| Galaxie
Story
*Dino
Dragone
Outro dia voltando de um encontro de carros antigos em campinas,
passei rapidamente com meu Ford LTD, 1970, o 70ão,
por um rua com um Landau parado debaixo de uma árvore.
Na hora quis parar, mas como estava com mulher e filha
pequena, achei melhor ir para casa, cumprir minhas obrigações
com a família e ir ver aquele "Galaxão"
depois. No final da tarde, quase à noitinha, voltei
novamente imbuído do mais jornalistíco dos
espíritos (gonzo, claro) para colher mais dados sobre
o intrigante LTD 75 (sic) amarelo estacionado perto da minha
casa.
O carro estava próximo à Praça John
Lennon, no Alto da Lapa. Bairro bonito, elegante, cheio
de casarões, muito verde, cortado por alamedas projetadas
com muito bom gosto pelos ingleses da Cia City, a mesma
que projetou o Jardim Europa e o Alto de Pinheiros, redutos
de gente endinheirada, que podiam na época comprar
seus reluzentes e luxuosos bólidos para desfilar
pelo Morumbi, subir e descer a Rua Augusta, salgar seus
corpos delgados no Guarujá e, quem sabe, dar uma(s)
esticadinha(s) no Gallery só para relaxar.
Tudo isso ficou no passado, por que ali na lapa, na Rua
dos Aliados, em frente àquela casa decadente, coberto
de folhas, sementes, poeira, e hipotéses, jaz o um
dia glorioso Ford LTD Landau 1975 (sic). Seu estado é
patético, pálido, sem o vinil do teto, com
a pintura desgastada, cheio de massa, enferrujado e desgraçado,
mas ainda mantendo no corpo cansado e maltratado seu charme
imponente. No caminho fui pensando obviedades -"quem
seria o dono? Será que tem um guardinha prá
apontar quem é o digníssimo que estava deixando
apodrecer sem dó nem piedade uma besta mecânica
de 8 cilindros em V, cheio de força e poder, numa
rua de um bairro bacana?". Mas uma pergunta não
queria calar: porque estava alí? Uma dúvida
simples, que suscinta vários questionamentos: -"será
que o dono morreu e agora a bucha está na justiça
com filhos, parentes e agregados brigando, se degladiando,
com ódios e rancores horríveis a posse dos
bens de um morto?" O LTD, com certeza, eles não
querem. -"que apodreça junto com o velho!"
É o que provavelmente e secretamente pensavam.
-"Caramba, se o carro estiver nessa pendenga,
quem quer que seja o tutor não poderá vende-lo,
aí lascou, não tem negócio! Poxa, peraí,
ainda não aconteceu nada, nem cheguei lá,
não falei com ninguém”. A paranóia
sentou na minha cabeça. Essa coisa toda está
mexendo comigo, lembrei da Mariana, um paternalismo piegas
me leva a imaginar: -"Será que está
abandonado? Como podem deixar orfão esse filho mais
ilustre da nossa indústria automobilística?"
Cheguei! Basta de conjecturas sem sentido, vamos aos fatos.
Estacionei o SS do outro lado da rua, apaguei o cigarro,
e desci do carro olhando para aquela moribunda figura decrépta.
Rodiei-o e quando já tinha dado uma volta completa
pensei: -"Será que o motor ainda está
aqui?" Olhei para os lados já colocando
as mãos por debaixo do capô, procurando a trava
e o puxando para cima. Precisei imprimir certa força
para abrir aquele velho cofre e ver que apesar de estar
aparentemente em estado terminal, o coração
daquele velho leão ainda poderia voltar a bater forte.
Tá tudo lá, não falta nada e por incrível
que pareça está em bom estado. A pintura me
surpreendeu, ainda bem viva e clara, o panelão do
filtro de ar deu vontade de levar naquela mesma hora. Segurei
meus impetos criminosos e comecei a fotografar insanamente
todos os angulos e curvas. Sentia que estava em transe hipnótico,
que só acomete aqueles que amam as linhas esguias
e longelinias deste representante máximo do automóvel
brasileiro. Depois de alguns minutos voltei a mim com um
memory stick repleto de belas e sórdidas
imagens, fazendo imergir ambíguas sensações.
Agora era hora de saber onde mora a alma pecadora que atormentava
meus mais nobres sentimentos galaxeiros. Ainda meio zonzo,
ouvi um bater de portão e fui ao encontro de alguma
informação daquele vulto que se afastava para
dentro da casa. Toquei a campainha ancioso, torcendo para
que o meu interlocutor arrefecesse minha selvagem curiosidade.
Um angustiante minuto se passou até que uma voz feminina,
que parecia ser da serviçal da casa pergunta quem
batia. -"A senhora sabe de quem é esse carro
enorme parado aqui na frente?" Não podia
arguir sobre um Galaxie, poderia me complicar. -"que
raio de galóxa é essa, oxi???".
E nessa hora eu não podia cometer gafes, pois nos
dias violentos que vivemos, qualquer um que bata na sua
porta sem ter nenhuma relação com você
perguntando sobre esse monte de ferro velho é rapidamente
dispensado. Quem quer correr perigo por causa de uma tranqueira?
A voz metálica diz não saber. Insisto. -"Não
é possível. Ele parece parado aqui há
anos. Eu quero comprá-lo. Ninguém da casa
pode me ajudar?" O tom de voz metálico
diminui e sussura: -"o dono mora aqui ao lado,
nesta casa para vender. Eu fiquei sabendo por causa das
empregadas aqui da rua. Eles estão passando por problemas
financeiros. Bate lá e pergunta, mas por favor não
comente nada que eu falei, não quero problemas. A
corda sempre arrebenta para o lado mais fraco”.
Agradeci esperançoso e profetizei: -"Beleza,
os caras estão precisando de grana, vão entregar
o LTD na hora por qualquer porcaria de dinheiro".
Com uma empafia maldita toquei a campainha do decadente
sobrado, já me achando dono da parada, encostando
a plataforma e levando o morimbundo para a ressuscitação.
Um "quem éééééééeé?"
mal humorado irrompe, travando meus pensamentos lúdicos
e atabalhoado emendo: -"Esse Galaxie parado aqui
é de vocês?" De repente uma senhora
com seus mais de 50 anos aparece nervosinha pela fresta
do portão: -"É do meu pai e não
vai vender!" -"Mas eu quero restaurá-lo.
Vou deixar novinho!" Não adiantou. A minha
frase não amoleceu aquele coração endurecido
que voltou rapidamente a seus afazeres. Vai ver que não
fui o primeiro a tocar e interromper o cotidiano daqueles
coitados com frivolidades malucas.
Fiquei ainda algum tempo velando aquele Ford LTD Landau
1975 (sic) que estava ali deixado para morrer. Depois de
um tempo matutando, levantei meu olhar e concluí:
-"Eu também nunca venderia um filho meu".
Entrei no Opala, acendi um cigarro, engatei primeira e desejei
uma morte digna para aquele grande brasileiro. Descanse
em paz, meu amigo.
*Dino
Dragone, 40 anos, diretor de produtora, piloto
de helicóptero, diretor técnico do Galaxie
Clube do Brasil e testemunha ocular da história
do Rock'n'Roll no Brasil nos últimos 30 anos,
tendo realizado quase 100 video clips para a maioria
das bandas do cenário pop e alternativo brasileiro.
(Charlie Brown Jr, Tihuana, Los Hermanos, Capital
Inicial, entre outros) |
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