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História romântica do Luiz

*Jan Balder, em 08/02/2011

Acompanhei a carreira do Luiz desde pequeno. É um de meus ídolos.

Era piloto da equipe oficial da Willys onde os Gordinis, Willys Interlagos e mesmo os Alpines tinham tendência de sair de traseira (oversteering) e ele sabia dosar esta tendência como ninguém. Sabia o limite e procurava andar para frente encurtando distâncias e não perder tempo atravessando em demasia. Outro ponto de destaque era sua preocupação com a mecânica e sabia o que estava debaixo dele otimizando ao máximo.

Como pessoa era delicado com todos — o sucesso nunca lhe subiu a cabeça — respeitava e papeava com todos.

No final de 1968, pouco antes de ele viajar para a Europa em companhia de Ricardo Aschar para integrar a equipe de Fórmula Ford do Stirling Moss tive uma surpresa incrível. Na Rodovia Dutra ao lado de Chico Landi fui levando uma BMW Schnitzer para os 1000 km da Guanabara e fizemos um pit stop no Clube dos 500 em Guaratinguetá, quando o Seu Chico me falou:
— Você vai fazer dupla com o Luizinho!
Nem acreditei! Respondi:
— E o sr., Seu Chico?
— Desta vez vou ficar no box.
Pensei: “Que honra! Em dupla com um campeão e meu ídolo e ao mesmo tempo.”

Quanta responsabilidade de pilotar o melhor possível. Vínhamos bem na corrida, mas o motor quebrou.

Logo depois, mais uma desta vez em Brasília, outros 1000 kms e a equipe havia contratado um mecânico inglês de nome Ralf, que vinha com bagagem de ter trabalhado na Fórmula 1. Ao chegarmos em Brasília, ainda na oficina, o Ralf tinha em mãos toda programação para nossa corrida e falou o que faríamos de minuto em minuto. Ele logo falou: “Vamos para a pista” e ele foi dirigindo a BMW. Fui ao seu lado e o Luiz no banco traseiro. Ao sair, o Ralf soltou de forma brusca a embreagem e o Luiz logo veio com esta em português
— Olha este pé de seda! ...rsrs
O ralf não entendeu nada e parou num posto para calibrar os pneus. Chamei atenção dele que tínhamos três pneus zero bala e um usado, o que contrariava o seu relatório. O Ralf falou: “that is no problem!” E o Luiz replicou pra mim: “Esse cara já entrou na balada brasileira...

Na corrida o Luiz liderou fácil até o motor quebrar de novo.

Logo depois, em 1969, o Luiz foi para Inglaterra e fez uma brilhante temporada saindo, vice-campeão de F-Ford. A mídia não deu tanto destaque porque o Emerson havia se tornado campeão da Fórmula 3.

Em 1970, após ele vencer uma etapa da temporada brasileira do Torneio BUA de Fórmula Ford à frente de todas as feras internacionais, inclusive Emerson, lhe prometeram uma Lola para correr na Fórmula 5000 e como eu estava estagiando na Pirelli, em Milão, vi a lista de inscritos(GP da Loteria de Monza) com a presença dele e fui atrás. Ele não apareceu e fiquei sabendo que a promessa da Lola tinha ido em vão. Aquelas coisas de momento certo em equipe errada.

No final do meu estagio, fui a Paul Ricard em uma etapa de Fórmula 2 onde o Wilson e o Emerson Fittipaldi participaram da F-3 (Wilson) e F2 (Emerson) e voltei com o casal Emerson e Maria Helena para Milão, acompanhado também do Chico Rosa.

Vínhamos papeando, viajando pela linda Cotê Dazur, falando claro só sobre gasolina. Lá pela tantas o Emerson falou que havia viajado em companhia do Luiz por aquelas bandas e pararam num loja para comprar óculos escuros. O Emerson testou alguns modelos e perguntou o preço — 10 francos franceses — e pediu para embrulhar. O Luiz testou um que lhe ficara perfeito, mas não perguntou o preço e para surpresa dele custou 100 francos. Entraram no carro e ambos colocaram o óculos. Então Emerson falou para Maria Helena:
— Este óculos é legal, mas incomoda um pouco no nariz.
O Luiz lá atrás fez um bico e falou:
— O meu não incomoda nada!
No que o Emerson replicou:
— Também pelo preço...

Período romântico, situações como estas que relaxam, todos muitos amigos fora das pistas, porque nelas o desejo era de disputar cada freada. Personagens que foram pioneiros em levar o Brasil ao alto do pódio.

Luizinho, grande amigo, fino trato com as pessoas e suas máquinas.


*Jan Balder é ex-piloto

Nota da redação: Luiz Pereira Bueno morreu no dia 8 de fevereiro de 2011, aos 74 anos, vítima de câncer.

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