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O resgate
do 1000sp,
um carro do Peru!
*Hélio Marques

Esta é a historia de uma grande aventura, que consistiu
em ir a um pais distante, movido pela paixão automobilística.
Servirá para transmitir esta experiência aos
leitores, mostrando que paixão e determinação
concretizam nossos sonhos e temperam a vida. Serve também
para prestar a justa homenagem a todos que de algum modo
participaram da aventura emprestando seu entusiasmo ou trabalho.
Desde já muito obrigado!
Em algum tempo no passado, lá estava eu visitando
o Museu da Audi na Alemanha quando deparei com um Auto Union
1000sp conversível branco com o estofamento vermelho.
Gamei! Mas tinha feito um voto de fé, de refazer
a memória do DKW-VEMAG aqui no Rio de Janeiro, e
só desejar aquele alienígena bonito já
era pecado. Já me enchia de culpa, pois tinha que
permanecer fiel à marca VEMAG. Mas como era sonho,
devaneio, não havia no Brasil nenhum a venda, logo
seria esquecido e pronto.
Acontece que o destino já tinha começado
a conspirar e eu não sabia. Aquela viagem a Alemanha
organizada pelo Eduardo seria aproveitada por ele para trazer
o vidro dianteiro do 1000sp dele, bem como as borrachas.
Este fato já curioso no início, que agora
recordando sua nuanças, vejo que contra o destino
perdemos todas! No dia marcado, chega o alemão com
um vidro na mão, embalado apenas em plástico
bolha e entrega para o Eduardo “em mãos”.
Perguntei a herr Martin Hess como iria levar o vidro de
1,35x35 no avião, o que ele logo respondeu com aquele
inglês arrevesado: —muita fázil; enfia
no detraz da banca.
Ponderei com o ilustre representante da Sturmgewer que com
um vidro de carro na mão ninguém sequer entrava
no avião (era inclusive muito antes de 11 de setembro
de 2001), e que ele tinha por obrigação moral,
já que tinha vendido o vidro, de nos ajudar a comprar
o material para construir um caixote para o vidro ser embarcado
para o Brasil como carga! A contragosto ajudou (o que acho
que foi decisivo para consolidar nossa amizade Teuto-Niteroiense)
levando- nos a uma loja de materiais de construção
para comprar a madeira compensada e isopor. Voltamos para
o hotel e 4 horas depois tínhamos uma réplica
de um caixão de defunto tipo faroeste que serviu
a três propósitos: iniciou-me na arte da restauração
de um1000sp, levou o vidro do Eduardo são e salvo
e enterrou de vez a relação de amizade ou
seja lá o que seria com o Hess (acho que ele é
sobrinho do outro Martin, o Borman dos campos de concentração).
Passado algum tempo, lá ia eu tocando a minha vida
tranqüilo, entre um Belcar e um Candango às
vezes uma Vemaguet quando, de propósito, sem nenhuma
compaixão, movido pelos mais perversos sentimentos
de amizade, o Carlos Zavataro me manda uma copia de um e-mail
com os seguintes dizeres: “Olha Hélio, o peruano
parece que desistiu de reformar o 1000sp. Você não
quer ficar com o carro?” E anexou 2 fotos. Foi demais!
Após muita (dois minutos de) reflexão, lá
estava eu, escrevendo para o grande amigo Fernado Murga
que, sem ter sido ainda o proprietário do DKW 1000sp
já tinha desistido dele (e ele morava a 400 quilômetros
do carro). Eu que estava a apenas 14.000 quilômetros,
estava todo entusiasmado! Como dizia meu falecido sogro:
—É..., tem gente que já nasce bobo assim
mesmo“.
Comecei logo enchendo o saco do amigo peruano (É
o que se diz por aí: vamos encher o saco dos amigos,
porque os inimigos não deixam!) pedindo para ele
comprar o carro em seu nome, para que me pudesse fazer um
proposta por escrito, para eu começar a papelada
da importação legal conforme manda a lei brasileira
(e como manda!). Com a proposta na mão e xerox de
anúncios que mostravam que era possível comprar
na Alemanha um 1000sp por 500 dólares no estado do
meu (imaginem o estado!) . Conseguimos do então presidente
da FIVA no Brasil, o Sr. José Aurélio (um
baluarte no antigomobilismo no Brasil) a declaração
que o automóvel era de importância histórica
para o Brasil e partimos para o pedido da guia de importação.
Dinheiro enviado, guia de importação legal
e concedida na mão, agora era só programar
a viagem de ida e volta - moleza! O plano era o seguinte:
como os impostos no Brasil são em cascata (e que
cachoeira!), se eu viesse rebocando o carro, não
pagaria nada de imposto sobre o transporte e ainda teria
(que depois descobri que só serve para coisa trazida
no aeroporto!) a vantagem de abonar u$500,00 por pessoa
em bens adquiridos, do imposto final - ou seja, não
pagaria nada! (a nossa capacidade de inventar desculpas
para si mesmo para consolidar uma maluquice é enorme).
Grande negócio, então vamos fazer logo! Mas
como sair daqui do Brasil e ir a Arequipa no Peru, apenas
14.600 quilômetros ida e volta, passando por 4 países?
Tem que ter, para começar, companhia, porque sozinho
é um saco. Propus a um amigo que tinha uma Ford Ranger
diesel a empreitada, porém quando soubemos que para
o lado de lá a pick-up Ranger era mais roubável
do que no Brasil e que o seguro não cobriria, desistimos.
Aí com o negócio do GNV, mais barato e, tendo
gás no Brasil e na Argentina, se eu fosse com o meu
Omega 4.1, só gastaria gasolina no Chile e Peru que
era mais barata! Mais um ponto a favor.
Para rebocar o carro comprei um toolbar tipo de jipe e
mandei fazer, com base no do Eduardo, um adaptador para
prender no chassi do 1000sp. Conversando com ele, me disse
que conhecia bem pelo menos o caminho até o Chile
(sul, Uruguai, Argentina e Chile). Propus boca livre total,
com todas as despesas por minha conta, e ele topou. Calculamos
que levaríamos 15 dias no total e me preparei de
corpo e alma para a aventura e o resgate. Bom, a aventura
foi completa, já o resgate... Papelada completa carro
revisado 4 estepes de DKW + 2 de Omega, duas bombonas de
25 litros vazias, ferramentas, 2 macacos, o cambão,
documentos de importação, licença,
passaporte, vacinação e o cacete a quatro!
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| Chegando a Mendoza |
Numa bela manhã de dezembro parti para São
Paulo, para pegar o Eduardo em casa. Como só cheguei
a tarde, partimos no dia seguinte para o sul com a primeira
parada na cidade de Ana Ré, depois de Curitiba-PR.
Pernoitamos e no dia seguinte seguimos para o Chui e depois
Uruguai, onde ficaríamos na casa do amigo Carlos
Gardiol. Também pernoitamos na casa do ilustre “dkvezeiro”
mentor do “Circulo Uruguayo Del Auto Union”.
No dia seguinte pegamos um enorme aerobarco que levou-nos
(carro e tudo em 3 horas) para Buenos Aires. La chegando,
conheci o Gustavo Bejega, aficionado e mola mestra do DKW
na Argentina, que logo foi resolvendo um pequenino problema.
É que o bico de abastecimento do gás na Argentina
é mais largo, e ademais — ¿hay un permiso¿
— que foi logo custando 50 dólares para certificar
os cilindros de gás do Omega (made in Argentina!).
Partimos logo que as adaptações terminaram,
em direção a Mendoza aonde pernoitaríamos.
O combinado seria de ir o mais rápido possível,
já que na volta estaríamos limitados pelo
reboque e aí então se faria turismo, o que
pudesse.
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| O deserto de Atacama |
Atravessamos a cordilheira entre Argentina e Chile e rumamos
para o deserto de Atacama em direção a Antofogasta.
Gente, o deserto é. . . assim. . . deserto! Não
tem nada, nenhuma planta, capim, ser vivo. Uma paisagem
lunar! No inicio tudo é festa, mas 400 quilômetros
de nada com a perspectiva de mais 800 quilômetros
iguais enche o saco de qualquer naturalista por mais aficionado
que seja. De vez em quando um povoado de 4 casas (do que
eles vivem não sei!). Não paramos em lugar
nenhum, só em dois postos de gasolina, pois não
há nada para se ver. Há uma tradição
nesta estrada, a Carretera Panamericana, que é colocar
cruzes ou altares em cada local que ocorreu acidente com
morte. E haja cruz e altar, um a quase cada quilômetro,
já que a estrada existe desde a década de
60 e como é só reta, a turma abusa. Eu mesmo
quis ver como o Omega ia, e fazendo um “peguinha”
com um Daewoo Espero, deixei ele para trás a 200
por hora (por pouco tempo). Mas o efeito psicológico
dos enfeites fúnebres é deprimente. Outra
coisa que eu descobri lá, foi um produto que se pode
chamar de GASOLINA: é pura, sem álcool, 98
octanas. O Omega fez 12 km/litro a 120 km/h (com ar ligado).
Neste ponto foi uma enorme vantagem, pois calculava eu fazer
no máximo 8km/l.
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| A bela cidade de Arica, no
Chile |
Chegamos a Antofogasta no cair da noite. É uma cidade
a beira mar muito bonita. Tinha combinado com o Eduardo
ir o mais direto possível, deixando para fazer turismo
na volta, já que rebocando, não dá
pra correr mesmo. Fazíamos 800 quilômetros
por dia desde o Uruguai e ele começou a dar sinais
de cansaço e da idade avançada. Talvez devido
a isto, Eduardo começou a ficar cansado do ritmo
e me acusou de “aprendiz de Paris-Dakar”. Queria
ficar lá por mais uns dias para descansar (a cidade
é realmente bonita). Ponderei que iria quebrar o
prazo e a gente pararia na volta sem problemas. Se queixava
que não tinha mais posição para sentar
(gente, não interprete mal a situação,
o homem é macho, paulistano quatrocentão,
que em função do desgaste natural da idade,
já falta aquela gordura natural que nos protege o
estofamento traseiro). Imediatamente cedi minha almofada
de dirigir e toquei os mais de 800 quilômetros que
faltavam para Arica, no Chile. Chegando lá o meu
entusiasmo era inversamente proporcional ao dele: estava
cansado e me disse que precisava de dois dias para repousar;
me propôs que eu seguisse para Arequipa, no Peru,
400 quilômetros adiante, que ele me esperaria na volta
quando eu rebocasse o carro para Arica, no Chile.
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| A longa subida até
Arequipa, no Peru |
No dia seguinte toquei para lá. Há 50 quilômetros
fica a fronteira entre Chile e Peru. Achei que ia ser rápido,
porém me levou cerca de 2 horas. Enquanto Arica é
a nível do mar, Arequipa está a 2.500 metros
de altura. Foi uma subida e tanto! O que eu não sabia
é que o perigo mora na decida. Levei cerca de 6 horas
e à tardinha estava chegando na cidade. Segui o roteiro
que me fez o Senhor Roberto e consegui chegar na sua revendedora
Nissan sem problemas. Não imaginava o quanto de hospitalidade
me esperava. Fui recebido como amigo de longa data, por
este peruano filho de ingleses e casado com uma, que coleciona
(claro!) carros antigos, a maioria Studebakers (deve ter
uns 10)! Fomos logo ver o carro, e não preciso dizer
da minha emoção ao vê-lo. Estava com
tudo no lugar, mas o que eu não sabia era do “probleminha”
na roda. Me encaminhou a um hotelzinho de amigos, muito
simpático e confortável, uma casa tipo alpina
que foi transformada em hotel. Arequipa, para os que não
sabiam (me incluam nesta) é patrimônio da humanidade
pela ONU, em função da coletânea arquitetônica
espanhola dos séculos 17 e 18. Com se situa em terreno
sujeito a abalos, tem sido vítima de alguns que deixam
marcas nas construções antigas. Porém,
a tenacidade dos moradores faz com que os danos sejam minimizados
pelos reparos. Perece realmente uma cidade espanhola antiga
no seu centro histórico. Eu recomendo a quem vá
ao Peru ou norte do Chile, visitar.
No dia seguinte, tour pela cidade (era domingo) e jantar
à noite com os Roberts.
Na segunda feira, fiz o reconhecimento do veículo.
Não tinha condições de rodar nem rebocado.
O eixo dianteiro esquerdo estava comido pela falta da chaveta
e a cuba da roda também comida e com muita folga.
Desmonta tudo, manda para o torneiro encher o eixo e o cubo
da roda — só retificando o eixo — mas
não dava porque a retifica tinha fechado para Natal.
Monta assim mesmo, mete uns calços aperta a porca
e solda tudo, porca e eixo – Milagre! Não ficou
empenado e aparentemente firme! Começo a rebocar
o carro e as rodas dianteiras estão tão desalinhadas,
que cantam guinchando, parecendo uma curva em alta velocidade.
Volta para oficina, re-alinha as rodas com barbante deixando
fechado 1mm . Liga para o Eduardo (lá vem chumbo
grosso) que resolveu passar o Natal em casa e ia pegar um
avião de Arica, para o Brasil. Não ia mais
voltar comigo, teria que me virar sozinho. Bem, como ele
mesmo disse: "Te trouxe até aqui. É só
pegar o caminho de volta". Foi a melhor coisa que podia
acontecer, vocês vão ver.
No dia seguinte pé na estrada, caro abastecido,
o 1000sp seguindo rebocado igual a cachorro manso, sem problemas.
Era só descer os 2.500 metros, por 400 quilômetros
e estaria em Arica, no Chile. Só que eu nunca tinha
rebocado nenhum carro de cambão e, amigos, não
é ato simples assim. No inicio, na reta 80, 90 quilômetros,
para não sacrificar o bichinho. Aí começa
a descida, mais ou menos como a serra de Teresópolis-RJ,
só que pista única meio estreita, mão
dupla. Alguns caminhões trucados e com reboque, e
eu ultrapassando todos a 60, 70 despreocupadamente. Logo
que termino de passar 2 caminhões, uns 2 km adiante
vem uma curva que parece mais fechada, tiro o pé,
e nada do carro desacelerar, então começo
a pisar no freio. Foi o segundo milagre: o DKW empurrou
a traseira do Omega, perdi a aderência e rodei 180
graus ficando na contramão, na pista da subida. Um
segundo de espanto! O pensamento voa! Os caminhões
vêem ai, cacete! Religa o Omega rápido! Acelera
e sai da contramão, seu carioca babaca, que os peruanos
vem ai com tudo. Passei voando para a outro pista, agora
subindo vagarosamente, coração acelerado,
para uns 200 metros adiante cruzar como os dois caminhões
enormes descendo um atrás do outro, 30 metros de
distancia. Os motoristas olham pela janela, como se perguntando:
— Ué, esse cara tava descendo, na frente da
gente e agora resolveu voltar? Deve ser maluco!
Mais adiante numa clareira grande e larga encostei os carros,
saltei para ver os estragos: o pára-lama do 1000sp
tinha ficado espremido no pará-choque do Omega, o
cambão entortou uns 2 mm, ademais nada, ufa! Agora
com muuuito cuidado fiz uma volta completa e voltei para
a pista de decida, e 30, 40 km/h, igualzinho aos caminhões.
Só fui reencontrar eles uma hora depois em uma reta.
Eles a 50 e eu a 70, para depois reduzir de novo. Devem
ter pensado: — Esse cara é doido. Em parte
com razão.
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| O carros devidamente guardados |
A noitinha chego na fronteira Peru-Chile. Na alfândega
peruana, um local horroroso, sujo e feio, examinam superficialmente
os documentos, carimbam meu passaporte e me despacham. Na
do Chile, um prédio de dois andares, sou recebido
logo por dois fiscais que me crivam de perguntas. Explico
que fui buscar o carro antigo, que tenho a guia de importação
etc e tal. Não acreditam e começam a procurar
nos carros o verdadeiro motivo (só podia ser droga!)
da viagem. Soltam os forros do Omega e com uma lanterninha
espiam todo o carro — claro nada encontram. Agora
o DKW. A esta altura eu já estava contando toda a
história do 1000sp e porque um brasileiro ia sair
de Niterói e entrar no Peru por causa de um carro.
Finalmente resolvem espiar o tanque de gasolina. Já
iam abrir o tanque do 1000sp com uma talhadeira. Peço
uma chave 10mm e solto a bóia. Espiam com a tal lanterninha.
E não é que tinha quase 1/4 de gasolina! O
tanque não estava furado! — Que bom!, comentei.
Ai eles me dispensaram. Já eram umas 21 horas e a
inda faltavam uns 50 quilômetros para Arica. Tinha
notado na ida, uma pensãozinha na saída, com
uma garagem do lado. É pra lá que eu vou,
o Albergue da Nona. Paro na porta e pergunto se tem quarto
e vaga. Me atende o dono. Muito simpático, diz que
sim e parte para abrir a garagem. Abro bem na rua para entrar
direto. O Omega entra a metade e estanca. A roda do 1000sp
pegou na guia. Acelero um pouco mais e nada, parece ancorado!
Salto para ver e nem acredito o que vejo: caiu a porca da
roda do DKW, aquela que tinha sido consertada e soldada
e o carro esta arriado por sobre ela! Digo um palavrão
e ando a rua toda atrás da porca. Nada! Peço
ajuda ao hoteleiro para me arranjar ao menos um prego para
eu prender o cubo no lugar (onde deveria estar o contrapino
que também sumiu?) e ele aparece com um. Levantamos
o carro com o jacarezinho. Roda e cubo no lugar, os dois
carros pra dentro e o cara gentilmente, vendo meu estado
de ânimo, diz: — Deixa tudo como esta. Entra,
toma um banho, dorme e amanhã a gente procura um
mecânico.
Obedeci sem pestanejar. Dormi feito anjo e acordei com uma
grande claridade sobre a cama, de uma clarabóia,
aberta e sem tampa. Me vesti e fui tomar café. Preocupado
com a tal da clarabóia, falei com o Sr Hector que
alguém deixou a tal da clarabóia aberta e
que podia chover na cama. Ele riu e disse: — A ultima
vez que choveu aqui fazem 18 anos. Nenhum dos meu dois filhos
já viu a chuva.
— Que terra estranha... E de onde vocês tiram
água para beber? — Bom tem poços artesianos,
água canalizada das montanhas e dessalinizada do
mar, além de água mineral. Chuva não!
Fui então ver o carro. Separamos os dois, colocamos
em duas vagas e com o macaco fui examinar o estrago. Tínhamos
voltado ao estado inicial: eixo roído, cubo roído,
chaveta e porca sumidas. Ela disse: — Não tem
problema! Vamos procurar um mecânico que tudo se resolve.
Aí gente, eu comecei a pensar: — Cacete, você
é um cara de sorte: rodou na estrada 180 graus e
não foi atropelado por dois caminhões. Desceu
2.500 metros, andou 400 quilômetros e a droga da roda
solta na porta da garagem do hotel. Tem alguém te
dizendo: “Helio, você agora vai atravessar o
deserto do Atacama, onde não há nada por 1.500
quilômetros, depois mais 3.500 quilômetros até
Niterói. Não abusa da sorte!”. Resolvi
aceitar o conselho da “voz interior” que era
puro bom senso.
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| O Natal com a família
Galiano |
Em vez de mecânico perguntei se ele conhecia alguma
transportadora, que me levasse o carro para o Brasil. Ele
disse que não, mas era só procurar na lista
telefônica, que com certeza tinha, porque o comércio
Chile-Bolívia era intenso, com muitos caminhões
indo e vindo. Assim fiz: contratei uma empresa, que por
escrito, me entregaria o carro em Corumbá, Mato Grosso.
Lá mesmo arranjei umas arruelas e uma porca grande
de calço para a roda ficar menos bamba do que estava.
Só que surgiu outro problema: era Natal e tudo estava
fechado. Tive que passar o Natal com a família Galiano,
que em matéria de hospedagem superou todas as minhas
expectativas.
Nos dias seguintes, toca despachante para lá, paga
taxa para cá, leva o carro para alfândega,
desembaraça o Omega para sair do Chile, conversa
com o transportador. Tudo acertado e vamos voltar. Como
dizia o Eduardo: "É só pegar o caminho
de volta!"
Cheguei de volta em Antofogassa, porém as notícias
da crise argentina e o dólar me impediram de parar.
Dormi então no Chile, a beira da subida dos Andes,
mas não sem antes ver algumas jóias da restauração
ou reprodução artística de Mercedes
Benz.
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| A fantástica paisagem
dos Andes |
Subi os Andes Chilenos e tome alfândega de fronteira
outra vez. Nova encheção de Saco: —
Mas o senhor tinha um companheiro de viagem na ida, o que
foi feito dele?
— Bom, ele resolveu voltar de avião para o
Natal, do Chile mesmo (quem pergunta são os argentinos.).
O cara olha desconfiado, pensa ele: — Será
que ele matou o cara, resolveu morar no Chile!
Ele me libera e eu começo a descer para Mendoza.
Dormi próximo a Mendonza, e segui no outro dia para
Buenos Aires, chegando a noite. É dia de panelaço,
grandes protestos na rua e eu me cagando de medo. Será
que vou pegar o “buque bus”, ou os argentinos
vão fazer “paro-geral” ( greve)?
Como o barco é Uruguaio, fica tudo bem e no dia
seguinte estou de volta ao Uruguai, mais relaxado (e a coisa
ficando mais feia na Argentina). O Uruguai, vocês
já sabem, é paraíso de carro antigo.
E toca viagem! Quando estou me aproximando do Chui-RS, começa
a arriar a embreagem. Será o cabo? E agora? Paro
para ver. A embreagem é hidráulica. E tome
óleo de freio, até encontrar uma oficina no
lado uruguaio do Chui — sim porque em matéria
de quebra galho, os mecânicos uruguaios são
inimitáveis. O cara olha e diz: — É
o mangote furado! Penso logo: — Como diz o Lula, “você
esta FÚ”. O cara nem se abala, removendo o
mangote que esta preso ao tubo de alimentação
que vai ao cilindro mestre, saca o conjunto e diz: —
Amanhã está pronto. Tenho um compadre (lá
todos são!) que vai substituir o mangote.
Ai eu pergunto: — Mas o que aconteceu?
 |
| A estradas nos Andes: chega
a dar vertigem! |
E ele me mostra: — Foi o burro do mecânico
brasileiro que ao passar a tubulação do gás,
deixou roçando no mangote. Isso jamais vai acontecer
aqui! É verdade, penso. Lá tem carro 1929
rodando novinho.
Durmo em um hotelzinho e na manhã seguinte vou para
alfândega brasileira. Procura daqui, dali e nada.
Finalmente numa rua perdida, lá esta o posto. Paro
para ser fiscalizado e os caras perguntam : — O que
você trouxe?
— Eu? nada!
— Entao some!
Sumi...
Volto para casa sem mais nenhum problema e chego no dia
2 de janeiro no sítio em Miguel Pereira-RJ, para
espanto de todos. — Ué cade o carro?
— Bom, está vindo aí... logo, logo.
Que nada!
Passam dois meses e recebo um fax estranho: “Senhor
Helio, o carro já está em Santa Cruz de La
Sierra e eu preciso dos restantes 600 dólares para
mandar para Corumbá”. Ligo para Raul Choque,
“el tranportista”: — Mas para que você
precisa do dinheiro? Nos fizemos um contrato por escrito
do carro ser entregue em Corumbá!
— É, mas eu preciso pagar o trem, porque não
tem estrada!
—Ué, porque você não falou no
Chile? — Aí começo a desconfiar: mando
o dinheiro e ele não manda porcaria nenhuma... Será
que o carro esta mesmo lá?
Começo a mexer os pauzinhos, ligando para o consulado
do Brasil em Santa Cruz. Que atendimento! O cara se desdobrou
e descobriu que o carro estava lá, porém sem
nenhum documento. Ligo pro Roberts: — Me manda tudo
de novo via DHL!
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| O reencontro em Corumbá |
O funcionário me põe em contato com uma despachante
que é esposa de um médico de Brasília
— aí dá para confiar — mando a
grana para ela e mandam o carro. Chegando em Corumbá,
outra vez perdem os documentos e o carro é apreendido.
Como sou prevenido tenho cópia de tudo e peço
ao despachante para esperar copiar eu reconhecer as firmas.
A cagada foi do fdp do despachante, que por conta própria
resolve falsificar uma nota de transporte, à minha
revelia. Aí a fiscalização resolve
confiscar o veiculo e destitui o despachante aduaneiro.
Minha santa mulher avisa: —Meu filho, pega um avião,
vai a Corumbá falar com o pessoal da Receita, assim
talvez você resolva!
Sigo os conselhos da santa. Chegando lá, procuro
a Receita, mostro toda a documentação de importação,
a documentação original do carro já
em meu nome, o contrato do chileno não cumprido,
a fatura de envio de Santa Cruz de Lá Sierra para
o Brasil e enfim, que não era eu o contrabandista.
Eles se apiedam da alma perdida e mandam reativar a licença
(que já estava cancelada), e me indicam um despachante
sério. Resolvemos tudo, e vamos pagar o II, IPI,
ICMS, PIS, COFINS e R$280,00 DE TAXA AO IBAMA! (por conta
dos pneus - que eram brasileiros e da bateria, que não
existia). Melhor não discutir!
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| O 1000sp atualmente
e Lima(d) que ensinou tudo sobre DKWs ao Hélio |
Pego plataforma e vou buscar o carro no depósito,
quase 6 meses depois. Imaginem o estado do coitadinho...
Levo para um concessionário Fiat que meu amigo Jason
Voguel, conseguiu sensibilizar, para que abrigassem e que
embarcassem a Belo Horizonte e depois ao Rio, para finalmente
chegar, para que a reforma pudesse ser iniciada.
Essa foi a parte mole da história! Agora, que a
aventura foi fantástica, nem se fala, e que vai ser
uma história inesquecível, lá isso
vai!
Fica de novo a mensagem: não desistam do sonho,
tornem ele realidade, mas sempre com a devida cautela.
Obrigado ao AMIGO Fernando Barenco, pelo incentivo e a
pressão para que eu tornasse público esta
grade viagem e compartilhasse com todos.
Um abraço a todos!

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*Hélio Marques é médico,
morador de Niterói-RJ. Apaixonado por DKWs,
é um dos grandes preservacionistas da marca
no Brasil. É um dos organizadores do Blue Cloud,
o encontro anual dos DKWs e também um dos responsáveis
pelo site www.dkw.com.br
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