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HUMOR

E
S T A T U T O
Da
definição:
§ 1º. A Associação
das Vítimas de Carros Antigos, doravante chamada
AVICA, é uma associação sem fins
lucrativos (por motivos óbvios) que tem o propósito
de congregar indivíduos com diagnóstico
de Síndrome de Antigomobilite Aguda, doença
que se caracteriza pela sistemática aquisição
intempestiva e mal concretizada de carros antigos,
invariavelmente provocando traumas econômicos
e/ou psicológicos nas vítimas.
Da associação:
§ 2º. Poderão
ser sócios da AVICA quaisquer indivíduos
que tenham transformado a aquisição
de um carro antigo em um drama familiar, particularmente
aqueles que, em função de uma malfadada
aquisição, ou de uma tentativa de restauração
ainda pior, passaram a ter dificuldade de relacionamento
com a sociedade e apresentam intensos sintomas de
depressão pós-compra.
§3º. Serão
considerados sócios honorários da AVICA
todos os indivíduos, brasileiros ou estrangeiros,
que comprovarem perda patrimonial igual ou superior
a 30 salários mínimos na aquisição
de carros antigos, despesa considerada a partir do
momento em que a vítima demonstrou interesse
pelo que deveria ser um “hobby” e transformou-se
em uma tragédia.
§4º. Os associados
que estiverem com síndrome de abstinência,
isto é, que apesar de terem sido afligidos
por intensos sofrimentos ainda insistam em adquirir
outro carro antigo, terão acompanhamento psicológico
dos sócios curados, assim considerados aqueles
que não possuem carro antigo há mais
de cinco anos. O tratamento inicial será realizado
em uma carcaça de Simca Chambord 1966, gentilmente
cedida por um antigomobilista anônimo.
Da organização:
§5º. A diretoria
da AVICA será composta de uma presidência,
um conselho consultivo e três departamentos
de vítimas: a de carros nacionais, a de carros
americanos e a de carros europeus. Nesta última
concentram-se os casos mais graves.
Da sede:
§6º. A AVICA não
possui sede própria, pois, se tivesse, certamente
já teria sido penhorada para pagar dívidas
dos associados. As reuniões são realizadas
em locais aprazíveis, normalmente em áreas
inóspitas, onde não possam ser encontrados
carros antigos para evitar má influência
sobre os sócios traumatizados.
Das atividades:
§7º. A AVICA promoverá
palestras ocasionais alertando seus associados, vítimas
em potencial, sobre o perigo da aquisição
de um carro antigo. Nessas ocasiões, os sócios
recuperados darão o testemunho de seu sofrimento,
narrando as dificuldades financeiras que enfrentaram,
seus dramas pessoais e a forma como recuperaram o
amor próprio ao se desfazerem de seus veículos
antigos, sempre com perdas irreparáveis.
§8º. Mensalmente
a AVICA realizará uma “Sessão
do Desmonte”, na qual os associados queimarão
fotos e destruirão peças de seus carros
antigos. Nessa ocasião eles receberão
a “Arruela da Felicidade” que os ajudará
a livrar-se definitivamente das lembranças
obscuras.
Das obrigações:
§9º. Ao ingressar
na AVICA, os membros se comprometem solenemente a
cumprir o juramento da instituição:
“Prometo não me envolver com qualquer
forma de atividade ligada a carros antigos; a não
comparecer a qualquer reunião, salão,
exposição ou qualquer evento envolvendo
carros antigos; a não visitar ferros-velhos;
a não fazer assinaturas nem adquirir em banca
revistas que tratem do tema carros antigos e, acima
de tudo, para o meu bem estar e de toda a minha família,
a jamais sucumbir à tentação
de adquirir outro carro antigo. Hei de vencer!”.
Do auxílio mútuo:
§10. Os associados, baseados
no conhecimento de uma Lei de Murphy que diz “não
é justo que os idiotas fiquem com o próprio
dinheiro”, prometem dedicar-se inteiramente
à defesa dos interesses dos associados, evitando
que façam compras inopinadas, principalmente
as que ocorram à revelia da família
e da orientação de seus verdadeiros
amigos.
§11. Caso um associado
em um surto alucinógeno adquira um carro antigo,
seus companheiros de infortúnio lhe darão
todo o apoio para que se livre do veículo antes
que os prejuízos se estendam além do
suportável.
Em
complemento a este estatuto, transcrevemos abaixo
algumas cartas de agradecimento de membros que
ingressaram na AVICA quando estavam desesperados.
Os nomes verdadeiros foram omitidos em sinal
de respeito.
"Sr. Presidente.
Eu julgava haver chegado ao fundo do poço.
Em apenas um ano comprei um Citroén DS
1958 e um DKW Sedan 1958, cujas restaurações
quase me levaram à falência. Para
fazer essas aquisições hipotequei
minha casa e, em poucos meses, suspendi o tratamento
dentário de meu filho porque precisava
de um párabrisas. Graças à
AVICA hoje sou um novo homem. Agora possuo apenas
um Corsa 1998 e sou considerado pelos vizinhos
e pela família uma pessoa quase normal.
Muito obrigado!"
Assinado: Chassi empenado (pseudônimo)
"Sr. Presidente.
Somente após conhecer o trabalho da AVICA
percebi que os carros antigos haviam me levado
à ruína. Cheguei a vender a dentadura
da sogra para comprar um espelho retrovisor
e anunciei um de meus rins na Internet porque
desejava adquirir um Karman-Ghia. A AVICA me
acolheu a tempo. Minha mulher já voltou
para casa e estou quase terminando de pagar
minhas dívidas com as oficinas mecânicas.
Sou-lhes eternamente grato."
Assinado: Príncipe dos cromados (pseudônimo).
"Sr. Presidente.
Depois de largar a família para viver
em um ferro-velho me dei conta de que não
poderia mais continuar nesse rumo. Após
algumas aquisições mal sucedidas,
dentre elas um SKODA 1957, irrecuperável,
meu guarda roupa ficou reduzido a um macacão.
Passei a sobreviver com uma cesta básica
doada por amigos, que invariavelmente eu vendia
para comprar peças para os carros. Quando
a AVICA surgiu em minha vida eu já usava
como marmita uma tampa de válvulas de
um Fusca 64. Com o apoio da AVICA, recebi umas
roupas usadas, aposentei meu macacão
e já resido em uma quitinete alugada
por amigos.
Por favor, continuem o bom trabalho. Precisamos
de vocês.
Atenciosamente."
Assinado: Pára-brisas trincado (pseudônimo). |
Rubens
Perligeiro
NOTA
DA REDAÇÃO: Quando publicamos esta curiosidade,
não tinhamos conhecimento de sua autoria. Meses
depois recebemos o seguinte e-mail de seu autor, Rubens
Perlingeiro:
"Senhores,
Meu nome é Rubens Perlingeiro. Sou o autor
do Estatuto da Avica, fruto dos lamentos ouvidos de
donos de carros antigos nos encontros de carros antigos
realizados em Brasília. Para minha surpresa,
no encontro do Fusca Clube realizado hoje, 01/09/2007,
fiquei sabendo por um dos freqüentadores que
meu texto estava na internet, o que me deixou muito
feliz. Ao digitar no buscador Terra o título
"Estatudo da Avica" deparei com o site Maxicar,
no qual tive o prazer de encontrar meu texto ali incluído."
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