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A
última viagem
Albert
Cagnani
Não
sei bem porquê, mas os carros tornam-se para alguns
de nós, homens na maioria, uma importante lembrança
de vida.
Talvez porque a gente se lembre da figura paterna, que
sempre nos levava naquela máquina incrível
para lugares distantes e freqüentes passeios divertidos.
Aquela máquina incrível nos permitia passear
na chuva sem que nos molhássemos, no inverno nos
abrigava do sereno e do vento gelado , no verão nos
oferecia sua sombra em pleno sol do meio dia, e com a janela
toda aberta sentir o vento morno no rosto e nos cabelos,
brincar de aviãozinho com a mão pra fora,
visitar lugares distantes em férias pra passar os
melhores momentos da infância junto com a família.
No meu caso, a primeira lembrança que tenho da infância,
e logo nos primeiros aninhos, foi a bordo de um.
Não se apaga de minha memória aquele vermelho
cereja, aqueles cromados brilhantes, o vruumm do motor,
a porta se abrindo, e a felicidade de que ia passear com
Mamãe e Papai.
Ia no colo, uma cadeirinha destas de hoje em dia ia parecer
coisa de filme de ficção científica.
Lembro-me de grandes luzes vermelhas acendendo assim que
Papai se posicionava no volante e vrrummm, ia começar
a diversão. O destino era o parquinho, o jardim ou
pra casa dos avós. Mas a primeira lembrança
de minha infância foi em um dia de viagem.
A imagem que primeiro vem em minha mente era o céu
azul e as nuvens acima, a copa das árvores desfilando,
os pássaros por todo o caminho, e as lamparinas dos
postes, aquelas que ficavam penduradas por um cabo no meio
da rua. Ficava deitado em um sofá enorme, entre Papai
e Mamãe, balançando suavemente com as curvas
do carro e assim dormia, naquele solzinho da manhã.
Minha primeira memória de infância é
esse passeio mágico entre meus pais a bordo de um
Galaxie.
E daí se seguem todas as lembranças de minha
infância, sempre a bordo de um Galaxie.
Fui crescendo e já viajava sentado, ou melhor, em
pé. Pulando e virando pra todo lado até ficar
cansado e me sentar, pra depois voltar a dormir entre Papai
e Mamãe naquele berço mágico que me
levou pra conhecer o mar, visitar o Cristo Redentor, andar
de cavalo, ouvir o barulho dos sapos no lago a noitinha
e tantos outros lugares.
Os anos se passaram e, em cada um deles essa nave maravilhosa
trocava de cor! Mudava um pouco por fora mas o conforto
por dentro era sempre o mesmo, e tinha novamente aquele
cheirinho inconfundível de carro novo.
Agora quando íamos para a praia o banco de trás
ia cheio. Ficava na frente com Papai e Mamãe, atrás
ia meu irmão e meus avós. Naquela tampa enorme
que se abria na traseira do carro, além das malas,
cabiam também duas pranchas de isopor, pra garantir
a diversão radical. Descíamos a serra de manhã
bem cedinho, mais tarde víamos a estátua do
Fernandão, as margens da Fernão Dias, geralmente
parávamos pra tomar um guaraná caçulinha
e um bolinho de queijo e lá íamos nós
novamente. Mais um pouco e Papai já nos fazia procurar
pelas barraquinhas de pé de moleque na estrada pra
Piranguinho. Papai gostava da vermelha, dizia que era a
melhor! E assim seguia aquela aventura enquanto passava
a manhã.
No caminho primeiro brincávamos de contar vacas:
"meu, meu, meu, meu!" Depois cada um escolhia
uma cor e contávamos os carros daquela cor num placar
pra ver quem ganhava, e olha que não havia tantos
carros pela estrada. Almoçávamos pelo caminho
— engraçado, mas lembro melhor do pé
de moleque que do almoço — e seguíamos
descendo sempre. Dos 1400 metros de altitude até
o mar. Quando passávamos por aquela serra em que
dava pra sentir o cheiro de maresia a aventura melhorava.
De repente um barulho de lata e Papai encostava o carro
rapidinho, e lá ia eu correr atrás da calota!
Desci várias vezes os barrancos da serra atrás
daquela calota enorme! E ainda dava uma desamassada
pro Papai não ficar muito bravo.
As vezes ela seguia viagem dentro do carro mesmo, pra não
soltar novamente. Mas a minha torcida era pra que outra
se soltasse pra aventura recomeçar! E tinham
moradores da serra que exibiam orgulhosos uma cerquinha
de madeira cheinha de calotas. Tinham vários modelos
lá pendurados, brilhando enquanto seguíamos
viagem. Eu não deixaria as calotas do nosso Galaxie
ter esse destino! Quase sempre ainda dávamos uma
parada e Papai comprava uns cachos de banana de chupar,
a banana ouro, que só tinha praquelas bandas, não
duravam nunca até a praia, e olha que já estávamos
chegando!
Muitas emoções eu passei naqueles carros!
Papai gostava de dirigir e às vezes bem depressa.
Lembro-me de uma vez em que entrou meio depressa na curva
e arrancou quase todos os olhos de gato da estrada! Naquela
época eles eram espetados em pé, ao lado de
curvas mais fortes. Teve que agüentar o bico de Mamãe
por alguns dias, mas eu tinha achado o maior barato!
Uma vez quando errou o caminho, fomos parar na Baixada
Fluminense, e devagar, procurando a direção
certa passamos em frente a um bar de sinuca e algum infeliz
lá de dentro caiu na besteira de gritar... "Aêêê
Tubarããooo..."
Papai deu ré, desceu do carro, e lembro como se
fosse hoje dele empunhando um taco de sinuca sozinho na
frente daquele bando tentando descobrir quem era o engraçadinho!
Mamãe me fez buscá-lo antes que a confusão
piorasse. Ninguém no bar deu mais um pio, até
irmos embora.
Acho que se xingassem Papai ele não ligava tanto,
mas foi só chamarem nosso Galaxie de Tubarão
e ele se mobilizou em defendê-lo, segundo minha interpretação
na época.
Não era um automóvel. Era um membro da família.
Na subida da serra pra Petrópolis às vezes
dava confusão. Já mais velhos, eu, meu irmão
e quem mais estivesse no banco de trás, íamos
apertando quem ficava do lado de fora da curva, e a farra
começava. Várias vezes a risadaiada só
acabava quando Papai, depois de ter pedido umas dez vezes,
virava uns tapões em direção ao banco
de trás, e o resto da subida a gente ficava segurando
o riso, vermelho que nem pimentão.
Até em minhas primeiras “pilotagens”,
a vitima foi o Galaxie. Naquela época não
era muito estranho ver os pais dirigindo com o filho pequeno
no coloco todo sorridente com as mãozinhas no volante.
O pior é que uma vez, de tão empolgado que
ficava, resolvi fazer a curva diferente e quase mandei o
Galaxie pra varanda do Casino da Urca, em Poços de
Caldas. Inesquecível!
Meus tios tinham Galaxie também, um 500 branco de
um, e com o outro um que foi nosso. Isso demonstrava novamente
pra mim como eram formadas as famílias. Quando tinha
aniversário em casa vários Galaxies ficavam
estacionados na rua.
Quando Papai estava trabalhando, o Galaxie ficava num estacionamento
coberto, na sombra, e aos cuidados do Virgilio que garantia
que nunca, mas nunca mesmo, estivesse com uma sujeirinha.
Apesar de todo o luxo com o Galaxie, quando chovia forte
no verão e as poças d´água eram
enormes na Avenida João Pinheiro, papai saia com
a gente a noitinha só pra passar a toda velocidade
naquelas quase lagoas e a água voar pra todo lado.
Mais divertido ainda era quando ele não via que tinha
gente por perto — coisa rara naquela época
gente a noite depois da chuva — e alguém era
banhado sem querer. Aí eu e meu irmão nos
esborrachávamos de rir com gosto de coisa mal feita.
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| Como não poderia
deixar de ser, hoje Albert divide alegrias de viagem
com "Dautão", seu Landau 1982 |
Já adolescente, era o Galaxie que nos levava pra
discoteca, ainda matinê nas tardes de domingo. Nessa
época quando íamos pra São Paulo, ia
estudando ou lendo um gibi com a ajuda das luzes de leitura
e o braço apoiado naquela almofadinha que descia
no banco de trás, e, como já fazia parte dos
negócios da família, nele fui nas primeiras
feiras de moda e de calçados, e comecei a aprender
como tudo funcionava.
Tivemos a bordo até educação musical.
Antonio Carlos e Jocafi, Maria Creusa, Elis Regina, Toquinho
e Vinicius, Elvis Presley, Frank Sinatra e o inesquecível
Nelson Gonçalves que cantávamos junto com
Papai enquanto ele o imitava.
Sempre chegávamos com distinção aos
hotéis. Acho que o Galaxie nos deixava mais elegantes,
e o capitão do hotel sempre vinha nos receber.
Uns podem me achar excêntrico, outros tem admiração.
Os amigos de Papai logo vem contar suas lembrança
quando o avistam. Mas hoje já com os cabelos brancos
batalhando espaço com os mais escuros, tenho orgulho
de ter um Landau pousado em minha garagem, pra que eu possa,
de vez em quando, reviver todos estes momentos da vida que
me ajudaram a ser quem eu sou hoje, e a matar um pouco a
saudade de meu Pai quando estou a bordo dele.
Lustrar aqueles cromados, ouvir o vruuum mm do motor, vê-lo
impecavelmente limpo, pedir meia a meia de “gasolina
azul” (agora chamada de aditivada) no posto de gasolina,
chegar com distinção impar onde for. Ser criança
de novo!
Mas a loucura não acaba aqui! Estou conseguindo
os números dos chassis daqueles carros maravilhosos
que fizeram parte da família, e, se Deus quiser ainda
vou trazer, nem que seja um, de volta, pra apresentar pros
meus dois filhos, como se fosse um tio que andou viajando
por muito tempo, mas que a partir desse dia vai morar conosco.
E que Deus permita que em minha última viagem —
e demore bastante até lá — eu vá,
olhando pro céu azul e pra copa das árvores
passando lentamente, enquanto estou deitado entre Papai
e Mamãe, novamente, no banco da frente do Galaxie.
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*Albert
Cagnani - Administrador de Empresas, membro
do Amigos do Galaxie, aspirante
a membro do Galaxie Clube do Brasil e proprietário
de um Landau Cinza Granito 1982. |
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