– a montadora do oval azul situava-se em posição
privilegiada em relação às concorrentes:
se o Fusca dominava entre os pequenos, na categoria dos médios
havia uma disputa feroz entre vários modelos, sendo
o Corcel o mais bem-sucedido. Entre os grandes, a linha Galaxie
não tinha rivais em prestígio.
Faltava, entretanto, um representante na promissora categoria
dos médio-grandes, na qual o Opala reinava absoluto,
já que o Aero-Willys dava óbvios sinais de obsolência
e o Dodge Dart, com o seu motor V8, não tinha uma opção
mais econômica. Após algumas pesquisas de opinião,
que apontavam que o melhor seria lançar o Ford Taunus
– um projeto europeu, como o do Opala – a montadora
norte-americana surpreendentemente optou por escalar, em 1973,
o Maverick, um projeto de Detroit considerado compacto em
seu país de origem.
Embora ainda não fosse óbvia a preferência
dos brasileiros por carros de origem européia, isso
foi se tornando claro ao se constatar que a acomodação
no banco traseiro do novo carro era sofrível –
pior do que no Corcel, de um segmento inferior, cujo projeto
tinha origem na francesa Renault. Outro problema era
o pré-histórico motor seis-cilindros e 3000
cm3 herdado do Itamaraty: com um desempenho inferior ao do
Opala 2500 e consumo quase igual ao dos V8 do mercado, o Maverick
não decolava e a Ford assistia de camarote o domínio
da GM nesta importante faixa do mercado.
Percebendo a mancada, a empresa trouxe, em 1975, o excelente
motor 2300 quatro-cilindros OHC do Mustang II, mas já
era tarde e o carro já havia caído em desgraça
na opinião do consumidor, estigmatizado como “beberrão”
na época da crise do petróleo. Havia, ainda,
a concorrência doméstica, pois, em 1977, a Ford
parou de investir no carro americano e catapultou o Corcel
para concorrer (pelo menos em tamanho externo) com o Opala,
lançando o Corcel II e retirando o Maverick de linha
dois anos mais tarde.
E fica a pergunta no ar: o Maverick era um carro ruim?
A quantidade de modelos preservados e o interesse que o carro
desperta entre os antigomobilistas hoje mostra que a questão
não é tão simples. Suas linhas são
muito atraentes, o acabamento é primoroso e o desempenho
da versão GT, irrepreensível. Apesar da mancada
inicial do lançamento do antediluviano motor Willys,
o erro foi corrigido apenas dois anos depois – o mesmo
aconteceria alguns anos mais tarde com o Gol, que foi lançado
com o motor a ar e só decolaria após a adoção
do motor com refrigeração líquida.
O grande problema do Maverick foi ter sido escolhido para
uma função para a qual ele, definitivamente,
não se adequava: a de carro familiar. Seu público-alvo,
nos EUA, eram os solteiros e os jovens casais que queriam
algo mais do que um carro pequeno sem abrir mão de
um visual jovem – praticamente a mesma proposta do Corcel
quando lançado aqui – e, seguindo essa filosofia,
ele foi um sucesso de vendas por lá. Mas, exatamente
por preservar essas características, ele sacrificava
o conforto dos passageiros de trás, tão importante
para os brasileiros naquela época em que o carro ainda
era um privilégio e o banco traseiro, muito requisitado.
Assim, por um erro estratégico, um excelente projeto
não deu certo no Brasil do ponto de vista mercadológico,
mas, graças aos esforços dos seus muitos admiradores,
vem sendo largamente preservado. Seu carisma poderia ser medido
na camiseta do proprietário de um reluzente GT 1974
e de um LDO 1978:
“Old Fords never die, they just get better”.

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Luís Augusto Malta é
médico psiquiatra apaixonado por carros antigos
e música clássica. Considera que nasceu
antigomobilista, já que, em 1977, seu pai tinha
um Fusca 69, o qual acabou herdando, em 1995, como o
seu primeiro carro - antigo e de uso cotidiano - e conserva
até hoje.
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LUÍS AUGUSTO MALTA
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