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• Humor
A religiosidade
e os antigomobilistas
Enquanto não surge
um santo especificamente dedicado à proteção
dos antigomobilistas, indico alguns que podem ser invocados
pelos aficionados por carros antigos em suas orações.
1.
Santo Expedito. É conhecido como
o “das causas urgentes e impossíveis”.
Só ele pode ajudar no emplacamento daquele Packard
1937, comprado no Uruguai de forma não ortodoxa,
e que entrou no Brasil quando os órgãos
de fiscalização estavam distraídos.
Rezando com fé, o Santo não se sentirá
cúmplice do trambique.
2.
Santa Edwiges. É a padroeira
dos inadimplentes. Qual é o dono de carro antigo
que não tem uma dívida eterna em uma oficina
mecânica? Mesmo que a Santa não pague a
conta toda, uma oração forte consegue
um desconto.
3.
São Judas Tadeu. Esse é
o “das causas desesperadoras”. Ninguém
melhor para consertar a suspensão a ar daquele
Citroen DS 19 que está parado há vinte
anos aguardando um milagre. Só ele pode localizar
um mecânico francês aposentado que trabalhou
na fábrica e agora vive em Búzios.
4.
São Longuinho. Tem fama de encontrar
tudo que foi perdido. Não sei se traz de volta
a mulher amada, como prometem os pais-de-santo, mas
pode encontrar peças extraviadas naquela oficina
que faliu e foi abandonada dez anos depois de iniciar
a desmontagem de seu carro.
5.
Santo Antonio. Famoso por promover casamentos.
Ele certamente interfere na “união estável”
que ocorre quando um incauto se apaixona por um carro
antigo. O problema é que o Santo só faz
o matrimônio; nunca o divórcio.
6.
São Jorge. O Santo guerreiro.
Que outras qualidades precisa ter um antigomobilista
além da coragem de um centurião e a audácia
de um legionário? Será que restaurar um
DKW 62 é pior que matar um dragão?
7.
São Cosme e São Damião.
A dupla protetora das crianças. Somente a inocência
infantil faz o sujeito comprar um carro antigo achando
que fez um bom negócio. E não adianta
distribuir doces e balinhas para agradar os Santos porque
a carcaça do Simca Chambord 61 continuará
parada em sua garagem e pesando em sua conta bancária.
8.
São Cristovão. O padroeiro
dos motoristas. Ele será seu grande protetor
quando você enfrentar o trânsito conduzindo
um Cadillac 1956 com freios de eficiência duvidosa,
suspensão inexistente, pneus pouco confiáveis
e um câmbio que um dia mereceu o título
de automático.
9.
São João Bosco. O protetor
dos mágicos. Só mesmo sendo um habilidoso
ilusionista para fazer surgir peças que parecem
só existir no além. Só um santo
especialista pode elaborar um truque que faça
desaparecer os problemas mecânicos daquele Jaguar
que já virou paciente terminal.
10.
São Gelásio. O padroeiro
dos palhaços. Só ele pode encontrar um
comprador para aquele Fusca 67 cujo dono pensa valer
18 mil reais. Só ele pode permitir que o dono
daquele Opala 71 continue contando a história
de ter recusado um Honda Civic zero quilômetro
em troca de seu carro.
Se nada der certo com
a ajuda desses santos, sugiro que o antigomobilista
se converta ao Hinduísmo ou ao Budismo. Pelo
menos haverá o consolo de saber que a compra
do Mercury 57, de impossível restauração,
não foi uma imprudência: é um carma.
Como dizem os árabes, “Maktub”. Estava
escrito.
Rubens Perlingeiro
02 de junho de 2011
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