| Este
artigo não foi escrito especialmente para o Portal
Maxicar. O recebemos diversas vezes por e-mail em janeiro
de 2010, através de pessoas diferentes. Em nenhuma
delas foi citada a sua fonte. Pesquisamos exaustivamente
na internet, em busca de seu autor ou de onde foi originalmente
publicado. Mas não tivemos sucesso. Trata-se de um
texto traduzido do inglês, escrito por um restaurador
americano de automóveis clássicos, cujo pseudônimo
é Land Yachts, que em português significa “iates
terrestres”, uma referência ao que nós,
aqui no Brasil costumamos chamar de “banheiras”,
os carrões americanos. Apesar de tratar do mercado
de automóveis antigos dos Estados Unidos, traz lições
e filosofias interessantes para quem deseja restaurar um
automóvel em qualquer parte do mundo. Por isso, decidimos
publicar. Leia! É muito bom!
O
que você deveria saber sobre a restauração
de carros antigos
*Land
Yachts
Examinemos
em detalhe o que é uma restauração.
No que diz respeito a automóveis, a restauração
é simplesmente uma desmontagem completa. Se uma peça
aparenta estar muito desgastada em comparação
com o equipamento originalmente fabricado, recomenda-se
que seja: (1) substituída por uma original nova;
(2) substituída por uma recondicionada, original
ou produzida no mercado paralelo; (3) recondicionada por
uma oficina local, ou por uma subcontratada, de modo a recuperar
as especificações originais.
Uma parte da restauração consiste em reparos
na superfície do veículo. Todo o metal enferrujado
deve ser tratado. As partes não afetadas devem ser
protegidas contra o futuro surgimento de ferrugem.
Toda a tapeçaria, os tecidos, os arremates e as
borrachas de vedação devem ser substituídos.
Qualquer acabamento interior aparentando estar velho ou
danificado deve também ser substituído. A
preparação e o acabamento do exterior do veículo,
empregando modernos sistemas de tratamento, conforme requeridos
pelo nível de restauração determinado,
devem ser considerados. A tarefa só estará
terminada com a substituição de todos os detalhes
externos que, pela idade, apresentem desgaste ou estejam
danificados. Uma verdadeira restauração irá
reconduzir o veículo às condições
tão próximas quanto possível de um
novo, considerando que o método original de fabricação
não está mais disponível.
Os profissionais reconhecem dois tipos de restauração:
a de "exibição" e a de "rua".
A principal diferença entre elas é que a do
tipo “exibição”, algumas vezes
chamada de "super-restauração",
procura aproximar a recuperação do veículo
o máximo possível da perfeição,
sem considerar as despesas envolvidas. Uma restauração
para exibição deixa o veículo em melhores
condições do que as de um novo, recém
saído de uma linha de montagem. A restauração
do tipo "rua" procura deixar o veículo
tão próximo quanto possível das condições
em que um novo sai de fábrica. Os veículos
restaurados para exibição são normalmente
apresentados apenas em poucas e tradicionais exposições,
como o "Concours d’Elegance", e nunca são
dirigidos nas ruas. Esses carros participam de concursos
em que são avaliados por comissões julgadoras,
e competem para vencer. Restaurações do tipo
"rua" destinam-se a dar prazer a quem dirige os
veículos. Mesmo assim, esses carros não são
dirigidos com freqüência.
Os restauradores não gostam de executar "restaurações
parciais". Apesar de a razão parecer óbvia,
vou tentar explicá-la. Imaginemos que um cidadão
chamado Zé dos Anzóis leve o seu "Francia
Oblongatta Rabo de Peixe 1962" para a companhia de
restauração "ABCD Goldfish" para
recuperar as chapas enferrujadas do piso, pintar a carroçaria,
e refazer o cromado de pequenas peças de acabamento.
Zé não possui recursos para cromar os pára-choques.
Ele mesmo planeja executar todos os outros reparos necessários,
bem como a completa montagem do veículo. Zé
é, há muitos anos, um respeitado colecionador
amador de carros antigos que costuma empregar seu tempo
livre para concretizar os próprios projetos, e considera-se
suficientemente competente para realizar as tarefas não
atribuídas à ABCD. Mas, aprofundando a questão,
Zé não possui recursos para pagar à
ABCD por uma restauração completa. Como ele
não trabalha para a ABCD, a empresa não tem
qualquer controle sobre a qualidade do seu trabalho. Zé
resolve levar seu carro restaurado a uma exposição.
Lá, Juca pergunta a ele: "Zé, quem restaurou
o seu carro?" "Ué", responde Zé,
"foi a ABCD, é claro!" Em seguida, Juca
comenta com Chico: "Caramba, eu nunca vou querer que
essa ABCD faça nada para mim! Veja só que
trabalho vagabundo foi feito no compartimento do motor!"
Fim da história!
Há amadores que são muito competentes. Na
verdade, tão bons que eu tenho tentado contratá-los!
Mas a grande maioria deles simplesmente não possui
habilidade, experiência ou equipamento para igualar-se
à qualidade dos meus profissionais de meia-idade,
cuidadosamente selecionados, que empregam suas vidas adultas
trabalhando como restauradores de automóveis.
Meus clientes de restauração aqui em Tidewater,
refletindo a natureza do mercado local, incluem-se em uma
destas categorias: 95% buscam reparos previamente orçados;
4% desejam restaurações do tipo "rua";
e 1% contrata restauração para exibições.
Por que tão pouca restauração? A razão
é, simplesmente: custo.
Vamos explorar esse assunto. A maior parte de meus clientes
aqui na área é principiante. Isso significa
que quando me trazem seus projetos é normalmente
a primeira vez que contratam um trabalho profissional de
restauração. Até então só
estavam familiarizados com trabalhos de pintura e funilaria
realizados por oficinas que reparam danos ocasionados por
colisões. A filosofia da indústria de reparos
de colisões é realizar o trabalho rapidamente
e da forma mais barata! Isso se deve, principalmente, ao
fato de que o típico cliente de reparos por colisão
precisa do seu meio de transporte, o que requer um período
curto para o conserto.
O reparo é normalmente pago por uma grande companhia
de seguros, cuja principal preocupação é
controlar os custos. As oficinas que realizam esses consertos
utilizam um sistema de orçamentos normalmente fornecido
pelas próprias seguradoras, que se aproxima bastante
do custo real do serviço. Assim, o custo final raramente
difere do orçamento original. Elas podem proceder
desse modo porque a média de idade dos veículos
com os quais trabalham está na faixa dos cinco anos.
Há farto suprimento de peças de reposição,
as técnicas de reparo são simples e as possíveis
variações (a maioria decorrente de corrosão
ou má qualidade de reparos anteriores) são,
na melhor hipótese, inexistentes, ou, na pior, bem
previsíveis. É, meu amigo, muitas características
dos veículos são melhor elaboradas atualmente!
As estratégias de diagnóstico e de reparo
são mais fáceis, requerendo menor número
de técnicos habilitados e obtendo resultados mais
baratos (até considerando-se a inflação).
Mesmo quando há "reajustes" no orçamento
original, o custo adicional não atinge o bolso do
cliente, pois a oficina negociará diretamente com
a companhia de seguros.
A média de idade dos projetos que chegam à
minha oficina é 40 anos. Todos os iniciantes que
vêm até mim estão geralmente infectados
pela crença de que eu posso gastar alguns minutos
observando seus veículos antigos, com idade superior
a 40 anos, e apresentar um orçamento, como os das
oficinas que reparam colisões, ou, em outras palavras,
determinar um preço! Eu posso dar um preço
para você agora mesmo; não preciso nem me levantar
da cadeira, não necessito sequer olhar para o seu
carro e, na realidade, nem me importa saber de que tipo
ele é! 60 mil dólares! É claro que
se você deseja obter um orçamento razoavelmente
preciso para a restauração eu o fornecerei
assim que tenhamos desmontado completamente seu carro. Essa
não é, certamente, uma operação
insignificante, pois sozinha pode custar mais de mil dólares!
A partir daí há sempre o risco de descobrirmos
que o custo da restauração, ou simplesmente
o reparo do veículo, ultrapassa largamente qualquer
expectativa por parte do proprietário; assim, nesse
ponto, o dono do carro terá que interromper seu projeto
(pelo menos conosco) depois de haver gastado um bom dinheiro!
Quanto deveria custar uma restauração? Bem,
primeiro vamos trocar idéias a respeito de alguns
mitos sobre esse assunto.
Mito nº 1: "Ei, eu estou
pensando em comprar esse carro por (um valor X), contratar
você para restaurá-lo, depois eu vou vendê-lo
por (um valor Y) e ter um bom lucro!"
Além de destacar a bobagem contida no próprio
mérito dessa idéia, eu vou derrubá-la
com um simples argumento: se fosse possível a alguém
comprar um carro e, após pagar-me para restaurá-lo,
ainda conseguir vendê-lo com lucro, então eu
mesmo iria comprar esse carro, restaurá-lo por minha
própria conta, e vendê-lo para obter esse lucro!
Na verdade, se isso fosse uma rotina possível, eu
nunca mais precisaria lidar com clientes!
Eu conheço um restaurador que contratou dois militares
da reserva para dirigir pelo País comprando carros
antigos encontrados em terrenos baldios e vilarejos, nunca
pagando mais de 500 dólares e enviá-los até
sua oficina. Ele então executa restaurações
rápidas, do tipo "quebra-galho", e manda
os carros para leilões. De vez em quando, utilizando
nomes diferentes, ele obtém lucro. Mas ainda trabalha
bastante com clientes! Eu creio que ele faz esse tipo de
venda principalmente para manter seus numerosos funcionários,
que ganham salário mínimo, ocupados durante
os períodos de pouca demanda. Nos anos 80, quando
os jovens executivos de Wall Street compravam Jaguar E-Type
por 70.000 dólares, os restauradores recuperavam
verdadeiras carcaças enferrujadas encontradas em
"ferros-velhos" e obtinham grandes lucros! Para
vocês que estiveram desatentos durante a última
década esse mercado já despencou, e agora
eu poderia fazer carreira apenas restaurando novamente as
carcaças que foram recuperadas naquele período!
Mito nº 2: "Meu carro, após
restaurado, vale 12.000 dólares (de acordo com o
Guia de Preços para Carros Antigos), assim, não
poderá custar mais de 12.000 dólares para
restaurá-lo!"
O valor de mercado para carros clássicos, antigos,
relíquias, ou originais impecáveis é
afetado por diversos fatores. Oferta e procura, raridade
de estilo, qualidade da fabricação original,
certificado de autenticidade de algum órgão
tradicional (como a Associação Americana de
Carros Antigos), as fases da lua, etc. Quase tudo, menos
o custo real da restauração.
Quanto deveria custar uma restauração ou
um reparo? Vamos começar com uma caminhada por uma
aula de história. Em 1971 um Lincoln Continental
Mark IV custava à Ford 960 dólares em mão
de obra e peças para sua fabricação.
O carro era vendido ao consumidor por 12.000 dólares;
2.000 eram o lucro do revendedor; 2.000 eram o lucro da
fábrica; 2.000 compunham o custo administrativo;
2.000 representavam despesas de serviço da empresa;
2.000 eram gastos com anúncios e 1.000 eram gastos
com seguro de responsabilidade civil do produto. Surpreendentemente
(ou ironicamente) o custo específico da fabricação
era o item menos dispendioso. O carro permanecia em uma
linha de montagem por aproximadamente sete horas, e mais
de 60 pessoas (e naqueles dias apenas três robôs)
trabalhavam nele. Presumindo que durante aquele período
de sete horas o veículo fosse fisicamente manipulado
em apenas metade do tempo, uma simples multiplicação
nos mostra que eram empregados 210 homens/hora em sua montagem.
As peças necessárias para a montagem do carro
eram fabricadas ou adquiridas pela Ford em quantidades superiores
a 10.000, talvez 100.000! Já ouviram falar em desconto
para compras por atacado?
Agora vamos saltar 25 anos no futuro. Eu escolhi esse número
porque muitas pessoas têm a noção errada
de que um veículo se torna automaticamente um antigo
"valioso" aos 25 anos. Lamento desapontá-los!
Provoquem-me o suficiente e eu derrubarei cada conceito
que vocês tenham adquirido a respeito! Um Lincoln
Continental Mark IV é vendido atualmente ao consumidor
por 42.000 dólares. Pelo menos uma década
de hiperinflação (nos Estados Unidos de 7
a 8%) ajudou a expandir os custos de fabricação
de 960 para além de 4.000 dólares! Você
quer que eu restaure o seu Lincoln 1971, então vamos
examinar as condições desse trabalho. Eu não
possuo uma linha de montagem; nenhum restaurador tem. Caso
você encontre um que tenha, por favor me avise para
eu fechar minha oficina, pois não terei meios de
competir com ele! A realidade é que nós temos
que fazer o trabalho à moda antiga, manualmente,
com equipes reduzidas, como a Rolls Royce costumava fazer.
Primeiro temos de desmontar o veículo, algo que a
Ford não tinha que fazer. Você gostaria que
eu utilizasse uma ferramenta pneumática para acelerar
o serviço? Êpa, acabei de partir um parafuso
porque a porca enferrujada estava presa! Agora parece que
eu vou ter que levar uma hora batalhando para retirá-lo!
Hum, talvez seja melhor eu trabalhar mais lentamente e tentar
causar menos danos! Se ao menos eu pudesse fazer como o
pessoal que repara colisões que apenas zuum, zuum,
zuum, desmonta logo!
Mas, digamos que o seu carro é um bom candidato
à restauração. Assim eu só terei
que repor ou corrigir, digamos, 35% dos componentes. Agora,
imagine: exatamente como você faria, eu tenho que
comprar no varejo cada uma das peças necessárias
à reposição. Eu não estou comprando
10.000 unidades de uma vez; assim, podemos esquecer o desconto!
Os fornecedores tradicionais de peças para carros
antigos são os "ferros-velhos", os autônomos
ou as pequenas empresas de recondicionamento, e algumas
companhias de pequeno porte que mandam fabricar em certa
quantidade reproduções de peças originais
em países como Taiwan. Essas instituições
negociam da mesma forma, diretamente com um cliente ou com
um restaurador profissional. Apenas algumas das companhias
de pequeno porte oferecem descontos para um volume mínimo
de compras anuais. Eu, como um tolo, geralmente transfiro
esse desconto para você. Eu tenho aquela noção
antiquada de que, em retribuição ao negócio
realizado, devo recompensá-lo permitindo que você
tenha acesso aos meus descontos. Na realidade, a minha verdadeira
intenção é desencorajar você
a trazer suas próprias peças esperando que
eu dê garantia sobre elas!
Vamos encarar alguns números realistas. Admitamos
que você tem um bom candidato à restauração,
e eu peço desculpas por mais essa digressão.
Eu sei que você está na extremidade da cadeira
esperando pelos números. Um bom candidato à
restauração seria um veículo que tivesse
sido conduzido regularmente por cinco anos, rodado cerca
de 80.000 quilômetros e posteriormente fora guardado
por vinte anos em uma garagem coberta, rodando pela cidade,
digamos, uma vez por mês. Um veículo com 160.000
quilômetros rodados e conservado ao ar livre por dez
anos, mas com boa manutenção, seria considerado
pouco menos que um bom candidato, mas não necessariamente
mau. Um veículo com apenas 8.000 quilômetros
rodados, porém deixado por vinte anos sob um pinheiro,
não seria de forma alguma um candidato.(Eu já
vi alguns!). Um veículo com 160.000 quilômetros
rodados e conservado ao ar livre por dez anos sob uma capa
protetora seria, provavelmente, um mau candidato. Êpa,
acho que esbarrei em mais um mito! Espero que esses exemplos
sejam suficientes para você ter uma orientação.
Um bom candidato à restauração é
normalmente um veículo com muito boa manutenção,
adequadamente utilizado e conservado, em condições
muito melhores do que a média dos veículos
da mesma idade. Dentre os 95% de veículos trazidos
à minha oficina por clientes locais, para serviços
que eu qualificaria como pequenos reparos, nem um seria
por mim considerado um "bom" candidato à
restauração. Essa é a razão
pela qual eles são apenas consertados.
A maioria dos restauradores profissionais dos Estados Unidos
está localizada na Flórida ou na Califórnia.
Por quê? Por dois motivos: primeiramente, porque os
habitantes desse locais têm muito mais poder aquisitivo
do que você e eu; mas, especialmente, porque o clima
dessas regiões habilita muito bons candidatos à
restauração.
Mas, voltemos aos números. Temos constatado que,
em média, um bom candidato requer 350 homens/hora
para ser completamente restaurado. É uma relação
muito boa, se compararmos com os 210 homens/hora necessários
para a montagem de um Lincoln; especialmente se considerarmos
que o tempo de desmontagem está computado nos 350h/h
citados. Meu preço básico de restauração
é de 30 dólares a hora, passando a 45dólares
a hora durante a fase mecânica do trabalho. A média
para uma restauração típica fica próxima
aos 37 dólares por hora. Esse valor está,
provavelmente, próximo ao mais baixo cobrado por
qualquer oficina de restauração nos Estados
Unidos. Eu ouvi falar que há um sujeito no centro
da Carolina do Norte que cobra 25 dólares a hora.
Também ouvi dizer que ele não vai ao dentista
há vinte anos! Fazendo alguns cálculos simples,
o custo da mão-de-obra na vizinhança para
a restauração de um veículo parece
estar próximo dos 12.950 dólares.
Para um típico carro americano de meados dos anos
40 ao final dos anos 60 (com algumas significativas divergências,
como os do início dos anos 50) o custo das peças
para um bom candidato à restauração,
incluindo itens como motor (nós apenas o instalamos),
transmissão, e acabamento interior (normalmente subcontratado),
fica em, pelo menos, 10.000 dólares. Quanto mais
baixa é a qualidade do carro a ser restaurado, mais
esses valores crescem. Se o carro é um raro modelo
do período mencionado, o custo das peças poderá
dobrar. Carros europeus (ingleses e alemães) começam
dobrando o preço das peças, e partem daí
para cima. Se for um Jaguar E-type já se pode contar
com um aumento na mão-de-obra de, pelo menos, 50%.
Há maior número de peças de pequeno
porte (e pouca oferta) em um desses carros do que em dois
outros! Há um profissional em Beverly Hills, Califórnia,
que publica anúncios na Hemmings Motor News oferecendo
seus serviços de restauração em Jaguar
E-type "a partir de 60.000 dólares!" Embora
não aconteça com frequência, de vez
em quando descobrimos que uma determinada peça é
confeccionada em um material denominado "desaparecidium".
O que fazemos então? Nós a fabricamos, é
claro! Se você se sente compelido a perguntar o custo
disso, por qualquer outra razão que não seja:
(1) você acredita em numerologia oculta e quer usar
esse número para examinar seu horóscopo; ou
(2) você espera ter um bom palpite de um número
aleatório para jogar na loteria, então você
não pode assumir essa despesa!
Eis um fato simples e triste: quase todos os veículos
fabricados nos Estados Unidos e na Europa entre meados dos
anos 40 e final dos anos 60, e que estejam em excelentes
condições (porém não restaurados,
em meu conceito específico da palavra), estão
avaliados entre 25 e 30.000 dólares, a maioria valendo
menos de 15.000 dólares. Se observarmos os custos
mínimos de restauração apresentados
anteriormente vamos concluir que a maioria desses veículos
não é economicamente restaurável. Curiosamente,
os valores atuais de mercado são cerca de metade
do que eram há dez anos. Isso equivale a dizer que
a maioria desses veículos é economicamente
reparável. Mas, para seu conhecimento, devo alertá-lo
sobre a diferença entre um veículo reparado
e um restaurado.
Há muitos fatores que afetam o envelhecimento dos
veículos. Sim, como nós humanos, submetidos
às implacáveis leis da física, os automóveis
envelhecem. Alguns desses fatores são a exposição
ao oxigênio da atmosfera, causando oxidação
(ferrugem) na maioria dos metais; a radiação
eletromagnética (luz, particularmente a ultravioleta);
a radiação infravermelha (radiação
de calor do sol); radiação cósmica
(eu não estou brincando); e o ciclo térmico
(simples desgaste mecânico decorrente do contato físico
entre peças não deformáveis, como mancais,
pistões e similares). A simples reposição
das peças nitidamente inoperantes e danificadas em
um veículo com 40 anos, por exemplo, em nada prolonga
a vida das demais peças com 40 anos do mesmo veículo
que ainda estejam funcionando na ocasião do reparo.
A maioria dessas peças já atingiu ou está
próxima de atingir sua vida útil. Se alguém
pensa que assim terá o equivalente a um veículo
restaurado poderá ser iludido por uma sensação
de falsa confiança em poder tratar o veículo
como se fosse novo, utilizando-o de forma intensa e vigorosa,
apressando a falha dessas peças desgastadas por 40
anos de uso. Você poderia sair de minha oficina após
seis meses de intenso (e caro) trabalho de reparos e seu
carro enguiçar a caminho de casa, por falha de uma
peça que não foi substituída. Eu não
posso antecipar o prazo aproximado de falha de uma peça
que não desmontei para inspecionar e, depois que
eu o fizer, você pode também substituí-la.
Eu sou um restaurador, não um mágico!
Houve um caso recente, de um Lincoln Continental 1960,
que permaneceu em minha oficina por quase um ano para o
que parecia serem reparos de rotina. Nada menos que 13 peças
falharam enquanto testávamos o veículo após
termos substituído ou reparado peças que não
funcionavam.
O aspecto fundamental é o seguinte: se você
não deseja suportar o custo de uma verdadeira restauração,
então não se iluda pensando que você
tem um veículo do qual pode depender como se fora
um novo.
Duração de um projeto de restauração
Eu poderia utilizar agora um dos meus argumentos matemáticos
como: eu tenho três técnicos, três aprendizes
e cerca de trinta projetos em andamento em uma determinada
ocasião; assim, 6 (funcionários) vezes 40
(horas por semana) divididos por 30 (projetos) são
iguais a 8 homens/hora por carro/por semana. Para uma restauração
de 350 horas um simples cálculo atribuiria 44 semanas.
Na realidade, uma restauração completa normalmente
consome de 75 a 150 semanas, sendo a espera por peças
o principal fator de retardo. Mas eu não vou utilizar
esse argumento! Eu simplesmente direi que quanto mais um
bom vinho tinto francês envelhece, melhor é
o seu sabor. Apressar uma restauração nada
fará para melhorar sua qualidade e, provavelmente,
irá comprometê-la. Uma boa restauração
leva o tempo que o restaurador precisa para realizar o trabalho
de forma confortável. Eu já atingi o ponto
em que se alguém demonstra impaciência antes
(aguardando uma estréia), ou durante o processo,
eu peço a ele que leve seu veículo para uma
outra oficina.
O propósito desse mais que extenso artigo foi o
de passar conhecimentos para aqueles que não têm
qualquer experiência com a verdadeira restauração
e que podem estar trabalhando na ilusão de que reparar
um carro antigo é exatamente como reparar um novo;
ou o que é pior, pensando que, em virtude de um carro
antigo ser mais barato do que um novo, deve ser mais barato
consertá-lo!
Tudo o que eu peço a vocês é que tenham
um pouco de sensibilidade e de cautela caso ainda tenham
o desejo de aparecer na minha oficina após a leitura
desse artigo! Quando um piloto está em um avião
aproximando-se de um aeroporto para aterrissar, recebe um
nome em código alfabético para obter informações
sobre as condições da área de pouso;
daí em diante, basta mencionar esse código
quando se comunicar com os controladores.
Se você leu esse artigo e for à minha oficina,
simplesmente me diga "tenho a informação
ALFA", e eu estarei dispensado de recitar a ladainha
acima. Então, poderemos conversar sobre assuntos
mais amenos, como resolver o problema da fome no mundo.
Você poderá ter vindo para contestar alguma
coisa que eu tenha dito aqui. Nesse caso, eu acolherei um
vigoroso debate sobre virtualmente qualquer coisa!
*Esse
artigo foi escrito para uma revista da área
onde vive Land Yachts, em razão da constatação
que a maioria das pessoas sabe muito pouco a respeito
de restauração de carros antigos. Para
os clientes habituais de restauração,
boa parte desse artigo não apresenta novidades
mas, mesmo assim, sua leitura será interessante.
Para aqueles que nunca tenham se envolvido com um
trabalho profissional de restauração,
mesmo que já tenham realizado algum como amador,
por conta própria, a leitura desse artigo será
muito proveitosa. Qualquer semelhança entre
personalidades descritas nesse artigo com pessoas
vivas ou mortas é puramente intencional. Os
nomes foram modificados para proteger os responsáveis. |
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