Eu e o velho Visconde no
final da viagem de São Paulo a Brasília
Depois de longo tempo, volto a escrever
sobre nossas paixões automobilísticas. Volto
a sentir a agradável sensação de
racionalizar alguns pensamentos e colocá-los no
papel, sob a emoção irradiada pelo tamborilar
de um velho motor.
Desta vez, vou narrar um “causo” verdadeiro,
daqueles que gostamos de ouvir à beira do fogão
empoleirados nas cadeiras da mesa de uma velha cozinha.
Nossa história começa a ser contada em
uma cidade do interior de Minas Gerais que, para mim,
tem uma importância inusitada, pois foi lá
que nasceu minha companheira Elza que me acompanha há
32 anos – apesar de ainda não ter completado
os 30. Sempre corajosa, aguentando o suave sacolejar dos
nossos carros e compreendendo a paixão de colecionador
do seu marido.
A cidade em questão se chama Visconde do Rio Branco
e fica na Zona da Mata, sob a influência econômica
de Juiz de Fora – o município mineiro mais
carioca do mundo.
As crianças eram pequenas e a caçula nem
existia ainda. Resolvemos levá-los à terra
da mãe - lá ia o ano de 1984. Embarcamos
na nossa Brasília branca e embarafustamos estradas
adentro, rodando mais de 1000 quilômetros. Ao chegarmos
minha mulher começou, com sua memória de
dicionário, a discorrer sobre tudo. Lembrava de
detalhes incríveis para alguém que havia
saído dali ainda criança pequena –
das casas e das pessoas que viviam nelas. Histórias
saborosas que só as cidades do interior contam.
Em uma bela tarde de sol, andávamos explorando
a nossa Rio Branco quando vislumbrei, no fundo de uma
pequena indústria, acho que uma tornearia, não
sei bem, um carro escondido sob a poeira. Entrei corajosamente
e pedi ao proprietário para ver de perto. Era um
maltratado fordinho bigode 1928 verde, com os quatro pneus
furados, mal agarrados nas suas rodas raiadas de carroça.
Depois de muita negociação, o velho automóvel
acabou embarcado em um caminhão basculante que,
por coincidência, ia para Brasília. Neste
momento, começava o nosso vínculo com o
Visconde, que, aliás, dura até os dias de
hoje.
"famosa" placa
amarela de Visconde do Rio Branco
Desembarcamos o carro e começamos a trabalhar
para girar seu motor. Quem conhece um fordinho sabe que
não nega fogo, mesmo depois de longo abandono.
Logo meu carro funcionava, não vou dizer que como
um relógio, pois ainda falhava e chiava reclamando.
Andávamos, na maioria das vezes, com poucos cilindros.
As coisas iam caminhando assim, quando recebi um telefonema
do colecionador e professor de antigomobilismo, José
Roberto Nasser, me convidando para participar da Primeira
Viagem de Fordinho de São Paulo a Brasília.
Lá se foi o Visconde, entre Modelos A da mais alta
estirpe. O do Nasser, o do Bettiol e mais um, não
me lembro bem de quem. A aventura ia começar.
Passei três dias em oficinas paulistas melhorando
o motor. Troquei as rodas e, em uma enevoada manhã,
alinhamos com mais de 50 Fordinhos rumo a Brasília.
O Visconde foi aos trancos e barrancos, eu nem tirava
mais o macacão – está tudo filmado.
Era uma graxa só! A bordo, além deste contador
de casos, meu filho Fernando, ainda garoto, e o amigo
Roberto Costa.
No final de quatro dias, quando cheguei com atraso de
cerca de 3 horas à churrascaria na entrada de Brasília,
todos já comiam a sobremesa. Fomos aplaudidos de
pé e, neste momento de glória, nossos companheiros
de viagem batizaram, o meu velho e combalido fordinho,
com o simbólico nome de Visconde, pois tinha placas
amarelas de Visconde do Rio Branco, sua cidade de origem.
Até hoje ele ostenta as mesmas placas, o que, quase
sempre, me causa constrangimento com alguns insensíveis
agentes da lei.
A história não para aí. Mesmo tentando
adequá-la ao espaço deste site, fica difícil
não me estender mais um pouco. Pois sendo assim
continuo: resolvi reformar seu motor. Levei-o para a oficina
do Tião, em Sobradinho, onde todos os sábados,
depois da loja fechada, trabalhávamos sob a batuta
do velho mecânico. Enquanto eu esmerilhava as válvulas,
ele se dedicava aos intrincados segredos do motor. Até
hoje, já faz 25 anos, o Visconde, sem desafinar,
roda com o motor feito pelo mestre Tião.
Quando fui morar nos Estados Unidos, em 1990, simplesmente
encaixotei nosso herói na garagem da chácara.
Lá ele ficou por três anos, com os cilindros
cheios de óleo. Quando voltei, não tive
dificuldade em colocá-lo para funcionar. Agora,
ele é azul, com uma garbosa capota bege. Passou
por uma fina reforma e ficou até um pouco dândi
demais para o meu gosto.
O importante é que, quando tenho tempo, ando com
ele para tudo que é canto. Do lado, um escudo atesta
que participou da Primeira Viagem de Fordinho de São
Paulo a Brasília e, atrás, a velha placa
lembra Visconde do Rio Branco.
Eu e o velho Visconde nos
dias de hoje
*Carlos
Zarur é jornalista e sócio
do Veteran Car Clube de Brasília
Visite seu web site: www.carloszarur.com.br
Data: 18/5/2010 Nome: Claudio Roberto Morgental Email: crmorgental@gmail.com Mensagem: Zarur, maravilhosa tua crônica.o Mat2os foi quem deu a dica. Ademais antes de ter uma revenda DKW,muito Ford de bigode meu pai como mecânico consertou e muito andei neles. teria muita "estória" prá te contar também.Mas vou ver se te mando algumas fotos da época.forte abraço.Claudio.Santa Maria_RS
Data: 18/5/2010 Nome: Eugenio Email: eugeniopaixao@gmail.com Mensagem: O grande jornalista e amigo Carlos Zarur tem nossa admiraçao e , junto com o distinto Visconde , e peça importante do nosso querido VCC -Brasilia .
Data: 18/5/2010 Nome: carlos zarur Email: carlos@zarur.com.br Mensagem: Caro, Agradeço sua gentil mensagem e fico muito feliz por ter gostado. Achei importantante, também, que você tenha recordado dos fordecos que seu pai consertava. Para isto escrevemos: despertar as recordações que dormem em todos nós. abs Zarur
Data: 18/5/2010 Nome: carlos zarur Email: carlos@zarur.com.br Mensagem: O Eugênio Paixão é suspeito. Muito amigo e grande conhecedor de carros antigos. Admirador, como eu, do ronronar de seus motores. Zarur
Data: 19/5/2010 Nome: Jose Leite de Assis Fonseca Email: jlaf147@gmail.com Mensagem: Caro Zarur, gostei muito da sua crônica, relato suscinto do que realmente ocorreu e que conhecemos um pouco. Vi voce jovem com o carro velho e vi voce velho com o carro jovem. A matéria ficou muito boa, sobretudo porque dirigida àqueles que gostam de carros antigos, como nós, e que podem ver o milagre do Fordinho cada dia mais jovem... parabéns...deu saudade... gde abraço. Jose Leite.
Data: 20/5/2010 Nome: Carlos Zarur Email: carlos@zarur.com.br Mensagem: Ei Zé seu grande sumido. Fico feliz por ter notícias tuas e saber que você gostou das escrivinhações aqui do seu amigo. É verdade mesmo. Você conheceu o velho Visconde e acompanhou nossas aventuras com ele que, diga-se de passagem, nunca negou fogo. Muitas saudades e vê se toma vergonha e aparece. abs Zarur
Data: 22/5/2010 Nome: Henrique Moraes Email: lhsmoraes@ibest.com.br Mensagem: Parabéns pelo lindo relato. A essência, o doce sabor das palavras, neste caso, caminham afastados da simples vaidade do ser humano. Quando um simples "causo" deste, consegue unir paixão, família, amizade, aí sim formam-se os laços do que realmente deve ser o antigomobilismo. Perpetuar o passado em busca da melhoria do presente. Como pai, 41 anos de idade, filho de um pai maravilhoso, apenas um iniciante neste mundo dos carros, apaixonado pelos passats, sendo 04 na família, busco exatamente estas emoções. Próximo aos meus 10 anos de idade lavava e escutava música nos carros do meu pai. Hoje, fazemos dos carros um instrumento de nossos entrelaçamentos. Fico me perguntando: O que meus filhos contarão amanhã aos meus netos e amigos? O senhor, Sr. Zarur, deve se perguntar: O que deve ter sido este relato na cabeça do seu filho naquela época? Qual memória ficará nas mentes dos que lhe acompanham? Posso apostar que, assim como o fordinho, o Sr. como pessoa, não "nega fogo". Quais os valores devemos buscar diariamente, pensando sempre na melhoria das nossas vidas? Parabéns mais uma vez, mesmo não lhe conhecendo, entendo bastante da sua emoção, pois também busco nos pequenos eventos um grande motivo para ser e fazer alguém feliz. Acima de tudo ser uma pessoa de VALOR. Saudações!
Data: 24/5/2010 Nome: Carlos Zarur Email: carlos@zarur.com.br Mensagem: Caro Henrique, Suas palavras me emocionaram bastante. Entendi perfeitamente os seus sentimentos ao acompanhar aquela viagem que marcou minha vida e, tenho certeza, a vida do meu filho também. Até hoje – ele já está casado com 31 anos – de vez em quando, assistimos ao filme da viagem. Ele pequeno e eu já com os meus primeiros fios de cabelos brancos. Eu tinha lá meus 36 anos quando resolvemos colocar o nosso Visconde na estrada em 1984. Conselho é fácil de dar e difícil de cumprir. Mesmo assim, do alto dos meus 61 anos, acho que posso lhe aconselhar: não adie as coisas e crie a sua aventura, se possível no comando de um velho carro e tendo como companhia pessoas queridas, como um filho e um velho pai. Você e eles não esquecerão disto jamais. O tempo? Todos podemos arranjar - é só querer. De resto, é curtir o carinhoso ronco de um velho motor cheio de história. Abs Carlos Zarur
Muito obrigado pela carinhosa resposta. Compartilhamos do mesmo pensamento. Efetivamente precisamos buscar nossas aventuras, pois somos extremamente dependentes de momentos felizes. Foi um grande prazer! Saudações.
Data: 25/5/2010 Nome: Carlos Zarur Email: carlos@zarur.com.br Mensagem: Caro Henrique, O prazer foi meu e não se esqueça - pé na estrada!! abs Zarur
Data: 30/5/2010 Nome: Dib Franciss Email: dibfranciss@hotmail.com Mensagem: Querido Mestre Zarur, Tudo que vc escreve tem o condão e a mágica de nos fazer embarcar na viagem junto com vc! E é exatamente como conviver com essa nobre figura que é vc. Sinto enorme orgulho e alegria de poder tê-lo como amigo e confrade no CLUBE DO FORDECO DE BRASÍLIA. Parabéns pelo artigo tão emocionante !! Como eu gostaria de ter estado nesse momento histórico ao lado de vc de tantas outras "personalidades" do antigomobilismo. É por isso que a gente marca os passeios de fordinho aqui, para tentar repetir esses momentos que vcs viveram antes de nós!! Um abraço e minha admiração incondicional. Dib Franciss
Data: 2/6/2010 Nome: Maria Nazareth Candido Ferreira Email: nazarethc@konet.com.br Mensagem: Caro Zarur, Excelente a crônica sobre o Visconde. Eu já tinha ouvido falar sobre ele, mas a história contada por você foi muito melhor. Parabens! Abraços para Elzinha e filhos. Da prima, Nazareth De Visconde do Rio Branco-MG
Data: 3/6/2010 Nome: Carlos Zarur Email: carlos@zarur.com.br Mensagem: Caro Amigo Dib,
Muito obrigado pelos seus comentários sobre as aventuras do Visconde. Fico feliz por você ter gostado e sinto por, naquela época, você ainda ser uma criança e por isto não ter podido participar. E viva o nosso clube do Fordeco. Abraço Zarur
Data: 3/6/2010 Nome: Carlos Zarur Email: carlos@zarur.com.br Mensagem: Cara Prima Nazareth, Fico feliz por você ter gostado do nosso causo sobre o Visconde. Elza e eu estamos aqui em Araxá para vermos a exposição de carros antigos. O Visconde não veio, pois está velho e cheio de manias. Depois daquela viagem o nome de Rio Branco, que o Visconde carrega com orgulho em sua placa, focou ainda mais conhecido pelo mundo afora. Receba, em nome de Elza e no meu próprio, um forte abraço Carlos
Data: 2/8/2010 Nome: Email: Mensagem:
Data: 4/8/2010 Nome: Marcelo Senteio Email: mads73@pop.com.br Mensagem: Zarzur, Sensacional amigo, o "velho" Fordinho impera sempre! Parabéns amigo pelo lindo carro, pelo grande passeio e por nos proporcionar tal leitura! Dentre minhas "velharias" também está um Fordinho 29, que aguarda, pacientemente sua vez, de voltar a sentir o vento no rosto, em breve andaremos juntos! Ford abraço Marcelo Senteio
Data: 21/8/2010 Nome: Carlos Zarur Email: carlos@zarur.com.br Mensagem: Caro amigo, É isto aí. Queremos ver este seu fordinho rodando fagueiro, pois nossas relíquias foram feitas para andar levando-nos de roldão. Fico feliz que tenha gostado da nossa história com o Visconde que, diga-se de passagem, está firme e forte nos dando alegria e prazer. Abs. Carlos Zarur