|

Indústria
nacional
Os carros de 1968
*Eduardo Rodrigues

Época de revolução na
política, na cultura e nos costumes de toda a humanidade,
1968 foi um ano mundialmente histórico em virtude
de todos os fatos então ocorridos. Jovens ouviam
e cantavam “Alegria Alegria”, de Caetano
Veloso, “Roda Viva”, de Chico Buarque
e “Pra não dizer não falei das flores”,
de Geraldo Vandré, músicas que incitavam a
repulsa e indignação contra o regime militar
brasileiro, além de promoverem passeatas e protestos
nas principais capitais brasileiras, como São Paulo
e Rio de Janeiro. Aquisições de empresas e
lançamentos de novos produtos marcaram, na mesma
época, o amadurecimento da indústria automobilística
no Brasil: encerrava-se o primeiro ciclo, iniciado em 1956
com o apoio de Juscelino Kubitschek, em que nossos automóveis
eram, em sua maioria, cópias de produtos que se tornaram
obsoletos no exterior, iniciando-se uma nova fase caracterizada
pelo surgimento de carros realmente modernos e feitos para
as condições brasileiras, projetados e desenhados
por profissionais brasileiros, em departamentos criados
por nossas montadoras.
Em tempos de ditadura militar, movimentos comunistas, censura,
gasolina farta e barata, e nenhuma preocupação
com o meio ambiente (ao contrário de hoje), 1968
significou o apogeu da primeira revolução
da indústria automobilística tupiniquim: precedidos
pelo lançamento do Ford Galaxie, no ano anterior,
seis novos carros além de aperfeiçoamentos
em modelos pré-existentes surgem em 68. Astro do
filme “Roberto Carlos em Ritmo de Aventura”,
rodado em 1967, o Chrysler Esplanada passa a sair de fábrica
com garantia de dois anos ou 36.000 quilômetros (então
a maior do Brasil). Após estabelecer fusão
com a Willys Overland do Brasil, a Ford trabalha no aperfeiçoamento
dos Jeep, Rural, Aero-Willys e Itamaraty, enquanto a General
Motors testa e faz os últimos preparativos para o
lançamento do Opala.
 |
| VW 1600 |
Alheio a todos os problemas políticos e sociais,
em novembro acontece o VI Salão do Automóvel
de São Paulo, último realizado no Ibirapuera,
demonstrando que o espaço ficou pequeno para abrigar
tantas atrações, provenientes de uma indústria
que avançava a passos largos, rumo à década
que estava por vir. O Esplanada GTX, Ford LTD – primeiro
auto nacional com câmbio automático –,
FNM 2150 e o VW 1600 de quatro portas, popularizado pelo
apelido “Zé do Caixão”, foram
apresentados no Salão de 68.
Indiferente às novidades da concorrência,
nenhum outro carro chamou tanto as atenções
quanto o Chevrolet Opala: lançado oficialmente em
19 de novembro, foi o ponto alto da mostra, formando aglomerações
de visitantes, interessados em conhecer o primeiro carro
de passeio nacional da GMB. Com duas versões de acabamento,
Standard e Luxo, quatro portas, motores de 4 e 6 cilindros,
era um sedã médio-grande, inspirado no alemão
Opel Rekord, embora com mecânica de origem norte-americana,
baseada no Chevy Nova: um carro confortável, resistente
e com generoso espaço interno para quem não
tinha condições de adquirir um Galaxie, ou
para os que não queriam comprar um produto ultrapassado,
como o Aero-Willys, em pouco tempo tornou-se um sucesso
no mercado brasileiro.
 |
| Opala Sedan
1971 |
Dois anos depois, grades e acabamentos diferentes caracterizavam
sua primeira reestilização, juntamente com
o surgimento dos Opala Gran Luxo e SS, apresentados como
modelos 1971: o SS – abreviatura de separeted seats,
em alusão aos bancos dianteiros individuais –,
estreava o motor seis cilindros de 4100 cc (um aperfeiçoamento
do “3800”), além de câmbio de quatro
marchas no chão, freios com circuito duplo a disco
na dianteira e suas inconfundíveis faixas pretas,
dignas de um autêntico esportivo. No ano seguinte
são lançados os cupês de duas portas
com traseira fastback, sem coluna central e uma silhueta
mais atraente. Com estilo mais “jovial”, em
pouco tempo o cupê conquistou as preferências
dos consumidores e suas vendas cresceram substancialmente:
o modelo SS tornava-se disponível somente nesta configuração
e o motor 4100 se estendia às demais versões
da linha.
 |
| Caravan 1975 |
A fim de adequar o produto às medidas de contenção
impostas pela crise do petróleo, surge inclusive
uma versão “esporte-econômica”:
SS-4. Pouco mais simplificado que o esportivo convencional
– que virou SS-6 – o novo modelo com propulsor
de 98 HP, batizado de 151-S, era superior aos demais Opalas
de quatro cilindros, porém sem prejuízo para
a economia de combustível. Para 1975 novos faróis,
grade, lanternas, parachoques e até a inversão
do capô do motor, passando a abrir de trás
para a frente, constituíram a primeira grande modificação
da linha Opala, que simultaneamente foi acrescida do Comodoro
(que substituiu o Gran Luxo) e da Caravan, station-wagon
igualmente baseada em projeto europeu, para completar a
gama de produtos da família. Para combater a concorrência
do Maverick GT V8, o SS-6 recebeu o propulsor 250-S, cuja
potência chegava aos 171 HP. Mais adiante o Comodoro
adere à onda econômica com o motor 151-S, e
a Caravan também ganha a sigla SS, tornando-se a
primeira perua de apelo esportivo da indústria brasileira.
Equipado com diversas opções de equipamentos
e acessórios, como direção –
mecânica ou hidráulica –, banco inteiriço
ou individuais na frente, ar condicionado, caixas de câmbio
de 3, 4 ou 5 marchas manuais (além da transmissão
automática), vidros/travas elétricos e outros
recursos introduzidos com o passar do tempo, o Opala podia
ser considerado um “automóvel de 1001 utilidades”.
A grande variedade de acabamentos, motores e outros itens
o deixavam em condições de atender a diferentes
públicos, dos executivos aos apaixonados por velocidade;
dos taxistas às famílias menos afortunadas
que não abriam mão de um automóvel
espaçoso e confortável para o dia-a-dia. Uma
flexibilidade também empregada por alguns carros
atuais, embora sejam menores em tamanho e mais modernos
na concepção.
 |
| Corcel Cupê
1969 |
O outro lançamento de 1968 que igualmente teve uma
carreira bem sucedida e duradoura foi o Corcel. Apresentado
em 26 de setembro, era um carro médio familiar, menor
que o Opala, com mecânica baseada nos veículos
Renault, motor de quatro cilindros com 1300 cc e tração
dianteira: a ligação entre a Ford e a multinacional
francesa é consequência da fusão entre
a Ford e a Willys Overland do Brasil. Em 1966, a segunda
empresa começou a desenvolver um novo carro, com
mecânica equivalente a do Gordini, fabricado sob licença
da Renault, porém mais avançado e de categoria
superior. O “Projeto M”, seu nome código,
foi incluído no acordo de parceria entre as duas
firmas americanas: juntas adotaram a razão social
de Ford-Willys do Brasil, dando continuidade ao desenvolvimento
do produto até seu lançamento.
Assim como o Chevrolet, o Corcel era oferecido inicialmente
apenas com quatro portas em versão Standard, evidenciando
seu aspecto despojado. Com motorização de
menor cilindrada chegava para disputar mercado com a Volkswagen,
então prestes a lançar o Zé do caixão.
No Salão do Automóvel foram mostrados os modelos
sedã de luxo, cupê standard e luxo, e ainda
o GT, que se tornaram disponíveis aos consumidores
respectivamente em janeiro, abril e julho de 1969. A partir
daí o Corcel cupê conquistou as preferências
do público, com um perfil mais elegante que o sedã:
os vidros laterais traseiros que se movimentavam por manivelas,
como no Opala duas portas, era um dos principais atrativos
do modelo, que a cada ano aumentava sua participação
no “mix” de produção da linha
Corcel, contribuindo para o fim do quatro portas em 1977.
 |
| Corcel LDO 1975 |
Voltando no tempo, em março de 1970 era lançada
a Belina com as mesmas qualidades do auto de passeio, porém
com traseira modificada de forma a aumentar o porta-malas,
tornando-se um verdadeiro utilitário para a família,
como o VW Variant – seu maior concorrente –
e outros veículos similares. Seis meses depois, grades,
lanternas e calotas novas, painel reestilizado, melhorias
na suspensão e nova decoração externa
para o GT, marcavam a chegada da linha Corcel 71. Um ano
mais tarde, o esportivo adotava motor de maior capacidade
volumétrica (1400 cc) denominado XP. O mesmo propulsor,
mas com potência reduzida, em pouco tempo foi estendido
para a Belina e depois para os demais Corcéis, anulando
em parte a exclusividade do modelo “esportivado”.
Apresentado com grande antecedência, em junho de 1974,
o Corcel 75 trazia o maior pacote de modificações
até então incorporadas à linha: grade
dianteira quadriculada em plástico, lanternas traseiras
grandes divididas em dois segmentos horizontais, capô
redesenhado, relógios de painel com molduras retangulares,
novos botões de comando, bancos com estofamento redesenhado,
grade em estilo colméia e faróis de neblina
retangulares no GT, entre outros detalhes. O destaque principal
foi a estreia da versão LDO – Luxuosa Decoração
Opcional –, com acabamento interno bicolor marrom
e bege para os modelos cupê e Belina. O lançamento
antecipado foi uma resposta a estratégia da Volkswagen,
que na mesma ocasião apresentava o Passat.
 |
| Corcel II, LDO |
Novamente como ofensiva à concorrência, em
setembro de 1977 surgia o Corcel II. Apresentado como um
novo conceito em automóvel, como o próprio
nome sugeria era a segunda geração do veículo,
com carroceria inteiramente redesenhada, frente e traseira
com faróis e lanternas retangulares, piscas-piscas
dianteiros integrados aos faróis, novos parachoques,
interior mais espaçoso (sem representar, entretanto,
um aumento no tamanho do veículo), painel moderno
e funcional, além de bancos mais confortáveis
e macios. Foram mantidas todas as versões da linha
75 – o Corcel Luxo virava “L” –,
ao passo que a Belina foi agraciada com as mesmas melhorias.
Apesar de não ser um carro popular, o Corcel II foi
um ícone da indústria automobilística
nacional na segunda metade dos anos 1970, batendo sucessivos
recordes de produção e vendas: em apenas dez
meses de mercado foram produzidas 100.000 unidades. Logo
após, em novembro de 78, surgia o motor de 1600 cc,
alternativa mais possante oferecida paralelamente ao “1400”.
A partir do Corcel, as cilindradas dos motores passaram
a ser conhecidas popularmente por abreviaturas, como 1.4,
1.5, 1.6 e assim por diante, tornando-se uma regra nos dias
atuais. O excepcional sucesso alcançado pelo médio
da Ford lhe rendeu dois títulos de “Carro do
Ano” pela revista Auto Esporte, em 1969 e 79, além
de gerar novos derivados na década de 80, como o
luxuoso Del Rey. Embora o veículo original tenha
saído de linha em julho de 86, a história
da família Corcel só terminaria em 1997 com
o fim da camioneta Pampa, classificando-o como um dos carros
mais diversificados, com uma longa trajetória dentro
de nossa indústria automobilística, perdendo
apenas para o Fiat Uno, Fusca e Gol da VW.
 |
| Comodoro 1980 |
Bonito e moderno para a época, o estilo frontal
do Corcel II serviu de inspiração para as
outras montadoras: os faróis retangulares, grade
e pisca-piscas de perfil retilíneo passaram a caracterizar
o Opala em 1980. No mesmo ano é iniciada a comercialização
do Diplomata – novo “top de linha” –
reposicionando o Comodoro ao nível intermediário,
enquanto os SS eram retirados de produção.
Com novo painel na linha 81 e outras modificações
o fenômeno da Chevrolet se aperfeiçoava constantemente,
adaptando-se às tendências de cada época,
apesar da idade do projeto, mostrando que sua aposentadoria
estava cada vez mais próxima: em 16 de abril de 1992
um Diplomata série Collectors e uma Caravan ambulância
“selaram” o definitivo encerramento da produção,
após um milhão de unidades fabricadas. Em
virtude de suas qualidades, anos depois o Opala ainda é
considerado o melhor automóvel já construído
no Brasil. Prova disso está nos diversos clubes existentes
pelo país, criados para preservar sua memória
e promover a integração entre seus atuais
proprietários, além dos dez títulos
consecutivos de “Melhor Carro Fora de Linha”,
concedidos por um site especializado, demonstrando a importância
que o Opala exerceu na história da indústria
automotiva brasileira.

<<VOLTAR
AO ÍNDICE DE ARTIGOS
|
*Eduardo Rodrigues é desde
criança um entusiasta e conhecedor de automóveis
de produção nacional, de diferentes
marcas e modelos. O pouco apoio da família,
que não divide o mesmo gosto pelos motores
(uma peculiaridade de sua história), não
foi empecilho para torná-lo um verdadeiro apaixonado
pelo assunto, que adquiriu seus conhecimentos lendo
revistas Quatro Rodas, Auto Esporte, Motor 3 e colunas
especializadas de jornais, desde 1980, quando tinha
apenas 12 anos de idade, aos dias atuais. No entanto,
somente aos 28 anos Eduardo teve seu primeiro contato
com o antigomobilismo quando conheceu o Clube de Automóveis
Antigos de Santos, onde já atuou, entre 1997
e 2002, como responsável direto pela produção
do jornal do clube. Embora não tenha curso
superior – por opção –,
com seus conhecimentos de língua portuguesa
adquiridos no colégio, hoje escreve matérias
sobre carros nacionais antigos para as revistas A
Biela e Classic
Show, além de realizar anualmente
a cobertura do encontro de autos antigos de Santos
para o Portal Maxicar e outros sites especializados
em antigomobilismo do Brasil.
|
Reprodução
proibida, sem a prévia autorização.
|