A Bíblia diz que Deus fez o mundo e descansou
ao sétimo dia, o ser humano já emendou mais
um e criou o final de semana - é um sacrilégio
desperdiçar esses dias.
Esse foi o pontapé inicial para que o brasileiro
fizesse da noite de sexta-feira "o dia oficial do
happy hour", nada mais religioso que aquela cerveja
gelada com petiscos no botequim!
Já que todo mundo pode adaptar as datas conforme
a necessidade, resolvi aproveitar a semana igualmente
a todos e só para ser diferente criar meu próprio
dia santo, a Quinta-feira: esse é o dia em que
passeio com meu Landau.
Pode ser a hora que for, saio do trabalho com o carro
que tiver, vou ao estacionamento onde a máquina
está, independente do trânsito que existir.
Afinal de contas compromisso é compromisso e vice-versa!
Ontem dei sorte, saí cedo, às 20h. Poderia
ter usado a desculpa de entrar às 06h30, para ir
ao aconchego do lar e descansar, mas quem disse que eu
queria isso? Uma parte sã da minha consciência
me alertava: “amanhã você acorda às
cinco da matina", mas o lado insano insistia a retrucar
com um "e daí?!"...
Sem crise na consciência, segui rumo ao estacionamento,
passei a cancela, desci os dois "meios andares"
que separam a entrada do meu carro, o Loyd. De longe já
o vi com a luz fluorescente "cansada" que ilumina
o andar, notei algo brilhando em cima da bela carroceria,
mas não era uma aura angelical e sim poeira!
Pensei em lavar o carro, mas àquela hora seria
uma penitencia e pensei: “sábado eu faço,
será parte do meu descanso, se o tiver!”
Estacionei ao lado o compacto que estou testando para
uma montadora, pulei do pequeno japonês rumo ao
grande norte-americano tupiniquim e disse: “Olá
Loyd!” - o cumprimento faz parte do "ritual"!
Agora vem a parte litúrgica (e burocrática)
da "Quinta-Feira Santa": abrir a porta, ligar
as chaves gerais e cutucar umas três vezes o acelerador
antes de ligar. Em uma semana a gasolina já está
toda embaixo e preciso dela na bomba!
Dá-lhe chave no contato, na primeira virada e nada
de chegar combustível, segunda e principio de pegar,
terceira e lá ficou ele ronronando feito um gato
contente. O som ainda quadrado que saí pelos escapamentos
são como cantos líricos...
Esperei o carro dar aquela esquentadinha rotineira para
garantir que o óleo decantado ao longo da semana
estava em ordem pelo motor e que o carburador afinasse
por si só, agora sim tudo funciona "redondo".
É a hora de verificar se tudo está ok, engato
o drive e passeio com o carango pelo estacionamento, é
quando falo enquanto dirijo: "drive", "quickky
down", "neutro", "ré..."
Aprovado o câmbio é a vez da direção:
"curva para esquerda", "curva para a direita"...
Pronto nenhum barulho pela suspensão, freio ou
carroceria, vamos adiante!
Subimos a rampa, andamos um pouco pelo piso intermediário
e subimos mais uma rampa. Passamos a cancela do estacionamento,
Loyd e eu, aposto que haviam dois sorrisos ali!
Agora o trabalho é simples, desviar dos congestionamentos
de São Paulo. Subimos rumo às ruas do Alto
da Boa Vista. Atravessar o elegante bairro tem um "quê"
de nostalgia...
As ruas arborizadas, iluminadas pelos postes em tudo lembram
os anos 80, na época eu passava ali de bicicleta
para ver os Galaxies abandonados em frente às grandes
casas.
Vinte anos depois tem um Galaxie desfilando ali, por incrivel
que pareça, alguma coisa melhorou nesse meio tempo!
Não estou em procissão, no entanto esse
momento não é solitário, apenas na
medida certa!
Chego no bairro onde moro e encosto na porta de casa.
Verifico o painel, tudo ok, nenhum luz espia avisa sobre
problemas mecânicos, só então viro
a chave para desligar o V8. Eis o silêncio!
Após o jantar, sob a luz da garagem é a
hora da verificação dos fluídos do
motor, tudo ok. A válvula termostática abriu,
nenhum sinal de vazamento, motivos de alegria. Aleluia,
tenho um carro sem possas embaixo!
É hora de devolver o Landau para a garagem. Ao
virar a chave Loyd pega de primeira, agora sim, está
azeitado novamente! Ungido est!
Voltamos para a garagem pela avenida, afinal de contas
já é madrugada e não sofremos mais
com o trânsito da capital paulistana.
Deixo o Loyd em sua habitual vaga, desligo as chaves gerais,
mas não sem antes dizer: Até mais amigão,
no final de semana vamos passear!”
A vida tem ensinado que nada é eterno, o calendário
vira a data, hoje é um novo dia, está chuvoso,
com aspecto triste.
O bom é que outras quintas-feiras virão,
se Deus quiser!
*Portuga
Tavares é editor de texto do programa
Auto Esporte, da Rede Globo, colaborador em em diversas
publicações especializadas em automóveis,
co-autor do livro “Almanaque do Fusca",
da Editora Ediouro.
Data: 28/7/2011 Nome: Helio Herbert Email: www.collectorshow.com.br Mensagem: Que alívio...pensei que eu estivesse louco por conversar com meu carrro.Mais se estiver, pelo menos eu não estou louco sozinho.
Beijo Portuga
Data: 29/7/2011 Nome: PERDIDOS NO TEMPO (Peças p/ Autos Antigos) Email: taciomolina@hotmail.com Mensagem: Caro Portuga, Tive a honra de te conhecer e receber a sua visita no meu Stand de Peças esse ano em Lindóia , localizado em frente a ponte do SAAE , acompanhado do nosso amigo $alim. Leio constantemente suas crônicas que nos enriquecem muito no Antigomobilismo, enfocando matérias objetivas e de grande interesse. Parabéns amigo. Abraço Tácio Molina PERDIDOS NO TEMPO (Peças para Autos Antigos) Teófilo Otoni , M.G. (33)9956-1001
Data: 1/8/2011 Nome: Oppi Email: oppioldcars@hotmail.com Mensagem: Putz! Não havia pensado nisso. Vou criar um dia santo desses para mim também. Valeu Portuga!
Oppi
Data: 12/8/2011 Nome: Marcelo Senteio Email: mdmads02@gmail.com Mensagem: Professor, Que come;o maravilhoso, que ideia em geral, tanto do texto como do ato, em passear com o Loyd, sensaiconal!!! parabens!!! Seu amigo e aluno Marcelo Senteio
Data: 24/6/2012 Nome: alexandre de souza pellin Email: allesp@uol.com.br Mensagem: Linda crônica amigo Portuga. Toda vez que vou pegar o meu para dar uma volta digo um "oi" para o Loyd, afinal eles são amigos de garagem. São coisas que não dá para explicar, apenas quem tem carro antigo sabe como é. Abraço Alê.