Acompanhei a carreira do Luiz desde pequeno.
É um de meus ídolos.
Era piloto da equipe oficial da Willys onde os Gordinis,
Willys Interlagos e mesmo os Alpines tinham tendência
de sair de traseira (oversteering) e ele sabia dosar esta
tendência como ninguém. Sabia o limite e
procurava andar para frente encurtando distâncias
e não perder tempo atravessando em demasia. Outro
ponto de destaque era sua preocupação com
a mecânica e sabia o que estava debaixo dele otimizando
ao máximo.
Como pessoa era delicado com todos — o sucesso
nunca lhe subiu a cabeça — respeitava e papeava
com todos.
No final de 1968, pouco antes de ele viajar para a Europa
em companhia de Ricardo Aschar para integrar a equipe
de Fórmula Ford do Stirling Moss tive uma surpresa
incrível. Na Rodovia Dutra ao lado de Chico Landi
fui levando uma BMW Schnitzer para os 1000 km da Guanabara
e fizemos um pit stop no Clube dos 500 em Guaratinguetá,
quando o Seu Chico me falou:
— Você vai fazer dupla com o Luizinho!
Nem acreditei! Respondi:
— E o sr., Seu Chico?
— Desta vez vou ficar no box.
Pensei: “Que honra! Em dupla com um campeão
e meu ídolo e ao mesmo tempo.”
Quanta responsabilidade de pilotar o melhor possível.
Vínhamos bem na corrida, mas o motor quebrou.
Logo depois, mais uma desta vez em Brasília, outros
1000 kms e a equipe havia contratado um mecânico
inglês de nome Ralf, que vinha com bagagem de ter
trabalhado na Fórmula 1. Ao chegarmos em Brasília,
ainda na oficina, o Ralf tinha em mãos toda programação
para nossa corrida e falou o que faríamos de minuto
em minuto. Ele logo falou: “Vamos para a pista”
e ele foi dirigindo a BMW. Fui ao seu lado e o Luiz no
banco traseiro. Ao sair, o Ralf soltou de forma brusca
a embreagem e o Luiz logo veio com esta em português
— Olha este pé de seda! ...rsrs
O ralf não entendeu nada e parou num posto para
calibrar os pneus. Chamei atenção dele que
tínhamos três pneus zero bala e um usado,
o que contrariava o seu relatório. O Ralf falou:
“that is no problem!” E o Luiz replicou pra
mim: “Esse cara já entrou na balada brasileira...
Na corrida o Luiz liderou fácil até o motor
quebrar de novo.
Logo depois, em 1969, o Luiz foi para Inglaterra e fez
uma brilhante temporada saindo, vice-campeão de
F-Ford. A mídia não deu tanto destaque porque
o Emerson havia se tornado campeão da Fórmula
3.
Em 1970, após ele vencer uma etapa da temporada
brasileira do Torneio BUA de Fórmula Ford à
frente de todas as feras internacionais, inclusive Emerson,
lhe prometeram uma Lola para correr na Fórmula
5000 e como eu estava estagiando na Pirelli, em Milão,
vi a lista de inscritos(GP da Loteria de Monza) com a
presença dele e fui atrás. Ele não
apareceu e fiquei sabendo que a promessa da Lola tinha
ido em vão. Aquelas coisas de momento certo em
equipe errada.
No final do meu estagio, fui a Paul Ricard em uma etapa
de Fórmula 2 onde o Wilson e o Emerson Fittipaldi
participaram da F-3 (Wilson) e F2 (Emerson) e voltei com
o casal Emerson e Maria Helena para Milão, acompanhado
também do Chico Rosa.
Vínhamos papeando, viajando pela linda Cotê
Dazur, falando claro só sobre gasolina. Lá
pela tantas o Emerson falou que havia viajado em companhia
do Luiz por aquelas bandas e pararam num loja para comprar
óculos escuros. O Emerson testou alguns modelos
e perguntou o preço — 10 francos franceses
— e pediu para embrulhar. O Luiz testou um que lhe
ficara perfeito, mas não perguntou o preço
e para surpresa dele custou 100 francos. Entraram no carro
e ambos colocaram o óculos. Então Emerson
falou para Maria Helena:
— Este óculos é legal, mas incomoda
um pouco no nariz.
O Luiz lá atrás fez um bico e falou:
— O meu não incomoda nada!
No que o Emerson replicou:
— Também pelo preço...
Período romântico, situações
como estas que relaxam, todos muitos amigos fora das pistas,
porque nelas o desejo era de disputar cada freada. Personagens
que foram pioneiros em levar o Brasil ao alto do pódio.
Luizinho, grande amigo, fino trato com as pessoas e suas
máquinas.
*Jan Balder é ex-piloto
Nota
da redação: Luiz Pereira Bueno
morreu no dia 8 de fevereiro de 2011, aos 74 anos,
vítima de câncer.