|
Procura-se
Gordini “GS” desesperadamente!
*Gilson
Silveira Junior

Nem "Machão", nem "Leite Gloria"!
No caso deste Renaut Gordini IV 68 que fez parte da minha
família por quase duas décadas, o apelido
que melhor representou o carrinho foi "GS". Pra
falar a verdade teria que escrever um livro pra contar a
história deste carro, tantas foram as suas "aventuras",
mas tentarei ser breve.
Se bem me recordo o ano era 1972, morávamos em
Petrópolis-RJ e o carro da família era também
um Gordini só que 67, "café com leite".
Meu pai, sempre muito caprichoso, cuidava muito bem dele,
que nunca negava fogo. Sempre na estrada, o destino mais
visitado naquela época era Caratinga- MG onde moravam
meus avós paternos e meus tios. Eram quase 500 km
de Rio–Bahia a bordo do Gordini, que não intimidava
ninguém, era pura diversão.
Numa
dessas visitas, minha avó maravilhada com o "machão",
pediu para meu pai procurar um pra ela, pois estava decidida
aprender a dirigir e tinha que ser em um carro próprio
para evitar maiores problemas, e assim que retornamos a
Petrópolis meu pai começou a procura. Não
demorou muito e bem próximo de onde morávamos,
o "velho" descobriu um 68 última serie
(IV), verde majorca, impecável, e fechou negócio.
feita uma revisão básica para encarar a estrada,
o próximo passo seria leva-lo para Caratinga onde
minha avó o aguardava com ansiedade. E assim foi
feito.
Passados uns 4 meses, minha avó ligou para o meu
pai e implorou para que ele fosse buscar o carro pois estava
causando a maior dor de cabeça. Explica-se: meus
4 tios, que eram solteiros e moravam com ela, estavam disputando
o carro no tapa. Me desculpem a comparação,
mas o carro parecia uma prostituta, um largava e o outro
já pegava. Muitas vezes nem desligavam o motor!.
Sem contar os ralados e esbarrões que estavam tomando
conta do pobre Gordini. E lá foi meu pai parar em
Caratinga novamente...Trouxe o carrinho que ficou parado
na garagem por uma longa temporada, pois precisava vender
o 67 para pagar a minha avó e ainda arrumar o carro.
Tempos difíceis aqueles! Conseguiu finalmente vender
o 67 para um colega. Começou então o trabalho
para recuperar o 68.
Meu pai, que gostava de personalizar os seus carros, não
foi diferente com este. Tirou todos os frisos (do vão
de roda e laterais), colocou roda de Corcel, com off-set
negativo, volante esportivo e pintou faixas laterais nas
barras das portas e para lamas (tipo as do Opala SS) com
as iniciais "GS" que tanto poderia representar
"GORDINI SUPER" ou "GILSON SILVEIRA"
(nome do meu velho). O carrinho ficou "invocado",
chamando bastante atenção.
O tempo foi passando e com a necessidade de um segundo
carro devido a minha mãe ter começado a dirigir,
o "GS" ganhou a companhia de um Fusca 70, azul,
em nossa garagem, mas que logo em seguida foi substituído
por um Chevette "tubarão" semi novo ano
75, (meu pai nunca simpatizou com VW) e desde então
o Gordini "destronado", assumiu o posto de segundo
carro da família, sendo conduzido, na maioria das
vezes, pela minha mãe e para uso exclusivamente urbano.
Me lembro que a única vez que nos aventuramos a fazer
uma viagem sem meu pai foi nas minhas férias escolares
em que fomos para Nova Friburgo e acabamos sofrendo um acidente
em um trevo de acesso à cidade devido a pouca visibilidade
causada por uma forte chuva de verão. Uma Ford F75
pegou a ponta do paralama esquerdo e quase arrancou a frente
do carro. Felizmente somente houve danos materiais, além
do susto e a lembrança viva na memória.
O
carro voltou para a garagem e ficou mais uma temporada fora
de combate, já que o único que podia colocar
a mão nele era meu pai, perfeccionista e habilidoso
ao extremo, não se contentava com serviço
de funileiro nenhum, mas só podia dedicar seu tempo
para conserta-lo nos fins de semana. Lanternagem, pintura
e pequenos serviços mecânicos sempre eram feitos
em casa mesmo, na garagem, e sempre tendo eu como ajudante,
despertando assim a minha paixão por automóveis.
Quando aprendi a dirigir, o Gordini virou definitivamente
meu companheiro. Nesta época eu tinha uma moto Yamaha
RX 125, para desespero da minha mãe, e meu pai achou
por bem me propor uma troca pela moto. No início
tudo foi novidade. Adorava sair com ele pois todos sabiam
quem era eu só de ver o carro, pois já estava
ficando raro e ainda pintado daquele jeito era único,
exclusivo! Minha namorada na época, hoje minha esposa,
que não gostava muito, cansou de empurra-lo...rsrsrsrs.
Onde chegava fazia amigos, ouvia elogios e histórias.
Mas "judiava" muito do coitado. Andava sempre
no "limite". Me sentia o próprio "piloto"
nos áureos tempos das corridas pelas ruas de Petrópolis.
Não era difícil alguém me parar para
perguntar que motor se escondia debaixo do capô, pois
não poderia ser original, tamanha a disposição
do carrinho. Quando abria e davam de cara com o velho Renault
de 850 CC e aquele carburadorzinho que parecia de brinquedo,
ficavam boquiabertos . Pegas, cavalos de pau, além
de um esbarrão aqui outro ali estavam fazendo mau
para o "MAU MAU" (apelido dado pelos meus colegas
à viatura), sem contar que meu pai já não
aguentava mais conserta-lo. Teve uma vez que bateu sozinho:
desceu a ladeira da rua em que morávamos quase uns
100 metros e se esborrachou no muro da casa do vizinho...rsrsrsrsrsrsrs.
Mas o pior ainda estava por vir. Numa madrugada encontrei
pelo caminho um cidadão completamente alcoolizado
digirindo um Chevette e ainda na contra mão. Batemos
de frente e mais uma vez o estrago foi grande, mas sem prejuízos
físicos. Foi a gota d'água! Meu pai falou
que não iria mais por a mão e então
o levamos para uma oficina de lanternagem que o dono garantiu
que faria o serviço com perfeição.
Já nessa época a dificuldade de peças
era grande e acabamos tendo que comprar uma carroceria completa
que estava sucateada na casa de um conhecido para poder
recupera-lo. Depois de uns 3 meses de muita luta, conseguimos
tirar o carro da oficina e o lavamos para casa. Chegando
lá meu pai olhou, olhou e sentenciou: — Esta
uma MERDA! Vamos desmontar tudo e refazer.
Realmente havia ficado horrível. As peças
não casavam direito, o carro estava encolhido no
lado do motorista. Mais 4 meses de "estaleiro"
para voltar a ativa e a promessa do "velho" que
teria sido a última vez .
Diante desta posição agravada pela dificuldade
de manutenção decidimos vende-lo. Compramos
um Chevette 78 pra mim e o Gordini saiu diretamente da garagem
para uma exposição de carros antigos num shopping
de Petrópolis para venda. Apesar de mais de uma dúzia
de pancadas "nas costas" o carro estava surpreendentemente
alinhado e reluzente, ninguém falaria que em seu
passado havia sofrido tanto.
Ficou
lá por 2 meses até que um dia atendi um telefonema
de um rapaz perguntando que se o preço do carro ainda
fosse US$ 3000,00 que estava disposto a compra-lo. Uma mistura
de alegria e tristeza se abateu sobre mim. Combinei de entregar
o carro dentro de 1 hora em nossa casa. Retiramos o Gordini
da exposição e saímos para uma voltinha
de despedida e tirar umas fotos. E não é que
o danado enguiçou? Quebrou a engrenagem de distribuição,
como se não quisesse ir embora! Chegou em casa rebocado
sob o olhar admirado do futuro dono que já estava
esperando impaciente. Por sorte tínhamos uma reserva
e trocamos rapidamente. Por mais US$ 200,00 negociamos um
sem numero de peças extras, que pra nós não
teria mais serventia, "entulhamos" dentro do "GS"
e o rapaz foi embora.
Isso foi em 1990. A última lembrança que
tenho dele foi descendo a rua, virando a curva onde havia
se esborrachado no muro e desaparecendo rumo a cidade do
Rio de Janeiro.
Hoje com meu extinto de preservação elevado,
jamais pensaria em vende-lo. Já tentei localiza-lo
para tentar compra-lo de volta, mas nem sinal do danado!
Meu pai garante que já foi para o ferro velho e o
pior que ainda consta no nome dele até hoje!
Me apaixonei por veículos antigos e há 3
anos e comecei uma pequena coleção. Tenho
um Comodoro 79, um Corcel 72, uma Honda CB 500 FOUR 74 e
procuro desesperadamente o GS, um Gordini 68 serie IV, verde
majorca, freio a disco na dianteira, placa BC–1751.
Alguém ai sabe do seu paradeiro?
|
*Gilson
Silveira Junior é comerciante, apaixonado por
automóveis antigos
e atualmente vive em Barra Mansa-RJ. |
Nota da redação:
pistas e informações a respeito do Gordini
podem ser fornecidas a Gilson Silveira Junior através
do e-mail: gilson_silveirajr@hotmail.com
<VOLTAR |