|

Estamos
testemunhando o início do fim
da era do antigomobilismo?
 |
| Será que este carro
poderá em 30 anos vir a ser um carro de coleção? |
Com o avanço
da tecnologia, a obsolescência programada com prazos
cada vez mais curtos e a alteração da relação
homem-carro é possível que em pouco tempo
já não se tenha mais exemplares colecionáveis.
A responsabilidade dos que mantém carros de coleção
hoje em dia se torna maior, pois deles depende a manutenção
dos exemplares realmente colecionáveis de hoje
no futuro.
 |
| Ferdinand Porsche e seu
filho Ferry, observando um desenho do Fusca numa prancheta
de desenho, que foi feito à mão sobre
papel vegetal (translúcido para permitir cópias
heliográficas – “blue-prints”),
com auxílio de réguas, esquadros, curvas
francesas, canetas de nanquim, etc. |
Assistido o programa VRUM de 13 de setembro de 2009 fixei
minha atenção aos incríveis carros
conceito que estão saindo das pranchetas...
Desculpem-me sou de outros tempos, hoje já não
existem nem pranchetas, nem réguas T, nem canetas
de nanquim, nem compassos, tampouco esquadros ou transferidores,
tudo é feito em modernos programas de computador
– adeus aos “blue-prints” (tipo de cópias
heliográficas) testemunhas de projetos que eram
usados no passado. Tudo fica em memórias de computadores
e logo poderão ser “ilegíveis”,
já nas próximas mudanças de sistema
operacional destes computadores e de seus programas –
perder-se-ão no “limbo-cibernético”...
Ao ver a matéria comecei a “ruminar com
meus botões”, coisa antiga também,
pois hoje o jeito é “ruminar com o meu velcro”...
Desta “ruminação” surgiu uma
sucessão de idéias que eu gostaria de dividir
com todos os antigomobilistas de raiz, a quem coloco as
perguntas abaixo.
Será que no futuro ainda existirá "antigomobilismo"
para estas coisas que estão surgindo ou os carros
feitos com estas composições estranhas de
materiais? Será que estes objetos rodantes não
identificados durarão mais do que 50 anos para
então virarem relíquias? Já estamos
ultrapassando o limiar dos carros colecionáveis
em potencial?
 |
| Exemplo de “blue-print”
no caso do Fusca de pós-guerra elemento que
ajuda na restauração de veículos
antigos e permite a reconstituição de
carros por meio de computação gráfica. |
Estas perguntas assustadoras não querem calar...
Hoje a gente sofre para conseguir peças para um
Fusca de 50 anos, algumas têm que ser refeitas,
mas os componentes e as dimensões são conhecidas
ou mensuráveis. Mas com a eletrônica fortemente
customizada por marca e totalmente integrada, será
que existirão peças de reserva NOS (New
Old Stock) daqui a 30 anos para um dos carros super modernos
de hoje em dia?
 |
| Desenho “renderizado”
por Dan Palatnik um dos maiores especialistas nesta
tecnologia em nível mundial. Este desenho em
3 dimensões com volume foi feito a partir de
“blue-prints”. O saia e blusa não
é de fábrica, mas falaremos sobre isto
em outra oportunidade... |
O pior de tudo é a redução dos prazos
aceitos para a obsolescência programada em toda
a indústria, o que não deixa a automotiva
de fora. Acho que estamos abaixo de 10 anos em alguns
tipos de carros. Daqui um pouco virão carros com
componentes realmente biodegradáveis. O que vai
acontecer com estes componentes quando o carro atingir
o limiar de validade da auto-decomposição?
Lembro da primeira ignição transistorizada
que apareceu no Simca Tufão (com o símbolo
de um transistor na lateral), tinha componentes discretos,
não integrados, e dava até para trocar uma
resistência, um tiristor ou transistor. Mas hoje
há milhares de componentes em chips dedicados que
não admitem nem pensar em conserto, tem que trocar
e pior, a troca deveria ser feita por um componente específico
da geração daquele carro (que pode mudar
várias vezes dentro de um mesmo ano de um tipo
de carro). É de se duvidar que nestas tecnologias
hiper modernas haja espaço para as saudáveis
gambiarras que deixam nossos antiguinhos felizes andando
por nossas estradas.
Para dar uma de Herodes em relação a carros
ainda colecionáveis no futuro, vários governos
mundiais reagiram à presente crise mundial oferecendo
a troca premiada de carros. Dava dó assistir à
Deutsche Welle mostrando carros “ainda novinhos”
na Alemanha serem desmantelados por conta do incentivo
para troca por 0 km, mais ecológicos e mais econômicos.
Nestas ações sucumbiram muitos dos que ainda
poderiam virar carros de coleção no futuro!
 |
 |
| Este é um exemplo
do campo de trabalho de um antigomobilista de nossos
dias. Um mundo que ainda está sob controle
e que tem condições de ser mantido. |
Será
que “tudo isto” pode ser mantido em operação
por mais 30 anos? |
Qual é o futuro do antigomobilismo? O que acontecerá
com o plantel de carros de coleção sem a
reposição de carros colecionáveis?
Estamos no limiar de um tempo no qual o ocaso do antigomobilismo
passa a ser previsível?
Outra pergunta que não quer calar: será
que a tendência atual da indústria automotiva
não mostra que está ocorrendo uma mudança
conceitual e sentimental no relacionamento entre homens
e automóveis? O elo outrora intocável de
amor e cumplicidade inexplicável entre homem máquina
estará sendo minado pelo moderno consumismo de
nossos dias? Será que os carros estão a
caminho de serem degradados para meros objetos descartáveis
de uso com substituição feita de tal modo
que não sobrem testemunhas de época para
o futuro, mesmo porque não existirão mais
condições técnicas que viabilizem
a conservação de espécimes de coleção?
Esta situação é preocupante para
um antigomobilista de plantão como eu.
Estamos vendo que de um lado a indústria e de
outro a sofreguidão por possuir novidades (que
nem sempre são melhores) está fomentando
a aceleração das trocas. Celulares, programas
de computador, eletrodomésticos e carros... Uma
tendência explosiva e definitivamente cruel que
pode ser a pá de cal no antigomobilismo.
Será?

<<VOLTAR
AO ÍNDICE DE ARTIGOS
| Alexander Gromow
- Ex-Presidente do Fusca Clube do Brasil. Autor
do livro EU AMO FUSCA e compilador do livro EU AMO
FUSCA II. Autor de artigos sobre o assunto publicados
em boletins de clubes e na imprensa nacional e internacional.
Participou do lançamento do Dia Nacional
do Fusca e apresentou o projeto que motivou a aprovação
do Dia Municipal do Fusca em São Paulo. Lançou
o Dia Mundial do Fusca em Bad Camberg, na Alemanha.
Historiador amador reconhecido a nível mundial
e ativista de movimentos que visam à preservação
do Fusca e de carros antigos em geral. Participou
de vários programas de TV e rádio
sobre o assunto.
|
©Reprodução
proibida sem prévia autorização
|