Salão Internacional de
Véiculos Antigos – São Paulo, SP
Viagem pela história
recente,
através do automóvel
Evento teve programação
diversificada e 240 veículos em exposição
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Contar um pouco da história
do Brasil e do mundo no Século XX através
dos automóveis foi o objetivo de um evento que
aconteceu entre os dias 24 e 27 de novembro, no Pavilhão
de Exposições do Anhembi, em São
Paulo. Objetivo cumprido com êxito! Durante quatro
dias, o Salão Internacional de Véiculos
Antigos encantou seus visitantes, expondo de forma cronológica
a evolução dos automóveis (e também
do mundo) ao longa das décadas. — Procuramos fazer algo diferente dos convencionais
encontros de automóveis antigos. O evento tem mesmo
a conotação de salão. —
nos contou Ricardo Oppi, mestre restaurador e um dos organizadores
da mostra.
O Salão Internacional de
Véiculos Antigos é uma iniciativa do Automóvel
Clube do Brasil — tradicional entidade fundada em
1907 por figuras ilustres com Alberto Santos Dumont e
que hoje é uma grande incentivadora do movimento
antigomobilista — em parceria com a Reed Exhibitions
Alcantara Machado — uma das maiores empresas do
setor de eventos em todo o mundo, responsável por
exposições do calibre do São do Automóvel,
Bienal Internacional do Livro e Brasil Off-Shore.
Foi
grande o múmero de modelos dos anos 1920
e 30
E realmente foi diferente! A começar
pelas inscrições que foram feitas previamente
pelos colecionadores interessados em expor seus automóveis.
A partir daí foi feita uma seleção
rigorosa onde foram escolhidos os melhores exmplares de
cada marca/modelo. Por isso não foi possivel ver
diversos exemplares de um mesmo automóvel, como
normalmente acentece. O objetivo foi diversificar, fazendo
uma radiografia da indústria automobilística
como um todo.
Já ao entrar entrar no pavilhão,
o entusiasta se deparava com os automóveis fabricados
no início do século passado, como o Ford
Modelo T Touring de 1913 o mais antigo automóvel
em exposição. Ao seu lado um Fiat 509A Torpedo
de 1927, dono de uma curiosa história. Reza a lenda
que o 1.0 chegou zero km ao Brasil, e que por problemas
de legislação, nunca conseguiu ser devidamente
emplacado (o modelo não possui parachoques), fazendo
com que tenha ainda hoje somente cerca de 3 mil quilômetros
rodados, mesmo já tendo mais de 80 anos!
O "popular"
Fiat 509A e os luxuosos Stutz e Rolls Royce
Estre os exemplares do popular
Fordinho Modelo A — que sucedeu o Modelo T a partir
de 1927 — o Furgão 1929 carinhosamente apelidado
de Cremilda, por seu proprietário. O veículo
participou da minisérie “global” “Um
só coração”, exibida em 2001.
E mostrando que na década de 1920 se produziam
muitos modelos populares, o evento contou também
com exemplares da Chevrolet e até mesmo um da conceituada
Mercedes-Benz. A 260 Stuttgard 1928 teve produção
de somente 6.700 unidades e hoje conta com apenas cerca
de 20 remanescentes em todo o mundo, sendo este em exposição
no Salão, o único do Brasil.
Mas havia diversos modelos mais
sofisticados dessa época, como o Hispano-Suiza,
Dodge Brother, Studebaker, Stutz e Rolls Royce.
Em 2012 o célebre motor
V8 completa 80 anos. E como testemunha desse avanço,
um Ford Roadster 1932. Até então, a americana
equipava seus automóveis com motores de quatro
cilindros. Fato inusitado, em 2010 o veículo foi
multado pela Prefeitura de São Paulo por excesso
de velocidade!
Ao lado, o
Tatraplan T87 1947, diretamente do Leste Europeu.
Abaixo a dupla de Allards e o sofisticado Packard
Clipper
Continuando a aventura no tempo,
chegamos à década de 1940, período
em que a indústria automobilística mundial
“deu uma parada” devido à II Guerra
Mundial. É desta época um luxuoso Packard
Clipper 1941, um Mercury Eight e um Chevrolet De Luxe
Conversível fabricado em 1942, ano que a produção
de automóveis foi interrompida, retornando somente
em 1946.
Do Leste Europeu, um Tatraplan
T87 1947. Fabricado na antiga Tchecoslováquia,
possui motor de oito cilindros traseiro refrigerado a
ar, separado do abitáculo de passageiros por um
grosso vidro. Na tampa do motor, uma grande barbatana
tem função aerodinâmica. Na dianteira,
um estranho terceiro farol.
Não faltaram nem mesmo dois
exemplares da bastante desconhecida marca inglesa Allard:
um K1 1948 preto — cuja produção foi
de apenas 150 unidades — e um J2 branco —
biposto de competição com motor Cadillac,
que participou de diversas corridas no Brasil na década
de 1950. Estima-se que existam somente três exemplares
no mundo inteiro.
Chevrolet
Bel Air Conversível 1957: beleza impar
Década de 1950. Dos “Anos
Dourados”, inúmeros modelos que são
verdadeiras estrelas sobre rodas. Caso dos diversos Cadillacs,
em especial o modelo 1959 — o ápice do exagero
no design. Packard Patrician 4000 1951, Rambler Custom
1957, Mercury Montclair 1955, dois Fords Fairlane (sendo
um hardtop e outro conversível), Corvette 1956,
Impala 1958 e os desejados Chevrolets 1955/56/57 (tri-Chevys)
são outros dos ínumeros modelos norte-americanos
desse período.
Kombi
alemã Barndoor de 1950, Trabant P-60 1963
e DKW Sonderklasse
A alemã Volkswagen esteve
muito bem representada nesta década. Dois Fuscas:
um “Split” de Luxo 1950, e um “Oval”
Standard de 1955. Lado a lado, ficou fácil comparar
as diferenças de acabamento entre ambos. Já
a Kombi Barndoor de 1950 acaba de ter a restauração
concluída. O modelo tem como principal característica
uma grande tampa traseira única, que dá
acesso ao cofre do motor e sobre este, o estepe.
Também da Alemanha, o DKW
Sonderklasse Coupê sem coluna de 1956, modelo jamais
produizido por aqui. Do lado oriental do país,
o desconhecido Wartburg 312 1966 e o Trabant P-60 1963
com sua característica carroceria plástica,
que acompanhou a marca comunista durante toda a sua trajetória.
Os
sempre admirados Mustangs em suas três versões:
Hartop, Fastback e Conversível
Chegamos às década
de 1960 e 70, época do surgimento dos “Muscle”
e “Ponny Cars” americanos, tendo o Mustang
como seu principal representante. Mas não de pode
esquecer o Camaro SS — seu principal rival, o Mercury
Cougar — seu “primo” de luxo, o Dodge
Charger, Corvettes da 2ª geração, Ford
Thunderbird e as pick-ups derivadas de automóveis
Ford Ranchero e Chevrolet El Camino — modelos dos
quais o evento contou com diversos exemplares, para deleite
dos amantes do gênero. Realmente lindas!
O setor de micro e mini carros
europeus foi um dos mais visitados e fotografados. Ao
lado de uma tradicional BMW-Isetta o modelo BMW 600, de
quatro lugares parecia até grande! Além
da porta dianteira, esta versão possui uma porta
lateral para o acesso dos passageiros do banco traseiro.
Com “pinta” de aviãozinho, nome complicado
e manche no lugar do volante, o Messerschimitt foi lançado
na Alemanha após a II Guerra Mundial, aproveitando
o nome e as instalações de uma antiga fábrica
de aviões. “Parece um peixe!”,
ouvimos alguém dizer... Encantadores o Furgão
Mini Morris e o Fiat 600.
Ao lado, o
setor dedicado à marca Alfa Romeo, com dois
exemplares nacionais (no segundo plano)
O sucesso dos microcarros: Messerschimitt, BMW 600,
BMW Isetta e Mini Morris Furgão
Muitas marcas consagradas tiveram
setores próprios. É o caso da Italiana Alfa
Romeo, que apresentou diversos exemplares das bem conhecidas
conversíveis Spider 2000, além das mais
raras Giulia Spider 1965 e Guilia Sprint 1966, sem falar
na GTV 1973 de competição e de carona os
brasileiros FNM JK 2000 1967 e Furia GT 1970 — projeto
de Toni Bianco que lhe rendeu um prêmio da Revista
4 Rodas naquele ano.
A BMW também teve seu espaço próprio.
635 CSI, 2002 Tii, 2800 Automatic, 3.0 CSi e 3.0 com curtomização
Alpina encheram os olhos dos fãs da marca da Bavaria.
Três
De Tomaso juntos:cena rara
Coisa rara de se ver no Brasil,
estiveram reunidos três exemplares da marca italiana
De Tomaso: Longchamp 1978, Deauville 1974 e o mais famoso
deles, o superesportivo Pantera 1971. Todos compartilham
a mesma mecânica Ford V8. Fundada em 1959 por um
Argentino, a marca se notabilizou por modelos sofisticados
e de alto desempenho. Foi extinta em 2004.
Parte
da Caravana vinda do Rio de Janeiro, organizada
pelo grupo AGMH Antigomobilistas
Triumphs de diversos modelos, Jaguar
E-Type de 6 e 12 cilindros, MG TD... esteve bastante variado
o leque de modelos esportivos britânicos. Já
o Mercedes-Benz Clube do Brasil comemorou em grande estilo
o aniversário de 125 anos da marca, levando ao
evento o automóvel mais caro em exposição:
sonho de nove entre dez aficionados por automóveis
antigos, o 300 SL, com suas famosas portas no formato
“asa de gaivota” é um dos mais incríveis
modelos da marca alemã de todos os tempos. Avaliado
em mais de R$ 1 milhão.
Mercedes-Benz
300SL, o mais caro veículo do evento
O Centro Cultural Jorm —
o mesmo que levou a Águas de Lindóia os
cerca de uma dúzia de Rolls-Royces que encantaram
os visitantes do evento este ano — contou com stand
próprio, onde apresentou maquinas maravilhosas
de seu acervo, incluindo o Hispano-Suiza e o Stutz já
citamos acima. Outra entidade com espaço particular
foi o MG Club, que mostrou alguns dos automóveis
participantes da edição 2011 das Mil Milhas
Históricas.
Tucker Torpedo 1949. Único
exemplar em solo brasileiro e um dos únicos remanescentes
de uma reduzidíssima produção de
apenas 51 exemplares. Sonho do empresário americano
de Prestou Tucker, que já rendeu até filme.
A simples presença deste automóvel no Salão
Internacional de Véiculos Antigos já valia
a sua visita. Pertencente ao acervo do extinto Museu Paulista
de Antiguidades Mecânicas de Caçapava-SP,
o automóvel sofreu uma série de transformações
(teve até o motor original traseiro substituído
por um dianteiro de Cadillac) e está hoje completamente
deteriorado pelo tempo. A história desse “exemplar
brasileiro” é envolta numa nuvem de mistérios,
que vem sendo brilhantemente desvendada por uma incrível
reportagem investigativa, publicada em capítulos
pela Revista Classic Show.
Junto com ele, outros sete veículos do extinto
museu — que agora está sendo revitalizado
graças a uma parceria entre a Prefeitura Municipal
de Capaçava e o Automóvel Clube do Brasil
(que irá restaurar diversos carros do acervo) —
estiveram no Salão.
Hoje,
o Tucker Torpedo nem de longe lembra o que foi no
passado. Mas as perspectivas são boas
Ao contrário do que normalmente
acontece, foi bem maior o número de veículos
importados, em comparação com os nacionais.
Mas a explicação é simples: a história
da indústria automobilística brasileira
começa oficialmente em 1957, com a fabricação
do DKW Universal. Enquanto isso, a história do
automóvel no mundo remonta ao final Século
XIX. Além disso, os estrangeiros representaram
diversos países.
Logo na entrada do pavilhão,
o Ford Galaxie contava sua história através
de uma linha do tempo particular, começando pelo
modelo de lançamento, o 500 de 1967 até
chegar ao Landau de 1982. Presente também a Ambulância
1969. O protótipo foi desenvolvido com outros dois
pela própria Ford, que tencionava lançar
um Galaxie SW. Como o projeto foi abortado, os três
exemplares foram adaptados pela própria montadora
para uso como ambulância. Somente este foi preservado.
O Galaxie
e sua linha do tempo
A Fundação Romi aproveitou
o evento para comemorar os 55 anos de lançamento
da Romi-Isetta. Da linha DKW-Vemag, Candango, Belcar,
Fissore e Malzoni GT. Da Willys/Renault os Aeros da primeira
e segunda gerações, Gordini, Rural, Jeep
e dois magníficos exemplares do Interlagos Berlinetta,
modelo de origem francesa, consagrado nas pistas e considerado
por muitos como o mais belo esportivo já produzido
no Brasil.
Willys
Interlagos, Chrysler Esplanada e Opala Comodoro.
Nacionais de altíssima qualidade
A linha Opala esteve bem representada
por quatro modelos distintos e de encher os olhos: SS4
1974, Comodoro Sedan Automático 1975, Caravan SS
1980 (último ano do modelo) e Coupê Gran
Luxo 1972.
Puma
GTB: protótpo de chassi número 0001
Da “família VW”
a ar, além dos Fuscas, Karmann-Ghias, Kombis, SP2,
TL e Brasilia. Em exposição também
o protótipo Puma GTB Série I 1974, com chassi
número P80001. O exemplar foi usado nos testes
de lançamento do modelo pela Revista 4 Rodas.
Em sua relativamente rápida
passagem pelo Brasil, entre 1968 e 1982, a Chrysler fabricou
diversos modelos que hoje deixam saudades. A começar
pela própria Esplanada, que herdada da Simca, foi
fabricada durante 2 anos pela Chrysler, sendo substituida
pelo Dart em 1969. Além desses, em exibição
Dart SE (versão espartana), Dodge 1800 SE e o tão
cobiçado Charger R/T.
O Salão Internacional de
Veículos Antigos contou com uma vasta programação
paralela, das quais destacamos:
- A comemoração do
centenário da criação da famosa estatueta
“Spirit of Ecstasy” que glamurosamente adorna
os capôs dos automóveis da inglesa Rolls
Royce. O desenho da mítica escultura foi baseado
em Eleanor Velasco Thornton, secretária e amante
do Lord Montagu, um nobre cliente da marca.
Homenagem
ao símbolo da Rolls Royce e ao Vigilante
Rodoviáriio
- Tributo aos 50 anos da série
de TV “O Vigilante Rodoviário”, cujo
protagonista — o ator Carlos Miranda — que
ainda hoje frequenta os encontros de autos antigos na
pele do Vigilante Carlos, ao lado de seu Simca Chambord
patrulha — foi homenageado pelo Automóvel
Clube do Brasil, com uma placa comemorativa e uma tela
pintada pela artista plástica Helena Dotta.
- Durante toda tarde de sábado
aconteceu um leilão, com 85 automóveis antigos
a venda, dos quais 21 foram vendidos, mesmo com valores
às vezes acima do mercado. O grande destaque ficou
por conta do Jaguar E-Type V-12 1973 arrematado por R$
420 mil pelo ex-piloto de Fórmula I, Nelson Piquet.
E-Type:
arrematado por Nelson Piquet por R$ 420 mil
- O famoso designer americano de
automóveis Rexford Parker proferiu uma palestra
sobre as celebridades e seus automóveis. Entre
os famosos abordados por ele, colecionadores como Steve
McQueen e Elvis Presley e o brasileiro Roberto Carlos.
Na platéia nomes de destaque no mundo dos automóveis
como Bob Sharp, Roberto Nasser e Fernando Calmon.
À
erquerda, o designer americano Rexford Parker. À
direita, Ricardo Oppi (Automóvel Clube do
Brasil) e Hércules Ricco (Alcântara
Machado), ao lado de Paulinho da Viola. No detalhe,
o Karmann Ghia parcialmente restaurado
- Encerrando as atividades de sábado,
foi apresentado o Karmann Ghia 1970 do cantor e compositor
Paulinho da Viola. Em restauração na Oficina
Oppi Old Cars, o conversível que pertence ao artista
há muitos anos, vem sendo recuperado através
do projeto “De volta para o futuro”, que a
cada edição do SIVA pretende concluir a
restauração de um automóvel.
São Paulo é conhecida
no meio antigomobilístico de todo o Brasil por
abrigar incríveis coleções de automóveis
e por realizar eventos de alto nível (vide, por
exemplo, os encontros mensais na estação
da Luz e os eventos semanais no Sambódromo). Mas
os entusiastas paulistanos andavam ressentidos pela falta
de grande evento anual que representasse em todo o pais
o antigomobilismo de sua maior metrópole, já
que o maior evento de São Paulo (e também
do Brasil) acontece em Águas de Lindóia,
há muitos quilômetros de distância.
O público lotou o Anhembi
Nos últimos dias não
se falou em outra coisa e o Salão Internacional
de Veículos Antigos certamente cumpriu seu objetivo
de contar um pouco da história do automóvel
e reunir um público de 30 mil visitantes, que mesmo
pagando ingresso, se dispôs a prestigiar o evento
e com certeza gostou muito do que viu. Ano que vem acreditamos
que o sucesso será ainda maior, por conta dos comentários
e da repercussão da edição desse
ano, levando ao Anhembi antigomobilistas e caravanas de
todo o Brasil.
Texto:
Fernando Barenco Fotos: Fátima Barenco e Fernando
Barenco Vídeo: Dr. Tanil