|
•
Cobertura completa
VI Blue Cloud - Caxambu-MG
A
festa das quatro argolas

Belcar, Vemaguet, Fissore, Sedan,
Candango, Malzoni e Puma DKW. Esses máquinas incríveis
— recheadas de particularidades e curiosidades,
que têm entre seus proprietários os mais
fervorosos fãs de uma marca no Brasil inteiro —
foram as donas da festa que atraiu apaixonados de várias
partes do Brasil a Caxambu-MG neste final de semana, 6
a 9 de novembro.
 |
| José de Mattos e
sua esposa: de Vemaguet desde Brasília, DF |
Entusiastas como José de
Mattos e sua esposa, que vieram rodando de Brasilia em
sua Vemaguet 1967, distante 950 quilômetros. Na
bagagem um motor extra, para um caso de emergência
e que acabou sendo usado, já que o original resolveu
negar fogo já no estacionamento do hotel em que
se hospedaram. Entusiastas como os DKWzeiros cariocas
que lotaram um caminhão cegonha com suas preciosidades
de três cilindros. Entusiastas como o jornalista
e presidente do Veteran Car Clube de Minas Gerais, Boris
Feldman, que fez questão de vir guiando por 320
quilômetros seu raríssimo DKW Malzoni de
competição, apesar de ter uma coleção
com automóveis das mais diversas marcas. —
Historicamente, esse é um dos carros mais representativos
que tenho, já que existem apenas 3 exemplares remanescentes
— explicou Feldmann. Estusiastas com o Sr.
Nísio Horta Mattos, que com mais de 90 anos e mesmo
não dirigindo mais, veio com seu filho no Belcar
1964 — na família desde que saiu da fábrica
— para não perder o evento. Estusiastas como
os Witzke, de São Paulo — que há mais
de 50 anos possuem uma oficina especializada — e
que vieram também a bordo de um lindíssimo
DKW Coupé alemão 1957. São muitos
os exemplos...
Paixão é isso aí!
Quem se atreve a explicar?
 |
| Flávio
Gomes: desta vez de Passat |
Os
descendentes
Mas a festa teve ilustres convidados.
Os descendentes das “quatro argolas” foram
representados à altura. De um lado os Pumas VW,
cujo mais raro exemplar era um dos três exemplares
GT 4R, encomendados pela Revista 4 Rodas em 1969 a Rino
Malzoni e que hoje pertence a seu filho, Kiko. De outro
lado os Passats vindos dos estados do Rio, São
Paulo, Minas Gerais e Paraná, presentes com exemplares
originais e impecáveis deste grande sucesso da
Volkswagen nos anos 1970 e 80 e que são baseados
no alemão Audi 80. Veja no box abaixo, porque Pumas
e Passats são legítimos descendentes dos
DKWs!
Aficionado por DKWs, tendo diversos
exemplares em sua coleção (inclusive um
Belcar de competição, o famoso 96 da categoria
Super Classic) o jornalista e um dos organizadores do
evento, Flávio Gomes este ano quebrou a escrita,
comparecendo ao evento com seu Passat 1980, da rara versão
“Surf”. — Não houve tempo
hábil para trazer os DKWs, por questões
profissionais. — comentou.
Para André Grigorevski,
presidente do Passat Clube do Rio de Janeiro, o convite
foi a oportunidade de mostrar que o primeiro automóvel
Volkswagen refrigerado a água no Brasil, tem uma
bela biografia que merece ser contada. Segundo ele, os
cerca de 20 Passats presentes, de diversos anos e versões,
formaram uma boa mostra da evolução do modelo
ao longo de seus 14 anos de fabricação (1974-1988).
Figuras
ilustres
 |
| Marinho (d), Baldez e Crispim,
três dos ilustres convidados |
Mas não só com convidados
ilustres de quatro rodas contou o Blue Cloud. Desculpe
o clichê, mas verdadeiros “monstros sagrados”
não só da história da DKW-Vemag,
mas também do automobilismo e da própria
indústria automobilística brasileira estiveram
por lá. Quem não conhece Bird Clemente,
Mário César “Marinho” de Camargo
Filho, Miguel Crispim, Jan Balder ou Amauri Mesquita?
Foram deles os mais emocionantes, didáticos e também
divertidos momentos do evento. Histórias que contaremos
depois.
Audi
Tradition
Na sexta-feira a noite, Flávio
Gomes contou a história da Audi, com apresentação
criada pelo Audi Tradition, o museu oficial da marca na
Alemanha. Aliás, uma equipe da entidade esteve
presente ao Blue Cloud. O objetivo foi conhecer de perto
como se deu a passagem da Audi pelo Brasil nos anos 60,
através da Auto Union, uma das quatro empresas
do extinto grupo alemão, entre elas também
a DKW, além de Horch e Wanderer.
Para Hélio Marques, outro
organizador, essa aproximação foi fundamental:
— Primeiro porque nós, brasileiros, passamos
a conhecer um pouco mais sobre a trajetória da
Audi. Segundo porque eles tiveram a oportunidade de ver
que há uma história da Auto Union aqui no
Brasil, coisa que eles praticamente desconheciam. Agora
eles irão levar para a Alemanha DKWs brasileiros
dignos de estarem em museus e que não faziam parte
da linha de produção européia. É
o caso do Fissore, dos Belcar e Vemaguet fabricados em
1967 (quatro faróis) e do Malzoni, que eles acabaram
de comprar. Esses carros estarão presentes num
importante evento, que acontecerá na Alemanha,
em 2009.
 |
| Kiko Malzoni |
Palestras
Boa parte da tarde de sábado
foi dedicada a palestras. O primeiro palestrante do foi
o ex-piloto carioca Amauri Mesquita, que pilotou diversas
marcas ( inclusive os DKWs), sempre com muito sucesso,
embora nunca tenha feito parte da equipe oficial DKW-Vemag.
Apesar disso, em sua palestra Mesquita afirmou que os
DKWs foram seus carros preferidos nas competições.
Outro palestrante convidado foi
Kiko Malzoni. Filho do genial Rino, Kiko possui em sua
coleção diversos carros projetados por seu
pai, entre eles o Puma GT 4R 1969 citado acima. O tema
de sua palestra foi a restauração em andamento
do protótipo Malzoni de competição,
um dos primeiros desenvolvidos por seu pai, ainda em chapa.
Este carro, cujo número oficial nas corridas era
o 10, foi encontrado na zona rural de São Bernardo
do Campo, totalmente descaracterizado e agora encontra-se
em plena restauração em Petrópolis,
na AMV Restaurações. O Portal Maxicar vem
acompanhando desde dezembro de 2006 a recuperação
deste histórico carro de competições,
que será alvo de uma reportagem especial, após
a sua conclusão. Presente à palestra, o
ex-piloto e antigo proprietário do carro, Mário
César “Marinho” de Camargo Filho emocionou-se
ao ver seu antigo bólido voltando à velha
forma novamente.
Homenagem
a Lettry
 |
| Crispim e Bird se emocionaram
ao falarem do amigo Lettry |
Os
descendentes
PUMA
Lançado em 1967 pelas mãos do genial
designer Rino Malzoni, em seu primeiro ano de fabricação
o Puma era totalmente baseado na mecânica
DKW, com o mesmo motor dianteiro refrigerado a água,
de dois tempos e três cilindros e a mesma
plataforma. Naquele ano, a DKW-Vemag foi comprada
pela Volkswagen brasileira, que encerrou as atividades
da concorrente. Isso obrigou a Puma a buscar uma
nova mecânica para seu esportivo. Foi então
que nasceu o novo Puma, com motor VW 1500 (o mesmo
motor da Kombi e do Karmann Ghia) refrigerado a
ar e de tração traseira.
PASSAT
Mas e o Passat, o que tem a ver com essa história?
Vamos voltar a 1932, quando a DKW, já lider
no mercado de motocicletas e ingressando no mundo
dos automóveis, associou-se a três
outras empresas: Horch, Wanderer e Audi. Surgia
assim a marca das quatro argolas, a Auto
Union. Passados 33 anos, a Volkswagen adquiriu
a Auto Union na Alemanha, passando a utilizar novamente
a marca Audi. Em 1968 é lançado o
Audi 80, que deu origem ao Volkswagen
Passat. Como se pode ver, nossos Belcar, Vemaguet,
Candango e Fissore são legítimos antepassados
do Passat!
|
O grande homenageado do VI Blue
Cloud foi o chefe da Equipe DKW-Vemag Jorge Lettry, falecido
no ínício de 2008. Foram convidados para
uma Homenagem especial seus antigos amigos e companheiros
das corridas, além de sua filha Emili. O que se
seguiu foi uma sucessão de depoimentos emocionados
e “causos” deliciosos, que deixaram a platéia
encantada.
O primeiro a discursar foi o mecânico
e “fiel escudeiro” Miguel Crispim. Ele falou
do orgulho de ter trabalhado durante anos ao lado do “mestre
Lettry” e da importância das corridas para
a DKW-Vemag. Segundo ele — a equipe de competições
não trabalhava os carros apenas para ganhar corridas.
Grande parte do que se desenvolvia em termos mecânicos,
acabava sendo usado também nos automóveis
de rua. As pessoas acham que as corridas eram divertimento
para um bando de malucos. Mas não é nada
disso: se elas não tivessem acontecido, nós
demoraríamos muito mais tempo para estarmos no
nível de desenvolvimento que estamos no Brasil.
Ao final de seu depoimento, muito emocionado, Crispim
chorou abraçado aos amigos presentes.
Marinho falou em seguida e de acordo
com ele, Lettry sempre acreditou no Brasil e em suas indústrias.
Recordou de sua longa amizade com o chefe da equipe DKW-Vemag
e em seguida entregou à sua filha Emili uma placa
comemorativa.
O próximo a prestar sua
homenagem foi Bird Clemente. —Vemag, Jorge,
Crispim, Marinho, Malzoni... tudo se confunde, pois a
história é uma só. O que eu acho
legal é que existe aqui no Brasil hoje pessoas
que fazem parte de sociedades de apaixonadas por automóveis,
e é essa paixão, essa corrente, que mantém
viva a história do DKW e também as nossas
histórias, porque vocês não vão
conseguir contar a história da DKW sem falar dos
carros de corrida — afirmou o ex-piloto. Lembrou
que ele pertence a uma geração em que se
tinha qua fazer tudo. Que no mundo de hoje os fatos acontecem
muito rápido e que do dia para noite as coisas
são destarcadas, virando sucatas.
O depoimento final ficou por conta
de Jan Balder. Ele divertiu-se ao contar a origem de seu
apelido “Papa-Omelete” e explicou que, por
ser mais jovem, não teve a oportunidade de trabalhar
diretamente com Lettry, na Equipe DKW-Vemag, mas que os
avanços alcançados naquela época
foram significativos para sua carreira como piloto de
corridas.
Para
descontrair
 |
| A esquerda no alto, Boris
Feldman e seu Malzoni. Abaixo, Hélio Marques
e seu Belcar Conversível. A direita, uma panorâmica
do passeio a Baependí |
Após o ciclo de palestras
e homenagens, grande parte dos cerca de 100 automóveis
expostos, entre, DKWs, Pumas, Passats e carros de outras
marcas (em número reduzido), saíram em carreata
para um passeio na vizinha Baependi, uma cidade história
há apenas 8 quilômetros de Caxambu. Estacionados
em frente à Igreja Matriz e nos arredores da praça
principal, os carros antigos despertaram a curiosidade
e admiração da população local.
O ambiente era de alegria, descontração
e camaradagem. Cheirava também a óleo queimado,
característica do motor 2 tempos, tamanho era o
número de DKWs reunidos!
Final
de festa
Uma festa no Hotel Palace
no sábado a noite marcou o fim do Blue Cloud 2008.
Durante 3 dias, foi possível admirar lindos automóveis
— alguns raros e que dificilmente voltarão
a ser vistos juntos —, ouvir velhos e tocantes "causos",
conhecer um pouco mais sobre a história da indústria
automobilística brasileira e do próprio
Brasil. Pôde-se, acima de tudo, conhecer de perto
esses verdadeiros heróis, amantes desta simpática
linha de carros de origem alemã, que por onde passam
com seu característico pipocar, conquistam novos
adeptos das mais diversas gerações. Ainda
bem! Como disse Hélio Marques: — Foi
a festa da família das quatro argolas.
|