Escrever a respeito das mulheres é algo que não
me atrai muito, por ser um assunto de abordagem repetitiva
e de fundo político/feminista. Não gosto definitivamente.
Buscando o tema para a coluna deste mês, a primeira
de 2008, um amigo sugeriu que escrevesse a respeito, quando
mencionei na coluna anterior a participação
de mulheres em cargos na diretoria da FIVA, imagino o quanto
dominam o assunto para pleitearem estas funções,
verdadeiras autoridades.
No universo antigomobilista a atuação das mulheres
no exterior é muito diferente do que presenciamos no
Brasil. Elas ocupam funções técnicas,
administrativas dentro da diretoria de associações
mistas e também nas suas próprias, entidades
criadas por mulheres e somente para mulheres.
Nesta matéria contarei histórias das PIONEIRAS,
as enlouquecidas para a época, as que desafiaram a
opinião pública e a sociedade repressora.
Por ordem cronológica, a primeira mulher a dirigir
um automóvel foi Berta Benz esposa de Karl Benz. Berta,
o conduziu em 1885 à velocidade de incríveis
13 quilômetros horários.
Coincidentemente, após a associação
de Karl Benz com outro construtor de automóveis, Gottlieb
Daimler a comercialização dos mesmos foi iniciada
por um industrial monegasco chamado Emil Jellinek que em 1900,
condicionou o investimento na compra de um lote de automóveis
em batizá-los com o nome de sua filha: Mercedes. Assim
nasceu a marca Mercedes-Benz. A história é bem
mais extensa e preeminente.
As mulheres daquele tempo não se limitavam somente
a conduzi-los. O primeiro automóvel americano, o Duryea,
foi desenvolvido em 1893 e em 1903, a americana Mary Anderson
inventou o limpador de pára-brisas para melhorar a
segurança durante a condução em chuva,
gelo e neve. Até 1923, mais de 175 patentes foram concedidas
a mulheres para invenções relacionadas aos automóveis,
semáforos e sinalizações de trânsito.
Quem diria!
Acompanhando os tempos modernos na Europa, a primeira mulher
habilitada com carteira de motorista foi a nobre francesa
Duquesa d’ Uzès. O periódico esportivo ‘La
vie au grand air’ de 15 de maio de 1898 não economizou
exclamações ao noticiar “La duchesse d’Uzès
brevetée! Mon Dieu, oui brevetée et conducteur
d’ automobile encore! Voilà une nouvelle bien
véridique qui etonnera bien des gens!” (A duquesa
d ‘Uzès habilitada! Meu Deus, sim, motorista
patenteada e também condutora de automóvel!
Eis uma nova notícia que surpreenderá muita
gente!).
Mas a duquesa não nos ajuda a entender se as mulheres
são realmente mais prudentes que os homens, porque
apenas dois meses depois de ter conseguido sua polêmica
habilitação já foi convidada a apresentar-se
ao tribunal por ter ‘circulado em velocidade exagerada
em Bois de Boulogne, correndo o risco de provocar um acidente’.
Na realidade, esta ‘velocidade perigosa’ foi somente
a 15 km/h e o limite para os automóveis que circulavam
em Paris era de 12 km/h.Não deveria ser fácil
para a duquesa ‘ultra moderna’ respeitar estas
regras.
A primeira mulher piloto é também uma francesa.
Foi Madame du Camille Gamond du Gast, nascida em 1870, pianista
de notável talento e grandiosa esportista, tanto que
praticava a nível profissional alpinismo, equitação,
esgrima, caça, tiro e paraquedismo (!). Sim, saltava-se
de pára-quedas naquela época, nem que fosse
do alto de um balão.
Uma mulher polêmica que não poderia deixar de
provar também do automobilismo. E assim, a sua estréia
dá-se no rallye Paris-Berlim de 1901, percorrendo com
a sua pequena Panhard de 20 cv. – o menor veículo
entre os veículos inscritos – os 1.105 quilômetros
de percurso. E percorrendo-os muito bem, partiu em 122° lugar
e chegou em 33°. Não satisfeita inscreve-se no
famoso rallye Paris-Madri em 1903, durante o qual ganha notoriedade
internacional por seu comportamento, se é que pode-se
dizer de uma senhora, de grande ‘cavalheirismo’.
Durante a prova em direção à Bordeaux,
em ótima posição na sua De Dietrich 4
cilindros e 45 cv , testemunha um acidente que envolve o piloto
Stead. Ela não hesita em parar e retirar o acidentado
debaixo do automóvel, com a ajuda de um mecânico,
onde seguramente morreria carbonizado, já que a gasolina
escapava por toda a parte. Madame du Gast o leva para um lugar
seguro, espera por horas a fio o socorro chegar para retomar
a corrida. Classifica-se em 45° lugar. Se não tivesse
parado para socorrer o piloto acidentado, seguramente chegaria
entre os dez primeiros colocados.
Madame du Gast não teve muitas adversárias.
Vieram outras como, Miss Cordery, que inaugura uma marca britânica:
a Invicta, provando ter percorrido mais de 48.000 quilômetros
em uma média de 100 km/h.
Do
outro lado do mundo em 9 de junho de 1909, aos 22 anos de
idade, a dona de casa Alice Huyler Ramsey e mais três
mulheres (suas irmãs) decidem deixar New York em um
carro de turismo, um Maxwell . Quarenta e um dias dirigindo,
11 pneus, 3.800 milhas (6.000km.) para chegarem a San Francisco,
recebidas com muita festa!
Alice Huyler Ramsey e suas companheiras de viagem (que não
dirigiram durante a viagem) superaram numerosos desafio durante
a viagem, incluindo estradas ruins, más condições
do clima, pneus furados, avarias mecânicas e até índios
pelo caminho. A história desta aventura daria um excelente
roteiro para um longa metragem.
Anna
Keppen, filha de imigrantes alemães, nasceu
em 1850 em Michigan City, Indiana. Aos 12 anos de idade seu
pai
suicida-se e dois anos mais tarde sua mãe morre de
tuberculose. Anne órfã e pobre começa
a trabalhar como empregada em uma casa de família e
na sua adolescência muda-se para Chicago. Muito atraente
começa a trabalhar como modelo e a atuar em pequenas
peças de teatro. Em 1908 mudou-se para West Coast onde
desenvolve um fascínio por carros potentes depois de
trabalhar como modelo em uma exposição de automóveis
na Califórnia. Anna aprendeu a dirigir rápido
e em 1910 começa a competir em corridas. Durante a
recuperação após um grave acidente durante
uma corrida em Phoenix, Arizona, desiste das competições
e com o rápido crescimento da indústria cinematográfica
de Hollywood, volta a atuar com o nome artístico de
Anita King. A experiência com o teatro abre as portas
para pequenos papéis com personagens secundários
em comédias.
Em
1915, Anita King decidiu colocar em prática sua
experiência em dirigir automóveis para fazer
testes em um filme que contaria a história da primeira
mulher a dirigir sozinha por todo o continente norte-americano.
Com o apoio do dono do estúdio, Jesse L. Lasky, o recém
formado Paramount Pictures, ela obteve do Kissel Motor Car
Company um veículo equipado com pneus Firestone. Já conhecida
como ‘The Paramount Girl’, em meio a muita publicidade
em 25 de agosto do mesmo ano ela parte com seu ‘Kissel
Kar’. O jornal ‘The Los Angeles Times’ escreve: ‘Não
haverá ninguém com ela durante a viagem. Seus
companheiros serão: um rifle e seis balas’. Anita
declara a imprensa:’Se homens podem fazer, uma mulher
também pode’. Após muitas paradas ao longo
da viagem para promoções publicitárias
e cobertura dos principais jornais de costa a costa, quarenta
e nove dias mais tarde, em 19 de outubro, Anita King recebe
as boas vindas como heroína na cidade de New York,
um jornal noticiou: ‘Ela chegou com o ar da Califórnia
em seus pneus’.
Este feito transformou Anita King em celebridade, o filme
chamou-se ‘The Race’. Ela atuou em vários
filmes na Paramount e em outros estúdios, atuando em
cenas de risco com automóveis, foi garota propaganda
da Kissel Motor e da Firestone.
Em Galion, Ohio o museu ‘Lincoln Highway’ a homengeia
com o ‘The Lincoln Highway goes Hollywood – Anita
King’, sua história contada com heroísmo
e muito sucesso.
Retornando a Europa, as incansáveis ainda estão
nas pistas e nas estradas. Em 1928 Jeanine Jennky vence à frente
de Louis Chiron as ‘ 4 Ours de Borgogne’ em uma
Bugatti 35, Mademoiselle Hellé-Nice participa, em uma
Bugatti, de 76 grandes prêmios e se torna Campeã do
Mundo de velocidade, a 198 km/h no autódromo de Monthléry.
Elisabeth Junek, também em uma Bugatti, brilha com
bons resultados na ‘Targa Florio’. As mulheres
pilotos não dispensavam um modelo Bugatti por ser um
automóvel confortável, fácil de dirigir
e acima de tudo belíssimo.
As italianas reagiram aos resultados das francesas lembrando
que, a Condessa Elsa Albrizzi, já em 1889 havia fundado
o ‘Club Automobilisti Veneti’.
Falando um pouco de Brasil, as pioneiras são poucas
e estas merecem ser lembradas. Maria José Pereira Barbosa
Lima, já falecida e esposa do imortal Alexandre Barbosa
Lima Sobrinho foi a 1ª mulher a ter habilitação
para dirigir no estado de São Paulo.
Dona Nahyra Schwanke começou aos 12 anos a dirigir
tratores na propriedade da família no Rio Grande do
Sul. Aos 15 anos se casou e aos 17 era mãe com um casamento
desfeito. Para criar a filha decidiu trabalhar no que gostava
de fazer: dirigir. Hoje a septuagenária senhora ainda
dirige caminhões, bem mais modernos, e atua no ramo
dos transportes de carga como empresária.
Depois de ler e reler as histórias que encontrei destas
mulheres pioneiras e me encantar com cada uma delas, me surpreendi
com uma estatística preocupante: a cada dia mais mulheres
no mundo sofrem de AMAXOFOBIA, ou seja, pavor de andar e/ou
conduzir automóveis... Me poupem, mulheres.
Elisa Asinelli do Nascimento é empresária,
antigomobilista e automodelista. Atualmente atua como
membro da Diretoria do 'Mercedes-Benz Club do Brasil'
secção Paraná e membro do 'Clube
de Colleccionadores de Vehículos Antigos - Curityba'.
Sua paixão pelos automóveis antigos
foi transmitida por seu pai, Enzo Monteiro do Nascimento,
um dos pioneiros em colecionar automóveis clássicos
no Brasil.
Fonte de pesquisa e imagens: Wikipédia,
Ruoteclassiche, Revista o Carreteiro.
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