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O resgate do 1000sp,
um carro do Peru!

*Hélio Marques

Esta é a historia de uma grande aventura, que consistiu em ir a um pais distante, movido pela paixão automobilística. Servirá para transmitir esta experiência aos leitores, mostrando que paixão e determinação concretizam nossos sonhos e temperam a vida. Serve também para prestar a justa homenagem a todos que de algum modo participaram da aventura emprestando seu entusiasmo ou trabalho. Desde já muito obrigado!

Em algum tempo no passado, lá estava eu visitando o Museu da Audi na Alemanha quando deparei com um Auto Union 1000sp conversível branco com o estofamento vermelho. Gamei! Mas tinha feito um voto de fé, de refazer a memória do DKW-VEMAG aqui no Rio de Janeiro, e só desejar aquele alienígena bonito já era pecado. Já me enchia de culpa, pois tinha que permanecer fiel à marca VEMAG. Mas como era sonho, devaneio, não havia no Brasil nenhum a venda, logo seria esquecido e pronto.

Acontece que o destino já tinha começado a conspirar e eu não sabia. Aquela viagem a Alemanha organizada pelo Eduardo seria aproveitada por ele para trazer o vidro dianteiro do 1000sp dele, bem como as borrachas. Este fato já curioso no início, que agora recordando sua nuanças, vejo que contra o destino perdemos todas! No dia marcado, chega o alemão com um vidro na mão, embalado apenas em plástico bolha e entrega para o Eduardo “em mãos”. Perguntei a herr Martin Hess como iria levar o vidro de 1,35x35 no avião, o que ele logo respondeu com aquele inglês arrevesado: —muita fázil; enfia no detraz da banca.
Ponderei com o ilustre representante da Sturmgewer que com um vidro de carro na mão ninguém sequer entrava no avião (era inclusive muito antes de 11 de setembro de 2001), e que ele tinha por obrigação moral, já que tinha vendido o vidro, de nos ajudar a comprar o material para construir um caixote para o vidro ser embarcado para o Brasil como carga! A contragosto ajudou (o que acho que foi decisivo para consolidar nossa amizade Teuto-Niteroiense) levando- nos a uma loja de materiais de construção para comprar a madeira compensada e isopor. Voltamos para o hotel e 4 horas depois tínhamos uma réplica de um caixão de defunto tipo faroeste que serviu a três propósitos: iniciou-me na arte da restauração de um1000sp, levou o vidro do Eduardo são e salvo e enterrou de vez a relação de amizade ou seja lá o que seria com o Hess (acho que ele é sobrinho do outro Martin, o Borman dos campos de concentração).

Passado algum tempo, lá ia eu tocando a minha vida tranqüilo, entre um Belcar e um Candango às vezes uma Vemaguet quando, de propósito, sem nenhuma compaixão, movido pelos mais perversos sentimentos de amizade, o Carlos Zavataro me manda uma copia de um e-mail com os seguintes dizeres: “Olha Hélio, o peruano parece que desistiu de reformar o 1000sp. Você não quer ficar com o carro?” E anexou 2 fotos. Foi demais! Após muita (dois minutos de) reflexão, lá estava eu, escrevendo para o grande amigo Fernado Murga que, sem ter sido ainda o proprietário do DKW 1000sp já tinha desistido dele (e ele morava a 400 quilômetros do carro). Eu que estava a apenas 14.000 quilômetros, estava todo entusiasmado! Como dizia meu falecido sogro: —É..., tem gente que já nasce bobo assim mesmo“.

Comecei logo enchendo o saco do amigo peruano (É o que se diz por aí: vamos encher o saco dos amigos, porque os inimigos não deixam!) pedindo para ele comprar o carro em seu nome, para que me pudesse fazer um proposta por escrito, para eu começar a papelada da importação legal conforme manda a lei brasileira (e como manda!). Com a proposta na mão e xerox de anúncios que mostravam que era possível comprar na Alemanha um 1000sp por 500 dólares no estado do meu (imaginem o estado!) . Conseguimos do então presidente da FIVA no Brasil, o Sr. José Aurélio (um baluarte no antigomobilismo no Brasil) a declaração que o automóvel era de importância histórica para o Brasil e partimos para o pedido da guia de importação.

Dinheiro enviado, guia de importação legal e concedida na mão, agora era só programar a viagem de ida e volta - moleza! O plano era o seguinte: como os impostos no Brasil são em cascata (e que cachoeira!), se eu viesse rebocando o carro, não pagaria nada de imposto sobre o transporte e ainda teria (que depois descobri que só serve para coisa trazida no aeroporto!) a vantagem de abonar u$500,00 por pessoa em bens adquiridos, do imposto final - ou seja, não pagaria nada! (a nossa capacidade de inventar desculpas para si mesmo para consolidar uma maluquice é enorme). Grande negócio, então vamos fazer logo! Mas como sair daqui do Brasil e ir a Arequipa no Peru, apenas 14.600 quilômetros ida e volta, passando por 4 países? Tem que ter, para começar, companhia, porque sozinho é um saco. Propus a um amigo que tinha uma Ford Ranger diesel a empreitada, porém quando soubemos que para o lado de lá a pick-up Ranger era mais roubável do que no Brasil e que o seguro não cobriria, desistimos. Aí com o negócio do GNV, mais barato e, tendo gás no Brasil e na Argentina, se eu fosse com o meu Omega 4.1, só gastaria gasolina no Chile e Peru que era mais barata! Mais um ponto a favor.

Para rebocar o carro comprei um toolbar tipo de jipe e mandei fazer, com base no do Eduardo, um adaptador para prender no chassi do 1000sp. Conversando com ele, me disse que conhecia bem pelo menos o caminho até o Chile (sul, Uruguai, Argentina e Chile). Propus boca livre total, com todas as despesas por minha conta, e ele topou. Calculamos que levaríamos 15 dias no total e me preparei de corpo e alma para a aventura e o resgate. Bom, a aventura foi completa, já o resgate... Papelada completa carro revisado 4 estepes de DKW + 2 de Omega, duas bombonas de 25 litros vazias, ferramentas, 2 macacos, o cambão, documentos de importação, licença, passaporte, vacinação e o cacete a quatro!

Chegando a Mendoza

Numa bela manhã de dezembro parti para São Paulo, para pegar o Eduardo em casa. Como só cheguei a tarde, partimos no dia seguinte para o sul com a primeira parada na cidade de Ana Ré, depois de Curitiba-PR. Pernoitamos e no dia seguinte seguimos para o Chui e depois Uruguai, onde ficaríamos na casa do amigo Carlos Gardiol. Também pernoitamos na casa do ilustre “dkvezeiro” mentor do “Circulo Uruguayo Del Auto Union”. No dia seguinte pegamos um enorme aerobarco que levou-nos (carro e tudo em 3 horas) para Buenos Aires. La chegando, conheci o Gustavo Bejega, aficionado e mola mestra do DKW na Argentina, que logo foi resolvendo um pequenino problema. É que o bico de abastecimento do gás na Argentina é mais largo, e ademais — ¿hay un permiso¿ — que foi logo custando 50 dólares para certificar os cilindros de gás do Omega (made in Argentina!). Partimos logo que as adaptações terminaram, em direção a Mendoza aonde pernoitaríamos. O combinado seria de ir o mais rápido possível, já que na volta estaríamos limitados pelo reboque e aí então se faria turismo, o que pudesse.

O deserto de Atacama

Atravessamos a cordilheira entre Argentina e Chile e rumamos para o deserto de Atacama em direção a Antofogasta. Gente, o deserto é. . . assim. . . deserto! Não tem nada, nenhuma planta, capim, ser vivo. Uma paisagem lunar! No inicio tudo é festa, mas 400 quilômetros de nada com a perspectiva de mais 800 quilômetros iguais enche o saco de qualquer naturalista por mais aficionado que seja. De vez em quando um povoado de 4 casas (do que eles vivem não sei!). Não paramos em lugar nenhum, só em dois postos de gasolina, pois não há nada para se ver. Há uma tradição nesta estrada, a Carretera Panamericana, que é colocar cruzes ou altares em cada local que ocorreu acidente com morte. E haja cruz e altar, um a quase cada quilômetro, já que a estrada existe desde a década de 60 e como é só reta, a turma abusa. Eu mesmo quis ver como o Omega ia, e fazendo um “peguinha” com um Daewoo Espero, deixei ele para trás a 200 por hora (por pouco tempo). Mas o efeito psicológico dos enfeites fúnebres é deprimente. Outra coisa que eu descobri lá, foi um produto que se pode chamar de GASOLINA: é pura, sem álcool, 98 octanas. O Omega fez 12 km/litro a 120 km/h (com ar ligado). Neste ponto foi uma enorme vantagem, pois calculava eu fazer no máximo 8km/l.

 

A bela cidade de Arica, no Chile

Chegamos a Antofogasta no cair da noite. É uma cidade a beira mar muito bonita. Tinha combinado com o Eduardo ir o mais direto possível, deixando para fazer turismo na volta, já que rebocando, não dá pra correr mesmo. Fazíamos 800 quilômetros por dia desde o Uruguai e ele começou a dar sinais de cansaço e da idade avançada. Talvez devido a isto, Eduardo começou a ficar cansado do ritmo e me acusou de “aprendiz de Paris-Dakar”. Queria ficar lá por mais uns dias para descansar (a cidade é realmente bonita). Ponderei que iria quebrar o prazo e a gente pararia na volta sem problemas. Se queixava que não tinha mais posição para sentar (gente, não interprete mal a situação, o homem é macho, paulistano quatrocentão, que em função do desgaste natural da idade, já falta aquela gordura natural que nos protege o estofamento traseiro). Imediatamente cedi minha almofada de dirigir e toquei os mais de 800 quilômetros que faltavam para Arica, no Chile. Chegando lá o meu entusiasmo era inversamente proporcional ao dele: estava cansado e me disse que precisava de dois dias para repousar; me propôs que eu seguisse para Arequipa, no Peru, 400 quilômetros adiante, que ele me esperaria na volta quando eu rebocasse o carro para Arica, no Chile.

A longa subida até Arequipa, no Peru

No dia seguinte toquei para lá. Há 50 quilômetros fica a fronteira entre Chile e Peru. Achei que ia ser rápido, porém me levou cerca de 2 horas. Enquanto Arica é a nível do mar, Arequipa está a 2.500 metros de altura. Foi uma subida e tanto! O que eu não sabia é que o perigo mora na decida. Levei cerca de 6 horas e à tardinha estava chegando na cidade. Segui o roteiro que me fez o Senhor Roberto e consegui chegar na sua revendedora Nissan sem problemas. Não imaginava o quanto de hospitalidade me esperava. Fui recebido como amigo de longa data, por este peruano filho de ingleses e casado com uma, que coleciona (claro!) carros antigos, a maioria Studebakers (deve ter uns 10)! Fomos logo ver o carro, e não preciso dizer da minha emoção ao vê-lo. Estava com tudo no lugar, mas o que eu não sabia era do “probleminha” na roda. Me encaminhou a um hotelzinho de amigos, muito simpático e confortável, uma casa tipo alpina que foi transformada em hotel. Arequipa, para os que não sabiam (me incluam nesta) é patrimônio da humanidade pela ONU, em função da coletânea arquitetônica espanhola dos séculos 17 e 18. Com se situa em terreno sujeito a abalos, tem sido vítima de alguns que deixam marcas nas construções antigas. Porém, a tenacidade dos moradores faz com que os danos sejam minimizados pelos reparos. Perece realmente uma cidade espanhola antiga no seu centro histórico. Eu recomendo a quem vá ao Peru ou norte do Chile, visitar.

No dia seguinte, tour pela cidade (era domingo) e jantar à noite com os Roberts.

Na segunda feira, fiz o reconhecimento do veículo. Não tinha condições de rodar nem rebocado. O eixo dianteiro esquerdo estava comido pela falta da chaveta e a cuba da roda também comida e com muita folga. Desmonta tudo, manda para o torneiro encher o eixo e o cubo da roda — só retificando o eixo — mas não dava porque a retifica tinha fechado para Natal. Monta assim mesmo, mete uns calços aperta a porca e solda tudo, porca e eixo – Milagre! Não ficou empenado e aparentemente firme! Começo a rebocar o carro e as rodas dianteiras estão tão desalinhadas, que cantam guinchando, parecendo uma curva em alta velocidade. Volta para oficina, re-alinha as rodas com barbante deixando fechado 1mm . Liga para o Eduardo (lá vem chumbo grosso) que resolveu passar o Natal em casa e ia pegar um avião de Arica, para o Brasil. Não ia mais voltar comigo, teria que me virar sozinho. Bem, como ele mesmo disse: "Te trouxe até aqui. É só pegar o caminho de volta". Foi a melhor coisa que podia acontecer, vocês vão ver.

No dia seguinte pé na estrada, caro abastecido, o 1000sp seguindo rebocado igual a cachorro manso, sem problemas. Era só descer os 2.500 metros, por 400 quilômetros e estaria em Arica, no Chile. Só que eu nunca tinha rebocado nenhum carro de cambão e, amigos, não é ato simples assim. No inicio, na reta 80, 90 quilômetros, para não sacrificar o bichinho. Aí começa a descida, mais ou menos como a serra de Teresópolis-RJ, só que pista única meio estreita, mão dupla. Alguns caminhões trucados e com reboque, e eu ultrapassando todos a 60, 70 despreocupadamente. Logo que termino de passar 2 caminhões, uns 2 km adiante vem uma curva que parece mais fechada, tiro o pé, e nada do carro desacelerar, então começo a pisar no freio. Foi o segundo milagre: o DKW empurrou a traseira do Omega, perdi a aderência e rodei 180 graus ficando na contramão, na pista da subida. Um segundo de espanto! O pensamento voa! Os caminhões vêem ai, cacete! Religa o Omega rápido! Acelera e sai da contramão, seu carioca babaca, que os peruanos vem ai com tudo. Passei voando para a outro pista, agora subindo vagarosamente, coração acelerado, para uns 200 metros adiante cruzar como os dois caminhões enormes descendo um atrás do outro, 30 metros de distancia. Os motoristas olham pela janela, como se perguntando: — Ué, esse cara tava descendo, na frente da gente e agora resolveu voltar? Deve ser maluco!
Mais adiante numa clareira grande e larga encostei os carros, saltei para ver os estragos: o pára-lama do 1000sp tinha ficado espremido no pará-choque do Omega, o cambão entortou uns 2 mm, ademais nada, ufa! Agora com muuuito cuidado fiz uma volta completa e voltei para a pista de decida, e 30, 40 km/h, igualzinho aos caminhões. Só fui reencontrar eles uma hora depois em uma reta. Eles a 50 e eu a 70, para depois reduzir de novo. Devem ter pensado: — Esse cara é doido. Em parte com razão.

O carros devidamente guardados

A noitinha chego na fronteira Peru-Chile. Na alfândega peruana, um local horroroso, sujo e feio, examinam superficialmente os documentos, carimbam meu passaporte e me despacham. Na do Chile, um prédio de dois andares, sou recebido logo por dois fiscais que me crivam de perguntas. Explico que fui buscar o carro antigo, que tenho a guia de importação etc e tal. Não acreditam e começam a procurar nos carros o verdadeiro motivo (só podia ser droga!) da viagem. Soltam os forros do Omega e com uma lanterninha espiam todo o carro — claro nada encontram. Agora o DKW. A esta altura eu já estava contando toda a história do 1000sp e porque um brasileiro ia sair de Niterói e entrar no Peru por causa de um carro. Finalmente resolvem espiar o tanque de gasolina. Já iam abrir o tanque do 1000sp com uma talhadeira. Peço uma chave 10mm e solto a bóia. Espiam com a tal lanterninha. E não é que tinha quase 1/4 de gasolina! O tanque não estava furado! — Que bom!, comentei. Ai eles me dispensaram. Já eram umas 21 horas e a inda faltavam uns 50 quilômetros para Arica. Tinha notado na ida, uma pensãozinha na saída, com uma garagem do lado. É pra lá que eu vou, o Albergue da Nona. Paro na porta e pergunto se tem quarto e vaga. Me atende o dono. Muito simpático, diz que sim e parte para abrir a garagem. Abro bem na rua para entrar direto. O Omega entra a metade e estanca. A roda do 1000sp pegou na guia. Acelero um pouco mais e nada, parece ancorado! Salto para ver e nem acredito o que vejo: caiu a porca da roda do DKW, aquela que tinha sido consertada e soldada e o carro esta arriado por sobre ela! Digo um palavrão e ando a rua toda atrás da porca. Nada! Peço ajuda ao hoteleiro para me arranjar ao menos um prego para eu prender o cubo no lugar (onde deveria estar o contrapino que também sumiu?) e ele aparece com um. Levantamos o carro com o jacarezinho. Roda e cubo no lugar, os dois carros pra dentro e o cara gentilmente, vendo meu estado de ânimo, diz: — Deixa tudo como esta. Entra, toma um banho, dorme e amanhã a gente procura um mecânico.
Obedeci sem pestanejar. Dormi feito anjo e acordei com uma grande claridade sobre a cama, de uma clarabóia, aberta e sem tampa. Me vesti e fui tomar café. Preocupado com a tal da clarabóia, falei com o Sr Hector que alguém deixou a tal da clarabóia aberta e que podia chover na cama. Ele riu e disse: — A ultima vez que choveu aqui fazem 18 anos. Nenhum dos meu dois filhos já viu a chuva.
— Que terra estranha... E de onde vocês tiram água para beber? — Bom tem poços artesianos, água canalizada das montanhas e dessalinizada do mar, além de água mineral. Chuva não!

Fui então ver o carro. Separamos os dois, colocamos em duas vagas e com o macaco fui examinar o estrago. Tínhamos voltado ao estado inicial: eixo roído, cubo roído, chaveta e porca sumidas. Ela disse: — Não tem problema! Vamos procurar um mecânico que tudo se resolve.
Aí gente, eu comecei a pensar: — Cacete, você é um cara de sorte: rodou na estrada 180 graus e não foi atropelado por dois caminhões. Desceu 2.500 metros, andou 400 quilômetros e a droga da roda solta na porta da garagem do hotel. Tem alguém te dizendo: “Helio, você agora vai atravessar o deserto do Atacama, onde não há nada por 1.500 quilômetros, depois mais 3.500 quilômetros até Niterói. Não abusa da sorte!”. Resolvi aceitar o conselho da “voz interior” que era puro bom senso.

O Natal com a família Galiano

Em vez de mecânico perguntei se ele conhecia alguma transportadora, que me levasse o carro para o Brasil. Ele disse que não, mas era só procurar na lista telefônica, que com certeza tinha, porque o comércio Chile-Bolívia era intenso, com muitos caminhões indo e vindo. Assim fiz: contratei uma empresa, que por escrito, me entregaria o carro em Corumbá, Mato Grosso. Lá mesmo arranjei umas arruelas e uma porca grande de calço para a roda ficar menos bamba do que estava. Só que surgiu outro problema: era Natal e tudo estava fechado. Tive que passar o Natal com a família Galiano, que em matéria de hospedagem superou todas as minhas expectativas.

Nos dias seguintes, toca despachante para lá, paga taxa para cá, leva o carro para alfândega, desembaraça o Omega para sair do Chile, conversa com o transportador. Tudo acertado e vamos voltar. Como dizia o Eduardo: "É só pegar o caminho de volta!"

Cheguei de volta em Antofogassa, porém as notícias da crise argentina e o dólar me impediram de parar. Dormi então no Chile, a beira da subida dos Andes, mas não sem antes ver algumas jóias da restauração ou reprodução artística de Mercedes Benz.

A fantástica paisagem dos Andes

Subi os Andes Chilenos e tome alfândega de fronteira outra vez. Nova encheção de Saco: — Mas o senhor tinha um companheiro de viagem na ida, o que foi feito dele?
— Bom, ele resolveu voltar de avião para o Natal, do Chile mesmo (quem pergunta são os argentinos.).
O cara olha desconfiado, pensa ele: — Será que ele matou o cara, resolveu morar no Chile!
Ele me libera e eu começo a descer para Mendoza. Dormi próximo a Mendonza, e segui no outro dia para Buenos Aires, chegando a noite. É dia de panelaço, grandes protestos na rua e eu me cagando de medo. Será que vou pegar o “buque bus”, ou os argentinos vão fazer “paro-geral” ( greve)?

Como o barco é Uruguaio, fica tudo bem e no dia seguinte estou de volta ao Uruguai, mais relaxado (e a coisa ficando mais feia na Argentina). O Uruguai, vocês já sabem, é paraíso de carro antigo. E toca viagem! Quando estou me aproximando do Chui-RS, começa a arriar a embreagem. Será o cabo? E agora? Paro para ver. A embreagem é hidráulica. E tome óleo de freio, até encontrar uma oficina no lado uruguaio do Chui — sim porque em matéria de quebra galho, os mecânicos uruguaios são inimitáveis. O cara olha e diz: — É o mangote furado! Penso logo: — Como diz o Lula, “você esta FÚ”. O cara nem se abala, removendo o mangote que esta preso ao tubo de alimentação que vai ao cilindro mestre, saca o conjunto e diz: — Amanhã está pronto. Tenho um compadre (lá todos são!) que vai substituir o mangote.
Ai eu pergunto: — Mas o que aconteceu?

A estradas nos Andes: chega a dar vertigem!

E ele me mostra: — Foi o burro do mecânico brasileiro que ao passar a tubulação do gás, deixou roçando no mangote. Isso jamais vai acontecer aqui! É verdade, penso. Lá tem carro 1929 rodando novinho.

Durmo em um hotelzinho e na manhã seguinte vou para alfândega brasileira. Procura daqui, dali e nada. Finalmente numa rua perdida, lá esta o posto. Paro para ser fiscalizado e os caras perguntam : — O que você trouxe?
— Eu? nada!
— Entao some!
Sumi...

Volto para casa sem mais nenhum problema e chego no dia 2 de janeiro no sítio em Miguel Pereira-RJ, para espanto de todos. — Ué cade o carro?
— Bom, está vindo aí... logo, logo.
Que nada!

Passam dois meses e recebo um fax estranho: “Senhor Helio, o carro já está em Santa Cruz de La Sierra e eu preciso dos restantes 600 dólares para mandar para Corumbá”. Ligo para Raul Choque, “el tranportista”: — Mas para que você precisa do dinheiro? Nos fizemos um contrato por escrito do carro ser entregue em Corumbá!
— É, mas eu preciso pagar o trem, porque não tem estrada!
—Ué, porque você não falou no Chile? — Aí começo a desconfiar: mando o dinheiro e ele não manda porcaria nenhuma... Será que o carro esta mesmo lá?
Começo a mexer os pauzinhos, ligando para o consulado do Brasil em Santa Cruz. Que atendimento! O cara se desdobrou e descobriu que o carro estava lá, porém sem nenhum documento. Ligo pro Roberts: — Me manda tudo de novo via DHL!

O reencontro em Corumbá

O funcionário me põe em contato com uma despachante que é esposa de um médico de Brasília — aí dá para confiar — mando a grana para ela e mandam o carro. Chegando em Corumbá, outra vez perdem os documentos e o carro é apreendido. Como sou prevenido tenho cópia de tudo e peço ao despachante para esperar copiar eu reconhecer as firmas. A cagada foi do fdp do despachante, que por conta própria resolve falsificar uma nota de transporte, à minha revelia. Aí a fiscalização resolve confiscar o veiculo e destitui o despachante aduaneiro. Minha santa mulher avisa: —Meu filho, pega um avião, vai a Corumbá falar com o pessoal da Receita, assim talvez você resolva!
Sigo os conselhos da santa. Chegando lá, procuro a Receita, mostro toda a documentação de importação, a documentação original do carro já em meu nome, o contrato do chileno não cumprido, a fatura de envio de Santa Cruz de Lá Sierra para o Brasil e enfim, que não era eu o contrabandista. Eles se apiedam da alma perdida e mandam reativar a licença (que já estava cancelada), e me indicam um despachante sério. Resolvemos tudo, e vamos pagar o II, IPI, ICMS, PIS, COFINS e R$280,00 DE TAXA AO IBAMA! (por conta dos pneus - que eram brasileiros e da bateria, que não existia). Melhor não discutir!

O 1000sp atualmente e Lima(d) que ensinou tudo sobre DKWs ao Hélio

Pego plataforma e vou buscar o carro no depósito, quase 6 meses depois. Imaginem o estado do coitadinho... Levo para um concessionário Fiat que meu amigo Jason Voguel, conseguiu sensibilizar, para que abrigassem e que embarcassem a Belo Horizonte e depois ao Rio, para finalmente chegar, para que a reforma pudesse ser iniciada.

Essa foi a parte mole da história! Agora, que a aventura foi fantástica, nem se fala, e que vai ser uma história inesquecível, lá isso vai!

Fica de novo a mensagem: não desistam do sonho, tornem ele realidade, mas sempre com a devida cautela.

Obrigado ao AMIGO Fernando Barenco, pelo incentivo e a pressão para que eu tornasse público esta grade viagem e compartilhasse com todos.

Um abraço a todos!

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*Hélio Marques é médico, morador de Niterói-RJ. Apaixonado por DKWs, é um dos grandes preservacionistas da marca no Brasil. É um dos organizadores do Blue Cloud, o encontro anual dos DKWs e também um dos responsáveis pelo site www.dkw.com.br

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