Opala e Del Rey: nos anos 90,
muito melhores do que os projetos que lhes deram origem
A partir do final dos anos 50, iniciou-se um processo irreversível
de descentralização da produção
automotiva – que, até então, se concentrava
muito na Europa Ocidental e nos EUA – para países
sem grande tradição industrial.
Como era muito difícil partir do zero para concorrer
com marcas já estabelecidas, era comum que os jovens
centros produtores de automóveis produzissem, sob licença,
modelos já consagrados usando marcas nacionais, caso
da romena Dacia (Renault R12), da russa Lada e da espanhola
Seat (ambas com o Fiat 124).
Outras empresas toparam o desafio de começar com projetos
próprios, caso da australiana Holden a da maior parte
das japonesas, cujos primeiros veículos eram muito
rudimentares se comparados aos das marcas tradicionais, mas
possibilitaram que seus projetistas tivessem liberdade para
criar uma escola própria de design e tecnologia que,
a partir dos anos 70, seria exportada para todo o mundo.
Um terceira via, usada em países como Brasil, México
e África do Sul, foi a abertura de subsidiárias
de empresas já bem estabelecidas que queriam expandir
seus mercados, caso da Volkswagen e das três gigantes
norte-americanas, que passaram a produzir cópias dos
seus produtos que, por causa da instabilidade econômica
no terceiro mundo nas décadas de 70 a 90, ficaram desatualizados
com suas matrizes, mas ganharam características próprias
que acabaram tornando-os muito superiores aos projetos originais.
Ficando nos modelos brasileiros, o primeiro exemplo é
o do Aero-Willys 2600 1963; desenhado a partir do modelo original
norte-americano dos anos 50, ele se tornou mais bonito, sofisticado
e espaçoso, embora não tenha havido grande evolução
do ponto de vista mecânico. Os passos da Willys foram
logo seguidos pela Simca, que aperfeiçoou a mecânica
do Chambord original, atualizou levemente o belo desenho da
carroceria e lançou a linha Tufão naquele mesmo
ano, resolvendo a maior parte dos problemas criticados pelos
proprietários do velho Chambord. O Tufão ainda
evoluiria para o excelente Emisul, que, com ótimo desempenho
para a época, não parecia derivado do carro
que motivou a alcunha de Belo Antônio, por causa do
motor fraco. Das pioneiras brasileiras, a Vemag talvez tenha
sido a que foi mais longe: partindo da limitada plataforma
do DKW F-94 alemão dos anos 50, criou o Fissore, um
moderno sedã duas portas de luxo, que antecipava as
tendências do design europeu do final dos anos 60. E
o que dizer do Diplomata 92 ou dos últimos Del Rey?
Perto deles os Opel Rekord C ou Renault R12 originais parecem
ter saído de um museu, com desempenho, conforto, conveniência,
segurança e equilíbrio dinâmico muito
abaixo de suas evoluções tropicalizadas.
Esteve certo o presidente Collor ao abrir o mercado às
importações, embora especialistas no assunto
defendam que a abertura deveria ter sido mais gradual. Entretanto,
o que ficou na história foi o seu infeliz comentário
de que os carros brasileiros eram verdadeiras carroças,
em uma atitude de desprezo à criatividade da nossa
engenharia, que soube manter vivo o sonho de produzir carros
em solo brasileiro em algumas das épocas mais difíceis
e turbulentas – política e economicamente –
da nossa história. Comparados aos modelos originais,
não seria exagero dizer que nossa indústria
produziu safras melhores até do que as das matrizes
onde foram criados.
Luís Augusto Malta é
médico psiquiatra apaixonado por carros antigos
e música clássica. Considera que nasceu
antigomobilista, já que, em 1977, seu pai tinha
um Fusca 69, o qual acabou herdando, em 1995, como o
seu primeiro carro - antigo e de uso cotidiano - e conserva
até hoje.