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A
água mais gostosa que já tomei até
hoje
*Marcelo
Senteio
Cheguei cansado, trabalhei muito a cada minuto deste último
dia da semana, nem jantei, fui até a minha mulher,
que lavava algumas loucas na pia, dei um beijo nela e me
deitei, quase não consegui tirar a roupa. Apaguei
naquele mesmo instante.
Um tempo depois acordei, me senti como se tivesse dormido
apenas alguns minutos, olhei pro lado e não vi minha
esposa, estava descansado e recarregado, parece-me que eu
havia dormido umas doze horas direto, como uma pedra, olhei
no relógio e eram 9 horas e 13 minutos da manhã
de um sábado lindo e ensolarado.O estranho foi que
o ponteiro dos minutos estava parado, pensei: — conserto
depois.
O dia estava convidativo pra dar uma volta no meu Imperador,
naquele sábado eu já havia me programado para
trocar o óleo do motor, ele precisava de sangue novo.
Lavei o rosto, olhei-me no espelho e percebi que o reflexo
estava estranho, ao olhar nos meus próprios olhos,
senti uma lentidão na troca de foco do olhar, me
pareceram lentos demais, parecido quando colocamos um filme
em “slow motion”; não levei isso muito
a sério e pensei: — não devo ter acordado
bem, dormi muito.
Fui até a garagem e liguei o V8, deixando-o funcionar
um pouco, aquecendo aquele coração de búfalo
por alguns instantes.
Abri o portão e não vi ninguém na
rua, nenhum carro passando, nenhuma criança brincando,
nenhum vizinho, nem cachorro passava naquele instante, achei
meio estranho, mas até então não me
dei conta do que estava acontecendo, do que ainda iria sentir.
Entrei novamente, peguei os documentos, conferi o dinheiro
na carteira, dei um grito avisando à mulher que estava
saindo, imaginando que ela poderia estar no quintal, e mesmo
sem ouvir uma resposta, tranquei a porta da sala e fui a
caminho do carro que já estava preparado para o “passeio”.
Tirei-o pra fora, sai do carro e olhei aquele céu
limpo, azul, sem nenhuma nuvem e também não
tinha vento naquele momento e percebi que não ouvia
sons de pássaros, e nenhum deles voando, agucei os
ouvidos tentando ouvir alguma coisa, um latido, uma voz,
uma freada, mas nada, um silêncio que começou
a me incomodar muito. Coisa estranha, pois moro numa metrópole
totalmente barulhenta, mesmo na madrugada...
Fechei os portões, bati a porta do imperador, peguei
o cachimbo, soquei fumo de chocolate nele e apalpando os
bolsos peguei a caixa de fósforos, coloquei o cachimbo
na boca e ao acender o fósforo, percebi na sua chama
que realmente algo diferente estava acontecendo, aquele
fogo que se formou no palito era também muito lento,
com uma cor estranha, esverdeada. Por um milésimo
de segundo tive o desejo de colocar o dedo naquela chama,
pra ver se queimava, se sentia algo, mas neste mesmo instante
pensei ser pura bobagem e posicionei o fogo em direção
ao cachimbo que, após duas ou três tragadas
ele acendeu e perfumou o carro com aquele aroma achocolatado.
Saindo para a loucura
Pisei na embreagem e engatei, olhando no retrovisor sai
calmamente, e continuei sem pensar em nada, apenas em qual
casa de óleo eu iria.
Saindo da rua onde moro e entrando na avenida principal
onde é impossível nalgum momento de qualquer
dia não ter movimento, eu fique boquiaberto me deparando
com um lugar completamente inerte, sem vida, estava apenas
eu e o imperador em movimento, nada se movia, nada se mexia,
eu não via ninguém, nenhum ser vivo.
Apertava os olhos, enquanto dirigia, olhando no fundo das
lojas, das farmácias, dos mercados, que estavam todos
abertos, mas sem nenhuma alma viva.
Dei uma risada, meio que com aquele frio na barriga, e logo
deduzi que estava tendo um pesadelo, dei-me aquele clássico
beliscão na coxa e a dor foi terrível, pensei:
— não, não estou sonhando, meu Deus,
o que está acontecendo?
Continuei no meu trajeto, mas estava embriagado por aquela
situação inexplicável, comecei a sentir
um nó na garganta, uma sensação de
solidão terrivelmente avassaladora dentro do peito.
Senti que até o Imperador estava olhando pra todos
os lados, percebendo também aquela coisa esquisita
e tentando entender, assim como eu.
Cheguei na casa de óleo, aberta, mas sem ninguém,
chamei, gritei, bati palmas, nada. Pensei: — quer
saber? Eu mesmo faço!
Troquei o filtro, o óleo; eu sozinho escolhendo qual
filtro colocar. Já que eu estava naquela situação
totalmente anormal, se eu me desesperasse e passasse mal,
quem iria me socorrer?
Olhei pra fora da loja, na avenida Anhaia Melo, vazia,
nada passava ali, nem o vento.
Eu não tinha pra quem pagar, olhei pra garrafa de
café, peguei um copo e coloque um pouco, o café
estava bem quente. Tentei não procurar resposta também
pra este fato, ninguém por ali e o café quente.
Matei num gole só que desceu queimando a língua
e tudo pelo caminho até as paredes do estômago
que também se queimaram, falei um palavrão
ou dois e sai.
Fim do mundo?
Na volta fui olhando tudo, não consegui achar uma
solução para aquilo.
Pensei no fim do mundo, no arrebatamento, em extraterrestres,
busquei em tudo que meus conhecimentos podiam me levar,
mas nada respondia a essa situação que eu
me encontrava.
Acelerei o Imperador alcançando uma velocidade que
nunca antes havia feito com ele, afinal não tinha
ninguém mesmo nas ruas, nem guardas pra me multar,
nem carros, nem pedestres, nem nada, então vou acelerar!
Queria mesmo chegar logo em casa e falar pra minha mulher
o que estava acontecendo fora da nossa casa, iria pegá-la
pra mostrar a doideira que se passava!
Cheguei, desci correndo, nem desliguei o carro, nem fechei
a porta, abri o portão e entrei correndo em busca
da minha esposa, e aí a situação ficou
feia quando eu também não a encontrei, olhei
tudo e no desespero até dentro do guarda-roupa, embaixo
da cama, nada... Mais um “nada” pra completar
aquela situação que agora tornou-se avassaladora,
trazendo o medo e uma total incompreensão daquele
mundo onde acordei hoje cedo.
Sentei no chão da sala, coloque as mãos na
cabeça olhando para o teto, tentei mais um beliscão
e este doeu ainda mais do que o primeiro. Pois apertei com
tanta força pra tentar uma resposta que a dor foi
ao extremo.
Meus cachorros desapareceram, os aquários estavam
vazios... Tudo sumiu menos eu, que filme seria este? Eu
estava sentindo as dores dos apertões na perna, via,
sentia, ouvia, mas estava sozinho, como isto aconteceu comigo?
Aproveitando a situação
Respirei fundo, sai, desliguei o Landau e fiquei ali, olhando
pro céu e nada vinha na minha cabeça, eu procurava
alguma solução para aquela experiência
totalmente solitária.
Voltei pro carro e resolvi ir à casa de um amigo,
também possuidor de antigos. Chegando, desci do carro
e como fiz há poucos minutos, nem fechei a porta,
fui logo gritando seu nome, meio que no desespero e na esperança
dele responder, “Espera, já vou!!!”
Nada, nenhum som, olhei ao redor e a vizinhança
dele estava como a minha, totalmente em silêncio,
olhei as arvores, tentando ver um movimento nas folhas,
nada, tive a impressão de estar passeando dentro
de uma fotografia, um quadro...
Olhei aquele Camaro marrom na garagem, sempre quis dar
uma volta naquela máquina, forcei o portão
e ele abriu, lembrei-me do cachorro dele o Thor, um rottweiler
nervoso, esperei um pouco, assobiei, bati com os pés
no chão, nada de cachorro, entrei, olhei pela janela
do carro, chave no contato, voltei pro imperador, manobrei-o
e desliguei, tranquei a porta. Abri o portão da casa
e entrei no Camaro, liguei e sai. Que carro legal! Lembrei
de quando tive um na adolescência, claro que não
estava como aquele, zerado!
Pilotando pelas ruas do bairro e aquele situação
insistindo em não desaparecer, decidi esticar até
a casa de um outro amigo. Cheguei muito rápido, pois
as ruas eram minhas mesmo!
Já na casa deste meu outro amigo que era dono de
um lindo Mustang vermelho e que, eu também era louco
pra dirigir, mas nunca tive coragem de pedir, pois sabia
que a resposta seria um não em alto e bom som. Desta
vez nem chamei, fui logo entrando e já acostumando
com aquela coisa louca que eu estava passando, ou não,
pois o tempo estava parado pra todos menos pra mim, entrei
em sua casa e já sabendo onde ele colocava a chave,
num prego atrás da porta da sala, peguei-a e entrei
no Mustang, liguei e pude sentir o prazer que era dirigir
aquela máquina maravilhosa!
Fui em direção à casa da minha mãe,
esperançoso em encontrar uma situação
diferente. Mesma coisa cheguei, entrei e ninguém
em casa, ninguém...
Desespero
Voltei pro carro e não agüentei, fui dirigindo
e chorando, em total desespero, pedindo a Deus que me devolvesse
minha família, meus amigos, meus cachorros, enfim,
tudo que eu amava...
Durante aquelas lágrimas pude sentir o quanto às
coisas materiais nada valem, percebi que podia, naquele
momento, ter todos os bens materiais que eu tinha vontade,
todos os carros, os móveis, os eletrônicos,
tudo! Mas nada preencheria a solidão, nada vale a
pena se não posso ter um amigo se quer.
Mesmo estando dentro daquele sonho, o Mustang, mas sozinho,
sem ter com quem conversar, rir, chorar, o que me valeria?
Por alguns minutos fiquei ali, sentindo isso, parece que
Deus queria que eu passasse por aquilo pra dar “ainda”
mais valor no que é valioso e nada compra, a família,
os amigos e poder sentir que tudo está vivo e está
vivendo ao meu redor na mais natural tranqüilidade,
mesmo não percebendo isso no dia-a-dia.
Lembrei-me de ontem, voltando pra casa, quando um dos milhares
de faróis se fechou, reclamei, pois estava cansado
e não via a hora de chegar em casa, reclamei porque
um pedestre atravessou devagar, olhando um cachorro que
brincava com seu dono no gramado que fica no meio das duas
pistas, reclamei que um carro passou, no último momento,
fazendo com que eu perdesse meio milésimo de segundo
na aceleração.
Hoje pude ver o quanto babaca eu era, tudo na pressa, tudo
no stress, tudo na correria. Ia e voltava sem perceber o
quão bonito são as árvores daquela
casa de esquina, o quanto são lindos aqueles pássaros
que visitam aquelas árvores da casa de esquina, o
quanto é maravilhoso ver aquele cachorro brincando
com seu dono numa tarde, quase noite, de uma sexta-feira
linda que trará um fim de semana impagável
junto com meus amigos e familiares...
Eu não tinha essa visão. Não tinha,
eu disse. Pois agora, sozinho, com este carro maravilhoso
e absolutamente caro, que, neste momento, nada vale, não
tem mais nenhuma importância ou valor...
Como eu queria poder parar em algum farol, pois eles não
fecham mais, como eu queria ver algum pedestre andando bem
lento, eu esperaria com prazer ele cruzar de uma ponta a
outra da rua, eu ainda o cumprimentaria e sairia bem devagar,
sem pressa, pela direita, curtindo a volta pra casa, olhando
tudo que é valoroso, a natureza, as pessoas e o afeto
que eu tenho por elas!
Desmaiado fiquei...
Parei o carro numa freada brusca e já sem saber
o que fazer comecei a chorar copiosamente, sai correndo,
e num desespero sem fim olhei pro céu, quase sem
ver nada, pois os olhos estavam completamente lagrimejados,
tropecei e cai, batendo a cabeça numa pedra, e por
ali fiquei, desmaiado...
Comecei a sonhar que estava passando na casa da mamãe
e ia pegá-la pra ir num encontro de carros antigos.
Fui encostando o carro em frente de casa, ela já
estava pronta e rumamos em direção ao encontro.
Lá chegando, já estavam vários amigos
com seus carros reluzentes, eles receberam, a mim e a mamãe,
com uma grande alegria, com aquele sincero abraço
e beijo de irmãos, com aquele aperto de mão
forte, com a real vontade e felicidade de saber que eu estava
ali, fazendo parte daquele clube, daquela família!
E fiquei sonhando durante um bom tempo...
Percebi mais uma vez que os bens materiais, os hobbys,
as coleções não tem valor se você
não tiver alguém que goste da mesma coisa,
que CURTA e aprecie junto. Que passeie, sorria e esteja
compartilhando a mesma alegria contigo.
Ter as coisas pra si sem compartilhar, nada vale... Você
morre, você se vai, elas ficam aí, e sabe o
que acontece? Mais cedo ou mais tarde, sua coleção
é espalhada, dando continuidade a outras coleções
ou não, talvez tenham um destino pior...
Como diz um amigo, o meu futuro é hoje, e eu curto
o que consegui no hoje, não se deixa pra amanhã.
O amanhã pode não existir mais...
Tem uma máquina legal, rode com ela, não deixe
enfeitando a garagem. Alguém pode fazer isso pra
você... E não é o mesmo que você
fazer isso por você e seu coração agradecerá!
O pesadelo mais importante
que já tive
Creio que este pesadelo tenha sido o mais importante de
toda a minha vida.
Fui acordando, estava todo suado e dolorido, senti também
uma grande dor na coxa, lembrei dos beliscões, por
um instante tive medo de abrir os olhos, mas percebi que
estava deitado em algo macio e quente. Será aquela
grama onde cai? Meu Deus...
Relutei em abrir os olhos, mas criei coragem e fui abrindo-os
lentamente, me deparei com a televisão ligada, olhei
o rádio-relógio de frente comigo, na estante
da cama, meia-noite e treze, virei pro lado, a minha mulher
dormindo como um anjo, dei-lhe um beijo longo e todo especial,
ela nem acordou, nem sentiu e creio que nem ficará
sabendo disso, mas naquele momento senti que a amava ainda
mais e me senti em total êxtase e alegria de estar
vivo, feliz e poder ter tido aquela experiência de,
num simples sonho dentro de um pesadelo, ver tudo que vi,
valorizar ainda mais o quanto é maravilhoso amar,
ser amado, ser amigo, ter amigos, ter uma máquina
legal e compartilhar a grande bobeira de andar em bando,
um monte de latas antigas juntas, mas perceber, no rosto
de cada um, a alegria de estar ali e estar feliz de verdade!
Levantei, fui até a torneira, enchi um copo com
aquela água cheia de cloro, pois havia acabado horas
atrás e chegado a pouco, bebi e foi a água
mais gostosa que tomei até hoje.
Voltei pra cama e agradeci a Deus por aquele sonho lindo.
Lembrei que amanhã teria a IV Galaxata. Lembrei
dos amigos e de seus carros, senti o quanto eu era feliz
e poder viver, por algumas horas, o mesmo prazer que eles.
Na somatória de tudo isso, o grande barato é
ser e ter amigos.
00h19, voltei a dormir em paz...
Beijo a todos!
*Marcelo
Senteio é amante da história nacional,
sócio do Galaxie Clube do Brasil, preserva
e mantém a história automobilística
nacional cuidando de um Ford 1929, um Miura 1979,
um Opala 1973 e, claro, o Imperador que é
um Galaxie Landau 1979. Filatélico e numismata
na área nacional. Coleciona também brinquedos,
relógios e outros itens. Nas horas vagas escreve
para sites e revstas, cria miniaturas em papel dentre
outros diversos hobbys.
e-mail: mads73@pop.com.br |
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