| 
3
de janeiro de 1959
Há cinquenta
anos, um grupo de pioneiros fabricou o primeiro “Volkswagen
de Passageiros” nacional
Uma
história sem um registro claro, ofuscada pela
posterior inauguração da fábrica, envolta
em mitos
e que merece ser lembrada por todos...
Olhar para 50 anos atrás não é uma tarefa
simples, principalmente quando praticamente não restaram
registros fidedignos de detalhes, somente um relato básico
da seqüência dos acontecimentos. Mas este é
o desafio diuturno de quem procura resgatar fatos históricos.
Uma das coisas que é imprescindível é
olhar para o passado com os olhos e o sentimento da época.
De nada vale pensar em condições atuais, com
fábricas amplamente automatizadas, limpas e providas
de toda a infra-estrutura necessária, para avaliar
o que ocorreu na incipiente “fábrica” da
Volkswagen do Brasil no fim da década de 50.
Fazendo uma linha de tempo, lembramos que a Segunda Guerra
Mundial terminou em 1945, o que era para ser a fábrica
do Volkswagen de Passageiros (naquele tempo o apelido Käfer
na Alemanha, muito menos o apelido Fusca no Brasil, haviam
sido criados) se resumia a escombros fumegantes depois de
prolongados ataques aéreos que só pouparam,
cirurgicamente, a usina térmica do complexo industrial.
Somente seis anos depois do fim da guerra, em 1951, a Brasmotor
já montava Sedans a partir de CKD’s. Oito anos
depois do fim da guerra, em 1953 a Volkswagen se estabelecia
como empresa no Brasil, ainda trabalhando com CKD’s,
inicialmente num galpão alugado na Rua do Manifesto,
no bairro do Ipiranga, em São Paulo Capital. Três
anos depois, 1956, começa a construção
da fábrica na Anchieta em São Bernardo do Campo,
um ano depois, em setembro, sai o primeiro veículo
Volkswagen nacional, uma perua Kombi. E somente 14 anos depois
do fim da guerra saiu o primeiro Volkswagen de Passageiros
nacional, em 3 de janeiro de 1959. Algo realmente admirável
para uma empresa totalmente destruída e que contou
com a ajuda da Força de Ocupação Inglesa
e de recursos carreados pelo Plano Marshall para seu soerguimento.
A partir deste ponto vamos deixar um pouco o rigor histórico
de lado e passaremos a nos referir ao “Volkswagen de
Passageiros” como “Fusca”.
 |
Detalhe
da construção da fábrica da VW do
Brasil na Anchieta em São Bernardo do Campo. Condições
precárias que não impediram o início
da fabricação nem de Kombis nem de Volkswagens
de Passageiros.
Acervo: Edivaldo Hidalgo Fernandez |
A fábrica no início de sua
construção já em 1956 tinha uma ala “em
condições” que permitiram a transferência
da linha de montagem da Rua do Manifesto para a Anchieta,
mas, na realidade estas “condições”
eram muito precárias. Relatos de pioneiros da época
do início da fabricação de Fuscas nacionais
reportam que, por exemplo, os escritórios sofriam muito
em dias de chuva devido ao barro do canteiro de obras; em
dias secos o flagelo era o pó e, pior ainda, todo o
ambiente era infestado por ratos e ratazanas, tornando o trabalho
bastante penoso.
 |
| Primeira
Kombi produzida em setembro de 1957. Até o momento
não foi possível localizar algo semelhante
para o primeiro Fusca de janeiro de 1959. |
 |
| Informação
estranha que a VW do Brasil vem divulgando por muitos
anos. A foto de carros de vigia traseira oval, montados
a partir de CKD’s com a legenda: "Em janeiro
de 1959, saem da fábrica Anchieta os primeiros
Fusca, com índice de nacionalização
de 54%". Uma informação que deve
ser corrigida! |
Ainda não foi possível encontrar uma foto do
primeiro Fusca fabricado na linha de montagem, semelhante
àquela da Kombi 00001 – fica lançado o
repto para a procura deste documento histórico. Foi
feita uma pesquisa na Volkswagen do Brasil e ai se verificou
que, infelizmente se veicula há muito tempo fotos de
carros com vigias traseiras ovais (que foram fabricados até
1958) como sendo carros 1959. Este é um dos mitos errados
propalados pela própria montadora em livros e publicações
internas e externas, mas está em tempo de reconduzir
os fatos a suas origens corretas.
Nosso primeiro Fusca nacional já
saiu com a vigia traseira retangular marcando uma das mudanças
importantes no visual do carro, que de duas janelinhas até
53 primeira série passou para oval na segunda série
deste ano, vigia esta que durou até 1958; a vigia retangular
permaneceu, mas foi aumentando em área com o tempo.
 |
| Um dos primeiros
Fuscas 1959. Detalhe para a vigia traseira retangular
e as setas direcionais nas colunas, as famosas “bananinhas” |
Foi feito contato com o Museu da Volkswagen na Alemanha (Dr.
Ulrike Gutzmann - Historische Kommunikation - Volkswagen Aktiengesellschaft),
igualmente sem sucesso. Por lá não há
material sobre o primeiro Fusca brasileiro.
Ocorre que todo o esforço de marketing foi concentrado
pela Volkswagen do Brasil para a inauguração
da Fábrica que ocorreu no dia 18 de novembro de 1959
(talvez assunto para outro artigo). Deste evento há
fotos e registros, mas o mesmo ofuscou o registro histórico
da fabricação do primeiro carro, ocorrido meses
antes.
 |
| Momento em que
encontrei a propaganda de Natal de 1958 no jornal A Vanguarda
durante a pesquisa no Centro de Memória de São
Bernardo do Campo. Infelizmente não havia uma foto
do primeiro Fusca entre o material pesquisado. |
Também não resultou em um
sucesso muito amplo uma longa pesquisa ao Centro de Memória
da Prefeitura de São Bernardo, onde foram pesquisados
jornais e revistas da época. Em matéria de Fusca
foi encontrada uma propaganda de Natal da Volkswagen do Brasil
no Jornal “A Vanguarda” de São Bernardo
do Campo, na edição de 20 de dezembro de 1958
com um interessante desenho de Fusca.
 |
| Propaganda
da VW do Brasil no Natal de 1958. Observe o desenho do
Fusca bastante tosco, mas típico para a época. |
Adiante foi encontrada na edição de 24 de janeiro
de 1959 deste jornal uma nota que fala sobre a então
insipiente produção do Fusca Nacional, somente
20 carros por dia. A ampliação desta quantidade
dependia do término de construção de
outras alas da fábrica.
Mas o fato histórico ora pesquisado
ocorreu no dia 3 de janeiro de 1959: ficou pronto o primeiro
“Volkswagen de Passageiros” fabricado com um grau
da nacionalização de 54%. Seis dias depois este
carro era vendido pela concessionária Marcas Famosas,
que junto à Brasilwagen, Cibramar, Bruno Tress e Sabrico
fazia parte do grupo de revendedores autorizados Volkswagen
(ainda não se falava de Concessionárias) na
capital de São Paulo.
 |
| Primeira
propaganda do VOLKSWAGEN BRASILEIRO. O desenho lembra
muito aqueles empregados em catálogos alemães. |
Esta relação fazia parte de um anúncio
veiculado na página 2 da seção Assuntos
Gerais da Folha da Manhã em sua edição
de 7 de janeiro de 1959. O mote deste anúncio era:
“Hoje nas estradas do Brasil VOLKSWAGEN BRASILEIRO”.
Este carro foi vendido ao senhor Eduardo Andrea Matarazzo.
O encontro deste anúncio foi o que resultou da pesquisa
feita junto ao Banco de Dados do Grupo Folha.
Realmente o início da fabricação
do Fusca nacional foi tudo menos algo glamuroso, foi na verdade
uma tarefa de heróis anônimos, enfrentando dificuldades
inimagináveis nos dias de hoje, sem esmorecer, abrindo
o caminho para uma gloriosa trajetória de um carro
que afirmo, ainda é necessário para países
do terceiro e quarto mundo.
 |
| Corroborando
a informação da Fenabrave, numa travessa
da Barão de Limeira (SP), num local chamado de
“boca” de venda de veículos, um Fusca
75 espera por seu feliz novo proprietário... |
Em recente notícia divulgada pela imprensa de São
Paulo a venda de Fuscas, obviamente usados, ultrapassou a
venda de carros novos! Segundo notícia recente veiculada
pela imprensa em 9 de dezembro de 2008: por incrível
que pareça, o VW Fusca foi o sexto modelo mais vendido
do ranking dos carros usados emplacados em novembro (que inclui
veículos com até 30 anos de uso), divulgado
pela Fenabrave (Federação Nacional da Distribuição
de Veículos Automotores), com um total de 15.894 unidades.
 |
| Há situações
em que fazer “o carro”, ou o que resta dele,
continuar funcionando é vital para uma comunidade,
como no caso de Barcelos, em 1988. Foto: Eduardo Ralish. |
Transpondo esta situação para rincões
distantes deste gigantesco país continente, onde as
estradas ainda são precárias e um carro confiável,
robusto e de manutenção simples e conhecida
é uma necessidade, vemos como o Fusca ainda é
vital para muitos usuários que fazem de tudo para mantê-lo
andando. Há casos em que o uso do Fusca é levado
até a extremos, como foi flagrado em Barcelos que fica
no Rio Negro no coração da Amazônia. Lá
existia um único carro que um dia foi um Fusca, e mesmo
com a falta de peças, serviu à comunidade por
muitos anos!
Acho que a trajetória que se seguiu
anos a fio, durante a qual o Fusca trouxe felicidade e progresso
para milhões de Brasileiros, pois foram produzidos
mais de três milhões de carros no Brasil, é
muito bem retratada numa propaganda cujo mote é: “Qual
é a posição social do dono deste carro?
(e uma foto mostra um Fusca)” segue-se um texto
que é uma obra prima:
 |
| Visitando
o “Käfer Haus” onde o amigo Marcus
Valério Lins Barroso guarda duas preciosidades,
um Fusca Mexicano Ultima Edición e um Última
Série de 86, observei esta propaganda que
decora o ambiente e que coube como uma luva nesta
matéria. |
-“É melhor não arriscar nenhum
palpite.
Você pode pensar que o dono é
um bancário e depois descobrir que é um
banqueiro...
Ou pensar que o dono é um estudante, e depois
descobrir que é o próprio reitor da Universidade...
O Volkswagen é assim mesmo. Ele nada revela sobre
seu dono. Ou melhor, quase nada.
Porque alguns traços de caráter são
revelados automaticamente pelo próprio fato de
o dono ter um VW.
Por exemplo, o senso prático.
Quem tem Volkswagen resolve o problema do transporte
da maneira mais racional.
É senso de economia.
Quem tem VW, faz economia em cada quilômetro.
E faz economia também na hora de vender, pois
o VW é o carro que melhor compensa o dinheiro
investido na hora de comprá-lo.
Adivinhar a posição social do dono de
um Volkswagen é difícil.
Mas é fácil conhecer alguns traços
muito importantes de seu caráter.
Você por acaso tem um VW (Fusca)?
Parabéns.
Independentemente de sua posição social.”
|
O tempo em sua desabalada carreira leva as pessoas inevitavelmente
ao esquecimento, mormente nos dias de hoje quando o tempo
parece encurtar-se ante à avalanche de tarefas que
caem sobre nossos ombros. Ai é que se torna importante
dar uma parada de vez em quando para lembrar de fatos importantes
que marcaram nossas vidas e o progresso de nosso país.
O início da fabricação do Fusca nacional
foi um destes fatos que este artigo tem como objetivo lembrar
e preservar para o futuro.
<<VOLTAR
AO ÍNDICE DE ARTIGOS
|
Alexander Gromow - Ex-Presidente
do Fusca Clube do Brasil. Autor do livro EU AMO FUSCA
e compilador do livro
EU AMO FUSCA II. Autor de artigos sobre o assunto publicados
em boletins de clubes e na imprensa nacional e internacional.
Participou do lançamento do Dia Nacional do
Fusca e apresentou o projeto que motivou a aprovação
do Dia Municipal do Fusca em São Paulo. Lançou
o Dia Mundial do Fusca em Bad Camberg, na Alemanha.
Historiador amador reconhecido a nível mundial
e ativista de movimentos que visam à preservação
do Fusca e de carros antigos em geral. Participou de
vários programas de TV e rádio sobre
o assunto.
|
©Reprodução
proibida sem prévia autorização
|